A Caveira da Mártir
Capítulo II · Medrou o amor de Catarina de Castro…
Medrou o amor de Catarina de Castro na proporção do ódio que lhe votava Francisca Melo. Os amorios de Odivelas, uma vez por outra, eram mais escandalosos que impuros. Paixões sérias e elevadas à extrema consequência do assalto ou da fuga eram raras. Em mosteiros menos apontados à vingança do céu repetiam-se mais frequentes as transgressões do voto virginal. Brincava-se ali, em Odivelas, com o amor. Supurava muito abcesso de ternura em poesia má — verdadeira peste. Sarjados uns tumores, bojavam outros. Em cada primavera, trinava pássaro novo no coração da freira, e pululava no terreiro florescência nova de condes, de cónegos, de poetas que, por via de regra, eram os línguas dos fidalgaços.
Amavam-se doidamente o doutor e a freira, porque eram felizes, zombando assim das ironias mordazes e das intrigas impudentes da Pimentinha. Quem primeiramente farejou intenções impuras nos colóquios da grade, e propósitos impudicos, foi D. Francisca, avisando a prelada, e citando-lhe o recente exemplo da fuga de soror Laureana, abadessa de Sant'Ana, com um frade capucho.
A prelada era discreta e conhecia a intrigante, já provada em outros enredos. Ainda assim, admoestou a freira em termos severos. Catarina, respeitando-a, coibiu-se de lhe perguntar se o seu perigo não seria maior amando o rei; e, se os conselhos que lhe dava agora, não seriam mais oportunos quando D. João V, assim como a mandava ir à grade, a podia mandar ir à sua alcova. A abadessa responderia a isto, pondo os olhos no céu, e murmurando: «Bem sabeis, Senhor, que eu não posso obstar a estas poucas vergonhas!»
Muito fizera ela, obrigando indiretamente o monarca a edificar casa para Paula Perestrelo, de modo que ela se passasse do mosteiro para lá. Porque até então o rei entrava pela portaria, demorava-se na cela da religiosa, e, ao sair, dava a mão a beijar à prelada, que o seguia com as freiras mais autorizadas até à porta. Perguntou-lhes o rei numa dessas retiradas o que ia fazer.
— Vamos rogar a Deus, pela vida da vossa majestade — respondeu a monja com solenidade.
Estremeceu D. João; entrou-se de escrúpulos, e nunca mais se serviu daquela porta. Mandou construir o passadiço, e adornar com os sonhados esplendores de um sultão os aposentos de Paula e da sua irmã Maria da Luz.
As reflexões da abadessa apertaram mais os vínculos. A ideia da fuga, ao princípio, deslumbrou-os em exultações misturadas de terror; depois, a treva medonha rarefez-se, e ficou apenas uma sombra que não resistia às torrentes luminosas daqueles dois corações alucinados. Pactuavam fugir para Amesterdão, e de lá perlustrar o mundo, gastar a vida e o ouro, envelhecer em delícias. Catarina iria para Montemor, onde tinha mãe, por motivo, de doença. A fuga seria de lá. Estava decidido.
No entanto Francisco Xavier, que amava e respeitava seu irmão Paulo, revelou-lhe o segredo. Paulo foi a Lisboa pressurosamente, e com boas razões, com súplicas, com lágrimas e até com desesperadas ameaças conseguiu demover o irmão.
— Não fujas! — disse ele, quando Francisco parecia vacilante. — Não te percas, perdendo essa pobre menina! Ela que vá para Montemor, e vai tu também com o recato que pode fazer durar o encanto do amor. Não a faças absolutamente tua, se a queres amar, não sujeites à tua dependência do pão e do vestido, se queres que ela te ame. Três meses de amor te dirão o que tu serias aos seis, e os fastios que te esperam aos doze.
Estas e outras melhores razões, que denotavam experiência no juiz de fora, fermentavam lentamente no ânimo do galã. Enfim, vieram a um acordo razoável: se Francisco Xavier, seis meses depois da saída da freira, carecesse de expatriar-se para ser feliz, Paulo coadjuvaria a fuga, e liberalizaria ao seu irmão dobrados meios para lá fora aliar à sua fortuna de amante as opulências de rico.
Não havia precisão de comunicar à freira estas cláusulas desairosas. Francisco Xavier, para além do mais, tencionava provar ao irmão que, sendo eterno o seu amor, a fuga, a posse infinita do objeto amado, era necessária.
A licença da saída foi solicitada em segredo. O dom abade de Alcobaça, Fr. Bernardo de Castelo Branco, não costumava devassar dos intuitos das religiosas que requeriam ares pátrios. Dizia ele que os ares de Odivelas eram pestilenciais como os do serralho de Ibraíme. Se alguma queria sair, dizia ele: «é porque quer ser mulher honesta.»
Quando se anunciou no convento a saída da Muleirinha, D. Francisca Melo esvurmou as cóleras que espumavam no vocabulário da ralé. Disse de Catarina impudicícias que, repartidas pela comunidade, ainda haveria excedente de injúria para todas.
Saiu D. Catarina para Montemor-o-Velho em companhia da sua mãe e do seu primo Francisco de Pina e Meio, o poeta e fecundíssimo prosista, que hoje ninguém digere. A notícia deste parente de Catarina seria despropositada aqui, se ao diante não adviessem infortúnios procedentes dessa consanguinidade. A mãe da religiosa era da família dos Meios e Pinas, suspeitos hebreus que deram muita carne para as festas da Inquisição de Coimbra durante o século XVII, como vamos recordar de passagem.
