A Caveira da Mártir
Capítulo XXX · Por este tempo recolhia ao seu convento…
Por este tempo recolhia ao seu convento o sobrinho de D. Feliciana com as esmolas colhidas Entre Douro e Minho para resgate de cativos. O padre redentor Fr. José de Paiva, muito afeiçoado ao virtuoso André Guilherme, pedira ao provincial que lhe cedesse como companheiro à moirisma aquele operário de vontade fervorosa e forças juvenis que o adjuvassem na sua cansada velhice.
Deferido o requerimento, o mestre de Antónia apenas poderia deter-se oito dias na capital, enquanto se aprestava para a viagem a nau de guerra Nossa Senhora da Lampadosa.
Visitando a mãe e as irmãs, soube que o padre Francisco Xavier e a sobrinha passavam o estio em Camarate, por causa da enfermidade de Antónia, que não prometia longa vida. Uma irmã de André, casada com um abastado mercador chamado Alberto Borges — e a mais íntima de Antónia — segredou ao irmão uma história de amores, como origem da doença.
— Deve ser perigosa doença quando se tem o coração bem formado — observou o jovem trino profundamente recolhido. — Irei vê-la amanhã. Tens lá ido com as tuas irmãs?
— Algumas vezes, desde que as Caldeironas deixaram de ir; mas o médico francês, que lá está sempre, mostra-nos tão má cara que o meu marido a muito custo me deixa ir, e a nossa mãe desgosta que as filhas solteiras lá vão. O tal Eliot dizem-se por aí dele horríveis coisas...
— Deus sabe o que é verdade — atalhou Fr. André.
— E não corre por aí que ele casa com Antónia?! Será possível?
— Nem sequer é extraordinário.
— Um homem que andava aí a passear na corte com uma concubina...
— Assim dizem; mas não repitas os boatos que correm à conta do francês. É caridade ouvir em silêncio, e pedir a Deus que encaminhe os transviados...
— Então já sabias que aquela francesa não era mulher dele?
— Não sei nada certo, minha irmã. O que me dizes da doença de Antoninha pesa-me muito; mas se tão cedo os desgostos a mortificam, bom será que o Senhor a chame na idade dos anjos.
Quando Fr. André transpôs o portão da quinta chamada «dos Nobres» estavam o padre, Antónia e o médico no patamar da escadaria à hora de sesta.
Eliot viu-o primeiramente, e disse:
— Olá! temos frade!...
Antónia, como nunca vira André Guilherme com hábito, e a distância era grande, não o reconheceu logo; porém, tanto que Francisco Xavier conjeturou quem fosse o frade, a doente ergueu-se de golpe, galgou os degraus, e correu ao encontro de Fr. André com as faces rutilantes de júbilo febril. Ia abraçá-lo, quando ele a susteve tomando-lhe as duas mãos; e, abaixando-as com branda violência, disse com a voz trémula de comoção:
— Como está senhora perfeita a minha discípula!... Julguei que vinha encontrá-la enferma!... Louvado seja Deus, as cores são excelentes; e quem assim corre decerto pode fugir à doença!
— Venha de lá, esse abraço, Sr. Frei André! — exclamou o doutor Xavier descendo a coxear alguns degraus para recebê-lo nos braços.
O trinitário abaixou a cabeça a Eliot, que lhe correspondia com certo jeito de gravidade mais ofensiva que o menospreço. E a fim de lhe patentear sem demora a sua desconsideração, Eliot, estomagado ainda por amor das Caldeironas, despediu-se logo, relançando-lhe um olhar de través.
O frade não pôde reter uru gesto de espanto quando viu de perto o aspeito doente e lívido do padre.
— Tem padecido, Sr. doutor?! — perguntou ele.
— Bastante desde que a nossa Antoninha sofre; mas o doutor Eliot não faz grande caso disto. O que é, está aqui; e, a falar verdade, não está em bom sítio... — e, dizendo, apontava o coração, e tirava a custo respirações fundas. — Ponto é que a pequena se restabeleça, que eu, à proporção que ela for ganhando a antiga saúde, irei também arrijando.
— E a menina que sofre? — voltou o frade — As cores são tão boas!... Que lhe dói, Sra. D. Antónia?
— Nada... — respondeu ela, sorrindo daquele triste modo que têm os risos, se as lágrimas ao mesmo tempo ressumam nas pálpebras.
