A Caveira da Mártir
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A CAVEIRA DA MÁRTIR
CAMILO CASTELO BRANCO
Esta obra respeita as regras
do Novo Acordo Ortográfico
PREFÁCIO
Entre os trinta e seis criados que, no 10 de Junho de 1834, embarcaram em Sines com o proscrito infante D. Miguel de Bragança(*), distinguia-se por nascimento e educação literária o jovem da real câmara, Fernando Luís, sobrinho do tristemente famigerado desembargador António José Guião.
O dedicado rapaz acompanhou o seu rei até à prova da indigência, naqueles dias angustiosos em que o irmão de D. Pedro IV não tinha em Roma, 10 réis para comprar leite.
[(*) D. Miguel de Bragança, ou D. Miguel I, de cognome “O Usurpador”, foi rei de Portugal entre 1828 e 1843, após ter roubado o trono à sua sobrinha, D. Maria II. Tal ação resultou numa guerra civil que duraria seis anos (o período do seu reinado). A 1 de junho de 1834, depois de uma pesada derrota militar, D. Miguel foi obrigado a exilar-se do país, indo primeiro para Itália, depois para Inglaterra e, finalmente, para a Alemanha. Nunca mais voltou a Portugal. A validade do seu reinado é controversa, não só por se tratar de uma usurpação, como por D. Maria II, tecnicamente, nunca ter deixado de ser Rainha, apesar do seu tio ter tomado para si próprio o comando do país. Por essa razão algumas listas monárquicas não o comtemplam como Rei, mas apenas como um príncipe que tentou roubar o trono. Ironicamente, a linha sucessória de D. Maria acabaria por se extinguir, sendo, atualmente o bisneto de D. Miguel I – D. Duarte, Duque de Bragança – o descendente mais direto da antiga linha monárquica portuguesa.]
Quando o infante, apertado pela pobreza, despediu o maior número de criados e dependentes, Fernando Luís de Guião dirigiu-se à Alemanha, ao passo que os seus compatriotas voltaram a Portugal.
O sobrinho do desembargador Guião tivera na Pátria o melhor tirocínio literário daquele tempo, cursando humanidades com os padres do Oratório, e completando os estudos preparatórios no Colégio dos Nobres.
Em Roma estudara as línguas italiana e francesa. O tão faccioso quanto inteligente arcebispo de Évora, D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, também emigrado, fizera-o seu amanuense. Da convivência com este douto português, ganhou Fernando farta ciência, e mais que tudo o desprendimento e afoita confiança com que o homem, desvalido dos bens de fortuna, se aventura a julgar que toda a terra é pátria, porque o saber é universal.
Animado, pois, pelos conselhos do sábio prosélito de D. Miguel, foi Fernando Luís procurar a sua vida na Alemanha, como professor das línguas francesa, espanhola, italiana e portuguesa. Dizia-lhe o arcebispo que o estudo das línguas era prezado naquelas pensadoras nações em que as ciências se alimentavam de fundas raízes, e os sábios timbravam em ser cosmopolitas, colhendo a história de todos os países no seu próprio idioma.
Em 1837 anunciara-se Fernando Luís Guião como professor de línguas em Berlim. Um dos seus primeiros discípulos, no idioma português, sucedeu ser um dos notáveis sábios daquela cidade. Chamava-se Leonardo Leopoldo Frisch, ministro protestante, e contava, ao tempo, idade superior aos cinquenta anos.
Maravilhou-se o mestre de aluno tão respeitável por idade quanto pela hierarquia no sacerdócio, e perguntou-lhe como tão tarde se dedicava ao estudo de um idioma difícil.
Respondeu o clérigo que nunca tivera ocasião de instruir-se com professor idóneo, nem lhe constava que algum português professasse na Alemanha a sua língua. Acrescentou que desde tenros anos anelara ardentemente estudá-la, não tanto pelo prazer de decifrar a famosa epopeia de Camões, que os seus conterrâneos, desde Meinhard até Wilhelm von Thery, pareciam deslustrar, como principalmente para decifrar um segredo de família.
Apesar da indefessa aplicação do discípulo e do engenhoso método do professor, as longas e imprevistas dificuldades impacientavam Leonardo Frisch.
Poderia ele dispensar-se de conhecer o idioma e esclarecer o chamado «segredo de família», confiando ao português a tradução do volumoso manuscrito que dizia ter, mas não mostrava, num cofre de pau santo; porém, o prussiano coibia-se de expor os papéis, receando que o mistério envolvesse desonra para os seus antepassados. Fernando conheceu o melindre, e sofreou a natural mas descortês curiosidade.
