A Caveira da Mártir
Capítulo IX · Direi muito de passagem o que era…
Direi muito de passagem o que era a profissão da medicina em Lisboa quando Isaac Eliot ali chegou apregoado pelo conde do Rio Grande, e o que ela continuara a ser no lapso de meio século. Os monumentos escritos que uma vã curiosidade conserva nas estantes empoadas, representam os médicos mais famigerados daquele tempo.
Simão Félix da Cunha, Manuel da Silva Leitão, José Rodrigues de Abreu, Francisco da Fonseca Henriques, Morato Romba, o hebreu António Nunes Ribeiro Sanches — que valia mais que todos — denotam, segundo o voto dos historiógrafos médicos, à mistura com muitas crendices já refugadas então das Universidades europeias, uma parte do adiantamento da ciência, principalmente da higiene, no último escritor referido. Se, todavia, dermos fé às virtudes apregoadas pelos forasteiros que assentavam em Portugal e anunciavam na Gazeta as suas boticas, é razão acreditar que os médicos dados à escrita e às teorias tinham resvalado a grande descrédito. E até certo ponto, D. João V participava da descrença pública nos doutores conimbricenses e nos que já tinha de fora quando em 1723 mandou consultar os médicos de Marselha acerca da peste que então ardia em Lisboa.
Desde muito, a concorrência de curandeiros a Portugal disputava-se a posse da ignorância do povo, e melhor direi, de todas as classes, porque a rudeza era quase geral, e ainda os poucos inteligentes não saberiam estremar o empirismo, quando a enfermidade lhes cegava o entendimento.
Um dos forasteiros que mais de assalto conquistaram a confiança de Lisboa, e aniquilaram a ciência nacional, foi o boticário Alberto Leonardo Konig, que, na Gazeta de 20 de Abril de 1724, se anunciava oficial maior da botica imperial de Viena de Áustria e viera a Lisboa para assistir como Provisor à botica da rainha nossa senhora; e acrescentava que trazia consigo muitos, segredos medicinais da augustíssima casa de Áustria para a rainha e a sua família, e muitos símplices e medicinas úteis e frescas. E frescas!
Este boticário desbancara o médico de Sousel, o doutor Jerónimo Moreira de Carvalho, que, em Fevereiro do mesmo ano, anunciava, na mesma Gazeta, que morava em Sete Cotovelos, junto ao beco sem saída, e oferecia os seus remédios de carnosidade e mais achaques de rins, bexiga... achaques de pescoço e alporcas, febres e névoas de olhos, e outros mais remédios eficazes.
Não conseguiu, porém, o boticário austríaco descer inteiramente da sua reputação na especialidade «hemorroidas», o acreditado ferrador que se anunciava deste feitio, na Gazeta de Maio: Quem quiser um remédio eficaz parra almorreimas, cursos de sangue e dor de cadeiras sem prejuízo da sua saúde vá falar com Manuel Correia, ferrador às Portas de Santo Antão, que dirá onde se vende. Era ele o inventor do remédio; e tão limpo de burla que restituía o preço da droga (4$800 réis) se o enfermo, passado um mas, não funcionasse com a máxima sanidade fisiológica.
O ferrador já em 1717 havia lutado cientificamente com o químico valenciano D. Baltasar Gisbert. Este sujeito, que também morou no Arco dos Sete Cotovelos, curava, no espaço de 18 dias, as doenças torpes e inveteradas, desde a 1ª até à 4ª espécie inclusive. Afora isto, curava três castas de hidropisia, e todos os mais afetos uterinos. Que afetos! Não levava dinheiro sem curar: se matava, era gratuitamente.
Quem desluziu algum tanto a estrela do boticário de D. Mariana de Áustria, foi um pseudo Fr. António de Castro, que numa Gazeta de Junho de 1724 se anunciou espanhol e religioso da ordem de S. João de Deus. Vendia:
Água para tinidos e zunimentos dos ouvidos, etc.
Bálsamos parra preservar de aborto, para confortar a memória e os nervos, etc.
Tinha outros unguentos para almorreimas de exímia virtude, Naquele tempo ainda as almorreimas podiam ser exímias. Depois tirou-se o adjetivo às mesmas, e grudaram-no aos patriotas — patriotas exímios — verdadeiras e importunas hemorroidas dos intestinos do Estado.
Os remédios do frade estavam no galarim, quando o encoberto autor, vaidoso do êxito, saiu com este desmentido na Gazeta de 28 de Junho de 1725: Os remédios publicados na Gazeta de 15 de Junho de 1724 em nome de Fr. António de Castro, foram inventados por Luís de Maia Pinto, boticário do duque de Lafões, e morador às Portas de Santa Catarina, e por modéstia se publicaram com o tal nome, etc. Parece que, desde que o frade deixou de colaborar no gral do boticário, a freguesia voltou-se para o ferrador ou para o ex-oficial maior da botica da imperatriz da Áustria; pois foi ingratidão tanto maior quanto o modesto Maia, neste funesto contra-anúncio, declarava ter inventado também um agradável e eficaz remédio, entre todos os maiores, para defender o coração de todos os vapores, melancolias, e toda outra malignidade de que for acometido.
E prometia mais invenções em outra Gazeta.