E ficaram largo espaço silenciosos. Antónia voltara o rosto para esconder as lágrimas. O padre lia no rosto compassivo de Fr. André o mesmo receio que o excruciava, quanto à doença fatal da filha.
— Vamos para dentro que o calor aperta — disse Francisco Xavier movido por súbita ideia.
Antónia seguiu-os; e, quando eles começaram a falar da próxima saída dos trinos à redenção dos cativos em Mequinez, a menina saiu para avisar a despenseira de que havia um hóspede...
— Hóspede por três dias; não sou um simples hóspede de um jantar — disse Fr. André Guilherme.
— Sim?! — exclamou Antónia — Graças a Deus que vou ter três dias alegres no campo!
Quando voltou, o quarto do padre estava fechado por dentro, e Fr. André com ele em conversa de que apenas se ouvia fora um murmurinho.
Estava Xavier contando a Fr. André o caso amoroso de Antónia com o filho do protestante João Frisch. Contava o que sabia, que era tão somente o exórdio da história; mas Presumia sabê-la toda, exceto a impressão que o prussiano deixara na alma da filha.
— Não sei; — juntava o padre — mas o doutor Eliot dá-me a entender que o amor da pequena foi mais grave do que eu pensei, e deixa-me suspeitar que há ou houve correspondência... Eu não posso acreditar que uma criança tivesse coração capaz de um amor sério nem força para se rebelar contra a minha vontade.
— Mas que rebelião houve?
— Que houve? ora imagine uma correspondência... talvez um plano de se casarem contra minha vontade, quando ela for maior ou eu descer à sepultura...
— Isso não é rebelião! — contrariou o frade.
— Não é?!
— É submissão.
— Fr. André continua a exercitar o seu engenho no sofisma da aula de filosofia? — perguntou Francisco Xavier entre risonho e agastado.
— Não, senhor; eu professo a verdade do sentimento e a da expressão. Se a Sra. D. Antónia se rebelasse contra seu tio, não esperaria pela maioridade, nem pela morte dele. Tem quinze anos, tem um património indisputável, e tem a lei que em Portugal franqueia facilmente a evasão das mulheres que escolhem maridos repugnantes aos pais ou tutores. E, pois que a Sra. D. Antónia continua submissa ao seu tio, não se rebelou — submeteu-se se vossa mercê chama rebeldia à paixão paciente e muda que se entranha e chora, desacerta a palavra, ou quer ser nos actos morais da sua sobrinha uma segunda consciência. A Sra. D. Antónia, se padece por amor de alguém, e em silêncio devora a sua saudade, é um raro exemplo de obediência nesta cidade onde todos os dias voga a notícia de um casamento judiciário.
— Mas o receio que me atormenta hoje é... perdê-la, Fr. André!... perdê-la... ou ma leve um marido, ou a morte!... Faça-me um favor... Arranque o segredo ao coração de minha... sobrinha... saiba o que é que a mortifica... desengane-me.
— Não me pede um serviço honesto, Sr. doutor Xavier — disse com urbana austeridade Fr. André — Nada perguntarei a sua sobrinha do foro íntimo. Isso pertence ao seu diretor espiritual, e ainda assim com reservas que respeitem a inviolabilidade de terceiros. Se a Sra. D. Antónia, que eu prezo como a minhas irmãs, me disser o que vossa mercê ignora, o Sr. Xavier continuará, a ignorá-lo, salvo se a revelação denunciar um perigo que eu só por mim não possa remediar.
— Pois bem, Sr. Fr. André Guilherme faça de conta que ela é sua irmãzinha. Aconselhe-a, desfaça-lhe as quimeras perigosas. Lembre-lhe que é muito rica...
— E que importa ser muito rica?
— Importa que eu medito dar-lhe marido de família ilustre, abrir-lhe as portas de todas as casas onde a vida se passa alegremente.
— A felicidade não é isso — replicou Fr. André — Vossa mercê por aí andou, e saiu de lá desgraçado. Eu não direi a sua sobrinha que é rica de dinheiro enquanto ela me parecer rica dos tesouros da virtude. Perdidos estes, dir-lhe-ei então que é rica da moeda com que se podem resgatar culpas convertendo-a em remediar desgraças alheias, estancar lágrimas, fechar abismos para os quais a desesperação arremessa muitos criminosos.