Prosseguiu o clérigo desveladamente no estudo; e, no termo de dois anos, conseguira traduzir, com exultações imagináveis, o essencial do manuscrito. E crescia o seu contentamento à medida que a probidade do seu avô saia imaculada por entre as confusas peças de um processo criminal.
Convencido, portanto, da inculpabilidade do seu antepassado, chamou o mestre à confidência do segredo de família, dando-lhe o manuscrito para que ele o vertesse, tão literalmente quanto pudesse, para francês.
Antes, porém, da entrega, Leonardo Frisch abriu um cofre de tartaruga com ornatos de metal, tirou uma caveira, e disse:
— Aqui tem o segredo, que, neste ano corrente faz justamente um século que entrou na minha família. Foi meu avô, Josse Leopoldo Frisch que fechou esta caveira neste cofre há cem anos, contados desde 1739. Aqui tem a data, escrita neste osso que chamam temporal.
— E foi escrita em Lisboa?! — atalhou o português, admirado.
— Em Lisboa, certamente.
— Noto aqui outra inscrição no temporal esquerdo... — observou Fernando, querendo decifrá-la.
— Sim, senhor: esta inscrição alemã diz:
“A Caveira da Mártir”
O clérigo continuou:
— Dos papéis que o meu querido mestre vai traduzir não se inferem algumas miudezas que vou referir-lhe como proémio à tristíssima tragédia. O meu bisavô, João Leonardo Frisch, ministro da Reforma luterana, foi um dos homens instruídos do seu século, na Alemanha. Nasceu em 1666, e aqui morreu, em Berlim, em 1743. Até aos quarenta e quatro anos viajou por França, Suíça, Turquia, Itália, Holanda, Espanha e Portugal. Casou aos cinquenta e três, e teve um filho chamado Josse Frisch, que no vigor da juventude foi a Portugal, movido por interesses das ciências naturais que cultivava distintamente. Cheio de honestos brios me honro em lhe apresentar neste raio das minhas estantes, os livros que estes meus ascendentes publicaram. O meu avô, Josse Frisch, que provavelmente lavou com as suas lágrimas esta caveira, consta da tradição que fora novo, alegre e feliz para Lisboa, em 1730, e voltara à pátria em 1739, encanecido, desfeito e envenenado pela paixão de uma saudade que nunca mais o deixou sorrir à esposa que lhe deram nem ao filho, que era meu pai, e muitas vezes me disse: «Eu nunca vi um lampejo de alegria no rosto do teu avô». A minha avó, esposa deste homem inconsolável, morreu sem saber o que este cofre continha. Imaginava-se que o melancólico sonhador, por demasiada cautela, fechara aqui alguns exemplares raros das suas investigações mineralógicas. Quanto aos papéis, só meu pai lhes deu valor, quando tentou por fim compreendê-los, e acaso encontrou o apelido da nossa família encravado nestas páginas indecifráveis.
Não sei se ele teve modo de penetrar o segredo dos papéis e da caveira; a mim nunca mo revelou, mas é mais de crer que a Berlim não viesse português que o esclarecesse, nem ele solicitasse da ciência alheia um esclarecimento, desairoso talvez, para seu pai.
Fernando Luís traduziu literalmente para francês um longo processo-crime; e, ao mesmo tempo, com permissão do discípulo, extraiu um traslado na sua língua.
O emigrado português, favorecido pelas liberalidades do sacerdote Leonardo Frisch, e pelo estipêndio do incansável professorado, conseguiu doutorar-se em Medicina na Universidade de Berlim. Habilitado a granjear na Pátria o pão independente da renúncia das suas crenças políticas, voltou a Lisboa em 1844. Por espaço de vinte e cinco anos exercitou a ciência com tamanho desinteresse que morreu pobre. Como a sua confiança nos aforismos da arte era duvidosa, barateava os serviços, escrupulizando em encarecer-se além de um simples observador das forças da natureza. E porque não tinha família, não deixou filhos que chorasse, nem que o chorassem. Que suave morte!
A sua livraria foi leiloada a benefício de criados. Fui parte na pequena concorrência de licitantes. Apregoou o leiloeiro um pacotilho de manuscritos, cartonados e intitulados: “A Caveira”.
Um dos licitantes, mais atento ao título, observou aos outros que, provavelmente, aquela papelada era uma descrição osteológica da caveira, visto que o defunto era médico. Esta observação depreciou em tanta maneira o lote que mo adjudicaram por pouco mais do peso.
Este Prefácio é o resumo das vinte laudas em que Fernando Luís Guião relatava por miúdo as tristezas do desterro e as alegrias do trabalho.