A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 28 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo XXXIII · — Deu-me preocupação a sua falta ontem,…

 

— Deu-me preocupação a sua falta ontem, doutor! — dizia o padre Francisco ao seu médico — O meu amigo, para além do mais, saiu daqui incomodado com aquela palestra de moral que eu, pessoa tão incompetente, quis fazer-lhe. As suas últimas palavras, duras e cruéis consigo mesmo, estranhei-as, e, a bem dizer, pareceram-me desarrazoadas. O doutor Eliot, se não tem na sua vida mais vícios dos que lhe conheço, pode afoitamente dar-se como exemplo de honestidade à juventude relaxada da corte. Essa rapazice da concubina francesa, a não se dar a irreflexão de vir com ela à praça, seria caso para jactância e não para desdouro. E assim mesmo, doutor, visto que o amigo a estabeleceu em casa afastada, deixe correr seis meses, que tudo estará esquecido e perdoado, mormente em estoirando algum outro escândalo; e, se Deus quiser, os escândalos hão — de estoirar às dúzias, enquanto o rei, o infante D. Francisco e os próceres da corte não acamarem de corroídos, ou a podraga lhes não algemar os pés. É verdade, o seu doente melhorou?

— Qual doente?

— Pois não me disse antes de ontem que o seu pajem o chamava a toda a pressa?

— Ah! sim... era o conde de Tarouca, atacado de asma... Está melhor.

— Pois eu passei uma cruel noite com as minhas palpitações... Não pude adormecer deitado, e só de manhãzinha consegui passar pelo sono aqui nesta poltrona. Foi Deus que o trouxe, porque estou sozinho. Antónia foi esta manhã para Odivelas...

— Tem a certeza disso? — atalhou precipitadamente Eliot.

— Se tenho a certeza disso? que pergunta essa, doutor! Aqui está um bilhete de soror Paula Perestrelo, pedindo-me que deixasse ir a menina passar três dias com as suas amigas... Que tem? esse seu rosto incute-me desconfiança!

— Sr. doutor Xavier — disse o médico pausadamente — Vossa mercê tem a certeza de que soror Paula e soror Catarina aconselham honestamente sua sobrinha?

— Tenho a certeza que moralmente posso ter... Porquê? — A ansiedade do padre crescia à proporção que o médico exercitava uma calculada serenidade — Porquê? — instou Xavier.

— Sabe se essas senhoras aplaudiram ou favoreceram o galanteio da Sra. D. Antónia com o alemão Frisch?

— Nada sei; mas que temos nós com essa já esquecida puerilidade?

— Esquecida?!

— Sim... O padre Fr. André Guilherme deu-me a sua palavra de que era tudo acabado.

— Mentiu-lhe o frade.

— Mentiu? Não posso crê-lo, doutor. Juro-lhe que Fr. André Guilherme é incapaz de mentir.

— Então, sou eu o caluniador...

— Pode estar enganado, e seduzido pela aversão que tem ao frade.

— O meu dever é desmenti-lo... — redarguiu Isaac Eliot — porém, doutor, antes das provas, ouça-me, e perdoe-me já de antemão, porque eu sei que as feridas da minha alma, em vez de o apiedarem, vão irritá-lo contra mim. Comecei pelo mais repugnante da minha confidência, para que mais tarde a coragem me não falte. Eu amo sua sobrinha, amo — seja verdadeira em tudo a minha linguagem — amo sua filha, há três anos. Nunca houve paixão mais recalcada no peito, nunca homem algum fez maior esforço por afogar nas obscuras lágrimas os embriões de um amor fatal como o impossível, e pesado e angustioso como o grilhão dos forçados por toda a vida. Nunca ousei dizer-lhe meu nobre amigo, que amava sua filha; nunca ousei dizer-lhe a ela mais que umas tímidas e indefinidas palavras recebidas com a indiferença da inocência ou do desprezo. A minha tortura silenciosa era tanto maior quanto eu sabia que a Sra. D. Antónia amava outro homem; e que, apesar das aparências, a correspondência entre Lisboa e Berlim continuava todos os correios. Como deixaria eu de suspeitar e espiar esta correspondência, se eu, amando tão cegamente sua filha, esqueci os deveres de cavalheiro, e fiz-me espião do meu próprio martírio, não para me queixar, mas para me flagelar? Porventura, denunciei-a eu, Sr. Francisco Xavier? Não. Apenas, há pouco tempo, deixei-lhe suspeitar que os dois namorados se carteavam; e, quando vossa mercê desabridamente exigiu as provas, eu, refreando a vaidade e a paixão, respondi que não as tinha...