— Ó Fr. André — atalhou o padre — conversemos um pouquinho mais humanamente. Não vamos nessa toada dos Exercícios espirituais do padre Afonso Rodrigues da Companhia. Eu desejo que a minha sobrinha seja virtuosa; mas não pretendo encarreirá-la no beatério. Quero-a boa para o próximo; porém desviá-la-ei de se imolar ao remédio dos outros, privando-se das regalias do seu património. Que pensava o Sr. padre Fr. André?... que eu folgaria de ver os bens dos meus passados aí convertidos pela minha sobrinha na fundação de algum convento de freiras? Não, senhor. Protesto contra quem lhe incutir semelhante desperdício de juízo e de dinheiro...
— Vossa mercê é que está desperdiçando palavras... — contestou Fr. André com o rosto jovialmente sossegado — Eu não aprovo nem reprovo que a Sra. D. Antónia funde mosteiros de religiosas; mas reprovaria (se me dessem ousio para tanto) que ela fundasse uma família irreligiosa e eivada de origem ruim. Como vossa mercê me disse que lhe procura marido ilustre a fim de lhe abrir as portas da alegria, eu hesitei — mas não o disse — em dar como acertada a escolha de um marido fidalgo, posto o intento simplesmente na vida alegre que vive a nossa fidalguia no tempo atual se vossa mercê me dissesse que procurava para sua sobrinha marido virtuoso a fim de a felicitar com os contentamentos da virtude, um tal propósito parecer-me-ia melhor escolhido...
— Quer então que eu vá a Lisboa com a lanterna de Diógenes?...
— Não, senhor. Parece-me, porém, prudente que vossa mercê não se apresse a procurar marido às escuras, abrindo concurso a opositores à posse do património da sua sobrinha. Afirmo-lhe que Diógenes, se voltasse hoje ao mundo, apagaria a lanterna como coisa inútil. Queira dizer-me, Sr. doutor Xavier. Não roa a palavra... O processo é este: o pretendente expõe o seu direito ao Vigário geral; este manda comparecer a noiva na sua presença; e, se o que ela diz frisa com a exposição do noivo, recebem logo ali licença de se casarem». Descobriu más qualidades nesse estrangeiro que a sua sobrinha amou? Seria indigno dela? Quem sabe se a felicidade, que este mundo pode dar, a daria ele à Sra. D. Antónia?
— Essas perguntas não me parecem suas! — atalhou o padre — Estou espantado, Fr. André Guilherme! Que quer concluir?
— Concluo, Sr. doutor, que seria prudente indagar se o estrangeiro é honrado, se a sua sobrinha o ama, se ele merece tal amor; e depois...
— E depois?!...
— E depois... deixá-los casar.
— Está muito verde! — exclamou o doutor disfarçando a zanga com uma risada áspera — Afinal, frade! completo frade! Os senhores formam lá na sua imaginação um mundo para o seu uso particular. Já por lá andei, já por lá andei, padre André Guilherme!... Isto cá, fora dos umbrais do mosteiro, é outra vida; as coisas configuram-se de outro feitio. Ninguém dá uma menina com cento e cinquenta mil cruzados a um valdevinos que se viu duas ou três vezes, e teve artes de cativar uru coração inocente com versos. A moda dos Macias namorados não pega segunda vez. — E cessando de rir, prosseguiu: — Mas, fale-me sério, Fr. André! Acha que eu devia privar-me de Antónia, dar-lhe o seu dote, e entregá-la assim ao filho de um sacerdote calvinista, vê-la ir para a Prússia, e... adeus... lá vai... acabou-se! Isto depois de tocar as fronteiras da velhice, sem ter tido juventude, sem ao menos ter conseguido ser amado desta criatura, que tem sido o flagelo do meu coração, como o Sr. padre André Guilherme sabe! Ora, pelo amor de Deus! Não é forçoso que os desgraçados sejam também parvos. Seria estúpida e criminosa tolerância deixar-me eu ir a sabor da vontade de uma rapariga que se apaixonou pelos sonetos e pelos cabelos louros de um forasteiro! Casá-la! essa é boa, Sr. Fr. André! Dar uma menina formosa e um saco de ouro ao primeiro adventício!... Ainda não endoudeci!... Se ela endoudecer, a minha obrigação é medicá-la, não é casá-la... Mas não tenho medo da loucura de Antónia. Está curada... Se sofre, não é disso; é porque a sua compleição é fraca. Não come nada, nem obedece ao médico... Quer morrer? morra muito embora, que morto estou eu já, e mais me pesa sobre o peito o futuro dela do que há de pesar a pedra da sepultura...
