A Caveira da Mártir
Capítulo XXXV · O padre Francisco Xavier escreveu ao tutor…
O padre Francisco Xavier escreveu ao tutor de Antónia pedindo-lhe urgentemente a sua presença. Era o tutor magistrado austero e católico intolerante. Chamava-se Joaquim Rodrigues Santa Marta Soares e era desembargador. Tinha cinco filhas em diversos conventos, sacrificando quatro à veleidade de uma que se deixara galantear de certo oficial de marinha holandesa, que não era católico. Com dois traços temos o perfil do tutor de Antónia. Privou-se das cinco filhas, vivia só, tinha as pernas inchadas de gota, ouvia ressonar a escrava preta quando ele gemia com dores, esperava morrer desamparado e talvez sem sacramentos; mas morreria tão bem disposto quanto se pode morrer, imolando-se a si e à sua família, para que uma das suas filhas não casasse com herege. Dizia ele que o seu martírio voluntário havia de ter prémio por todos os séculos dos séculos, o padre começou por expender ao desembargador Santa Marta os amores da sua pupila com um tal Frisch, prussiano, e filho do clérigo calvinista João Frisch.
A palavra «calvinista» desarticulou-lhe a mandíbula inferior Santa Marta abriu a boca, e disse tudo naquele horror silencioso. Prosseguindo, expôs o padre que resolvera compelir a sua sobrinha a casar com o cavaleiro professo da ordem de fosso Senhor Jesus Cristo, o doutor em medicina Isaac Eliot.
— É católico? — perguntou o desembargador.
— Foi huguenote; mas abraçou o catolicismo em Portugal, sem o que não poderia professar na ordem.
— Bem sei; mas cumpre distinguir: há cavaleiros professos judeus, refinados judeus...
O filho de Jorge Mendes Nobre sentiu abalos interiores; e Santa Marta continuou:
— Há cavaleiros professos moiros; há-os luteranos; há-os calvinistas; há-os que não temem Deus nem o diabo; o manto da sagrada ordem dos cavaleiros de Cristo cobre muito maroto, muito impostor, muito malvado que os cárceres do Santo Oficio reclamam. Saibamos se a conversão desse médico foi sincera. Médico em Portugal raro há um que não seja herege.
— Afianço-lhe, Sr. doutor desembargador, que Isaac Eliot....
— Isaac! esse nome é moirisco! — atalhou Santa Marta Soares — Porque não se crisma o sujeito? Esse nome fede a Mafoma... Isaac! É suspeito!... Frequenta os sacramentos?
— Pontualmente.
— Bem. Fio-me no padre Francisco. A minha pupila é filha do meu colega Paulo Xavier, quero-a casada cristãmente; ou se não, tirem-me encargos e escrúpulos de sobre as costas. Desquitei-me de cinco filhas; mal de mim se me sobrecarrego com responsabilidades por filhas alheias. Que mais?
— Além da sua licença como tutor, careço da licença do prelado para que o casamento se possa contrair na igreja de Camarate, sem a prévia leitura de proclamas.
— E os documentos do contraente? idade, batismo, estado, etc.
— Aqui está a certidão do batismo na igreja de S. Domingos, que precedeu a profissão. A certidão de solteiro apresentá-la-ei quando chegar de França. Responsabilizo-me. Há urgência, Sr. desembargador. O calvinista está em Lisboa. Receio que ele me rapte a sobrinha.
— Está em Lisboa?! quê?
— Sim, senhor; está em Lisboa.
— E o Santo Ofício onde é que está? Escreva aí o nome do homem e a morada. O
padre sabe que o calvinista está em Lisboa, e deixa-o andar às soltas?
— Não me importa a religião do homem; o que eu quero é livrar minha sobrinha da contaminação dó herege.
— De acordo; mas, se ao mesmo tempo, puder arrancar a alma desse réprobo às presas de Satanás, purificando-lha no tribunal da fé, o padre faz-lhe um bom serviço, e purga a sociedade de um monstro, se ele morrer incontrito e relapso, etc.
