A Caveira da Mártir
Capítulo XXIX · Em Berlim e em Lisboa, simultaneamente, receberam…
Em Berlim e em Lisboa, simultaneamente, receberam Antónia Xavier e Josse Frisch cada um sua carta.
A do prussiano era lacónica. Começava desculpando-se de não haver escrito no correio anterior; a sua dor fulminara-o. Explicando esta dor, compendiava em frases curtas e recheadas de interjeições, a violência irresistível que o pai lhe fazia, casando-o com uma parenta rica de quem era tutor. Vaticinando o porvir que o esperava, sorria à Parca e a chamava como redentora. Henrique Rutier, sabendo que Frisch era poeta, assentou que o termo genuíno do caso e da pessoa era Parca em vez de morte. Isaac aprovara o alvitre do pajem, laureando-o com uma gargalhada. Concluía, depois de algumas frioleiras usuais colaboradas pelo médico, advertindo Antónia que não lhe escrevesse, porque já não teria tempo de receber em solteiro a sua resposta, e tão depressa casasse iria em comissão da academia à Escócia.
A carta ida de Portugal para Josse Frisch era mais extensa, porque Antónia escrevia os caracteres garrafais da época, facílimos de imitar. Rutier, vaidoso do seu engenho, gozava em dobro o prazer de compor quatro páginas de má novela por avultada gratificação.
Falsificando, porém, o dizer singelíssimo de Antónia, teceu um enredo com as suas peripécias desgrenhadas de exclamações, de apóstrofes, de raptos e até de monólogos delirantes; mas a urdidura do entrecho não honrava a fantasia de Rutier, bisavô de alguns modernos romancistas do seu país. O seu tio (contava a menina em linguagem já plangente, já ramalhuda) desconfiado da continuação do seu amor, tratara em lhe arranjar marido tão cautelosamente que ela — a infeliz! — vira pela primeira vez um fidalgo de Braga que ao mesmo tempo lhe era apresentado como noivo. Desmaiara, dizia ela, e, tornando a si, exclamara as lamentações que reproduzia na carta com prodigiosa memória. Eliot achara desnatural a reminiscência dos clamores fraseados em conceitos e trocadilhos; mas Rutier, o autor rebelde à razão e à natureza, defendia a sua obra, desfazendo no gosto um tanto moirisco do patrão. E riam ambos, nestas contendas do realismo contra a retórica, até lhes doerem as ilhargas.
Consumara-se a infâmia.
Do efeito destas duas cartas diremos já a porção de angústia que coube à filha de D. Catarina de Castro.
Leu e não duvidou. Aquela era a letra de Josse. O papel era diverso das cartas dele: mas semelhante diferença despercebeu-a a alma atribulada na transformação da sua vida, no instantâneo anoitecer do seu dia apenas alvorecido. Foi ao mosteiro de Odivelas, mostrou a carta às três religiosas, que a confortaram: mas havia uma só que chorava com ela.
D. Paula Perestrelo e a irmã valiam mais como consoladoras. Ungiam-lhe a ferida do coração com os bálsamos triviais, incitando-a a escolher novos afetos, picando-lhe o amor próprio, insinuando-lhe o desforço do orgulho, encarecendo-lhe enfim a formosura e o dote.
— Se não tens um marido poeta — dizia soror Paula — terás uma coroa de condessa, minha filha!
— Quem diria que o tal fazedor de versinhos de pé quebrado havia de sair-se assim como qualquer tendeiro bestial que casa com uma parenta endinheirada! — observava D. Maria da Luz, tentando a cura pelo método, ainda hoje vigente, de afidalgar as aspirações de Antónia.
Nada obstante, a bisneta de Ângela, voltando para Lisboa, adoeceu, deitou-se, teve febre, e assustou o pai.
Às carinhosas interrogações do padre nada respondeu que revelasse a causa da doença. Eliot assistia-lhe tão assíduo que Xavier, abraçando — o com o estremecimento paternal, exclamava:
— Salve-ma, doutor, salve-ma já que teve a crueldade de me não deixar morrer, antes que eu conhecesse... A minha filha!
Era a primeira vez que o padre vencia, na presença do médico, o seu pejo de sacerdote e pai. Pediam perdão por ele as lágrimas que lhe derivavam nas faces.
Eliot receou pela vida de Antónia; mas, figurando-se a hipótese da morte, cogitou logo nova traça a respeito da herança do padre Xavier. A riqueza de Antónia podia e devia dar a felicidade a alguém, sem necessidade absoluta da vida da sua dona. Duas frases de Henrique Rutier esclarecem as hipóteses de Eliot.
— Dê-me algum papel escrito pelo homem. Quero ensaiar-me a tempo.
Pensavam em forjar o testamento do padre, se ele sobrevivesse à filha.