Nesta variação de expressões agora magoadas logo irónicas, umas vezes envenenando o sorriso, outras embebendo as lágrimas no lenço, discursou largo tempo o doutor Francisco Xavier sem ser interrompido. Fr. André escutou-o com os braços cruzados sobre a cruz escarlate do hábito branco, até que ele concluiu desta forma:
— Enfim, meu amigo, converse com Antónia, aconselhe-a, sonde-lhe o coração, veja se lá descobre o que ela esconde de mim como da mais indiferente pessoa do seu conhecimento. Se o Sr. Fr. André Guilherme a encontrar disposta a aceitar esposo, eu lhe darei azo de o escolher entre os que mais podem lisonjeá-la.
— Não é de esperar — disse o trinitário — que os pretendentes se ofereçam à eleição do Sr. doutor Francisco Xavier e da noiva quando é fama que o cirurgião Eliot, que se supunha casado, será o esposo da Sra. D. Antónia...
— Isso não tem fundamento nenhum — contraveio o padre nada irritado e ligeiramente admirado do boato — O doutor Eliot nunca pensou em tal casamento, nem eu, nem minha sobrinha. Esses planos não se escondem nem disfarçam; nem o meu prezado Eliot, que é a honra em pessoa, ousaria calculá-los a ocultas de mim. Ele sabe que eu o prezo tanto que lhe não levaria a mal apaixonar-se pela sobrinha do homem que lhe deve a existência. Além de quê, tenho observado que o doutor com Antónia é sério como um severo parente, e ela pela sua parte, se o não aborrece, decerto o não ama. Como estas fábulas se inventam em Lisboa!... Talvez lhe dissessem, Fr. André, que o Isaac Eliot quer casar com a Leonor Caldeirão... Dessa sei eu que está ele cativo e enfeitiçado; e razão tem, se a formosura é bastante razão para que os homens desnorteiem e naufraguem no casamento... Pena é que aquela tão linda menina seja irmã das outras... Foi dela provavelmente que Fr. André ouviu falar, ou quem lho disse trocou o nome da minha sobrinha pelo da outra...
— É possível — condescendeu Fr. André Guilherme — todavia, não é natural que diversas pessoas se enganassem juntamente. Entretanto, Sr. doutor, se um dia Isaac Eliot lhe pedir sua sobrinha, rogo-lhe com as mãos erguidas que... não lha dê.
— Porque me diz isso com tanta veemência? — acudiu o padre.
— Se eu não sei dar a razão porque o sinto, mal poderei dizer-lhe a razão porque lhe peço que não case Antónia com Eliot.
— E deu a entender ainda agora, que a desse ao prussiano!... Não percebo!... Fr. André tem ares de vidente; e, se vai nessa esteira, perde-se nas restingas da visionice!... O meu fradinho, não adelgace tanto o espírito! Lembre-se que a carne é três partes da natureza humana...
André Guilherme, contemplando serenamente o ex-varatojano, disse entre si:
— Se Deus é misericordioso com as irritações dos grandes desgraçados, com que direito lhe perguntarei eu se perdeu o juízo?
CAPÍTULO XXXI
Depois de jantar, o filho de S. João da Mata, emboscando-se com Antónia na floresta da quinta, pediu-lhe que contasse como a um irmão extremoso as suas mágoas, se sentia necessidade de conselho ou de consolação.
A menina começou com a eloquente e íntima confissão das lágrimas.
— Assim, não quero, Antoninha — disse o padre — Chorar choram as pecadoras; a inocência ignora, não peca. Antónia quer dizer-me que ama um jovem estrangeiro, contra vontade do seu tio. Deseja esquecê-lo, e não pode...
— É verdade... — interrompeu Antónia soluçante — não posso esquecê-lo, e... tenho-lhe ódio... porque me enganou... vilmente.
André Guilherme estremeceu, fez-se lívido, e articulou sufocado:
— Como?... Enganou-a!... que diz, Antónia?!
O frade entendera a palavra com a intenção que usa dar-lhe a mulher do povo — expressão simples que significa a desonra com que a infâmia paga a confiança numa promessa. A filha de Catarina ignorava o sentido triste e plebeu do vocábulo, e era justo portanto o espanto que lhe fizera a desfiguração, o pasmo, o anseio interrogador do seu querido mestre.
E quando ele, aturdido com o silêncio de Antónia, repetiu:
— Enganou-a?... pois a menina...