Quando Catarina chegou a casa fazia-se na terra uma fúnebre cerimónia. Os ossos da sua tia-avó D. Margarida de Meio, dezassete anos presa nos cárceres do Santo Ofício em Coimbra, e aí falecida, eram exumados da vala dos condenados e sepultos no carneiro da família, no mosteiro dos Anjos. A Inquisição proclamou-a cristã-velha no acto particular que se celebrou em 13 de Março de 1683; mas já estava morta, depois de dezassete anos de trevas, nudez, fome e torturas. Esta senhora, quando foi presa, era casada com Manuel da Fonseca Pinto, da casa de Balsemão. O marido morreu de dor, e ela expirou sem saber que era viúva.
Tangiam os sinos a finados, quando Catarina entrou em Montemor. Soava-lhe no coração aquela toada plangente. A alegria com que saíra do mosteiro agourentavam-lha agora sinistros vaticínios. O seu primo, o festivo autor de Epitalâmios e Espelhos nupciais, também ia triste, meditando talvez nas longas agonias dos seus ascendentes. E tinha que meditar. Se o leitor está de pachorra, meditemos também.
Em 17 de Setembro de 1598 morreu Álvaro de Pina Cardoso, fidalgo da casa d’el-rei, e morador em Montemor. Este homem havia casado com Andresa de Andrade, cristã-nova. Deixou quatro filhos. O primogénito, Rui de Pina, foi queimado no auto-de-fé de Coimbra, em 4 de Maio de 1623. No mesmo auto foi queimada sua mulher Luísa Comes, de 59 anos. Paulo de Pina, o segundo filho, foi queimado no mesmo auto. Salvou-se sua mulher e também o sogro, o doutor Manuel Rodrigues Navarro, lente da Universidade. Amaro de Pina, terceiro filho, de 44 anos, foi penitenciado com cinco anos de galés. Sebastiana de Pina, freira no mosteiro de Campos, foi presa e morreu recolhida nas convertidas de Coimbra. No auto de 1625 saíram penitenciados dois sacerdotes da mesma família, que voluntariamente se acusaram ao Santo Ofício, com o fim de enredarem no judaísmo seu cunhado Bento da Cunha Perestrelo, que morava em Coimbra na sua casa de Sub-Ripas que os fabulistas chamam o «palácio de Maria Teles.» Estes padres — diz um genealogista coevo — sobre péssimos homens foram muito bêbados. Acreditamos. A Inquisição ouviu-os, e mandou-os em paz, depois de lhes vestir e despir o hábito penitencial. Um dos padres, Baltasar de Pina, querendo entrar no convento da sua ordem franciscana, foi expulso pelos frades com pragas e paus e assobios.
O último varão representante dos Pinas de Montemor-o-Velho era o poeta Francisco Caetano de Pina e Meio, que estas memórias tristes ia pensando, ao lado da melancólica prima. Se ele antevira então o quinhão de desventuras que guardava o destino! Todos os seus biógrafos, Barbosa, Costa e Silva e o Sr. Inocêncio desconheceram os transes esquisitos desta existência tão luxuriante de versalhada e prosa importuna. Casara ele com uma D. Maria Teresa Coelho de Faria, de Coimbra, contra vontade do pai, que vendeu e destruiu quantos bens possuía para empobrecer o filho. O poeta, privado de meios, deixou a mulher, e passou para Castela. Aí, com reverendas falsas, fez-se clérigo. Voltando a Portugal, foi preso em Coimbra. A sua mulher, que ainda vivia, meteu-se freira em Santa Iria de Tomar. Restituído ao uso das musas, recolheu-se a Montemor, onde escreveu muito como penitência, sem edificação nem proveito da posteridade. E, morrendo em 1767, extinguiu-se esta raça de Pinas que em letras e armas lustraram grandemente desde Fernão de Pina, cavaleiro de Afonso IV.
Com toda a certeza, a freira cisterciense não pensava nos seus preclaros avoengos, nem sabia que um desses estroncara mouros, e outro escrevera crónicas de réis. Se contemplava o Sol, que se atofava em froixéis de arminho e púrpura, não era isso a poesia do crepúsculo, como o seu primo julgava, recitando-lhe sonetos ao rubente Febo e à casta Latona que surgia no horizonte com o seu toucado de ingentes rubis. O que ela queria era a noite, a noite alta, e muito escura, o cantar do galo às horas mortas; porque se sentia desfalecer de saudade, de tristeza, de mórbidos pressentimentos, e queria chorar nos braços de Francisco Xavier. São assim quase todos os introitos da falsa felicidade. Ao longe a miragem. Quando nos separam dois passos do ansiado gozo, cava-se um abismo. A fatalidade abre-nos os braços, e transporta-nos. Depois, a voragem alarga-se, cinge-nos, corta-nos as avenidas. Não há fugir-lhe.
Não era ainda isto o que ela cismava, quando Francisco Xavier, passando ao longo das paredes negras da casa solarenga dos Pinas, se cingiu com uma porta baixa de arco, na base de uma torre ameiada, e esperou.
A porta abriu-se com tanta subtileza que mais se ouvia a respiração arquejante da freira que o ringir dos gonzos.