A Caveira da Mártir
Capítulo I · Paulo Xavier e o seu irmão, levados…
Paulo Xavier e o seu irmão, levados a Queluz, à presença do infante D. Francisco, por Supico de Morais, acharam-se rodeados de grande parte de cortesãos que antepunham a libertina prodigalidade do duque de Beja à gravidade régia de D. João V. Paulo, que se licenciara em leis, foi logo despachado juiz de fora para Chão de coice, uma das vilas do infante; e Francisco Xavier, que se doutorara em teologia, como agradasse à corte de D. Francisco pela singularidade do talento e da eloquência, ficou na comitiva do infante, e muito querido de Lopo Furtado de Mendonça, conde do Rio Grande. Este fidalgo, divorciado das bacanais de Queluz, teve artes de subtrair Francisco Xavier ao influxo corruptor do irmão do rei, e particularmente à convivência de Pedro Supico de Morais, que os fidalgos festejavam em público e detestavam em segredo, ciosos da privança do infante. Tamanho rancor ao amigo de Jorge Mendes Nobre, e protetor dos seus filhos, rompeu, volvidos anos, na perfídia do homicídio a punhal. Seria longa, mas estranha deste livro, a notícia da morte do autor dos Apotegmas.
Os netos de Ângela tinham renunciado aos apelidos do bisavô e aos do pai. Não se assinavam Leites Pereiras, por causa da forca, nem Mendes Nobres por causa das fogueiras do campo da Lã, nem ainda Gomes pela sua mãe, pois que neste apelido exsudava sangue de hebreus, muitas vezes derramado nas Inquisições de Lisboa, Coimbra e Évora.
Ora, os Xavieres da sua avó materna eram sangue puro, sem glóbulo de mouro ou judeu.
Francisco, o doutor teólogo, não se prendera a ordens que lhe desonestassem o gozo dos anos da força e das paixões sobravam-lhe bens da fortuna. Eram ricos do seu património, posto a lucro em Holanda. Paulo acrescera as rendas do seu irmão, cedendo-lhe parte grande das suas. No seu lugar de juiz, e estado de solteiro, despendia-se moderadamente, e folgava que Francisco, acamaradado com os nobres, os igualasse nas pompas.
O doutor Francisco Xavier era esbelto jovem. Aprimoravam-se nele os traços peculiares de raça, aformoseados pela semelhança dos seus bisavôs Domingos Leite Pereira e Maria Isabel. Muitas vezes, em menino, ouvira dizer a Ângela, sua avó «Como esta criança me desenha as feições do meu pai, quando eu nem sequer penso nele!»
A moda e o coração sedento nortearam-no para o mosteiro de Odivelas. Ia no rasto do rei e dos potentados do reino. A corrupção ali era fidalga e realenga. Soror Paula(*), a trigueirinha, que ainda assim não pudera quebrar os feitiços de D. João V com a cigana Margarida do Monte, professara por aquele tempo.
[(*) “Soror” tanto era um título eclesiástico como uma forma de tratamento entre freiras e outros membros da igreja. “Irmã” seria a forma mais aproximada do seu significado.]
O rei disputou-a ao conde de Vimioso, tirou-lha, e cedeu-lhe duas à escolha. Uma, a preferida, rejeitou o conde, e deixou-se requebrar da candura de Francisco Xavier. Era D. Catarina Luísa de Miranda e Castro, alcunhada a Muleirinha, e assim conhecida na roda dos condes, que tiniam as esporas de ouro no pátio das eróticas Bernardas.
Aquela D. Catarina era deveras e singularmente amada e linda, com vinte e um anos. Mas Francisco Xavier era amado de duas. A outra passava dos trinta anos, tinha a experiência que lhe cancerara e calejara o coração, a estratégia que dão as cicatrizes. Chamava-se D. Francisca Inácia de Meio, por alcunha a Pimentinha. Quase todas eram alcunhadas. Esta derivaram-lhe o apelido do temperamento cálido, da irascibilidade no amor, nos zelos, na petulância com que fazia do hábito um dominó do carnaval. Qualquer das duas figurava sempre na Lista das pessoas que saiam condenadas... O leitor moderno e descurioso de velharias decerto ignora o que eram estas Listas anuais. Vou dar-lhe um modelo, trasladando parte do rol manuscrito de 1716. Veja como era divertido aquele tempo! Com tais elementos, a imprensa de hoje, se os tivesse, não estagnaria neste mar morto de enxabidez em que a pusemos. A Lista era o periódico satírico manuscrito, enviado ao mosteiro, em tantos exemplares quantas eram as cabeças mais belas e doidas. Os redatores eram clandestinos; e por isso, o rei e os próceres de maior tomo nem sempre eram respeitados, e bem assim as freiras que tinham cá fora os lacaios dos amantes armados do tagante vingador.
Era assim a Lista das pessoas que saíram condenadas por ordem da sua Majestade e do Geral de Alcobaça, pelas devassas secular e regular que tiraram no convento de Odivelas o corregedor do bairro dos Romulares e os visitadores da mesma religião. Primeira abjuração de leve por culpas de presunção amante, alcovitice e outros erros.
NÚMEROS – NOMES – IDADES – PENAS
1º O padre Pantaleão Rodrigues de Sã, 38 anos, presbítero do hábito de S. Pedro, natural de Odivelas, e na mesma parte morador, por dar palestra a vários freiráticos na sua casa, dando os escritos e recebendo respostas de muitos tratamentos ilícitos. Termo que assinou no Aljube com promessa de não consentir em casa semelhante gente, e 40 léguas degredado para fora da corte.