Ela, sem ainda compreender a agitação do frade, ampliou o queixume:
— Jurou que eu havia de ser sua esposa, jurou-mo pela alma da sua mãe, e mentiu cruelmente...
— Mas... — redarguiu o trino ainda incerto e embaraçado na delicadeza da investigação — essa promessa era feita de viva voz ou por cartas?... Conversavam e carteavam-se?
— Sim...
— Conversavam... onde?
— Na sala das visitas.
— Quando seu tio saía?
— Nunca lhe falei senão na sala em que estava meu tio.
— Ah!... — exclamou Fr. André Guilherme, com tal ímpeto e desafogo que a exclamação parecia um grito de júbilo.
E, voltando ao seu natural meigo e ao mesmo tempo circunspecto, prosseguiu:
— E razões fortes teria esse rapaz para violar o sagrado juramento por alma da sua mãe? Seria obrigado pela autoridade do pai? Que motivo deu ele?
Antónia tirou da algibeira da saia de cetim branco matizado de flores um maço de cartas e disse lagrimosa:
— Aqui tenho as cartas todas e os versos. A última que recebi é esta — e entregou-
lha.
Leu o jovem a carta falsificada por Henrique Rutier, e disse:
— Este homem amá-la-ia, Antoninha? Veja lá que não se iludisse, menina...
— Porquê? — interrogou ela com espanto.
— Acho esta carta escrita com extraordinário juízo. As pessoas que amam raciocinam menos discretamente. Verdade é que ele por aqui fala na Parca; — prosseguiu o frade, sorrindo, enquanto no espírito atento de Antónia raiava uma luz que ao mesmo tempo lhe iluminava o entendimento e queimava o coração. — Porém que medo ou desejo pode ter da morte este prudente jovem que não só deixa de casar para obedecer ao pai, mas também não quer que as cartas de Antoninha vão perturbar a sua felicidade, e para isso recomenda que não lhe responda? Menina, este homem não lhe merece as lágrimas, nem as saudades. As paixões infelizmente podem mais que os deveres. Se Josse Frisch — continuou o padre Fr. André, lendo a assinatura da carta — em vez de obedecer ao seu pai, resistisse rebeldemente, e escrevesse neste papel injúrias contra a tirania paterna e arrebatados protestos de eterna firmeza no seu amor, então, Antoninha, dir-lhe-ia eu: «Este rapaz não é bom filho, porque desobedece; mas pode ser bom esposo, porque ama.» Porém, à vista desta carta, não hesito em lhe afirmar que a pessoa que isto escreve era um impostor quando lhe escreveu outras com fingida sensibilidade.
Fr. André Guilherme, convencido das razões que expunha e da conveniência delas, demorou-se pensando em todos os argumentos no propósito de começar assim a aliviar as mágoas da saudade, chamando a dor ao amor-próprio. Entendia assim o esperto frade que as doenças da alma ganhavam com o sistema derivativo dos vesicatórios nas dores do corpo.
A suposição saiu-lhe bem lograda. Antónia replicava-lhe com as poesias e as cartas anteriores à última. Das poesias, posto que bem feitas, ria delicadamente o frade, como sempre riram, e hão de rir, enquanto o mundo for mundo, todos os frades e leigos e até os próprios poetas chamados a julgar pleitos de amor sobre tais documentos. Quanto às prosas, dizia o mestre de Antónia Xavier que eram escritas com a mesma pena que rabiscara os poemas, e mereciam igual crédito, desde que o poeta se desmentira na última carta, que era a primeira sinceramente escrita.
Quando Antónia defendeu derradeiramente a sua saudade com o argumento das lágrimas, Frei André recorreu às consolações religiosas, contando com o triunfo nesse campo. A menina, percebendo o pensamento do seu mestre imperfeitamente, disse que de muito boa vontade iria professar em Odivelas.
— Não lho aconselho — contestou Fr. André. — A menina pensa que eu lhe lembrei a religião dos mosteiros como remédio à sua dor; não, Antoninha: a religião que lhe aconselho é a de fosso Senhor Jesus Cristo; é a religião que se exercita no seio da família, na obscuridade do lar doméstico, na dedicação às pessoas que nos amam. Se Antónia tivesse mãe e pai não praticaria o desamorável acto de os deixar e fazer-se freira, vingando-se neles da ingratidão desse estrangeiro. Não tem pais, mas veja que está aí seu tio, com o coração cheio do amor de pai e de mãe...
— É verdade... — balbuciou Antónia.
