A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 27 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo XXXII · Dois dias passados, Fr. André recolheu à…

 

Dois dias passados, Fr. André recolheu à nau aprestada para a Barberia. Durante a hospedagem do virtuoso frade, o médico não foi a Camarate, porque, dizia ele depois ao seu fascinado amigo Xavier:

— Rompe-se-me o fígado em borbotões de bílis quando encaro aquele frade! Não está no poder da minha vontade refrear este ódio secreto, ódio de instinto, não sei como lhe chame...

— Pois é injusto... — defendeu o padre — quero dizer... Não acrescentou o que queria dizer. Ocorreu-lhe subitamente que o frade, rogando-lhe que não casasse a sobrinha com o médico, pagava com ódio igual a Eliot. Esta recíproca repugnância entre os dois, que apenas se tinham encontrado raras vezes sem se falarem, dava que cismar ao padre. Sondou o ânimo do seu médico a razão natural de tamanha aversão, mas o francês não a podia dar, senão com estas vagas palavras:

— É o ódio que a natureza não explica entre certos animais.

Discorrendo por diversos assuntos, vieram às atoardas que corriam em Lisboa, a respeito dos novos amores de D. João V com a rival temida de soror Paula. Dizia-se que a freira estava completamente acalcanhada e desgraciada. Constava que ela, afrontada pela ingratidão do monarca e pelas risadas insultantes das religiosas suas inimigas, ia sair do mosteiro, e passar-se à ilha do Faial, onde tinha parentes e grandes haveres comprados em nome de uma sua aia com os dinheiros do seu liberalíssimo amante, etc.

Atalhou o padre o relatório dos escândalos, dizendo que era prudência desprezar os boatos forjados à tarde no Rossio ou nos pátios das comédias pela maledicência dos faceiras ociosos; e, ao intento, acrescentou como prova da falsidade das baleias:

— Pois não me disse Fr. André Guilherme que em Lisboa toda a gente repete que o doutor Eliot vai casar com a minha sobrinha?

— Logo vi que essa nova devia trazer-lha o frade... — disse o médico, mais risonho que torvado.

— O frade repetiu o que ouviu — replicou Xavier — não creio que ele inventasse a mentira...

— Mas a que propósito se saiu ele com a novidade?

— A que propósito? não me recordo... — respondeu o padre deslizando da verdade por delicadeza com o seu amigo. O que eu quero fazer notar ao doutor é que em Lisboa se maquina muita calúnia. Já aquele famoso sábio D. Francisco Manuel de Melo disse: «Lisboa é muito grande, é mata espessa, onde se criam monstros de disforme malícia». Porventura, o doutor, ou eu ou minha sobrinha demos ocasião a que se inventasse tal casamento? E, para além do mais, quando é público e notório o seu galanteio à Leonor Caldeirão, por amor da qual o doutor declarou sua manceba a francesa que por aí andou considerada como sua mulher!... Mau foi, meu amigo, deixar correr essa falsa conjetura... — desculpe-me arguir-lho. Melhor seria declarar a verdade quando a trouxe de França...

— Fui sincero com o meu amigo, e com poucas mais pessoas.

— Pois sim; mas eu e essas poucas mais pessoas não representamos a sociedade. Que fará, agora vossa mercê, se casar com a Caldeirão ou com outra? Como há de honestamente explicar o engano que fez às famílias que admitiram na sua casa a francesa? Sou tão seu amigo, que até essa estouvanice da sua vida de rapaz me tem tirado o sono. A mim parecia-me que seria acerto mandá-la para França, com algumas dúzias de moedas, a fim de evitar conflitos escandalosos quando o doutor Eliot houver de casar-se.

— Não penso em me casar, Sr. doutor Xavier; — afirmou o médico solenemente — mas penso em remediar o desatino de permitir com o meu silêncio que a francesa passasse pela minha esposa. O remédio único é afastá-la de mim, e não mais dar azo a que a sociedade me acuse por mancebias impróprias da gravidade da minha profissão. Sacrificarei todos os meus haveres a este acto de reformação de costumes. Dar-lhe-ei quanto possuo a esta mulher, e ficarei com a honra e com o esforço no trabalho até me ressarcir das prodigalidades expiatórias da minha desonestidade.