— E tem-nas? — interrompeu o padre grandemente exaltado.

— Lá vou, doutor. Não lhe mostrei então as provas, e já as tinha. Se eu sou incapaz de caluniar os meus inimigos, como havia de caluniar a mulher adorada, amada como esposa, como irmã, como filha, como criatura que se acendrara na frágua ardente da minha alma! Não mostrei as provas, porque era honra minha apresentá-las somente na última hora do perigo, quando entre o perdê-la para sempre e perder um amigo como o Sr. doutor Xavier me restasse o recurso supremo de os salvar a ambos, embora ficasse eu detestado dela para sempre. Eu esperava essa hora, e desgraçadamente...

— Diga!... — exclamou o padre arquejante.

— A hora chegou. Josse Frisch está em Lisboa...

— Em Lisboa! que me diz?!

— Se não estiver em Odivelas a esta hora... Por isso eu lhe perguntei se as duas freiras protegeriam o galanteio da sua filha.

— Eu vou mandar chamar Antónia a Odivelas! — bradou Francisco Xavier, erguendo-se da poltrona com dolorosos esforços.

— Espere! — contrariou Eliot — Nada de imprudências inúteis. A crise não urge tamanha precipitação. Se Frisch vem raptar sua filha, como presumo...

— Raptar minha filha!...

— Sim, se a vem raptar, não teve ainda tempo bastante para preparar a empresa..

— Mas eu vou já escrever ao corregedor, aos ministros de el-rei e ao próprio D. João V...

— Espere, doutor. Não escreva a ninguém. Conhece as leis portuguesas. Se o meirinho eclesiástico aqui mandar buscar sua filha, o remédio é entregar-lha para depósito. Confie-se em mim. Vossa mercê zela-a como pai, e eu, deixe-me dizer — tenho-a aqui no coração despedaçado, e sinto que para mim o final desta tragédia há de ser a morte; mas hei de morrer lutando enquanto o pai de Antónia me não disser: «Dou a minha filha a Frisch». Diga-mo já, que eu ajoelharei aos seus pés renunciando para sempre à mão da sua filha...

— Nunca! nunca darei minha filha a tal biltre!... Jesus! parece que a morte me estrangula... mas... como sabe que ele a vem raptar?...

Eliot tirou de uma carteira duas cartas. Abriu a primeira, e ofereceu-a ao padre.

— É a letra de Antónia — disse Xavier.

E leu sofregamente.

Nesta carta havia os seguintes períodos:

Bem me custa dar o passo da fuga; queria não dar esse desgosto ao meu tio que está doente e acabado; mas, se não há outro meio de nos unirmos, cumpra-se o destino, meu querido Josse.

Vivo muito aborrecida, muito saudosa e desgraçada. Desde que meu tio me fala em casamento, volto a sentir por ele a repugnância que lhe tinha em pequena. A morte do meu pai foi uma calamidade enorme. Tenho tutor; mas nem sequer o conheço; estou sujeita a este padre que tem impertinências insofríveis. Se me aceitassem em Odivelas, eu iria parra lá até que tu voltasses a Lisboa... Vem depressa, meu amado, vem depressa resgatar-me deste cativeiro... Se te demoras, receio que me encontres morta...

— Esta carta é escrita por Antónia! por ela! pela minha filha, que eu adorava! Ó ingrata! ó perdida! — exclamava o padre a gritos desentoados lavado em lágrimas, com a mão direita apertada ao coração.