— E que rosto desfeito e doente lhe encontro! O seu tio parece-me muito ameaçado do próximo fim!...
— Disse-me o doutor Eliot que o meu tio pode morrer de um momento para o outro por causa de uma lesão no coração. Choro com pena dele, porque já me disse que sentira formar-se a lesão, que o há de matar, uma noite, que passou à cabeceira da minha cama, e pensou que eu estava em agonias da morte.
— Aí tem forte motivo e sagrada obrigação de não afligir seu tio...
— Mas... — contraveio Antónia — o que eu queria era que o meu tio me não falasse em casamento. Já três vezes me disse que era tempo de tomar estado, e que me há de arranjar um marido muito fidalgo, e que eu hei de ir à corte. Quando lhe ouço isto...
— Que lhe responde?...
— Choro; fujo de ao pé dele, e perco-lhe a amizade.
— Não tem razão — redarguiu o frade com um severo artifício, porque reprovava o casamento arranjado com perspetivas de fidalguia e corte, e reprovava também que Antónia por tal motivo desamasse seu tio. — Não tem razão para perder a amizade que deve a um segundo pai, ainda que ele forme da felicidade ideia raras vezes exata, pensando que a fidalguia e a corte dão as alegrias honestas e moderadas, únicas ainda compatíveis com os costumes do nosso tempo. O seu tio, quando houver de a casar, não há de obrigá-la a ver pelos olhos e a sentir pelo coração dele. Arranjar marido, é um modo de falar. Quer dizer que há de promover o seu casamento, Antoninha, admitindo a sua casa pessoas dignas; e eu também me inclino a crer que as mais dignas serão as que por serem de origem nobre houverem recebido melhor educação. A classe mecânica tem honrada gente; mas Antoninha, na convivência das senhoras de Odivelas, ganhou uns costumes e gostos que sem violência não podem quadrar com o viver da gente média. Além disso, a sua educação formou-lhe de certo modo o espírito; e o seu grande património dá-lhe direito a não procurar a felicidade nos bens da fortuna do marido.
— Mas eu não posso ficar solteira? — replicou Antónia com a simplicidade do coração de quinze anos — Diga ao tio que me deixe assim ficar...
— E, se o seu tio morrer?... — atalhou com débil argumento o frade.
— Se o meu tio morrer, ficarei solteira na minha casa. Todos me dizem que sou rica... Então quem é rica por força há de casar-se?! Isso é quererem que eu deseje ser pobre, para me deixarem em paz... Mas se eu fosse pobre tinham de querer casar-me então com algum homem rico... Enfim...
O frade sorriu ao dilema da discípula, e não lho refutou porque respeitava a lógica, e odiava o sofisma.
E, conversando pouco depois com o doutor Francisco Xavier, repetia-lhe a argumentação de Antónia, e dizia-lhe:
— Deixe-a estar solteira.
— À espera do prussiano?
— Não se fala do prussiano...
E referiu-lhe o contexto da carta, asseverando-lhe que não havia que recear do estrangeiro.
O padre exultou; mas energicamente impugnou que Antónia professasse, ou sequer entrasse em mosteiro como secular.
— Os conventos — exclamava ele — são académias de corrupção. São prostíbulos! Fr. André Guilherme, quando ensinava minha sobrinha, quis obstar que ela fosse a Odivelas com a sua tia; recorde-se...
— Sim, senhor.
— E então? porque era?
— Porque aos parlatórios dos mosteiros concorrem brilhantes vadios e libertinos que empestam O ar daquelas casas, Eu não quis insultar as religiosas que ali vestiram forçadas o hábito com a condição de o mancharem e rasgarem quando quisessem, em despique da violência que lhes fizeram. Sei que muitas para ali entraram inocentes e lavadas em lágrimas; porém, como a mortificação não lhes estava no seu natural, enxugaram as lágrimas, e arrancaram da cara as duas coroas de virgindade e de martírio. Elas, qualquer que seja o seu desastre, são sempre desgraçadas com direito à desculpa; mas quem não deve esperar perdão de Deus são os homens que lhes levam os engodos da perdição... e...
— Cale-se, Frei André! — bradou o antigo amante de Catarina estendendo o braço até lhe tocar os lábios.
Neste lance, o frade trino retraiu a sagrada cólera, e compadeceu-se do homem que vituperara de academia de corrupção e prostíbulo o mosteiro que lhe dera uma mulher imaculada, e lha recebera dilacerada de condenações.