A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 22 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo XXIII · A residência do padre Francisco Xavier na…

 

 

A residência do padre Francisco Xavier na rua do Outeiro era celebrada entre as mais faustuosas casas de Lisboa, no primor dos embutidos em contadores, nos guarda — roupas das recâmaras, no torneio e dourado de cadeiras, banquetas, bufetes, escritórios e espelhos, na baixela de prata lavrada, nas alfaias de tartaruga atauxiadas de metais preciosos, nas estatuetas de jaspe e alabastro, nos relógios ingleses, na profusão das louças indianas. Elogiava-se o apurado gosto do médico Eliot na escolha de tão opulenta ornamentação.

Dizia-se que a menina, já herdeira habilitada dos grandes haveres do desembargador, e presuntiva do património do tio, valia passante de cento e cinquenta mil cruzados: era um cálculo razoável que os homens velhos e negociantes inferiam do cabedal de Francisco Mendes Nobre, acrescido de prósperas granjearias nos portos holandeses e nas colónias brasileiras.

Com a mudança de residência, operou-se estranhável reviramento no viver do abastado, se não opulento, doutor Xavier. A sua casa era principalmente frequentada por sábios estrangeiros, apresentados por Isaac Eliot. Afora o abade de Preville, indigitado preceptor de Antónia na língua francesa e nas ciências que prelecionava, concorriam o filósofo holandês Obed Stefano Monden e o inglês Luís Baden, os quais nas Gazetas do tempo ofereciam aos indolentes lisboetas a profusão da sua sabedoria enciclopédica.

Sobre-excedia a todos os concorrentes o prussiano João Frisch, padre da Reforma, viajante, naturalista, escritor em variadas províncias das artes e das ciências. Alguns doutos portugueses, do clero e da nobreza, honravam-se em tão seleta companhia, constituindo as salas do ex-varatojano em ginásio, onde em línguas diversas se discursavam novidades científicas.

O padre remoçava naquela atividade intelectual. Reflorindo os seus antigos estudos, e especialmente a latinidade, conversava na língua de Cícero com sincera admiração do sábio de Berlim, que a exercitava a primor.

Neste congresso de sábios havia duas formosas e juvenis criaturas a quebrarem a severa monotonia do grupo. Eram Antoninha e Josse Frisch, filho do sacerdote protestante. Ela contava treze anos e ele orçava pelos dezassete. Josse, filho único e órfão de mãe, acompanhava seu pai desde a infância, era seu discípulo, conhecia os idiomas dos países que perlustrara, e decidia com a autoridade da memória assombrosa as dúvidas linguísticas entre os sábios de países diversos quando se desavinham na aceção das palavras. Era ele quem continuava a instrução de Antónia na prática da língua francesa, expurgando-a dos vícios adquiridos com a aia de Ana Armanda Duverger, e a encaminhava a esvoaçar às colmeias de Petrarca, dando-lhe a prelibar o mel dos sonetos em que a menina ia aprendendo a enjoar-se das sonolentas coisas de Camões e Sá de Miranda.

Nestes colóquios particulares, a um canto da sala, enquanto os doutos latinizavam, não admira que de parceria com Petrarca entrasse o amor com a sua grinalda de rosas em botão, faces purpurejadas, pudor sem ainda se dar fé de ser pudor, inocência sem uns longes de haver coisa no mundo que seja viciosa. Aos treze anos, menina que passara dezoito meses em Odivelas, devia ter já madrugado para as ternuras vagas, balbuciantes, enlevos, imagens sem desenho, indelineáveis como as da transição do sonho à realidade.

Mais acentuadas eram as formas do ideal do alemão: vazava, nelas o belíssimo perfil de Antónia, curvado sobre o livro. De sobre as páginas, às vezes, lhe desviava ele brandamente as espiras dos cabelos de oiro para ver as palavras. Ela sorria-se corando e sacudindo a cabeça que recendia o frescor e perfume de um ramilhete colhido nas madrugadas de Agosto.

O amor acrescentara dois anos aos treze de Antónia para que ela adivinhasse a paixão de Josse Frisch. Demudou-se-lhe então o rosto infantilmente aberto e a linguagem agraciada de meninices. Já o recebia com a gravidade de senhora. Respondia-lhe com assustadas reticências. A espaços, escutava-o abstraída, ou parecia atemorizar-se de ouvi-lo. As revelações do prussiano eram interpretadas pelo poeta de Laura. Ele insistia na análise de alguns versos das Canzoni, onde o lirismo vaporou mais subtis essências das Lágrimas.

