A Caveira da Mártir
Capítulo XXXVII · Era uma manhã nublosa e parda de…
Era uma manhã nublosa e parda de Novembro de 1729. O borraceiro da noite gotejava das varas desfolhadas do arvoredo. A revezes, um pegão de norte glacial sacudia as derradeiras folhas que esvoaçavam de encontro às vidraças da casa de Camarate. Nas assomadas dos outeiros ringiam as asas dos moinhos, e os panais, embatidos pelo vento rijo, trapeavam como no compassado arfar da mastreação do navio. As nuvens cor de chumbo estiravam-se na ladeira dos montes; e sobre os pauis e regatos pairava um rolo de névoas alvacentas. Era, pois, uma triste manhã aquela que se seguia à decidida perdição de Antónia Xavier.
O padre andava a pé antes do alvorecer. Estivera até à meia noite com a sua filha e com o médico na sala de espera onde ardiam as brasas do fogão. Eliot saíra àquela hora com o pajem e o lacaio para Lisboa; Antónia entrara no seu quarto; e Francisco Xavier, temendo as ânsias que o afligiam no leito, adormecera na poltrona, acalentado pelo ar tépido da sala..
Quando espertou, tiritava de frio. O escudeiro quis deitá-lo; mas o prior e os padrinhos do casamento tinham sido avisados Para as dez horas da manhã, Não se deitou. Foi o escudeiro aquecer à cozinha o remédio do seu amo, e voltou dizendo que a criada da menina lhe dissera que a Sra. D. Antónia toda a noite passeara no quarto, e ao romper da manhã saíra para a quinta, apesar do frio. Esta nova entristeceu o pai. Outra, Porém, mais perturbadora, lhe deu o escudeiro. A criada que denunciara a saída matutina de Antónia à quinta, acrescentou que, indo ela de uma janela alta da casa ver se a menina andava no pomar, ouvira tropear um cavalo na azinhaga que passava rente com o muro da quinta, e avistara um cavaleiro encapotado chegar e parar em frente da casa, e inclinar-se a conversar com alguém que ela não pudera enxergar; disse mais que o cavaleiro, desembuçando-se para descer do cavalo, deixara ver o rosto, e ia jurar, concluiu a criada, que o sujeito era o estrangeiro de quem a menina gostava; mas declarava que a sua ama, quando o cavaleiro se sumiu, vinha do lado oposto, caminhando muito devagar, e estivera em pé em frente da capela, com a cabeça entre as mãos, como quem chora...
— Vai indagar! vai saber para onde foi esse homem! disse o padre ao escudeiro. E atravessou rapidamente salas e corredores em demanda da filha, que estava no seu quarto lendo e queimando cartas e poesias de Josse Frisch. Assim que ela o conheceu de longe pelo bater sonoro da perna artificial, escondeu as cartas ainda não queimadas e mais o perfumador em que faulavam as cinzas das outras.
— Estás aqui, Antónia? — perguntou ele de fora da porta.
— Sim, tio.
— Posso entrar?
Antónia abrira a porta.
— Que fumo! — notou o padre — Queimaste papéis?
— Sim, senhor.
— Que papéis?
— Cartas...
— Ah!... Saíste já hoje à quinta?
— Saí, tio.
— Onde estiveste?
— Passeei à volta do lago...
— E não estiveste no miradouro que dá para a estrada?
— Estive, sim, senhor.
— Falaste com alguém...
— Com o feitor...
— Quem era um homem que passou a cavalo?
— Não vi homem nenhum a cavalo.
— Mentes!
— Não minto, meu tio.
— Que foste fazer de madrugada ao miradouro?
— Não dormi nada, sentia-me aflita, e saí.
Deteve-se Francisco Xavier enfitando-a com penetrante fixidez; e ela, como cansada de sofrer, sentara-se alquebrada, desviando os olhos da face do pai com um trejeito desabrido de enfado e tédio.
— Estás arrependida do que prometeste ontem? — volveu ele iracundo.
— Não, meu tio: estou às suas ordens.
— Casas obrigada, ou livremente?
— Nem obrigada nem livre: façam de mim o que quiserem.
— Não há dúvida que viste o infame...
