A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 32 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo XXXVIII · Eram passados oito dias. Francisco Xavier, o…

 

Eram passados oito dias. Francisco Xavier, o grande desgraçado, apodrecia no jazigo dos seus pais e avós. Josse Frisch, velado em perigosa doença pelo padre teatino, esperava restabelecer-se para voltar ao seu país, e pedia perdão a Deus pelo crime da sua apaixonada vingança. Catarina de Castro, avisada simultaneamente da morte da filha e do desastrado passamento de Francisco Xavier, após o paroxismo de poucas horas, recaiu num espasmo de imbecilidade, perda de memória, rindo e chorando, o idiotismo estúpido, espantadiço, que tem os risos meigos que nos arrancam lágrimas. Quando chegou a Odivelas a nova de que Antónia era viva, Catarina parecia recordar — se, e, beijando soror Paula Perestrelo, chamava-lhe a sua filhinha. A sua desventura era tamanha que as religiosas de Odivelas, suas inimigas, já diziam compassivamente:

— Deus castigou-a, porque, por amor dela, os quadrilheiros do corregedor nos insultaram.

E as mais descompadecidas apenas murmuravam com os olhos nos painéis dos santos:

— Foi bem feito. Agora queremos ver também como acaba a Paula.

— Ela cairá — vaticinava outra — porque lhe faltam as muletas reais.

A caridade tinha limites — os justos limites que a religião bem entendida lhe abalizou. Segundo as mais versadas em teologia ascética, Deus ensandecera Catarina, e partira as reais muletas de Paula.

No entanto, Eliot e a sua mulher viviam na casa da rua do Outeiro.

Concentremos aqui a nossa atenção, porque todos os outros infortúnios derivados da sua desgraça são contingências que pouco fazem ao martírio de D. Antónia Joaquina Xavier.

Profundo torpor, indiferença glacial, uma espécie de sonolência marasmaram a filha de Francisco Xavier. Encarava o marido com medo quando ele a distraía da sua reconcentração, dizendo-lhe palavras de contrafeita meiguice. Havia o que quer que fosse que lhe embaraçava a língua, se pretendia justificar a paixão que o propelira a disputá-la ao rival. Como era muito infame, julgava-se dispensado de dar explicações à mulher, que não lias pedia. Era sua a herdeira. A parte importante da conquista vingara — se. A menor, a vassalagem do coração, nem sequer o ciúme lhe exaltava os quilates. Se a não amava, quando a solicitou de joelhos, que sentimento se havia de esperar depois que ela desmaiou na presença de Josse Frisch?

Entretinha-se na liquidação do património. Eram duas poderosas heranças. A do desembargador Paulo Xavier, que legalmente, no inventário, era o pai de Antónia, e a do seu tio Francisco, arredondavam cento e cinquenta e seis mil cruzados ou treze mil moedas, segundo a computação de um poeta coevo de que faremos menção. Eliot, como é de ver, não alterou a paternidade falsa da mulher. Para quê? Esclarecer o nascimento de Antónia seria litigiar-lhe o dote. Até da sepultura, o nome do legítimo pai viria difamar a filha no meio de tanta corrupção, a moral conservava a máscara carnavalesca.

Os criados do padre conservou-os Eliot, acrescentados com duas das suas criadas. Henrique Rutier, feito o casamento, recebeu avultada gratificação. Sem despedir-se do serviço de Eliot, alugou casa, onde hospedava bizarramente os seus patrícios. Associou-se em negócio de instrumentos musicais com um Estêvão Gautier, morador na rua das Arcas. Tinha cavalo e dois escravos. Era odiado de alguns casquilhos a quem ele disputava com vantagem raparigaças de beleza muito apimentada. Citava-se entre as mais sécias uma Antónia do Sacramento, que há de ter a sua lauda nesta narrativa, oportunamente.

À casa da rua do Outeiro iam as Caldeiroas, exceto Leonor. Tomás Darcet, o francês, marido de D. Maria Teresa, comia e vestia-se das liberalidades de Eliot. A esgrima e a gineta nada lhe rendiam. O patrício adivinhava-lhe as necessidades; e, no auge da sua magnanimidade, estabeleceu-lhe uma farta mesada. Detestava-lhe a dependência, achava-o caríssimo para amigo; mas constituíra-o tacitamente seu alcofa ao pé de Leonor. Estava no alvitre do pajem: Case com uma e merque a outra. Não obstante, a filha de Francisco Caldeirão da Veiga Cabral, a timbrosa Leonor, nunca mais pisou as alcatifas de Isaac Eliot, nem o encarava de frente, se casualmente o encontrava.