Também a voz de Josse as tinha, quando a tremer se receava de haver magoado a isenção da rica herdeira.

Antónia falava-lhe muito de André Guilherme, e, por vezes, encostando a face à palma da mão, deixava rolar duas lágrimas, que pesavam no coração de Josse como gotas ardentes. Abrasavam-no ciúmes, quando ela dizia:

— O meu pobre André Guilherme!... quando eu o vir... já ele é frade trino...

E ficava a filha de Catarina a olhar no vago, e a recompor as feições da imagem que a túnica monástica e o claustro lhe restituiriam desfigurada.

Mas a imagem identificada à sua alma era a do esbelto jovem estrangeiro, para quem o padre Francisco Xavier olhava de través e suspeitoso. Este homem, na rigidez da vida, com as faculdades da alma viciadas, mordido de ciúmes da filha tão disputada, envaidecido de a ter assim formosa e afamada de rica, e de mais terrivelmente provado na paixão, que precedera o inferno de treze anos, via já na filha a mulher, e no prussiano um homem dotado de seduções.

E começou de se criar um novo suplício com a triplicada tortura do ciúme de mais fatais resultados. Conversando cavilosamente com Antónia a respeito de Josse Frisch, a filha ouvia-o atenciosa, interessada, jovial. Aplaudia-o com expansivos sorrisos, se ele elogiava a galhardia do jovem ou os portentosos predicados do seu ilustradíssimo espírito. E então o padre cravava os olhos nos da filha, e varava-lhos com um raio de luz escrutadora até ao coração. Ela encarava-o assustada, e estremecia retraindo-se.

Que tinha lucrado o pai nestas insidiosas experiências? Explicava-lhe o que ela a si apenas confusamente poderia exprimir. Encomiava a forma e a alma do jovem, ajudando-a a conciliar as duas belezas, física e moral. Bosquejava um homem distinto, raro, estimável. Antónia não acrescentaria amável, no seu íntimo foro; porém, quando o padre, por fim, avincava a testa e a friccionava freneticamente, Antónia traçava na sua alma uma grande interrogação, à qual respondia a primeira poesia que recebera de Josse Frisch, com tão cristalinas lágrimas que a menina facilmente se via espelhada nelas.

Aos treze anos não há mulher amada que se receie iludida; e, se por vício de educação houve alguma tão pessimista que duvidasse da lealdade do seu primeiro amado, com certeza tal fenómeno ainda está por acontecer à inocência aliada à formosura e riqueza. Diziam-lho unanimemente os sábios da assembleia do seu pai com as prosas usurpadas aos madrigais do tempo. O filósofo Baden comparava-a às mais extremadas perfeições de Londres.

O pai de Josse pedia ao padre que lhe cedesse a posse de uma miniatura em marfim para levar para o norte o modelo da beleza peninsular em todo o seu esplendor.

Abeberado do italianismo amoroso, o filho de João Frisch achara as formas da mais apurada arte em que moldurava imagens e sentimentos de profundíssima verdade. Aquela peregrina criança, feita mulher pelo improviso do amor, não podia ser amada senão assim.

No entanto, embasteceu-se novamente a escuridade de Francisco Xavier. Amavam-lhe a filha — disputavam-lha! Queria confidenciar os seus sustos de tio a Isaac Eliot; mas retinha-se, receoso de ser irrisório diante do francês que metia a riso as cautelas, os pavores das famílias portuguesas, e o ostracismo sandeu e gótico em que vegetavam as desgraçadas mulheres de Portugal, desde a núbil até à casada.

Corando a falta com os seus achaques, espacejou as reuniões, dissaboreando Antónia que, em vez de velar as fingidas moléstias do tio, fechava-se no seu quarto a reler o poema... os poemas e as prosas de Josse Frisch.

A diminuição das visitas motivou a necessidade de se comunicarem pela escrita os namorados. Até ao dia em que o padre providenciou para não se verem a miúdo, Antónia esquivou-se a responder; mas, depois da prevenção, o pejo cedeu ao poderoso impulso da saudade. Seria melhor que se vissem; mas não aconselho nem argumento com a prática. A teoria do padre ainda hoje voga com as resultas de então.

