A Caveira da Mártir
Capítulo XVI · Naquele mesmo dia, a jubilosa Feliciana enviou…
Naquele mesmo dia, a jubilosa Feliciana enviou a Odivelas portador com a feliz nova.
A menina leu o consentimento do tio, na presença de André Guilherme. Ainda balbuciou: «não quero ir»; mas o jovem, severizando o rosto, repreendeu-a entre amoroso e grave.
— Assim é que tu mostras que tens sabedoria e moral — aplaudiu a antiga aia da Duverger.
O estudante é que não formava o mais exaltado conceito da sabedoria e moral da sua tia. As fontes em que ela bebera os rudimentos da virtude não lhe pareciam mais límpidas que o palacete de madre Paula. O grémio das fidalgas onde ela se insinuara com a sua ciência da língua francesa, conjeturava o estoico jovem que eram meandros sujos a derivarem das fétidas alagoas de Afonso VI e Pedro II. E, dado que Heliodoro Pedegache, por mão da esposa, arpoasse grossa pescaria nessas torrentes lodosas, o rapaz olhava com secreto pejo para a prosperidade daquela família. E, quando lhe disse a tia que o marido talvez apanhasse o hábito de Cristo, o aprendiz de frade murmurava:
— Em que andanças envolvem Cristo! Porque não há de criar-se a cavalaria da ordem de Mafoma...
— Para quem?... — atalhou a tia abespinhada.
— Para os cristãos sinceros.
— Que frade!... — retrucou ela sarcástica.
Entrajaram a menina ricamente. Adereçaram-na com todas as louçanias; levaram-na a toucar-se no Auroy, cabeleireiro francês mais na voga; almiscararam-na, pintalgaram-lhe o rosto com pedacinhos de tafetá preto aos quais D. Feliciana chamava mouches.
— Olha como está linda, ó André! — disse a tia trazendo-lha pela mão.
— Vai bonita e coruscante! — afirmou o estudante com irónico sorriso — Parece a ninfa da comédia El encanto es la hermosura. Acautele-se, minha tia, que lha não pilhem por moura de auto, ou anjo da Procissão do triunfo!
— Forte azemel! Vamos, minha menina... — regougou a mestra.
E desceu a escada praguejando o rapaz por entre os dentes, e protestando desfazer-se daquele trambolho.
— Vou tão aborrecida! — disse Antoninha, quando o lacaio da tábua abria a portinhola.
— Logo se alegra assim que vir as senhoras freiras. Olhe lá se as cumprimenta com desembaraço, e se responde com graça e juízo às perguntas que lhe fizerem...
— Se eu souber...
— Pois não sabe? a menina, quando quer, é viva como azougue; mas se lhe dá para amuar, é mesmo uma aborrecida!...
— Então para que me leva a senhora? Deixasse-me estar com o Sr. André Guilherme, que eu estava bem.
— É o que eu digo... — pensou entre si a mestra — Se ela tivesse mais seis anos, não seria ele frade.
Quase sempre silenciosas, chegaram ao átrio do mosteiro. As três senhoras estavam por dentro das vidraças. Catarina, levada de impensado impulso, assim que entreviu a filha, saiu da janela rapidamente com destino a ir esperá-las à primeira sala.
— Psio! — sibilou Paula, retendo-a — Então que é isso? temos tolice?! Prometeste-me ser prudente. Estou a ver que te abraças à pequena, exclamando «minha filha!»
Espera que vamos todas; mas tu não representas, ouviste?
Saíram as três religiosas à sala de visitas, e por entre os resquícios do refegado reposteiro que abria para a sala de espera, viram entrar Antónia com timidez de acanhada, primeiro que a mestra.
— É a tua cara! — ciciou Maria da Luz, cedendo o lugar a Catarina para que a visse — Olha!...
— Que linda! — murmurou Paula.
— Como vem estrelada de pedraria! — observou a Perestrelo mais nova — Não a sabem vestir...
No entanto Catarina, amparada no umbral da porta, e ansiada, com os lábios entreabertos num riso imóvel de idiota, pasmava na filha, e enclavinhava as mãos trementes sobre o seio.
— Vai para a minha saleta com Maria da Luz, compõe esse rosto que se está desfigurando, e espera por mim, que lá vamos ter — disso soror Paula.
E entrando na sala, cumprimentou a mestra, beijou a menina, perguntou-lhe as puerilidades do costume, e conduziu-as devagar pelos vários repartimentos do palácio, detendo-se nas casas em que Antónia, com infantil curiosidade, se demorava reparando na ornamentação magnífica. Perguntou-lhe Antónia:
— As senhoras freiras daqui não andam de hábito?
Paula sorriu-se e respondeu que sim; mas que ela só vestia hábito quando ia ao coro.
Ao entrar na antecâmara, onde estava Catarina meio esvaída e reclinada no ombro de Maria, Paula conduziu a menina pela mão ao pé das duas, e disse:
— Aqui tem, Antoninha, duas freiras com hábito.