— Coragem, doutor! — acudiu Isaac Eliot — Chore porque a razão das lágrimas é sagrada: mas não desanime, não se tema de que lhe roubem a filha, enquanto o meu braço ou o meu cadáver puder ser um baluarte contra o ladrão. Agora, aqui tem uma carta de Josse Frisch para sua filha.

O padre não a pôde ler de cego pelas lágrimas.

Leu Isaac a parte mais positiva e menos lírica da carta. Dizia assim:

Obtive que a Academia me envie a estudar o reino vegetal na Península. Aceitei a comissão como pretexto pura que o meu honrado pai não desconfie dos meus intentos. Quem aí me chama és tu, minha adorada Antónia, meu primeiro e último amor. Não me chama tua riqueza, e hei de justificar-me aos teus olhos e aos do mundo trazendo-te, meu querido tesouro, para a minha pátria, e levando-te aos pés do sacerdote enfeitada com as joias da minha mãe. Os poetas são metidos a riso pelo seu desprendimento das realidades que se pesam no balcão das bestas que injuriam a inofensiva independência das almas bafejadas pelo ar fragrante do céu...

Eliot interrompeu-se para interpor esta observação:

— Veja que tolo este! que maravalhas aqui vão, doutor! com este cascabulho de palavrório que os tais poetas embelecam os incautos espíritos das crianças!

— Leia, leia! — disse o padre impacientado com o comento.

O médico começava um novo período; e, se o achava poético e inútil ao ponto essencial do rapto, passava adiante, dizendo:

— Trapalhadas — barafundas — asneiras!

Afinal topou com o derradeiro que era o mais expressivo:

A hesitação da tua última carta a respeito da fuga diz-me o Coração que já te não prende, Antoninha. Confia-te a mim, que devo ser o teu mundo. Se eu sou a tua vida, como nesta carta me dizes, as considerações que te estorvam de fugir parece que dizem o contrário. Se tivesses um pai adorado ou mãe estremecida, infame seria eu se quisesse deslumbrar esses santos amores. Mas eu sei que pelo teu tio apenas sentes amizade, e pela senhora do convento a tua ternura, minha querida Antónia, é a necessidade que tens de acariciar no seio do teu coração órfão aquela religiosa que te chama sua filha e te beija com um ardor que te era desconhecido.

O médico regougou uns sons nasais, que significavam estar lendo de fugida períodos de frioleiras. O padre, erguendo a cabeça de sobre as mãos em que a descaíra, disse impetuosamente:

— Tenho visto... Dê-me essas cartas...

— Aqui tem as cartas; mas, se me permite, pergunto o que tenciona fazer com elas.

— Não sei, hei de pensar... Primeiramente, vou mandar buscar Antónia...

— E depois? tenciona fechá-la à chave num quarto para que o alemão a não veja!

— O alemão! — respondeu o padre fremente de cólera — o alemão, se aparecer nos arredores desta casa, há de ser espingardeado; e ela... pois que pensa o doutor? ela, se me resistir, se tentar fugir, amarro-a a uma argola de ferro como se faz a uma negra. A desaforada! ousar dizer ao amante que não podia sofrer as minhas rabugices! e autorizá-lo a dizer-lhe a ela que sente por mim apenas amizade!...

— A paixão desvaira-o, Sr. doutor Xavier... — contraveio Isaac Eliot em tom de mágoa — a sua filha não deu motivo a que vossa mercê lhe chame desaforada. Esse epíteto quadra somente às mulheres impudentes. Se Antoninha o não amou, como as filhas amam, quem teve a culpa? A culpa teve-a quem lhe ensinou a dar o mágico e dulcíssimo nome de pai a um que não o era. A palavra e não a natureza é que gera a ternura filial. O carinho e a convivência de quatro anos com o seu irmão Paulo alhearam de vossa mercê o coração da sua filha. Apelo, em nome dela, para a sua alta sabedoria e brilhante razão, doutor!