De maneira que eles, quando se entreviam, na sala, nos raros saraus literários da rua do Outeiro, tinham já expendido caligraficamente as essências das suas almas, e talhado, por todos os horizontes da imaginação além, as suas esperanças até se encontrarem com a profundidade do céu. E o que não tinham escrito completavam-no com os olhos.

Eliot havia percebido que se amavam, e segredou ao padre:

— Cuidado! A sua sobrinha trouxe de Odivelas fermento de amor. O prussiano é poeta, e há de fasciná-la porque não mente. Nada há que recear quanto à solução deste meio-amor, meio-brinquedo, porque o pai vai-se embora e o filho também; não obstante, se a menina ficar ferida, estes ferimentos dão que fazer, quando as mulheres doentes de fantasia vivem na perigosa reclusão das senhoras de Lisboa.

— Que hei de eu fazer? diga-me o doutor se não seria melhor tê-la sempre reclusa! As cautelas que me aconselha, Sr. Eliot, justificam os costumes de Portugal.

— Que há de fazer? — volveu o francês. — Aumentar o número das suas visitas quando Josse Frisch se ausentar. Reunir na sua casa tantos homens idóneos para amarem sua sobrinha, que ela não escute exclusivamente uni, nem conserve na memória o nome daquele que mais requintadas finezas lhe incensou. Em França vive-se assim. Quatro homens à volta de uma mulher são quatro sentinelas que se espiam uns aos outros; de modo que ela, por fim, aborrece-os todos.

Eliot dirigiu-se de moto próprio ao sábio alemão, segredando-lhe os dissabores secretos do padre Xavier, causados por umas inteligências amoriscadas da sua sobrinha com Josse Frisch.

— Não há dúvida que eles se amam — conveio o honrado prussiano. — Eu sou o confidente do meu filho. Ele confessa-se a mim em todos os seus grandes e pequenos actos de coração e espírito. Ainda me não foi preciso penitenciá-lo. Pelo que respeita ao seu afeto nobilíssimo à sobrinha do muito estimável Sr. padre Francisco Xavier, não tenho de que o arguir. Pelo enquanto, este recíproco amor é uma iniciação de duas almas cândidas, que em breve se afastam; quando, porém, mais sérios vínculos os prendessem, creio que nunca os desatariam desonrosamente.

— De acordo — obtemperou o cavaleiro professo da ordem de Cristo. — Mas o meu bom amigo Xavier não teme desonras, receia sofrimentos — o que já é bastante em tio sobremodo extremoso. Porém, dizendo-me o Sr. João Frisch que a sua partida de Portugal não se dilatará, são pouco de temer os resultados desta paixão nascente; mas a meu ver, poética e demasiada entusiástica.

— Nem poética nem entusiástica; diga «verdadeira» que é bastante. Nós, os alemães, consumimos poucos adjetivos, ao inverso dos senhores enfronhados no luxo latino. O meu filho ama e é amado verdadeiramente. Assevere isto ao nosso respeitável Dr. Francisco Xavier; acrescente, porém, Sr. Eliot, que o meu filho não se exime de ser honesto desculpando-se com o seu amor. Poderia talvez desonrar-se, quando amasse menos. Em suma, passados quatro dias, iremos agradecer a hospitalidade do generoso português, e abalaremos caminho da nossa terra. Josse Frisch bem é de ver que leva saudades penosas da galante menina que lhe fez a primeira luz no coração; mas, como e valoroso e tem hombridade viril, cavará no próprio seio até arrancar de lá a imagem que, ainda mal, lhe perturbou os dias felizes. O esquecimento resultante do tempo e da dignidade no meu filho será correspondido pela menina Antónia, com a diferença de ser nele esforço o que na mulher é costume. Afinal, se a saudade é cautério, a ausência é bálsamo. Vá, pois, o Sr. Eliot sossegar o seu amigo; que eu, como padre cristão, peço a Deus que a estimável sobrinha do Sr. Xavier, quando houver de dar a sua alma legitimamente a um esposo, a boa sorte lho depare virtuoso como Josse Frisch.

Comunicou Isaac Eliot estas decorosas falas ao padre, glosando-as com facécias à francesa. Ria-se o médico do aprumo dogmático do alemão, preconizando a honestidade do filho como se ali se estivesse nutrindo Catão 2° para assombro do orbe depravado, O neto de Ângela achou graça ao filho da turca, e entrou com ele a arrolar as pessoas que deviam frequentar a sua casa, em conformidade com o alvitre do seu amigo.

