A Caveira da Mártir
Capítulo XLVII · Às dez horas da manhã, deste dia,…
Às dez horas da manhã, deste dia, Antónia do Sacramento subiu esbaforida a encosta do castelo, e entrou na portaria do convento da SS. Trindade. O irmão porteiro, a quem perguntou pelo padre Fr. André, respondeu-lhe que estava no altar dizendo missa.
— Pois eu não me posso demorar. Entregue-lhe vossa paternidade esta carta que vem da casa da irmã.
Fr. André erguera-se naquele dia com o propósito de escrever a Antónia, a fim de sossegar de uns sustos que lhe desvelaram a noite. Josse Frisch havia-lhe dito, no dia anterior, que estava de véspera de viagem para Berlim, não tendo mais nada que fazer nem que esperar em Lisboa. Estas palavras, ponderadas pelo frade, figuraram-se-lhe misteriosas. Tempestuou-lhe na alma a conjetura de que Antónia se evadia com Josse, não lhe restando, pois, a ele mais nada que fazer nem que esperar em Lisboa.
Abriu a carta que lhe entregou o porteiro da parte da sua irmã. Quando chegou à terceira linha, e leu: «Se hoje lhe não falo, se me não acode, dou um passo desgraçado» pensou consigo aflitamente:
— Não me enganei! Josse Frisch quer arrebatá-la!
Entrou na cela e escreveu uma longa carta ao prussiano, cheia de queixumes, de censuras, de máximas divinas e humanas; e afinal, depois de muito discursar no vago da sua conjetura, pedia-lhe em nome de Deus que não infamasse Antónia usurpando-a ao santuário onde ia asilar-se, depois de tantos estorvos, aflições e sustos da morte.
Josse tinha partido para Sintra com o naturalista Merveilleux, a colher exemplares da Flora da Serra. O padre Rafael Bluteau recebeu a carta, e disse ao portador que seria entregue no dia seguinte.
Frei André, ainda assim não sossegou, supondo que o padre hospedeiro de Frisch era também enganado.
Por volta das quatro horas e meia entrou na rua do Outeiro; e, como nunca tivesse frequentado a casa do doutor Francisco Xavier desde que ele se estabelecera, ignorava a residência de Antónia. Entrou numa loja de mercearia perguntando onde morava o doutor Eliot.
— É acolá — apontou o merceeiro — mas, se o vai procurar, não o encontra, que saiu de sege às 3 horas.
O frade agradeceu; e, quando se avizinhava da casa indicada, viu por entre uma cortina de janela de peitoril a cabeça de Antónia, olhando para ele e logo debruçando-se muito agitada no peitoril.
Aproximou-se da porta, e tirou pela campainha.
Antónia pensara que ele ia passando; mas, ao vê-lo parar e bater, exclamou:
— Que será?...
E correu ao seu quarto para se vestir com menos desalinho, porque sucedera estar tão negligentemente trajada que baixara as cortinas para não ser vista da vizinhança fronteira.
Antónia do Sacramento levou-lhe recado de que estava ali o Sr. Fr. André Guilherme, e que lhe abrira a porta da cozinha porque não encontrara a chave da porta principal.
Traspassou-se-lhe de terror a alma; a custo se tinha em pé; saiu como estava à porta da cozinha, e exclamou:
— Que motivo o traz aqui, Sr. Fr. André Guilherme?
E, sem dar tino do que fazia, encaminhou-se com ele para a sala de visitas.
— Que motivo me traz aqui? pergunta a Sra. D. Antónia! pois não me escreveu a chamar-me?
— Eu!... Ó Virgem! socorrei-me! Não lhe escrevi! é uma traição que lhe fizeram... Estamos perdidos!
E caiu quase esvaída de alento sobre uma preguiceira. E então o frade, sentando-se ao lado dela, com a serenidade dos legendários mártires, pegou-lhe da mão e disse-lhe:
— Se é uma traição, vou ser... ou vamos ser assassinados... Deus se compadeça de nós, e não permita que a nossa memória seja caluniada!
E, erguendo-se, ajoelhou diante dela, e prosseguiu com muita unção de lágrimas:
— Antónia, levantemos as nossas almas ao Altíssimo, que vê a nossa inocência, roguemos-lhe que nos deixe ainda encontrar na sua divina presença....
— Se pudesse fugir!... fuja, Sr. Fr. André!... — balbuciou ela emergindo da atrofia com desesperado ímpeto.
— Os inocentes não fogem! — disse ele — e, quando a porta da sala se abria de repelão, acrescentou: — Adeus!
Era Isaac Eliot, empunhando duas pistolas. Entrou e rodou a chave da porta. No patamar, da parte de fora, ficara Henrique Rutier.
— Apanhei-vos! — bradou o francês.