— Nem tanto ao mar, nem tanto à terra! — modificou o padre — Privar-se de tudo que adquiriu em doze anos parece-me excesso. Esta espécie de mulheres vendem-se caras; mas o doutor lá conhece o valor dessa que pouco mais ou menos é o das outras da mesma casta. A Lais vendia-se por cem talentos na Grécia; mas os Alcibíades de hoje em dia têm mais talentos, não amoedados, isso é verdade, mas mais apurados para pesar na balança o que se deve a tais aventureiras...

O padre parecia envaidecer-se da sua perspicuidade quando aconselhava o médico, e dava-se ares jactanciosos de quem apalpara o âmago das coisas e das pessoas desprezíveis. O doutor simulava ouvi-lo com a respeitosa anuência de aluno inocente, e trejeitava uns jeitos de arrependido, descompondo os cachos da cabeleira com gestos de aflição e ódio de si próprio.

O ex-frade das penhas do Varatojo, condoído daquelas figurarias doloridas, lembrava-lhe que todo o homem era tributário da loucura, e raros homens tão cedo revertiam à vereda pedregosa da honra.

— E porque não há de o doutor casar com a galante Leonor Caldeirão, se a ama como eu sei que há dois anos se amam? — perguntou o padre.

Isaac Eliot assoprou um suspiro longo, pôs as mãos na testa descaída, levantou-se de salto, e não respondeu.

— Que tem, doutor?! — disse Francisco Xavier, inquieto.

— Não está bom? Ofenderam-no as minhas palavras a respeito da francesa?

— Não, meu caro amigo, não! — respondeu Isaac, sobrepondo no peito as mãos em cruz e inclinando a cabeça a um lado com os olhos descaídos. — Quem primeiro me condena e acusa sou eu, e quem me quis salvar a tempo deste vilipendioso remorso foi o Sr. doutor Xavier quando há dez anos me admoestou a ser cauto, a desatar-me dos laços desta mulher que mais tarde seria estorvo à minha felicidade. Cumpriu-se a sua profecia, Sr. Xavier. O meu descrédito faz estrondo em Lisboa, desde que o pajem Rutier estouvadamente divulgou que eu ia casar e que a francesa não era, portanto, minha mulher. Hoje, quando eu queria as bênçãos e os respeitos públicos, acho-me até indigno da indulgência dos meus tolerantes amigos. Agora que eu quisera ter um coração puro como a consciência dos santos para poder aspirar à posse de uma menina sem mácula, vejo-me tão manchado, tão conspurcado na sordícia dos vícios, que não ousarei mais levantar olhos para um rosto iluminado dos resplendores da inocência.

O padre escutava-o maravilhado da ideia, do tom, da postura teatral do homem; não o interrompia porque o monólogo era estudado, fluía torrencialmente, e não dava ansa a interrupções.

A julgar do introito, é bem de entender que o francês apontava o discurso ao intento de se declarar apaixonado por Antónia; mas, se fosse coerente na tramoia, como é de supor, acabaria por se declarar indigno dela.

O discurso, porém, foi cortado pela entrada do escudeiro, que participou estar no pátio o pajem Henrique Rutier, procurando o amo para negócio urgente.

Eliot desceu ao terreiro, onde o pajem o esperava com o cavalo à rédea e espumejante de suor. Conversaram em francês por alguns minutos alvoroçadamente. O médico mandou ao seu lacaio negro que embridasse os cavalos, subiu à antecâmara do padre, inventou o estado perigoso de um doente importante, e galopou para Lisboa à espora fita.

Esperava-o já, no pátio da sua casa o boticário Jácome Valebelt.

— Suba, Sr. Jácome — disse o doutor; e, quando galgavam rapidamente as escadas, perguntou:

— Está cá o homem, heim?

— Em pessoa.

— Deixe-o estar: nós cá estamos também.

Entraram na sala. Eliot estirou-se sobre uma preguiceira almofadada, arrojou as esporas, o espadim e o chicote, enxugou as camarinhas do suor, e disse assoprando:

— Diabo!... estou cansado!... Custava-me menos fazer uma anatomia de florete na arca torácica do seu patrício que dar esta estafa ao meu corpo e aos meus cavalos. Então que diz lá o poeta?