— Um elemento imprescindível — observou Eliot — são as mulheres. Necessitamos algumas senhoras de esmerada educação com as quais D. Antoninha conviva, já para a precaverem contra as entrepresas do amor, insinuando-lhe as insídias que ele usa, já para lhe desviarem o espírito da atenção demasiada que as mulheres aplicam aos homens, se a sua sociedade é toda composta deles.

— Tem razão, doutor — condescendeu o padre. — Essa espécie já me tem preocupado; mas o senhor conhece as minhas relações de sociedade. O infortúnio fez à volta de mim um deserto. Desatei os laços de amizade e parentesco há treze anos. Onde quer o doutor que eu vá procurar senhoras que me visitem?

— Eu terei a honra de lhas apresentar, logo que estes sábios nos cedam lugar a uma ignorância mais recreativa.

Enquanto o médico e o padre recenseavam os futuros ornamentos da renovada sociedade, Antónia lia em poucas linhas o resumo do diálogo do francês com o alemão. Josse Frisch, informado pelo pai, pediu-lhe licença para se despedir de Antónia. O velho, que já então o era muito além dos sessenta, contemplou comovido as lágrimas do filho, e disse-lhe amargurado:

— Sejam menos amargas as lágrimas que chorares quando teu pai te faltar, meu filho. Não te vi tantas, quando, há sete anos, assistimos ao enterro da tua mãe. Chora, sê fraco, sê homem; mas, na sequência da vida, sê cauto. Quando vires mulher que te dispute à ciência, teme que ela também te vença na inteireza do dever, e lembra-te sempre que a primeira que amaste foi mais chorada que a tua santa mãe.

O francês, se o ouvisse, motejá-lo-ia.

O velho afastou-se para acondicionar os seus livros e papéis. Josse escreveu, e foi esperar na botica do seu patrício Jácome Valebelt, morador no Canto da Cordoaria Velha, que o seu escravo medianeiro recebesse a carta.

Na carta do consternado jovem havia uma cláusula que estancou as lágrimas de Antónia. As frases eram estas pela alma da nossas mães te juro que voltarei a Lisboa sozinho, e bem livre para ser escravo teu; e, depois, ou sairás daqui minha esposa, ou eu acabarei os meus dias desgraçados onde tu possas ir chorar sobre as minhas cinzas.

Passados os quatro dias aprazados pelo ilustre viajante, os Frisch despediram-se do padre Xavier. O pai perguntou por D. Antónia, que não viera à sala. Xavier, carregado no rosto, respondeu que a sua sobrinha estava febril, e ficara de cama, por ordem do Dr. Eliot.

Josse abaixara os olhos sob um lance de vista aspérrimo do padre, cujas palavras secas, breves e sacudidas, acusavam a ira do seu carácter desabrido.

O sacerdote luterano, atentando no abatimento do filho, fitou-o com severidade, e disse, voltado para o padre:

— O abatimento do meu filho não confessa alguma ação baixa. Todos os homens de bem começam as suas lides com o mundo, abaixando a cabeça à tirania da injustiça.

Xavier não replicou; fez a sua última cortesia, e mandou o seu escudeiro acompanhar os dois senhores.

Mas o escudeiro e João Frisch mantiveram-se enfiados quando viram Antónia sair de improviso ao patamar da escada, e lançar-se arquejante de soluços nos braços de Josse. O velho pegou mansamente das mãos de Antónia, descingiu-lhe os braços do pescoço do filho, e murmurou:

— Antoninha, espere que a vontade de Deus se manifeste pelo andar do tempo.

CAPÍTULO XXIV

 

 

Quando Antónia voltou desfeita em choro à sua alcova, encontrou o tio na antecâmara. O tapete abafara o estrupido da ponta metálica da perna artificial, ou ele acintemente palmilhara com o pé único as casas intermédias.

— Pensei que estavas na cama! — disse ele dissimulado.

— Donde vens?

— Venho... de... fui à sala... — gaguejou Antoninha.

— Da sala venho eu, menina. Ou eu estou invisível ou tu.

E, chamando o escudeiro ao corredor, perguntou-lhe:

— Acompanhaste os estrangeiros?

— Sim, senhor.

— Quem viste na escada?