Poucos facultativos podiam ganhar a sua vida decentemente em concorrência com os curandeiros de casa e de fora. Em 1731 um notável cirurgião de Lisboa era obrigado a curar as almas, à míngua de corpos doentes, como se depreende do seguinte anúncio da Gazeta de 13 de Dezembro:
Saiu à luz uma novena para se festejar o trânsito do gloriosíssimo patriarca S. José; autor José da Silva Fernandes, cirurgião aprovado e morador à Horta Seca, em cuja casa, ou na sacristia da paroquial igreja da nossa Senhora da Encarnação a pode procurar quem quiser.
O médico Brás Luís de Abreu escrevia, no mesmo tempo, a Vida de Santo António, e Manuel da Silva Leitão oferecia o seu Regimento de Paridas à imaculada e sempre Virgem Mãe de Deus.
Quem manteve sempre inabalável fama foi um médico lisboeta, de alcunha o Machuca. Este doutor, à imitação do médico árabe Thabet, estudava as doenças nas fisionomias. O Cavalheiro de Oliveira tratou-o pessoalmente, e refere ao seu respeito o seguinte caso: «Fingia conhecer no pulso as desordens cometidas pelos seus doentes; umas vezes, adivinhava que um bebera o vinho proibido, e outro não observara o silêncio prescrito. Tomava o pulso da donzela, da casada, do jovem. À primeira dizia, por exemplo: «a menina comeu uma azeitona, sugou uma laranja». À segunda: «a senhora tem ciúmes; e desconfio que alguma razão tem... O seu marido, posto que a ame, ama alguém mais». Ao rapaz, finalmente, dizia: «o senhor teve certa visita, ou recebeu carta do namoro... Não negue, que o pulso denuncia-o». E falava quase sempre tão ao certo que passava por adivinho. E daí o conceito público, muito grande clínica, e dinheiro a rodo. Um seu colega, médico de nome e charlatão professo, vizinho e amigo dele, disse-lhe um dia «O senhor, que é ilustrado e digno, deve saber que eu sou uma das duas coisas, ou muito bruto ou muito infeliz. Temos ambos o mesmo ofício e começamos a praticar ao mesmo tempo. O senhor ganhou celebridade e riqueza; e eu... ninguém sabe o meu nome, e tenho apenas o triste rendimento quotidiano da minha pobre família. Em nome de Deus lhe rogo que me ensine uma diminuta parte do processo que o faz adivinhar; que com isso me fará feliz».
— Vizinho — respondeu o Machuca — eu não adivinho. — Mas, condoído das lástimas do outro, lealmente lhe declarou que todo o seu saber consistia em certa perspicácia, tino e habilidade no descobrimento de certas coisas que somente os ignorantes podiam imaginar extraordinárias. E acrescentou:
«Entro no quarto de um doente; suponha que é uma rapariga incapaz de observar a severa abstinência que lhe prescrevi; por acaso descubro ao pé do seu leito um caroço de azeitona ou a tona de uma laranja: tomo-lhe o pulso, e digo-lhe que ela comeu isto ou aquilo: adivinho; ela nega; mas no seu ar perturbado está a confirmação; insto, ela sucumbe, confessa o facto, pensa que adivinhei, e divulga o caso. Os outros sucessos de que o colega me fala são tão simples e naturais como este».
O charlatão replicou: Agora percebi o seu segredo; espero sair-me bem. Muitíssimo obrigado. Eu lhe darei notícia dos meus progressos.
«Sai o homem de casa do conselheiro, e topa uma consternada mulher que o chama para lhe ir ver o marido que tem febre. Segue-a, e encontra um homenzarrão, prostrado na cama, a queixar-se de violentas dores de cabeça. Senta-se o médico, toma-lhe o pulso; e observando que debaixo da cama está uma pouca de erva, diz ao doente que ele comeu muita erva, e por isso está mal.
— O Sr. é um bêbado! — exclamou o doente. — E você é uma besta que come erva! — retruca-lhe o doutor. — O enfermo irrita-se, esquenta-se, e diz-lhe que a mulher não topou mau burro na rua. Sustenta o doutor que burros são os que comem erva. O doente enraiva-se, salta da cama já curado pela ira, a mulher faz coro com ele, saltam em cima do médico, e pregam-no de trambolhão no fundo da escada. Com a espádua contusa, o adivinho infausto foi contar o êxito ao colega. Divulgou-se a desgraçada aventura, e todos zombavam do charlatão.»
Conhecedor dos médicos e do país, Isaac Eliot, aconselhando à toa o leite de jumenta no maior número das enfermidades, dizia com protervo sarcasmo que os portugueses deviam ser curados com remédios extraídos dos seres da sua mesma espécie.
Isto dizia ele ao seu patrício Estienne que então fabricava em Lisboa uma beberagem de virtudes medicatrizes universais: chamava-se a panaceia — água do francês, e o francês provavelmente chamava-lhe água do chafariz. Não quero dizer que esta medicina fosse a preexistência da homeopatia; porém, menciono o caso em confirmação dos elogios que respeitáveis autores fizeram aos predicados medicinais da água do poço do Borratém, do chafariz d'el-rei, e várias outras bicas.