— O Sr. doutor leva isto de vítor-feição; mas eu agouro desgraças...

— Algum desafio? está bem aviada a Prússia. — E riu-se às gargalhadas, atirando com a perna para a espalda do canapé.

— Conte lá isso miudamente. Quando chegou ele?

— Esta manhã. Eram onze horas no relógio das Chagas, e estava eu ao balcão, quando vejo entrar o Frisei com uma cara de defunto, e a vista derramada como a dos doidos...

— Feio espetáculo!... o Sr. Jácome sentiu despegar-se-lhe a espinhela, heim?

— Confesso que os joelhos me jogaram um com o outro. A consciência...

— Faz jogar os joelhos?

— E a penúria faz jogar a honra — acrescentou Jácome. — A cara do infeliz jovem era o espelho do meu crime... Fez-me compaixão, palavra!

— Vamos à história, e no fim cantará os seus salmos penitenciais. Que lhe disse ele?

— Perguntou-me se D. Antónia Xavier já tinha casado. Respondi que não me constava; mas que por aí se dizia que brevemente casava. Perguntou-me com quem. Disse-lhe o nome do Sr. doutor. Ele pediu-me um golo de água, bebeu-a sentado, e perdeu a cor. Pensei que desmaiava. Ia-lhe chegar um vidro de sais, quando ele repeliu o vidro. Depois levou as mãos as faces, baixou a cabeça, e chorou com tamanhas ânsias que me afligiam. Fiz-me de novas... que remédio! Perguntei-lhe que razões se deram para acabarem assim uns amores tão propiciamente começados. — Eu não dei nenhumas — respondeu ele; e mostrou-me a última carta que recebera de D. Antónia, quero dizer, a carta escrita pelo seu criado. O patife tem engenho! Comparei-a com outra que o Frisch me mostrou, a última em que a menina lhe dizia as mais derretidas ternuras. Falsificação mais perfeita só o pulso do diabo seria capaz de a fazer! O pobre rapaz, mostrando-mas ambas, uma ao lado da outra, dizia-me: — Como é possível que dentro em quinze dias esta cruel mulher escrevesse estas duas cartas! — Eu encolhia os ombros, e dizia: «mulheres, mulheres!»

— Quero vê-la, casada, ou solteira! — exclamou ele, afogado pelas lágrimas — quero ver com que rosto ela me encara...

— Mau! — interrompeu Eliot exagitado.

— Mau? péssimo! então já não se ri, Sr. doutor? Eu não lhe disse ainda agora que futurava desgraças? Se ele chega a vê-la, se derem explicações, se se descobre a traição! Que será do senhor e de mim? Que escândalo, que vergonha e que infâmia!

— Deixe-me pensar! — bradou o francês — não me aturda com as suas exclamações.

— Eu não o quero aturdir, doutor; mas sinto dizer-lhe que não me acho em bons lençóis. Somos três os perdidos; mas o mais execrável dos três sou eu, se isto vem a descobrir-se. Mandei-o chamar a toda a pressa, para ver como vossa mercê se tira e me tira deste aperto; que eu, se lhe não vir saída...

— Que faz.... Vai confessar a sua infâmia para que lha perdoem? — interrompeu Eliot colérico.

— Ora essa! Ainda mais ouvirei!... O senhor tem coisas...

— Então que quer dizer?

— Quero dizer que, se vossa mercê não remedeia isto, vou fugir de Lisboa, e fugir do reino; em primeiro lugar, porque atraiçoei um homem que fiava de mim as suas cartas e as da sua noiva; em segundo lugar, porque eu participei da falsificação do seu pajem entregando as cartas verdadeiras; em terceiro lugar, porque fui eu quem mandou entregar uma das falsas a D. Antónia, e enviei a outra ao meu patrício; em quarto lugar...

— Porque você recebeu quatrocentos mil réis pela traição...

— Isso é desgraçadamente verdade...

— E inventou umas mixórdias que eu lhe aprovei...

— Ninguém mas compra, Sr. doutor, desde que os créditos de vossa mercê perderam a aura pública... e, a falar-lhe verdade, estou quase tão pobre como era...

— E quer que eu o enriqueça, não é verdade? — atalhou Eliot rolando de esguelha os olhos coruscantes de raiva.