— Defende-a?! — retorquiu o padre. — A boas horas me vem com esses argumentos, Sr. Eliot!... Vamos ao que importa, que é evitar que Antónia fuja... O primeiro passo é tirá-la de Odivelas...

— Se ela correr perigo lá, isto é, se Erisch a procurar em Odivelas; mas é mais natural que a procure aqui; e, nessa hipótese, o mais acertado é deixá-la lá estar os três dias pedidos, e os mais dias que for necessário, até sabermos o destino do prussiano. Se me dá licença, vou hoje a Odivelas; verei as duas religiosas e Antoninha. Ao primeiro lanço de vista, lerei no íntimo de todas.

— Faça o que quiser... — condescendeu secamente o padre, quebrado por desânimo profundo e pelas interiores angústias do coração congestionado.

O médico tomou-lhe o pulso, e murmurou:

— Não está bem isto... Se se deixar esmagar pelo ligeiro infortúnio porque está passando, meu querido amigo...

— Quer dizer que morro?... — acudiu o padre aflito.

— Pode morrer...; e, se tamanha desgraça sucede, eu não verei o resto, porque vou imediatamente para França, visto que perdi o meu primeiro e único amigo; mas, depois, a sua filha e a sua riqueza... serão de Frisch.

— Isso é atroz! — rugiu o bisneto de Maria. Isabel Traga-malhas — isso é atroz, doutor... Não quero morrer! não me deixe morrer! Salve-me segunda vez... peço-lhe com as mãos postas...

Eliot abraçou-o; e, falseando a comoção, balbuciou:

— Não morrerá!... mas reaja, esforce-se, abra o peito a um raio de esperança... pense na felicidade de ainda ver sua filha casada com um homem digno, um homem em cujos braços vossa mercê possa reclinar-se como está nos meus...

Francisco Xavier olhou a fito no rosto do médico, cingiu-lhe um braço à volta do pescoço, tirou-o para si enternecidamente, e disse:

— Quer casar com a minha filha, doutor?

— Se eu pudesse chorar, responderia — tartamudeou Eliot.

— É supérflua a pergunta e a resposta... Sabe como eu adoro sua filha; mas nenhum de nós sabe se ela me odeia. A certeza de que eu me faria amar à custa de idolatrias e carícias, essa tenho-a eu. Estremecê-la-ia como pai, porque ela tem quinze anos, e eu trinta e seis. Aconchegá-la-ia do meu seio em raptos de amor louco, de paixão delirante!... Oh! Sr. Xavier! se eu ainda velarei os dias ditosos da sua velhice com os desvelos de filho!...

— Eu dou-lhe Antónia!... — repetiu o padre com entusiasmo, com alacridade, escandecido o rosto de súbitas exaltações, e os olhos cravados, fascinados, no rosto do médico. E prosseguiu a vozes intercaladas pelo ofegar da respiração enferma: — Se ela o não ama, amá-lo-á quando o conhecer... É uma criança... Naquela idade os corações são de cera... O ardor de uma afeição faz delir as imagens que lá deixaram as outras... O doutor há de saber fasciná-la; verá, desde que for sua mulher, como ela o estima... O amor virá depois... É sempre assim... Sei centenares de exemplos...

— Mas... — interrompeu Eliot.

— Que é?...

— Violentá-la... impor-lhe um marido!... E, se ela me desprezar as Lágrimas da paixão... Se se deixar morrer de inconsolável tristeza...

— Não sabe nada do coração humano... — replicou o padre.

— Homem! tenha orgulho, tenha confiança em si! Veja que venceu o mais soberbo dos pais, o homem que projetava dar a sua filha uma coroa de marquesa!... E receia não dominar um ente fragilíssimo... uma rapariga de quinze anos!...

— Pois bem! — exclamou Elliot, como sacudido por inopinado impulso — Serei o marido da sua filha! — E, ajoelhando, beijou a mão do padre.

CAPÍTULO XXXIV

 

O defunto boticário prometera a Josse Frisch indagar a residência do padre Francisco Xavier, e nessa fingida diligência saíra da botica, despedindo-se do patrício, quando foi procurar Eliot.