A menina cumprimentou-as com vivacidade, aproximou-lhes o rosto, beijou-a primeiro Maria da Luz na face, e depois Catarina nos lábios. Antónia olhou fixamente a freira, movendo os beiços, onde sentia a impressão ardente dos beijos que recebera. Não havia naquele olhar o mistério que as outras mentalmente aventaram. A pequena estranhara a compressão convulsa e a quentura húmida daqueles beiços.
Sentou-se a menina num divã entre a mãe e Maria da Luz. Abanava-se senhorialmente donairosa com o leque estrelante de lantejoulas de prata e ouro. Perguntou-lhe Paula se gostava do hábito das freiras. Reparou em soror Catarina, e respondeu lentamente:
— Esta senhora está muito bonita assim. Tenho no meu livro de missa um registro de uma santa que se parece com a senhora.
— Sim? — balbuciou Catarina tirando-a para si com irreprimível transporte, e beijando-a em ambas as faces.
Paula olhou para a irmã com um gesto significativo de receio, enquanto a menina parecia querer retrair-se à veemência das carícias.
Para distrair Antónia, perguntou-lhe Paula se tinha notícias do papá.
— Ainda não, minha senhora. Estamos à espera das naus da Índia. Cada dia parece-me um ano.
— Felizmente a menina tem seu tio, que é muito seu amigo...
Antónia não respondeu.
— É o que eu lhe disse, minha senhora... — interveio D. Feliciana, aludindo ao desafeto da educanda pelo tio.
— Que se passa? — perguntou Antónia.
— Digo eu que a minha menina deve ser grata ao extremoso amor que lhe tem o Sr. padre Xavier.
A pequena avincou a testa, como se quisesse repreender a mestra de sair-se com aquela impertinência em tal ocasião.
D. Feliciana murmurou, formando com os beiços um trejeito de zanga:
— Que génio!
Catarina encarou a mestra com ressentimento. Julgava-se já bastante mãe para defender a filha da rude censura da mestra. Paula sorriu-se, e Maria da Luz passou o lenço pelos lábios.
— Hoje, Sra. D. Feliciana — disse a Perestrelo — peço-lhe sueto para mim, visto que a minha condiscípula também tem sueto. Sou péssima educanda, não acha?
— V senhoria aproveita em vinte lições o que outras não conseguiriam em quarenta; e a sua condiscípula está no mesmo caso... Tem muita habilidade... Quer falar francês comigo para estas senhoras ouvirem, Antoninha?
— E estas senhoras sabem francês? — perguntou a menina, olhando para a mãe.
— Eu não sei, meu anjo... — respondeu Catarina.
— Nenhuma de nós sabe.
— Então não é bonito que falemos francês diante de quem não sabe; — disse Antónia — disse-mo o Sr. André Guilherme; e o meu tio padre, ainda há dias falando-lhe eu em francês diante do Sr. Heliodoro Pedegache, que não sabe, repreendeu-me... A Sra. D. Feliciana bem ouviu, pois não ouviu?
— É verdade; mas estas senhoras — replicou a mestra um tanto corrida da correção — bem sabem que nós não falamos mal delas.
Neste momento, na casa próxima, anunciou uma criada que estava o almoço na mesa.
— Ainda agora?! — disse Feliciana.
— A Catarina e Maria da Luz já almoçaram: eu tenho o mau costume de comer quando tenho vontade.
— Ainda agora sei que aquela senhora religiosa se chama a Sra. D. Catarina... — notou a mestra — Aposto que é a Sra. D. Catarina de Castro?
— Sou.
— Bem me diziam a mim, aqui há oito anos, que uma das mais lindas religiosas desta casa era V. Senhoria. Ouvi-o às senhoras Vasconcelos, da casa de Castelo Melhor, que foram minhas discípulas, e vinham aqui muitas vezes visitar suas tias, e gostavam muito de V. Senhoria. Não me enganaram.
Antoninha olhava para a senhora elogiada pela beleza.
— Que lhe parece, menina? — disse Catarina com um sorriso que parecia chorar — também me acha bonita?
— Muito, mas a senhora tem febre — respondeu Antónia sentindo no rosto o queimar da mão de Catarina, — e parece que tem os olhos cheios de lágrimas.
Estas palavras, pronunciadas com timbre de dó, abriram os diques às lágrimas. Rolaram-lhe as lágrimas a quatro, com grande arfar de peito e suspiros.
Ela cobria o rosto com as mãos, inclinando-se para a filha.
A criança contemplava-a com espanto. Maria da Luz passou para o lado dela, e pediu-lhe que saísse.
Ela obedeceu, erguendo-se de golpe, e deixando-se levar cingida pela cintura.
E Paula, para explicar verosimilmente o lance a D. Feliciana, disse que D. Catarina padecia insultos nervosos, quando lhe traziam à memória uma época da sua vida...
— Pois eu não sei, minha senhora! — interrompeu a mestra.
— Pois que sabe?
— Aquele triste caso do Santo Ofício... Logo que V. Senhoria proferiu o nome desta senhora, me ocorreram as ideias. Lembrei-me da prisão, que toda a gente disse que era uma intriga de infames inimigas, e também aquele outro caso das senhoras freiras saírem por aí fora, quando ela voltou absolvida como inocente... Pois tão pouco falada foi a tal passagem!