O criado inclinou a cabeça para uma banda e coçou-a por ambos os lados.

— Entendi. Vai-te.

E retirou-se para o seu quarto resfolegando bafejos tropicais, e batendo com a perna de pau rijamente o compasso da respiração sacada por arrancos.

Três lancinantes saudades mortificavam Antónia naquela hora — Josse Frisch, o mosteiro de Odivelas, e o seu querido amigo André Guilherme. As três dores, porém, convergiram numa só, expressada em poucas palavras: «Sou órfã; não tenho pai nem mãe!» Esta dor reviveu-lhe a saudade de Paulo Xavier, cujo retrato ela tinha pendente do seio. Chorou muito, e pediu à alma do seu pai que a socorresse. Era uma aflição pueril, mas tão entranhada que a morte lhe parecia benefício do céu.

Entrou o médico, sondou-lhe o pulso, receitou-lhe um calmante, e dilatou-se a dizer-lhe frivolidades em francês. Antónia ouvia-o com aborrecimento.

Contou-lhe Eliot que passara a noite numa festa de noivado, em casa das Sr.^ Caldeironas, meninas de fidalgo nascimento, uma das quais casara com o seu amigo e patrício Tomás d'Arta, gentil-homem da Picardia, que fugira de França por motivos religiosos e abraçara o catolicismo para casar com D. Maria Teresa Caldeirão. Acrescentou que já obtivera do padre licença para lhe apresentar estas nobres senhoras, uma das quais, D. Leonor, anjo de catorze anos, era uma das mais prendadas e encantadoras meninas da capital; e ele esperava que Antoninha simpatizasse com Leonor, tanto pela consonância dos espíritos ilustrados, como pelas analogias da formosura.

Perguntou-lhe Antónia se ele tinha ido a Odivelas na semana passada, e se D. Catarina e D. Paula se queixaram da sua falta naquele mês.

Eliot, sorrindo, respondeu que ele a desculpara com D. Catarina de Castro, contando-lhe a historiazinha de uns amores de primeira primavera, e que a freira, com os olhos cheios de lágrimas, exclamara: «Ah! pobre criança!»

Antónia trejeitou a menos equívoca explosão de zanga, quando o francês acompanhou de uma gargalhada seca a dolorosa reflexão de D. Catarina.

E retirando-se de ímpeto, disse que ia dormir, porque tinha sono.

Isaac Eliot retirou-se vexado da descortesia, e foi queixar-se ao padre, desculpando-a, ainda assim, e aconselhando novamente a sociedade de senhoras para que a menina aprendesse na prática a civilidade que não se estuda nos livros, e se polisse, desbastando-se das indelicadezas resultantes do muito mimo e de escassa familiaridade com damas.

— Já me lembrei — alvitrou o padre — dar-lhe como companheiras mais assíduas as irmãs de André Guilherme, que são meninas dignas de tal irmão.

— Gente de baixa laia?

— Não são fidalgas; mas também não têm os vícios dessa classe. São excelentes raparigas que receberam do irmão lições de virtude.

— Isso não obstante — volveu Eliot — a família Caldeirão, além do berço ilustre, vale muito pelas graças da sua seleta sociedade...

— Ora diga-me, doutor; essas Sras. Caldeironas, ou Caldeiroas, não são filhas de Francisco Caldeirão da Veiga Cabral, um fidalgo que solapou o seu imenso património e casou com...

Deixá-los esmiuçar na vida das Caldeironas, enquanto nós, em resumo, relataremos o que é do interesse desta história.

Coisa digna de reparo é a intervenção repetida da família Veiga Cabral no destino de Maria Isabel Traga-malhas, e da sua trineta D. Antónia Joaquina Xavier, como ao diante veremos. Na Filha do Regicida, João da Veiga Cabral, fugindo com a viúva de Domingos Leite Pereira, mudou o cenário da tragédia, restaurando pelo milagre do amor a dignidade da esposa. Oitenta anos depois, veremos a funesta influência que uma Veiga Cabral atuou no destino da bisneta de Ângela.

O seguimento deste capítulo ameaça enfados e razoáveis espreguiçamentos. Livre-se dele o leitor, se quiser. Eu é que não posso, obtemperando às perversas corrupções de Ponson, esquecer-me de que sou, neste caso, historiador, e exorcizo e abomino as execráveis tentações de romancista.