— Que infame!? — perguntou ela espantada.
E não depreendeu nada do ofegar silencioso do pai.
Retirou-se o padre. Antónia pensava num sentido para as últimas expressões que ouvira, e nenhum achou.
— Estará ele para enlouquecer?! — disse ela consigo.
Neste momento a criada, que informara o escudeiro, entrara no quarto com o propósito de lhe perguntar se vira aquele estrangeiro louro que ia à rua do Outeiro com o pai. Se lhe faz a pergunta, a noiva de Eliot compreenderia a interrogação acerca do cavaleiro, e as palavras abstrusas do padre, a respeito de um infame; e então lançar-se-ia às estradas em busca de Frisch, e salvar-se-ia. Mas Antónia, de oprimida que estava, queria chorar sozinha; e, vendo entrar a criada, intimou-a com arremesso:
— Deixem-me!...
A criada saiu carrancuda.
Ao mesmo tempo, o escudeiro colhera as seguintes informações: que o feitor, ao romper da manhã, viera do lado de Lisboa; que, meia hora depois, às sete, pouco mais ou menos, chegara um homem a cavalo, e estivera momentos na estrada a conversar com ele; que apeara, e dera o cavalo a um rapaz de alquilaria, e fora a pé para o lado da igreja.
Foi chamado o feitor à presença do doutor Xavier. Não se encontrou o feitor.
Às oito horas e meia apeou Isaac Eliot, com o pajem e dois lacaios pretos. O padre ocultou-lhe as ocorrências com receio de perturbar as coisas bem ordenadas ao seu juízo, bem podia ser que Frisch andasse sondando o terreno; mas que mal poderia advir daí a sua filha? Às onze horas estaria casada. Ainda assim, pintava-se-lhe na imaginação inquieta, ao mais leve rumor, que Bluteau e o rei, e a freira Paula, e a jolda dos ladrões lhe arrebatavam a filha. Sentia-se desassossegado, vertiginoso, atormentadíssimo na alma e no corpo.
Às dez horas chegaram à quinta dos Nobres duas senhoras extração aldeã, irmãs do prior. Vinham para acompanhar a noiva, cheias de vaidade da sua serventia em matrimoniamento de tão opulenta menina. Entraram à sala, onde as recebeu Eliot. Queixou-se uma de obstrução do fígado, indicando o baço; a outra disse que era rendida. Vieram conjuntamente o padrinho e as testemunhas do casamento: eram uns proprietários de Camarate, que também exibiram ao doutor alguma parte dos seus achaques, e todos à uma se congratulavam pela aquisição do médico mais nomeado da capital.
Entrou na sala o padre Xavier com D. Antónia, vestida de seda escura, sem adresses de oiro ou pedras. As senhoras disseram-lhe que eram horas de ir vestir-se de noiva.
— Estou vestida — disse ela, sorrindo.
— Vai muito bem — aplaudiu o padre Xavier — A candura e as flores vão à alma; os enfeites da cabeça e a cor branca dos vestidos são artifícios, vulgaridades tolas.
— Deixe lá, que parece agouro! — disse a indicada para madrinha das núpcias — Noiva vestida de roxo escuro…
— E manto de seda preta! — encareceu a outra — Ó minha Linda menina! vá mudar de roupa! Ao menos ponha um véu branco...
— Superstições... — interveio Eliot.
Chegou o sacristão a dar parte que o Sr. prior e mais o Sr. padre Acúrcio estavam à espera para confessar os noivos, e contou que na igreja já estava muita gente da freguesia, e muitas raparigas com abadas de rosas de inverno, rosmaninho e alecrim, porque não havia de outras flores.
Abalaram todos, exceto o padre, que estava febril, entorpecido e oirado da cabeça. Queria ir; mas o médico proibiu-lho.
Sentou-se ao fogão, e mandou abrir uma janela que dava sobre o espaçoso pátio por onde saíra o pequeno préstito.
Dali viu ele a filha entre as duas irmãs do prior, desaparecer no portão; e chorou. Neste comenos, o escudeiro entregou-lhe uma carta vinda de Lisboa. Era do padre Rafael Bluteau.