— Que foi? — perguntou Antónia.
— Coisas, coisas que a menina não percebe — respondeu a mestra.
— Vamos almoçar, sim, minha querida menina? — atalhou soror Paula erguendo-se. — Venha, Sra. D. Feliciana, tomar uma xícara de chá.
— Eu queria ver se a senhora D. Catarina está melhor disse a menina.
— Tem dó dela, meu amor?
— Ia a chorar tanto!... porque era?
— É doença, menina — respondeu D. Feliciana, e acrescentou de bom rosto: — Quer saber tudo. Eu vejo-me às vezes em apertos para lhe satisfazer as curiosidades próprias de uma senhora muito curiosa.
Passaram à casa de almoço. Antoninha sentou-se; mas disse que não podia comer nada. D. Feliciana, porém, começou por túbaras de carneiro com o propósito de passar aos miolos albardados, iguaria muito da sua feição, e terminar pela Olha francesa, prato também muito da sua feição, como quase todos os pratos bons.
— A Sra. D. Catarina não vem? — perguntou Antónia.
Paula disse a uma das três escravas que a serviam à mesa:
— Acompanha esta menina, visto que não quer nada, ao quarto da Sra. D. Catarina. Quer ir, filha?
— Sim, minha senhora.
A freira não receava as expansões de Catarina, logo que D. Feliciana as não presenciasse. Não previra tão oportuna oportunidade aos transportes da amiga.
A escrava subiu com a menina ao segundo andar, e disse fora do reposteiro de uma antecâmara:
— Está aqui a menina que quer saber se está melhor V. Senhoria.
Arremessou-se Catarina ao reposteiro, afastou-o de repelão para encurtar demoras, tomou a menina nos braços, como quem levanta um arminho, e disse à escrava:
— Vai-te embora.
Sentou-se, e pousou nos joelhos a pequena, que dava ares de receosa daquele insólito arrebatamento.
— Teve pena de mim? quis ver-me? então é muito minha amiga? é?...
— Sim, minha senhora...
— Qual queria, minha filha? estar comigo ou com a sua mestra?
— Eu?... estar aqui... Se o tio me deixasse... O meu papá, às vezes, levava-me a uma grade das freiras em Beja, e elas meteram-me lá dentro uma vez, e eu pus-me a chorar — dizia ela, rindo — porque era muito escuro, muito feio, e as freiras metiam medo. Aqui é muito bonito.
— O seu pai era muito seu amigo? — perguntou Catarina.
— Tomara eu que ele viesse da Índia. Hei de pedir-lhe que me deixe vir para este convento.
— Então quer ser freira, Antoninha? — disse Maria da Luz.
A menina fez um gesto de indecisão, e acrescentou: — O Sr. André Guilherme também vai ser frade da Santíssima Trindade.
— Quem é esse senhor André Guilherme?! — perguntou a mãe.
— É o sobrinho da mestra, ensina-me a escrever, conversa comigo, e eu sou muito sua amiga. Quando meu pai partiu para a Índia, se não fosse ele, eu morria de saudade. Assim que me via a chorar, levava-me consigo a passeio, contava-me histórias, e não queria que a Sra. D. Feliciana me mortificasse com os estudos...
— Mas não é mais amiga de... O seu tio?! — volveu D. Catarina.
— Não, minha senhora... Não fui criada com ele... não sei porque é... Tenho-lhe medo... Às vezes, tem-me no colo, e está a fazer-me festas, e de repente fica tão carrancudo que parece outro... Ai! quem me dera cá o meu papá!... Parece-me que o não torno a ver...
Encheram-se-lhe os olhos de lágrimas.
— Não chore, minha filha... — acudiu Catarina, apertando-a ao coração — O seu papá há de vir, se Deus quiser... A Antoninha queria ter mãe, não queria?...
— Se eu tivesse mãe, era feliz como as outras meninas que eu encontro aos domingos de tarde a brincar na praça do Terreiro do Paço ou no jardim do Sr. D. Dinis Almeida, onde a mestra tem licença de ir, porque foi mestra das fidalgas.
— Morreu a sua mamã? — perguntou Maria da Luz.
— Morreu... — disse a menina com a voz e o rosto muito triste.
— O seu papá nunca lhe disse nada da sua mamã, nem seu tio? — volveu a Perestrelo.
— Não, minha senhora. A minha ama é que me dizia, quando à noite estávamos a olhar para o céu: «a sua mamã está a olhar para a menina daquela estrela». E eu agora já sou grande e ainda penso que a minha mamã está numa estrela maior que as outras; e pedia-lhe que me levasse para si, quando o meu papá me deixou em casa de D. Feliciana.
— Coitadinha! — soluçou Catarina, acariciando-a com arrebatada ternura.
— Não chore... — disse-lhe a criança — Está outra vez doente... Porque chora!...
— Podemos entrar? — disse Paula a uma distância bem calculada. Maria da Luz fez um gesto a Catarina, que sentou a menina na preguiceira ao seu lado, e limpou as lágrimas.