Antónia Xavier recebia as visitas, que o seu marido lhe inculcava, coagida. Cresceu o número delas, todas francesas. Lisboa, desde o reinado da mulher de Pedro II, atraíra muitos artistas e mercadores, principalmente, modistas e alfaiates. Afora estes de ordem mecânica, grassava em Lisboa uma peste de aventureiros, que se diziam gentis-homens, vítimas da intolerância religiosa, e queixavam-se de Roma ali às barbas cristianíssimas de S. Domingos. A Inquisição poupava-os e queimava António José da Silva em carne e osso, e Francisco Xavier de Oliveira, menos ardentemente, em estátua.

Antónia lera na Gazeta, vinte dias depois de casada, que a expedição redentora dos padres da Santíssima Trindade havia entrado no Tejo... Elogiava-se aí o zelo e a piedosa indústria com que Fr. André Guilherme auxiliara o resgate de 224 cativos.

Dilatou-se-lhe o coração; consolaram-na as lágrimas; sentia bafejar-lhe vida a vizinhança de uma santa alma.

Não havia alguém que lhe falasse de Frisch; ninguém que lhe explicasse aquele inopinado aparecimento na igreja. Mil conjeturas absurdas e cruciadoras! Que viera ali fazer Josse, depois que a desprezara? Arrepender-se-ia da ingratidão? Era o remorso ou o amor que o arrastaram? Mas, se fora arrependimento, que lhe serviria mostrar-se à mulher que era já de outro? Se ia acusá-la, com que direito o faria, abandonando-a, recomendando-lhe até que não lhe escrevesse mais? Esperava, talvez, que ela se chorasse, apesar da proibição? Era-lhe menos infernal a saudade e a afronta que o envilecer-se a pedir-lhe a esmola do seu amor.

A alguma destas interrogações esperava Antónia que o trino André Guilherme respondesse.

Contando com a fidelidade do escravo, por quem enviara as suas cartas ao defunto Jácome, escreveu ao frade, referindo o processo do seu martírio, desde que ele se despedira em Camarate. Não o convidava a ouvi-la na sua casa, porque seu marido lhe ordenara que desatasse as suas relações com ele e com a sua família. Contava-lhe a aparição de Josse. Pedia-lhe que de algum modo indagasse se ele estava em Lisboa, e lhe restituísse a última carta, que recebera dele, única de quantas possuíra que ainda conservava, delida pelas lágrimas.

Frei André Guilherme, apenas entrou em casa da sua mãe, no regresso de África, ouviu a cadeia de infortúnios que, em tão breve tempo, sucederam na casa de Camarate. A piedade, o amor fraterno impulsavam-no para a rua do Outeiro; mas o receio de piorar o viver da sua amiga, reteve-o. Soube logo que Josse Frisch era hóspede do padre Rafael Bluteau; mas ignorava que ele tivesse aparecido na igreja; porque Isaac Eliot e Henrique Rutier não divulgaram o nome do incógnito jovem, cuja presença o povo despercebeu.

Procurando o prussiano, Fr. André Guilherme ia cumprir um dever incluso nas suas obrigações de padre. Era o seu intento pedir ao jovem que se retirasse, se por causa de D. Antónia Xavier viera a Lisboa; que esquecesse a pobre senhora tão secamente desenganada por uma carta que desmentia todas as outras; argui-lo de imprudente e cruel pela imprudência de se apresentar no templo de Deus quando Antónia era já casada; enfim, todo o seu fito era insistir que saísse de Portugal, responsabilizando-o pelo acréscimo de dores e saudades pecaminosas que sobrepusesse ao infortúnio da infeliz violentamente casada.

Fortaleceu-lhe o desígnio a carta. Respondeu à sua discípula, prometendo acudir-lhe em todas as suas penas, quanto a religião e a amizade lhe aconselhavam. Pedia-lhe que se tivesse com paciência — a arma invencível que todos os reveses prostra, quando a meneia o braço inquebrantável da virtude.