— Sr. desembargador — obviou o filho do hebreu, e o amante de Catarina de Castro — rogo a vossa senhoria que me não aconselhe tal vingança. Estou muito enfermo, muito próximo da sepultura; não quero, à hora da morte, ouvir gemidos. Vossa senhoria sabe que eu sou filho do seu colega Jorge Mendes Nobre, que o Santo Ofício atormentou. Não sei se o meu pai era um extremado católico: sei que era honrado e inofensivo. Deixemos o calvinista. Deus o iluminará. Logo que a minha sobrinha esteja casada, o rapaz decerto vai para a sua pátria, e não nos empestará a nossa com as suas doutrinas. Deixá-lo ir. Conheci-lhe o pai, o sábio João Frisch. Foi minha visita, e era um honrado velho... e era, sobretudo, pai. Ser-me-ia acerba a agonia da morte, se nos delírios da última febre entrevisse o aspeito de João Frisch a acusar-me da morte do seu filho...
Raiaram-se de lágrimas os olhos do doutor Xavier.
O desembargador, quase compungido, atalhou a comoção, dizendo:
— Está bom, está bom... Que o leve o diabo ao herege para onde não faça mal. As licenças mande-as buscar amanhã a minha casa. Vou daqui à Relação eclesiástica, e tudo ficará hoje em ordem.
No decurso dos sucessos referidos, D. Antónia Joaquina estava em Odivelas. Finda a licença dos três dias, soror Paula rogou ao padre nova concessão. O doutor Eliot oferecera-se para medianeiro do pedido, e conseguira nesse acto que Antónia lhe agradecesse a fineza com um sorriso. Facilmente percebeu o espião que a vinda de Frisch era ainda ignorada.
Francisco Xavier consentiu; mas pedia a soror Paula que lhe enviasse sua sobrinha, quando ele a chamasse ao seu leito de moribundo. Exagerava muito de plano a doença em harmonia com a traça combinada; porém, o médico suspeitava que o padre inconscientemente dissesse a verdade, O saco aneurismático entumecia-se, os acessos da tosse acordavam-no em anseios de asfixia, os sintomas ameaçavam-no de morte súbita.
Obtidas as licenças do eclesiástico, mandou o padre buscar instantemente a sobrinha.
D. Catarina, desde que Eliot lhe asseverara a perigosíssima lesão de Francisco Xavier, sentiu-se abrasada em ânsias de lhe assistir no transe final. As feições odiosas do singular coração daquele homem desvaneceram-se, escurentou-as um raio de luz do passado, a saudade do gentil Xavier de dezasseis anos antes. Pedia secretamente a Paula que lhe alcançasse licença para ir despedir-se do grande desgraçado, que, se a não tivesse encontrado, seria àquela hora um homem feliz. A desdenhada amante de D. João V impedia com bons conselhos o desatinado desejo; rogava-lhe que não repusesse na evidência as esquecidas fragilidades da sua juventude. Catarina sucumbia envergonhada e contrita; mas, a espaços, escandeciam-na uns frenesis que faziam recear perturbações profundas no seu juízo. Estes lances passavam às escondidas de Antónia Joaquina; todavia, uns dizeres estranhos da sua querida freira, os resguardos de Paula, e uns misteriosos olhares de Maria da Luz insinuaram-lhe desconfianças, que ela não ousava formular, dos antigos amores de Catarina com o seu tio Francisco Xavier.
Conduzida a Camarate, achou o tio no leito, e só. Nos seis dias de separação, desfigurara-se, mirrara-se, as pálpebras descaídas e transparentes davam-lhe o aspeto cadaveroso. Quando sentiu o rugir dos vestidos da sobrinha, esforçara-se, e sentou-se encostado ao espaldar do catre. Dir-se-ia que daqueles lábios trémulos ia irromper a indignação, o queixume, o vitupério. Não. Chorou copiosamente abraçado na filha. E ela, vertendo lágrimas que ele contemplava, arfando em delícias de se ver chorado, beijava-a, dizia-lhe palavras quebradas por soluços.