— Não, senhor, não quero que me enriqueça...

— Que quer então? despache!

— Que me salve destes apuros, pois não percebe? Ora faça de conta que Josse Frisch descobre onde está a rapariga...

— Você disse-lho?...

— Se eu fosse tolo!... mas pensa o doutor que ele já não o sabe a esta hora? Faça de conta, digo eu, que ele vai à quinta. O padre é coxo e está em casa. A pequena anda pela quinta. Eis que o vê. Caminham um para o outro... Sim, isto são favas contadas. Queixam-se ambos ao mesmo tempo. Mostram as cartas, descobre-se a falsidade delas. O Frisch vem ter-se comigo, e...

— Quebra-lhe a cara...

— Esse pouco! mas o caso não fica aí. Eu sou levado ao corregedor para declarar quem falsificou as letras...

— E você, está claro, diz quem as falsificou...

— O que eu não quero é chegar a esses extremos, Sr. doutor se vossa mercê fareja remédio a isto, quero dizer, se está, na sua astúcia, modo de fazer que eles nunca mais se encontrem, bem vamos; mas, se vê que artes e manhas não Podem valer-nos, então, o melhor é eu pôr-me ao largo quanto elites; porque, não aparecendo eu, está vossa mercê mais seguro de não ser incomodado por causa da falsificação.

— Quer dinheiro, já o percebi...

Jácome deu aos ombros, alongou os beiços e esbugalhou os olhos — expressão feia, mas eloquente da necessidade que o forçava à segunda cobrança.

Neste lance, Isaac Eliot viu por entre as cortinas de uma alcova a cara de Henrique Rutier que lhe fazia um gesto afirmativo.

O amo, pestanejando duas vezes, inculcou ao pajem que ficava inteirado.

— Diga o dinheiro que quer — disse Eliot ao boticário — , mas peça pouco, porque eu não tenho muito.

— Dê-me vossa mercê o que entender, pesando na sua consciência duas ponderosas considerações: primeira, que a minha ausência fecha as portas às indagações da justiça no caso desgraçadíssimo de se instaurar devassa por crime de falsificação; segunda, que eu, se não fosse homem de bem, podia ocultar que chegou Josse Frisch, e deixá-lo ir deslindar o enredo com D. Antónia, ou, como vossa mercê disse há pouco, contar-lhe as razões que me arrastaram ao crime, e merecer-lhe o perdão, remediando o mal em que tive cumplicidade.

— Quer então o Sr. Jácome que eu pese na minha consciência essas duas considerações?...

— Sim... dizia eu... que...

— Já sei o que disse... Não me repita.

Se o boticário fosse menos parvo que velhaco, o tom das últimas perguntas de Eliot gelar-lhe-ia o sangue nas veias; e, se ele tivesse visto a cara sinistra do forçado de Toulon por entre as cortinas interiores das vidraças, é de crer que espiasse a oportunidade favorável de escapulir-se.

— Pesei na minha consciência as duas considerações ponderosas — disse, volvidos poucos segundos, o filho da agarena, sentando-se um tanto orientalmente nos almadraques de uma otomana — Pela primeira — isto é, pelo favor de se ir embora do reino, fechando a brecha às indagações do corregedor — recebe o Sr. Jácome cem mil reis. Acha pouco?

— Já disse vossa mercê que pesasse na sua consciência...

— Mas que lhe parece o fiel da balança? acha que o prato da tal «consideração» desce, e o dos cem mil reis sobe? Veja lá...

— O doutor está a gozar! — observou o boticário meio risonho, e meio agastado — O caso merece mais circunspeção do que vossa mercê pensa...

— Bem sei. Mestre Jácome quer lembrar-me que a segunda «consideração ponderosa» sobe muito de valor; porquanto está no seu alvedrio desfazer o que fez, salvar-se da cumplicidade pela denúncia, e atirar-me a mim e ao meu pajem ali para o Limoeiro.

— Não digo tanto... nem pensei tal maroteira...

— As maroteiras são como os tremoços: quem come um come um cento. Se você fez a primeira, é regularmente lógico que faça dez a fio. Mas diga-me cá: eu convidei-o à feia ação de entregar as cartas que lhe eram confiadas? Não foi você quem mas vendeu por proposta sua?...