Voltou o prussiano três vezes nesse dia à Cordoaria Velha.

O praticante Valebelt esperara o patrão para jantar ao fim da tarde; e no dia seguinte, e nos três sucessivos Josse Frisch passou o mais das horas acantoado na botica, à espera do seu conterrâneo. O praticante não denotava grande estranheza do caso. Dizia ele que o seu patrão, às temporadas, ia luxuriar nas relvas de Queluz com alguma sécia escolhida na rua dos Vinagreiros ou nas encruzilhadas dos «Fiéis de Deus», e por lá se mantinha espojando-se em cabriolas de parçaria com Baco e Vénus.

Ao quarto dia, quando o prussiano aconselhava o praticante a pedir notícias do patrão pela Gazeta de Lisboa, entrou na botica Henrique Rutier, e perguntou ao rapaz:

— Está cá o Sr. Jácome?

— Não, senhor. O meu patrão saiu há quatro dias e não voltou.

— Foi à terra? ou está fora da terra?

— Não sei dizer-lhe. Ninguém sabe onde ele está. Agora mesmo me dizia aquele senhor que botasse um anúncio na Gazeta.

— E lembrou bem: ou pedi-lo pela Gazeta ou responsá-lo a Santo António da Sé.

E, gracejando, reparava na pessoa indicada pelo praticante.

Reconheceu-o.

— Este senhor não é português — disse Rutier, cortejando Frisch com um ademão cavalheiroso.

O prussiano, como visse um homem bem maneirado, de capa e volta, cabeleira e espadim, correspondeu ao cumprimento erguendo-se, e respondeu:

— Sou estrangeiro.

— Logo me quis parecer — volveu Rutier em francês — A cor da sua epiderme e dos seus cabelos afirmam que tenho a honra de falar com um vassalo da sua majestade Frederico III da Prússia; e não seria grande penetração conjeturar a nacionalidade do cavalheiro, encontrando-o na botica do honrado prussiano Jácome Valebelt.

— Sou prussiano — disse laconicamente Josse Frisch.

— E eu sou francês. O Sr. viaja?

— Viajo.

— Escolheu má terra. Portugal não tem que ver nem que estudar. Há muitas festas de igreja. Gosta de festas de igreja? de novenas? de lausperenes? de jubileus? Tem disso todos os dias. Teatros aqui é coisa que ninguém vê e ouve sem o desejo de ser cego e surdo. Lisboa é uma cidade velha e corrompida, mas feia como as velhas corruptas. Os estrangeiros, que aqui aportam por engano, morreriam de fome, se não existisse a hospedaria francesa do largo dos Remulares. Isto aqui são as ruínas da Mesopotâmia cheias de camelos. Esta gente é selvagem, e veste-se à francesa, porque o país é frio. Se nascessem na África, andariam de tanga. O gentio baixo traja capote com que encobre o arcabuz que aperra aos viandantes assim que anoitece. De noite é perigoso sair quando não há lua. As ruas de Lisboa são canos de esgoto, escuras como as masmorras da Cova da Onça. Enforca-se gente todas as semanas. Quando descansa o carrasco, trabalha a Inquisição. Digo-lhe isto na minha língua. Se lho dissesse na deles, este rapaz ia denunciar-nos: eu era queimado porque falei, e o senhor era queimado porque não falou. As mulheres são boçais e canhestras. Os maridos, quando sabem que elas farejam amante pelos raros das adufas, esganam-nas, e depois, ou fogem, ou são degolados.

Aqui a melhor sociedade é a dos sapateiros, porque são quase todos franceses...

— Está em Portugal há muito tempo? — interrompeu Josse Frisch.

— Há dez anos.

— Admira que se afizesse a tão ruim terra...

— Entretenho-me a analisá-la, tapando o nariz, como meu amo, o Dr. Isaac Eliot faz quando corta cadáveres apodrecidos. Estou aqui por afeição ao grande médico francês. Nunca ouviu nomeá-lo?