O sábio áulico de D. João V expunha ao seu amigo em linguagem comovente a história dos amores da sua sobrinha com o filho do eminente João Frisch. Depois, vinha com grande espanto e mágoa ao lanço em que ela o desliga e se desliga de juramentos sacratíssimos, reciprocamente feitos. Descreve a paixão de Josse, a sua vinda a Lisboa, e o nobre intento dessa vinda. Declara, sob sua palavra de honra, que Frisch não quer perturbar o casamento de Antónia com Eliot; mas tão somente encarar de frente a mulher que lhe matou a juventude e enegreceu o futuro.
Seguidamente, pergunta ao padre Xavier se ele conhece bem o homem a quem vai ligar sua infeliz sobrinha; e acrescenta:
«Eu me abstenho de repetir o que dele me consta por depoimento dos seus mesmos patrícios; porém, se vossa mercê os quiser ouvir depor, aí tem os nomes e residências...
E nomeava uns franceses estabelecidos em Lisboa comercialmente.
E concluía:
«Rogo a Deus que a sua sobrinha seja mais feliz que uma desditosa francesa, a quem ele dava foros de esposa e aí está em Lisboa, recorrendo à caridade dos seus patrícios. Quando comparo, Sr. Xavier, o cirurgião Eliot com o prodigioso jovem, tão douto quanto honrado, tão apaixonado quanto prudente — chego a imaginar, senhor meu, que vossa mercê é vítima de alguns filtros, e sacrifica essa pobre menina que, por desventura sua muito grande, não tem pai, nem tutor ilustradamente religioso. Minta eu como profeta, praza a Deus! mas não posso ter mão do meu espírito que não lhe vaticine grandes remorsos, e remorsos insanáveis, se vossa mercê pôs violência ao coração dessa malsorteada criatura. Padre Francisco Xavier, se ainda é tempo, arranque-a do abismo. Se já é tarde... chore por ela como eu choro por este honesto jovem de quem me escondi para lhe escrever»
O padre amarrotou a carta em ambas as mãos, e murmurou:
— Querem matar-me... Bem sei... É uma conjuração... Acharam impedimento na cúria eclesiástica e no tutor, e vem agora tentar novo expediente... Viestes a tempo, velhacos... Protegeis os luteranos e queimais os hebreus... Talvez o queimásseis, quando ele se apossasse dos meus cento e cinquenta mil cruzados...
Prolongou-se o monólogo, estando o escudeiro à espera da resposta.
— Estavas aí? — disse o padre.
— Espero resposta.
— Diz-lhe lá de viva voz que a minha sobrinha está casada com o doutor Isaac Eliot, cirurgião-mor do real exército, médico da corte, e cavaleiro professo da ordem de Cristo. Diz-lhe isto.
Ouviu-se o toque da sineta que chamava à missa.
— A menina ainda não casou — advertiu o velho criado de Paulo Xavier. — Ainda agora é que vai o padre para o altar.
— Que queres dizer nisso tu?
— Queria dizer, meu amo, que, se vossa mercê recebeu alguma ruim nova, é tempo ainda...
— Vai-te! dá-lhe a resposta que te dei!
Volveram-se-lhe três quartos de hora horrendíssimos. Desenrugou a carta, e releu — a. Figurava-se-lhe agora o venerando Bluteau, diante dele, com as cãs alvejadas por noventa e um invernos. Vibravam-lhe aquelas palavras majestosas no íntimo da alma... «Quem sabe?» dizia entre si. Era terrível aquela interrogação feita à sua consciência hesitante.
— Meu Deus! — exclamara ele; mas a invocação era banal, era o hábito de proferir o nome do eterno Incógnito, quando a exasperação aceitaria o patrocínio do espírito do mal. Havia muito que a Providência fora repulsa das suas agonias e doe seus prazeres.
Entretanto, Antónia e Eliot ajoelhavam no taburno do altar-mor para comungarem. O povo premia-se para mais de perto ver os noivos depois da bênção; metade da igreja estava despovoada; as raparigas, com as saias escarlates e roupinhas variegadas, esperavam no adro, empoleiradas no parapeito, para de lá espargirem a folhagem da rosa e as flores da alfazema e do rosmaninho.