2º O padre Roque Francisco, 42 anos clérigo do hábito de S. Pedro, por tratamento ilícito com certa religiosa que vai na lista. Termo na mesma prisão e 80 léguas para fora da corte.
3º Francisco Xavier Curvo Semedo, 41 anos, natural de Lisboa, onde é morador. Por presunção das mesmas culpas. Termo em casa do corregedor.
4º Henrique Xavier de Pina Coutinho, 30 anos. O mesmo. Termo em casa do corregedor.
5º O doutor Francisco Xavier, 22 anos natural de Lisboa, e aí morador, por se entreter em correspondências ilícitas com certas religiosas que vão à lista, etc. Termo no Aljube e degredo.
SENHORAS
Abjuração de leve por culpas de amantes e outros erros
N.ºs – NOMES – IDADES – PENAS
1º D. Úrsula Francisca de Morais, 26 anos, a Caramelo, natural de Lisboa, religiosa em Odivelas, por culpas de correspondências ilícitas. Quinze dias de comer em terra e 6 meses privada das grades e lugares públicos.
2º D. Francisca Inácia de Melo, a Pimentinha, 30 anos, pelas mesmas culpas. O mesmo.
3º D. Ana Joaquina Bandume, do reino de Angola, 30 anos de idade, pelas mesmas culpas. O mesmo.
4º D. Clara de Almeida e Vasconcelos, 40 anos de idade, idem, etc. O mesmo.
5º D. Catarina Luísa de Miranda e Castro, a Muleirinha, 21 anos de idade, por as mesmas culpas, com agravo de outra que vai na lista. O mesmo.
São condenadas a cárcere e longos jejuns D. Mariana Perpétua, relaça e pertinaz e impertinente.
D. Leonor de Meneses, chamada a das Finezas, que tem 40 anos.
D. Catarina Isabel, a Caçarola, que tem 18 anos.
D. Jacinta Micaela de Castro, a contratadora, 28 anos.
D. Teresa de Melo, a Vigairinha, 23 anos.
E por não guardar lealdade ao seu amante é condenada a um mês de cárcere a Sra. D. Maurícia Rangel de Macedo, que tem 82 anos, idade, naquele tempo, incompatível com menos de dois amantes, ao que parece.
Enfim, diz-nos a lista que a inspiradora do poeta António Sanches de Noronha, por amor de quem ele se desbaratava em odres de vinho, era D. Maurícia de Pina Rebelo Freire, a quem D. João V chamara Márcia bela.
Aí estão os nomes das mais celebradas formosuras de Odivelas.
Por onde se vê que D. Catarina, a Muleirinha, era condenada por amores, com agravo da outra; e Francisco Xavier, também arrolado na lista, é o único incurso no crime de correspondência plural com certas religiosas.
Isto que parecera brinquedo cá fora, lá no interior do mosteiro ia lavrando em guerra de intrigas, agoureira de funesto desenlace. Catarina de Castro era aborrecida das freiras contemporâneas de Francisca Melo na profissão. Os doze anos e a beleza que as distanciavam abalizavam a arena da encarniçada luta. As parciais da mais velha diziam que a primazia era da Pimentinha por ter sido esta a que primeiro ouvira os requebros do doutor Xavier. As poucas do bando da Muleirinha pleiteavam os direitos da sua amiga, rindo e galhofando da outra, a quem chamavam velhota. É o costume. As mulheres de vinte anos datam a velhice aos trinta, e dos quarenta em diante confundem todas as senhoras na respeitabilidade das suas mães e avós.
Francisca Melo sabia que lhe ridicularizavam os serôdios ciúmes; contorcia-se beliscada na fibra mais sensível; digeria a afronta, esperando a ocasião de a revessar em fel à cara da rival.
Mas, verdadeiramente a culpa não era de Francisco Xavier. Se uma vez galanteara Francisca, induzido pelos desonestos pensamentos que o apelido da freira e as informações lhe esporearam, este galanteio não o obrigara às austeras fidelidades costumadas nos amores monásticos. O filho de Jorge Mendes estava ainda longe da idade e do uso em que o paladar cansado carece de perrixis estimulantes. A mulher ideal que o seu coração almejava devia ser modesta, pudibunda, arminho sem nódoa, meiga sem arte, infantilmente assustadiça, propensa às lágrimas, singela no dizer, ignorante das grandes frases que tornam o amor pretexto de retórica; enfim, ele andava a cismar com um composto de carne e espírito, que não era de modo algum aquela filha de S. Bernardo, e esposa do Senhor, chamada ardentemente a Pimentinha.
Quando viu Catarina, além de linda e serena como a inocência, aureolada com a distinção de ter sido alguns dias requestada pelo monarca, adorou-a, posto que do seu prospeto não constasse que o arminho dos seus sonhos fosse mais cândido, se o hálito do rei o bafejasse. Adorou-a apesar disso, ou talvez por isso.
E pode ser que o despeito dela aferventasse a paixão. O rei deixou-a por causa de Paula Perestrelo. O conde de Vimioso apareceu-lhe no lugar do rei, que lhe fazia mercê de uma das duas odaliscas. E Catarina, desprezando o substituído na pessoa do substituto, retemperou e aqueceu o coração no fogo do capricho, e entregou-o com sincera e honesta dedicação a um jovem que lhe falava tímido, que a contemplava silencioso, e era de si gentilíssimo, e, entre os mais fidalgos, o que parecia mestre na cortesia, e superior na educação.