A Caveira da Mártir
Capítulo VI · A notícia destes acontecimentos, relatados pelo conde…
A notícia destes acontecimentos, relatados pelo conde do Rio Grande, chegou ao cubículo do missionário apostólico Fr. Francisco Xavier, ou da Luz, como ele se assinava.
Os tresvarios ultra-piedosos da sua razão propendiam a crise salutar, desde que o conde lhe asseverou que D. Catarina e a sua mãe eram mais hóspedes que presas na Inquisição, e que o patrocínio real, solicitado por soror Paula, era segura caução da absolvição das senhoras comparativamente felizes. A pouco e pouco se adelgaçou a treva daquela alma enferma. O homem revoltou-se no frade. O galhardo cortesão sentiu — se, no hábito de estamenha, confrangido e esgarçado na epiderme como na túnica de Nessus. Bateu-lhe na alma a dava do arrependimento. Desculpou-se diante de Deus, confessando-se que ensandecera no dia em que se amortalhara, porque 'desejava morrer, despedaçando-se.
Pensava na sua filha; mas não ousava perguntar por ela ao irmão, expansivamente. Envergonhava-se: tinha o pudor da dignidade; temia que o seu irmão o culpasse agora de leviano como o arguira de covarde, quando ele se evadiu do mundo pela porta vulgar de Baltasar Casqueiro, e do caldeireiro das Covas-infernais, e do próprio instituidor do Varatojo, Fr. António das Chagas: três beatos que se furtaram assim às galés, embaindo a justiça humana. Além disso, as cartas saídas do aspérrimo convento, eram inspecionadas pelo guardião. Fr. Francisco seria a condenação da ordem, se a profanasse nas suas missivas com uma palavra ressabiada de mundo, diabo e carne.
Encheram-se de amargura as suas noites veladas sobre a esteira do catre. Humilhava-se diante da cruz tosca, feria a arca do peito; mas as pancadas doíam-lhe como se lá dentro chorasse um coração que pedia vida, e as delícias do amor de pai, e as serenas tristezas de uma saudade respirando em Deus. Mais desgraçado do que nunca!
O conde do Rio inferira de uma carta do frade o segredo da transformação mal dissimulada. Foi ao Varatojo, a pretexto de visitar o seu parente frei Gaspar da Encarnação. Afastou-se com Fr. Francisco da Luz; e, a propósito desta luz, perguntou-lhe porque não se cognominava antes de Fr. Francisco das Trevas.
O frade debulhou-se em torrentes de lágrimas, olhou ao redor que o não vissem no mais espesso da mata, estreitou-se ao seio do amigo, e rompeu o dique das suas angústias com precipitada eloquência. Falou de Catarina, arrebatado e opresso; da filha, com expressões de pueril ternura; do seu passado, com excruciante saudade; e do seu presente e futuro, como de um inferno irremediável.
Pela sorte de Catarina lhe acudiu o conde com um grande alívio. No mosteiro e na sociedade era insuspeita a honra da religiosa. As suas próprias inimigas, vingando-se na calúnia, bem sabiam que o desaire, ainda que fosse verdadeiro, não seria grande. Ilibada da nódoa de cristã-nova, outra qualquer afronta à sua castidade, na casa de Odivelas, era vício e direito comum, podendo cada freira perguntar à sua detratora como via argueiro em olho alheio com tamanha trave no seu. Afiançou-lhe que soror Paula e a sua irmã se afeiçoaram extremosamente a Catarina', e a fizeram sua comensal, divertindo-a das tristezas com engenhosa dedicação. Esperava, portanto, o esperto conde que a Muleirinha viesse a gozar-se de remansosa tranquilidade, conformando-se a um viver sem grandes mágoas nem grandes contentamentos.
— E eu! — exclamou Fr. Francisco — e eu!... viverei neste longo paroxismo... Para mim nunca há de chegar a resignação, a graça divina que transforma o homem apagando-lhe as memórias do passado. Este hábito é uma injúria que faço a Deus. As minhas orações em comunidade são pecaminosas porque são fraudulentas. Sacrifico-me violentado. Nem sequer posso sentir a consolação dos que se mutilam confiados em indemnizações de outro mundo. Nada espero, senhor conde. Se há alguma coisa além da morte, a desgraça entenebreceu as visões da minha fé. Perdido! e perdido tudo quanto amava!...
A dor exuberou em queixumes que apiedaram o conde. Pungia a comparação do faustuoso Xavier de Odivelas com o descarnado varatojano. Lopo de Mendonça via ainda nele o reflexo de um filho dos mesmos anos, seu amigo de infância, filho único, falecido em 1707, por amor de quem o conde se lhe afeiçoara entranhavelmente.