Ao anunciar-se no convento dos teatinos, procurando Josse Frisch, o prussiano saiu a recebê-lo à portaria. Vira-o através do coração de Antónia. Sabia que ele tinha vinte e oito anos. Era uma alma nova. Compreendê-lo-ia; absolvê-lo-ia da tardia crueldade que o levara à igreja, pensando que uma mulher capaz de tamanha perfídia seria incapaz de sucumbir, como Antónia, diante da sua vítima silenciosa.

Fechados na cela do hóspede, Fr. André Guilherme abriu assim o diálogo:

— Ainda que esta mensagem não pareça de frade, como a minha missão é resgatar cativos na Barberia, poderei, sem escrúpulo, ampliá-la na redenção de todos os cativos das paixões funestas. Venho aqui a pedido de D. Antónia Xavier, casada com Isaac Eliot, entregar vossa mercê uma carta que reprova, e torna estranhável o aparecimento do Sr. Josse Frisei no momento em que a Sra. D. Antónia se retirava dos pés do sacerdote que a ligara perpetuamente a outro homem.

— Qual carta? — atalhou Frisch, estendendo a mão arrebatadamente.

— Esta.

Abriu-a o alemão, e apenas leu a primeira linha, gritou:

— Eu não escrevi isto! esta letra não é minha!... Não escrevi esta carta, Sr. Frei André!

E, consoante descia os olhos desvairados no papel, levava a mão à testa entumecida de sangue, expetorava uns brados roucos; e, por fim, quando já lia e não percebia, atirou-se sobre o leito, e curvado, com o rosto nas mãos, exclamou:

— Meu Deus! meu Deus! não me deixeis endoudecer!

— Pois não é sua esta carta?! — acudiu o frade. — Oh! desgraçados, desgraçados! que fostes ambos vítimas de uma traição do francês!

E aquele valoroso jovem, que se defrontara no templo com o celerado Rutier e com o marido de Antónia, caiu de joelhos aos pés de Frei André Guilherme, e soluçou:

— Vá, vá pedir-lhe que me perdoe... se eu lhe matar o marido!...

— Jesus! — disse o frade — que atroz pensamento é esse?! Quem castiga é Deus... O meu pobre jovem, levante-se, ampare-se neste coração que lhe ofereço, para as suas lágrimas e para as lágrimas da minha desventurada irmã. Eu lhe direi tudo a ela... eu o justificarei... Mas... — o frade fez uma pausa, esfregou a testa como quem quer rarefazer a escuridade interior, e disse: — supondo que o Sr. Frisch não escreveu esta carta, é natural que, não recebendo cartas de Antónia, lhe escrevesse queixando-se da falta, ou viesse a Portugal saber o motivo extraordinário do silêncio dela.

Frisch abriu a sua maleta, e, pegando numa carta que era a primeira de um macete, entregou-lha.

— É de Antónia? — perguntou Frei André.

— Não é dela... é uma carta falsa como a que eu recebi... — respondeu ansiado o jovem, apoiando a cara esvaída nas mãos enclavinhadas.

— Com toda a certeza é também falsa... — afirmou Frei André.

Josse ergueu a face, fitou com desespero o frade, e articulou em vozes os soluços que o afogavam:

— Tudo perdido!... irremediavelmente perdido... Já não podemos salvá-la...

— Podemos, Sr. Josse... Dê-lhe o exemplo da resignação!...

Quedou-se momentos em muda agonia, e respondeu:

— Triste exemplo vou dar-lhe...

— Em que pensa, infeliz jovem? — perguntou Frei André com amorável brandura.

— Penso no suicídio...

— Eis aí o covarde desafogo dos que vivem e morrem nas falsas religiões! Eis aí a filosofia das trevas que reduz a alma humana à condição de um tumor maligno que se rompe com a ponta de um ferro!... A famosa sabedoria do seu ilustre pai não lhe ensinou mais nada acerca do destino do homem, Sr. Frisch?

Josse respondera-lhe cravando nele o olhar torvo de ateu, que não pode conciliar um supremo Criador com a imerecida desgraça da criatura.