No entanto, Antónia Joaquina cobrou melhoras quando leu uma carta de soror Paula, avisando-a de que a sua amiga D. Catarina de Castro sofria por amor dela, tanto que se receava pela sua vida. Galvanizou-a aquele santo amor. Não conhecera outro, desde que Paulo Xavier a deixara menina. O amor de Josse Frisch era-lhe uma recordação infernal, um complexo de sentimentos em que sobressaía o ódio.
O padre, quando a viu fora do leito, beijou as faces de Eliot, cingiu-o ao peito freneticamente e exclamou:
— Devo-lhe a minha filha!...
— E eu devo-lhe um conceito que não mereço — disse cavilosamente modesto o doutor — Deus, sendo bom como é, não roubava a um pai tão extremoso uma filha tão amável. Eu por mim não fiz mais que incutir-lhe no espírito a vontade de viver para amparo do seu tio.
— É um anjo! o doutor é um anjo!... — balbuciava o padre enxugando as lágrimas.
A importuna frequência do médico irritava os nervos da convalescente pela sua parte nada tinha que agradecer à medicina. Os remédios receitados por Eliot mandava — os ela emborcar na pia dos esgotos. Era-lhe odioso aquele homem que, na ausência do padre, e com a liberdade de médico, devassando-a nos segredos do coração, deixava ao seu pesar perceber que os adivinhava; e ao espanto de Antónia respondia com algum galanteio desta espécie boçal:
— O amor é feiticeiro.
A infâmia bestificava-o, rosto a rosto da vítima.
Cuidou Antónia que, refugiando-se na quinta de Camarate, descansaria da surda luta da raiva em que a punha o médico. Pensava que ele raras vezes iria ao campo.
Pediu ao tio que a deixasse ir para a quinta passar o verão. O padre condescendeu alegremente, inferindo da petição que as conjeturas de Eliot, quanto à correspondência amorosa, desvaneciam-se de todo, pedindo-lhe a filha um viver ainda mais solitário e desatado de relações.
Em Camarate, agravou-se a sombria tristeza de Antónia. Às pessoas aflitas o silêncio dos montes e dos arvoredos parece que lhes apura a sensibilidade íntima quando a alma chora. A soturna mudez do céu e terra como que reveste de formas sepulcrais as saudades e esperanças. O decantado murmúrio dos arroios e a toada murmurosa das selvas são frases gastas e desbotadas que já tiveram certa valia prosódica e bucólica nas pastorais de Rodrigues Lobo e Álvares de Oriente. Os desgraçados que se embrenham nas aldeias só lá encontram o refrigério do aniquilamento, quando o enojo os dissolve.
Ainda assim, Antónia queria morrer naquele ermo, e repousar no jazigo de Ângela e de Francisco Mendes Nobre, seus bisavós, que apenas conhecia tradicionalmente de lhes ver os nomes no epitáfio. O padre, afligido, chamava Eliot todos os dias, embora conhecesse a repugnância de Antónia. Vingava-se ela fugindo para Odivelas; porém Eliot, em nome da ciência, induziu o padre a desconsentir nesses longos passeios a cavalo que extenuavam a enfraquecida compleição da filha.
A proibição autorizada pelo médico sobre-excitou Antónia. Subjugados os ímpetos da cólera, voltou a febre, a palidez, o quebrantamento. Amiudaram-se por isso as visitas do doutor, e renovaram-se nele os receios de que a enferma se consumisse na febre ética. Ao mesmo tempo, Francisco Xavier queixava-se de angústias no coração, turvações, ânsias que o espertavam de noite sufocado pela tosse. Originava estes padecimentos em remotas dores morais; porém, asseverava que uma noite, assistindo à filha, que dormia ofegante, pensou que ela estava na agonia da morte, e então sentira e ouvira estalar-lhe o que quer que fosse no coração. E desde aquela hora nunca mais descansara sobre algum dos lados.
Eliot depreendeu que o padre tinha lesão grave, denunciada no pulso.
Por esse tempo, perguntou o médico a Henrique Rutier:
— Como vão os ensaios?
— Bem: e como está a jovem?
— Mal, e o pai pior.
— Pois, a respeito da letra — disse o pajem — não lhe dê preocupação. Trate o doutor de arranjar o rascunho de testamento, e veja lá como faz isso, percebe? Olhe que a minha perdição devo-a à bestialidade de um herdeiro; mas o parvo foi também condecorado com a grilheta. Veja lá, isso de testemunhas e de tabelião como se faz. Será bom que o padre faça um testamento, e que o doutor seja o encarregado de o apresentar. Depois, passe-mo legal, que eu o tornarei legalíssimo. Cautela! Olhe que na Ribeira das Naus também há grilheta...