E desfechou uma pistola ao peito de Fr. André, que, após uma breve tremura, caiu sobre o dorso. Desfechou a outra ao peito da esposa; mas errou o tiro. Antónia fugiu, gritando, para o interior da casa. O marido arrancou do bolso uma faca de amputações e cravou-a no peito do padre, até que a lâmina do instrumento, esgarçando pelos ossos, se dobrou e partiu. Depois, correu em busca de Antónia, que quisera salvar-se pela porta da cozinha, que encontrou fechada. Eliot ferrou dela pelas madeixas desprendidas, levou-a de rojo à sala de jantar, e aí, quando ela pedia a brados e de mãos postas que a não matasse inocente, a voz ia-lhe esmorecendo, e soltou o derradeiro gemido ao vigésimo sétimo golpe de espadim.
***
Em respeito à sensibilidade de quem lê esta página, escrita com a rapidez de uma angústia que me oprime, abstenho-me de particularizar o martírio de Antónia. Há aí barbaridade que atinge o inverosímil! Quem tiver ânimo frio e curiosidade das supremas perversidades que se passam à face de Deus, leia o DOCUMENTO 1°.
Quem leu o Auto de exame de corpo de delito prescinde de saber como Eliot, voltando da carniçaria da esposa, acabou de matar Fr. André Guilherme. Do processo e depoimento de testemunhas consta, como o leitor há de coligir dos subsequentes documentos, que o dilacerado trino, ao receber os últimos golpes, murmurava:
— Eu não o ofendi na sua honra, Sr. Eliot!
Henrique Rutier instava pela fuga, puxando pelo amo, quando ele ainda amolgava a cabeça do cadáver com a coronha da pistola já desaparafusada.
Simoa dos Santos era então retida pelas duas criadas e levada a rastos para um recinto interior, com ameaças de a matarem, se gritasse. Os vizinhos, atraídos pelos tiros, enchiam as janelas, e desciam às testadas da sua casa. O povo apinhava-se à porta de Eliot, quando ele, com Rutier, a passo rápido, ganharam a Cordoaria Velha, e se embarcaram na sege, mandando a toda a brida para a portaria de S. Domingos.
A relé seguia de longe a sege, vozeando gritos sem significação.
À portaria de S. Domingos, Eliot, apeando com o pajem, pediu ao padre porteiro que lhe desse guarida porque era perseguido por haver matado sua mulher adulterando com um calvinista. O prior dominicano, conquanto fosse sincero inimigo de calvinistas e adúlteros, respondeu que não dava asilo a fugitivos qualquer que fosse o motivo.
O povo estacara em volta da sege. A agressão era só de longe e a gritos. Eliot e Rutier passaram incólumes através da multidão que lhes abriu passagem, quando o francês bradou:
— Arredar, canalha!
— Para Santo Antão! — bradou Rutier ao muxila.
O portão da casa jesuítica estava fechado, porque já tinham soado as Ave-marias.
— Para a igreja de S. Luís — ordenou o médico.
Aquele templo dos franceses, privilegiado com grandes foros, demorava a curta distância de Santo Antão. Estava ainda aberto, porque os padres iam ali rezar vésperas em comunidade.
Entrou Eliot e disse que pedia asilo para dali poder, ao abrigo da gentalha, avisar o cônsul francês. Receberam-no; e, atentas as razões que dava do seu desforço, os circunstantes tiveram piedade do seu infortúnio.
E ali pernoitou.
A multidão rarefez-se, tirante dois pretos que velaram a noite sentados na escada da igreja: eram os dois escravos de Antónia, que Henrique Rutier vendera e entregara traiçoeiramente ao comprador navegante. Tinham saltado em terra naquela tarde. Iam vê-la, com licença do senhor, quando o povo clamorosamente gritava que o francês matara a mulher. Nortearam-se pelo alarido da turba, e chegaram a S. Luís, quando a porta da igreja era trancada. Mantiveram-se ali apostados a matarem Eliot.
Ao outro dia, o cônsul francês foi a S. Luís. Ouviu a exposição do seu patrício, viu as cartas atribuídas ao frade, achou brioso o desforço, e mandou arvorar a sua bandeira na fachada do templo. O povo ia e vinha; mas os negros permaneciam.
Ao anoitecer do dia 27, o corpo de Fr. André foi conduzido à claustra do seu convento, e o de Antónia Xavier à igreja dos Mártires. Afora alguns padres que responsaram o cadáver da adúltera, o coveiro que desterroava uma sepultura, e alguns transeuntes curiosos que desejavam ver a cara da morta, apenas havia uma pessoa que chorava: era Josse Frisch.
Despejado o templo e apagados os círios, o estrangeiro estava ainda de joelhos ao pé do esquife. E, quando o coveiro chamou o ajudante para transportar a tumba de sobre o catafalco raso, Josse Frisch pegou de um lado do caixão, e disse:
— Eu ajudo-o.
O coveiro contemplou-o, e disse entre si: «Era talvez irmão da pobre criatura!»
Ao erguerem o esquife, o sangue escorria das junturas. Frisch embebia no lenço as gotas que estilavam do seu lado. Quando o ataúde bateu em cheio no fundo da cova, o jovem, hirtos os cabelos e as faces lívidas, curvou-se à ourela da sepultura, e disse na voz inaudível da sua alma:
— Ó mártir! perdoa-me! Resgata deste mundo o desgraçado que te matou!