— Vou morrer, Antónia! — disse ele, recobrado da comoção — Não te quero deixar remorsos; mas já sabes quando a minha fatal doença começou. Não chores. Escuta-me. Queria acusar-te; não posso, tudo te perdoei; mais ainda te perdoaria, se mais me tivesses ofendido nas tuas cartas ao estrangeiro Frisch... Bem vi que perdeste a cor, filha. Esse pejo é o apelo da tua inexperiência para a minha razão. O que eu te não perdoaria... era... que fugisses da tua casa com um desconhecido... que deixasses teu tio a chorar-te a ti e à tua desonra. Entre ti e esse infame que te convidava a transpor o limiar da tua casa por cima do cadáver do teu tio, interpôs-se a Providência. Não irás, filha, não irás onde vão as mulheres perdidas, aos braços de um amante, pela porta da... prostituição. Foi a Providência. Mentiste-me, quando me dizias que não te correspondias com o sedutor. Mentiste quando há dias disseste a Fr. André Guilherme que tudo estava acabado...
— Não menti a Frei André! — exclamou Antónia.
— Mentiste!
— Juro que não menti! juro por alma do meu pai!
— Juras? por alma de... O teu pai?... Olha o que disseste, Antónia! Olha que eu posso provar-te que juras falso.
— Não pode — insistiu Antónia com veemência. — Eu já não tenho correspondência alguma com Frisch.
— Dá-me aquela papeleira preta!... — exclamou sobre-excitado, apontando para o contador sobre o qual estava a papeleira.
Antónia ergueu-se trémula, ia pegar da papeleira, quando o padre bradou com a voz rouca e desfalecida:
— Não tragas! Tenho compaixão de ti... e de mim... Não posso ler... nem poderia infligir-te a tortura... de te obrigar a ler... o que escreveste de mim.
Antónia fitava-o com os olhos perplexos de terríveis dúvidas.
— Senta-te... Senta-te... — volveu ele — Deixa-me descansar... Não posso falar... Espera...
Passados minutos, o padre, humedecendo os lábios e a língua em goles de água, prosseguiu mais sereno e composto de rosto.
— Não mentiste, Antónia?
— A Fr. André Guilherme, não, meu tio.
— Aceito o teu juramento por alma do teu... tio.
— Do meu pai! — emendou ela — meu tio está vivo, graças a Deus.
— Vem cá! — rouquejou o padre — Chega-te aqui bem perto do meu coração... Assim... Agora, escuta, filha. Essa alma por quem juras era do teu tio Paulo... O teu pai... é outro maior desgraçado que ainda vive... sou eu.
Antónia estremeceu nos braços do pai. Não vociferou o menor som, nem sequer o ah! — interjeição convencional de todas as grandes dores, de todos os júbilos surpreendentes e solenes assombros. Aquele silêncio era um como eclipse da razão, um pasmo de todas as faculdades. A súbita demência deve ser assim uma paralisia moral.
— Ouviste? percebeste, minha filha? — perguntava ele, circunvagando a vista com receio de ser escutado.
E ela, como nos sonhos, ouvia-o sem poder apurar, dilucidar na consciência o valor daquelas palavras.
— Não me respondes? — tornara o padre, sacudindo-a amoravelmente.
— Respondo — balbuciou Antónia. — Eu pensei... que o meu pai... tinha morrido...
Estas palavras, que denotavam um profundo abstraimento, uma reconcentração de memórias e saudades, soaram dolorosamente na alma do pai. Ele esperava uma explosão de lágrimas e carícias, quando a filha, ao sair da estupefação, em vez de o ver a ele, viu a sombra daquele a quem amara como pai. A sua natural resposta à invocação do padre, como não podia ser o arrebatamento do amor filial, era a expressão do assombro. Ela pensava que o seu pai estava morto. Rejubilaria como louca se lhe dissessem: Esse homem, a quem chamavas pai, sem o ser, não naufragou: é vivo.