Sem consultar o frade, pediu a frei Gaspar Moscoso que obtivesse licença do guardião para que o amigo do seu defunto filho passasse uma temporada na quinta do Lumiar. O varatojano, irmão do marquês de Gouveia, impetrou a licença. Não estranhou os tédios do seu condiscípulo no mosteiro da penitência. Ele mesmo os sentia a roer-lhe nos liames da austeridade cenobítica. Já então pensava em despir o hábito, transferir-se para a corte, apossar-se do ânimo do rei, ser, como foi, seu omnipotente ministro, torcer as leis em pró do seu sobrinho D. José de Mascarenhas, cingir-lhe a coroa ducal e opilá-lo do orgulho que em 1758 o esquartejou no patíbulo de Belém.
Melhorou de sorte o trânsfuga da vida expiatória, mudou de hábito por concessão do núncio, e entrou no convento de S. Francisco da Cidade, com a importância que a borla doutoral lhe acrescia à fama do talento e piedade. Nomeado visitador dos conventos da ordem, rodeado de considerações, dependências e profanidades bem rebuçadas, dava-se menos mal com o ofício, e, por vezes, tomando o peso da cruz, não lhe pareceu incomportável.
Paulo Xavier já era então ouvidor em Serpa. Fr. Francisco foi visitá-lo. Festejou a menina, que tinha quatro anos, e lhe chamava tio. Teve-a no colo assustando-a com o hábito e com a sofreguidão dos beijos. Sorria-se de ouvir chamar papá ao irmão, e observou-lhe que Antónia lhe ficaria chamando sempre pai.
— E não é ela minha filha? — disse o ouvidor — Desde que vestiste o hábito, fiz de conta que o seu pai estava morto. Perfilhei-a, renovei o assento batismal, legalizei-a minha filha para me suceder nos bens e nos apelidos. Estou que nunca me desmentirás por amor de ti e dela. Tenho administrado o teu património como tutor desta criança, visto que a tua mudança de vida algum benefício influiu nos teus cabedais. Se não houver reveses, se o Santo Ofício nos não maquiar o próprio e os juros, poderemos legar a Antónia a herança de cento e tantos mil cruzados que houvemos dos nossos pais. Se nos sobreviver, será rica. Poderemos casá-la em família puritana das altas, onde não chega o gládio de S. Domingos, nem se medem as gotas de sangue hebreu; verdade é que o José Freire Montarroio me disse a mim que não há família portuguesa estreme do judaísmo de Rui Capão, de Lafeta, e do Barbadão de Veiros. No entanto, procuraremos arranjá-la numa das sete famílias hipoteticamente puritanas — concluiu o ouvidor, sorrindo.
Amiudaram-se as visitas de Fr. Francisco Xavier ao seu irmão. A filha evitava-lhe as carícias ou agradecia-lhas glacialmente. Não gostava do tio frade. Fugia-lhe dos braços para os do papá; e numa explosão de ingenuidade, chegou a dizer-lhe que a deixasse, porque aborrecia tanto beijo. O frade chorou, e, em segredo, perguntou a Paulo se estava bem convencido de que a criança não fosse trocada pela ama.
— Só se foi trocada nas tuas mãos quando lha entregaste em Verride — respondeu o irmão. — Que queres tu?! a menina adivinha que tu, há quatro anos, quando te pedi que por amor dela não fizesses votos, me respondeste: Que esta criancinha era a expressão providencial das cóleras divinas. As cóleras divinas é isto que te mortifica, é este natural desafogo da criança. Os filhos não é o sangue que os faz, é o amor. Pega de Antónia, vai sentá-la no regaço da mãe a Odivelas, e pergunta à criança se não tem saudades da ama que a criou, e se não troca pelos macios afagos da freira as rústicas advertências dessa mulher com quem dorme. Vocês nem entendem as coisas da terra nem as do céu. Fazem de tudo metafísica, e andam sempre bigodeados pela realidade das eternas formas. Quando envergaste o burel de varatojano, vias a Providência a disciplinar-te com a filha; agora, não percebes a Providência, porque a filha te desconhece.
O frade ouvia-o silencioso, e embebia as lágrimas no lenço.
— Sozinho! — pensava ele no secreto da sua alma — Sou desprezado da filha, e talvez odiado da mãe!... E não fui eu ingrato com Catarina, e miseravelmente covarde com a minha filha? A minha penitência que era senão um egoísmo que se mascarava com a religião? Não as abandonei a ambas para me salvar? Que foi senão covardia vilã esconder-me no Varatojo às calamidades que eu desafiara? Se Catarina devia morrer na Inquisição, a minha honra era dar-lhe coragem com o exemplo da morte. Abjeto! que excruciadora vergonha eu tenho de mim próprio!