— Essas perguntas que fazem à questão...?

— Fazem que eu, se entrasse em juízo, diria que o infame fundamental neste criminoso enredo foi o amigo de Frisch que me ofereceu a venda das cartas por quatrocentos mil reis...

— Mas eu não sabia que o intento do Sr. doutor era falsificar a letra delas...

— Não obstante, aceitou a mensagem de as mandar falsificadas ao seu destino, estipulando a cláusula de que eu lhe aprovaria uns rebuçados para obstruções de bofe, e um unguento para impigens de humor frio...

— Homem! — interrompeu o boticário estomagado — Está aí com umas ironias que me fazem subir a mostarda ao nariz! Se não quer pagar a minha saída de Portugal, ou, por outra, se não quer pagar o meu silêncio, fique-se muito embora, que eu farei o que me parecer.

— Não se zangue, mestre Jácome — volveu com sarcástica brandura o médico — Estava eu a pesar a segunda «consideração» que é a do silêncio, como você acaba de dizer. Essa do silêncio requer mais dourada mordaça... Veja lá: duzentos mil reis? com cem são trezentos; com quatrocentos que recebeu, são setecentos. E os rebuçados? e o unguento? Onde irá isto montar? Sente-se, e espere um pouquinho que eu vou buscar o dinheiro.

E saiu da sala a um corredor, e entrou numa porta lateral correspondente à alcova por onde Rutier espreitava e ouvia todo o diálogo.

Entre Eliot e o pajem trocaram-se poucas palavras.

Rutier passou da alcova à parte mais interior da casa. Desceu ao pátio onde dois negros davam ferro à pelagem dos cavalos empastada de suor, e disse-lhes que os cavalgassem e passeassem a passo, porque pareciam resfriados; depois, mandou o preto cozinheiro à praça da Ribeira comprar uma ave que o seu amo apetecera. Tudo isto se operou tão rapidamente que o boticário não reparou na demora.

Na ausência dos três criados, Rutier fechou a porta da rua sem estrondo. Depois subiu de mansinho a escada que dava para a sala, e assomou à porta quando Jácome, de pé, e próximo da porta, soletrava a legenda francesa de um painel pendurado na parede.

À aparição silenciosa e súbita do pajem, o boticário estremeceu e balbuciou:

— Olé, sor Henrique! você meteu-me medo!... Não lhe ouvi os pés.

Proferida a última palavra, foi traspassado por um espadim do peito às costas, e estirou-se sobre o dorso resfolgando uns rugidos surdos, que o assassino fez calar repetindo as estocadas na garganta e ventre.

Eliot assistiu à breve agonia da Jácome; e, palpando-lhe o peito, asseverou, como perito, que estava morto.

— Este homem vinha a perder-nos! — disse Eliot justificando o homicídio à sua consciência inquieta.

— Depois filosofaremos sobre as vantagens de o matar — observou o prático Rutier — Ajude-me a tirá-lo daqui antes que o sangue encharque na alcatifa e antes que os escravos cheguem.

Pegaram do cadáver ensopando-lhe nos golfos de sangue algumas toalhas. Levaram-no da sala para um quarto ao rés da rua, e estenderam-no sobre uma grande banca tapizada de lona encerada. Depois, fecharam a porta, e abriram as que estavam fechadas.

Na tarde desse dia, Isaac Eliot, professor de anatomia no hospital real, ordenou ao mordomo que mandasse a sua casa um determinado cadáver para autópsia. Não era a primeira vez que o professor era louvado por semelhante solicitude no seu magistério.

O cadáver conduzido do hospital de Todos os Santos foi levado ao mesmo anfiteatro, onde o outro fora depositado. Durante a noite, Eliot e o pajem espostejaram ambos os mortos. Ao romper da aurora, o esquife do hospital recebeu os membros desarticulados e golpeados dos dois cadáveres. Os chamados «homens da tumba» não indagaram se o doutor pedira um, se dois defuntos da enfermaria. Tomaram o esquife repleto de carne espatifada, e, antes que o sol apontasse, já a pá do coveiro recalcara a última camada de terra no campo em que a Misericórdia, fora de portas, enterrava os que morriam nos hospitais.