Neste comenos, atravessou o adro um jovem para quem todas olharam, e com vagaroso passo entrou na igreja pela porta travessa.
— Quem é?!
— Que rapaz tão perfeitaço!
— A cara é de estrangeiro!
— Eu antes o queria que ao doutor que apanhou a fidalga.
— Aquele homem — disse uma das sábias — chegou esta manhã, e entrou para casa da tia Francisca Relvas, que é mãe do feitor dos Nobres...
— Eu bem no vi também, quando o acompanhamento entrou na igreja. Estava ele além na devesa do João do Rio, encostado àquele sobro, e embuçado num capote. Eu só lhe vi os olhos e o cabelo, mas não me escapou...
As mais curiosas, que eram todas, entraram também de roldão no templo.
Josse Frisch estava encostado à pia da água benta, suspensa na ombreira da porta travessa.
Os contraentes eram abençoados no mesmo instante que Josse transpôs a soleira da porta, e conservaram-se de joelhos ouvindo os bons ditames do prior acerca dos deveres conjugais. O sacristão furou por entre a mó de povo para ir repicar os sinos, e os criados da lavoira da quinta atroavam os ecos descarregando bacamartes no adro.
— Vão com Deus, e sejam felizes! — disse finalmente o prior.
Eliot e Antónia voltaram-se para o povo que, suspenso da beleza da noiva, não abria passagem.
Henrique Rutier passou para a frente, e disse mal encarado ao povo:
— Então? ficaram embasbacados?
Os camponeses desviaram-se a dois lados, e os noivos desceram a par por entre as alas.
Chegados a meio da igreja, dentre a ala esquerda saiu, com algum esforço, um dos espectadores, e parou em frente de Antónia Xavier.
Era Josse Frisei.
O primeiro gesto de Antónia confundiu-se com o último. Viu-o, reconheceu-o, avançou um passo, retraiu-se com as mãos nas fontes, abriu os lábios e os olhos trementes, suspirou um gemido estertoroso, e resvalou sem acordo aos braços do marido.
Josse Frisch contemplou-a um momento, fitou com o maior desprezo da vida Isaac Eliot, e, desviando-se da clareira entre as duas filas de povo, saiu pela porta transversa.
O prior fez conduzir a cadeira paroquial para se assentar a noiva. Eliot, coadjuvado por três homens robustos, ergueram nos braços a poltrona, e caminharam para a quinta.
Os sinos cessaram de repicar. Havia alarido no adro; as mulheres choravam alto, e algumas clamavam que a fidalga tinha morrido de repente.
O padre debruçara-se na janela contígua ao fogão, quando os sinos festejaram o casamento celebrado. Estava enxugando as lágrimas, e espancando da ideia os agouros do padre Rafael Bluteau. Figurou-se-lhe ouvir um vozear como de choro. Chamou o escudeiro:
— Que ouves tu?
— Ouço chorar, meu amo.
— Vai ver o que é... corre... Os sinos já não repicam... Espera que eu vou... ajuda-me a descer a escada.
A escada, que descia da sala de espera ao pátio, era precipitosa.
Antes de sair, assomaram no portão as criadas da casa, correndo e bradando:
— Vem morta! vem morta!
— Quem? — exclamou o padre.
— A menina! — responderam elas, dando gritos estridentes.
— A minha filha morta! Oh meu Deus! — bradou ele.
E Francisco Xavier correu quanto lhe permitia o aleijão, para O mainel que formava um varandim no topo da íngreme escada. Entreviu então a cadeira cercada de gente a entrar no pátio. Já então devia ver por entre as névoas da morte o corrimão de ferro a que inutilmente quis fincar-se. A perna artificial não se dobrou quando o tronco se acurvava em busca de amparo. Caiu rolando de degrau em degrau, e bateu com a cara num dos pilares de ferro que rematavam o corrimão. E expirou fulminantemente, não da queda que de leve o feriu; mas da rutura do aneurisma. Foi o espetáculo da filha aparentemente morta que o afogou na onda do sangue represado.
Os três segundos, que precederam aquele trespasse, deviam ser a síntese de agonias incalculáveis! O escudeiro afirmara que só lhe ouvira duas palavras: — Matei-a eu!