— Ouvi.

— Talvez em Berlim? Há ano e meio que aqui estiveram em Lisboa dois sábios prussianos, João Frisch, e o seu filho Josse. Estes sapientíssimos viajantes frequentavam a casa do Dr. padre Xavier, onde o Sr. Eliot concorria também. Talvez esses alemães levassem a Berlim a fama do grande médico... Pois, senhor, brevemente sairemos de Portugal. O Sr. Eliot casa um destes dias com uma das mais ricas herdeiras de Lisboa, com a sobrinha do tal padre Xavier. Feito o casamento e liquidado o dote que monta a 400 000 francos, ou 150 000 cruzados na moeda de cá, safamo-nos. Pechincha, hein? E noiva galante, uma franga de quinze primaveras, capaz de destilar em sonetos quinze poetas.

E cascalhou uma gargalhada.

Neste momento, Josse Frisch ergueu-se de golpe, deu um passo para Henrique Rutier, e perguntou:

— Conhece-me?

— Se o conheço? nunca o vi!

— Se me conhece, e tem a coragem de deixar cair a máscara de infame jogral, escarrarei na cara do lacaio de Eliot.

Rutier levou a mão ao punho do espadim, e Frisch abocou-lhe uma pistola à cabeça.

O assassino do guarda das galés e do boticário inerme enfiou, tremeu e gaguejou:

— Eu que mal lhe fiz, cavalheiro?

Frisch saiu da botica. Ia sereno, o pulso batia-lhe as pulsações pausadas da coragem honrada; mas as lágrimas trasbordavam-lhe do coração.

Era hóspede do padre Rafael Bluteau. O professor universitário João Frisch lograva tal nome que até em Portugal ganhara admiradores. Aquele célebre teatino, então nonagenário, prezava o filho do seu amigo, que conhecera em Paris, quando, acérrimo parcial da rainha Maria de Saboia, teve de retirar-se para França.

Josse não revelou a Bluteau o intento secreto que o trazia a Lisboa; porém, quando o coração lhe estalava à míngua de desafogo, depois do conflito com o facinoroso pajem de Eliot, desvendou o mistério das suas lágrimas ao ancião. Bluteau quis indagar em qual das quintas vivia o padre, quis escrever-lhe e até ir pessoalmente procurá-lo.

— Mas que irá v reverência dizer-lhe? — perguntou o jovem. — Pedir ao padre que seja por mim contra a ingratidão da sobrinha?

— Irei pedir-lhe que...

— Não há que pedir, senhor! Eu não venho a Lisboa solicitar a piedade de Antónia: venho simplesmente dizer-lhe que eu jurara por alma da minha mãe ser-lhe fiel. Quero vê-la rosto a rosto; mas desejo vê-la já casada para que ela não pense que eu venho obrigá-la pelos seus juramentos. Se há alguma coisa mais poderosa que a minha desventura é a minha dignidade.

— Com tão nobre espírito — obtemperou o teatino — a mais extremada dignidade, o complemento da honra, é perdoar e esquecer.

— Perdoar, posso; esquecer, não. A religião manda-me perdoar; mas permite que a saudade me atormente, depois que a ferida da afronta estiver fechada.

Bluteau, sabendo que Francisco Xavier residia na quinta de Camarate, informou o hóspede. Absteve-se de o aconselhar, porque fiava muito da prudência do jovem, e bastante das distrações científicas. Prometia-lhe apresentá-lo na Academia dos Anónimos, na Academia dos Aplicados, na Academia latina e portuguesa, na Academia Real da História, nos saraus eruditos do 4° conde da Ericeira, etc. O douto velho imaginava que nenhuma paixão de amor, por mais de ferro que fosse, ousaria resistir àquelas diluentes academias.

No entanto Josse Frisch, avençado com um servo do convento de S. Caetano, onde era hóspede, averiguava em Camarate o dia do casamento de Antónia Xavier. O informador peitado era o quinteiro ou feitor da quinta dos Nobres.