Vamos ao génesis dos Caldeirões.

Em 1585, Filipe II aforou de fidalgo um Manuel Caldeirão, de Lisboa, mercador opulentíssimo, oriundo das Astúrias. Por 1583, se obrigara o argentário a enviar anualmente cinco naus à Índia, dando-lhe el-rei oitenta mil cruzados mortos, e dezasseis mil cruzados cada ano por cada nau. Instituiu Manuel Caldeirão três morgados, e casou com Guiomar Caldeira. Nunca se casaram apelidos tão conformes! Havia, nesta caldeirada, predestinação.

André, filho destes, enxertou-se no tronco ilustre de Furtados de Mendonça; Rodrigo casou num dos ramos dos ínclitos Noronhas; Brites, em Elvas, no morgadio do Esporão, com Luís Mendes de Vasconcelos; Leonor, com o desembargador Jerónimo da Veiga Cabral, filho do tristemente famoso Tristão Vaz da Veiga, que entregou a Torre de Belém, por cinco mil cruzados, ao duque de Alba.

Aí está como Veigas Cabrais se incorporaram em Caldeirões, e o sangue destes se injetou nas artérias de levantadas prosápias. Então, como hoje. Dinheiro, o invicto!

No primeiro quartel do século XVIII, a varonia das duas famílias identificadas estava em Francisco Caldeirão da Veiga Cabral, residente em Lisboa. Este fidalgo, administrador de três poderosos morgadios, foi muito rico, libertino, perdulário, viveu femealmente como paxá, e à hora da morte casou com uma das suas ilustres vítimas, D. Mariana Bembo de Sousa, filha de Fabrício Bembo, da qual tinha três filhas.

As famílias ostrogodas da corte reprovaram o casamento do morgado dos Caldeirões com a filha do Bembo, oriundo da Itália; todavia, século e meio antes, casava, em Vila Real de Trás-os-Montes, outro Fabrício Bembo com a irmã de um certo João Lopes, a cujo filho Afonso deu foro de cavaleiro e armas D. Filipe I, em 1853. Pelo que, os Bembos cronologicamente eram coevos no brasão em Portugal com os Caldeirões; afora isso, os primeiros ufanavam-se do seu ascendente o cardeal Bembo, conforme em bom latim lho outorgavam as cartas passadas pelos senadores de Cremona em 24 de Novembro de 1545:

...Bemborum familia, quae non solum apud nos nobilitate prestat, sed etiam Venetiis cui aetate nostra maximum addidit ornamentum Petrus Bembus... cardinalatus dignitate a Paulo III, etc.

Este latim e outros perderam-se no pleito instaurado contra suas primas pelo mestre de campo João da Veiga Cabral, linha segunda que vivia ricamente em Vila Real. Fundamentando a demanda no casamento desigual do seu tio e nas condições dos vínculos, esbulhou-as de três morgadios. As três meninas aguardavam o patrocínio dos seus numerosos primos. Às suas salas, as mais faustosas e alegres no reinado de D. Pedro II, apenas entraram os oficiais de justiça com ordem de despejo. Primo, ou amigo, nenhum.

Eram três meninas tão distintas pelo acaso da origem como pelos predicados da beleza física. As feições morais agouravam mal. Tinham brilhado na desordem e no desperdício. Ostentaram-se como formosas, sem resguardo nem astúcia, à espera de maridos quando viram vazios os contadores do seu pai. O desbarate entrou pela fazenda e pelas almas.

D. Joana, a mais velha e malograda morgada dos Caldeirões, salvara um vínculo insignificante alheio às cláusulas dos outros. Esta amparava mesquinhamente as irmãs. D. Maria Teresa, que era bela e doida, casou com o aventureiro francês Tomás Darcet (ou de Arcet, como ele se dizia) pavoneando-se de fidalgo picardo com raízes nas cruzadas, e vivia em Lisboa da esgrima, equitação e outras prendas. A terceira e mais nova, D. Leonor, era prodigiosamente linda, tinha catorze anos quando casou sua irmã, e estremava-se das outras pela inocência. Inspirava piedade aos mesmos que se afastavam daquela família decaída. Deploravam-na no guine do perigo; mas ninguém lhe ministrava o pão tutelar da honra. Os que se avizinhavam dela, carpindo-a, iam intencionados a perdê-la.

Isaac Eliot, amigo de Tomás Darcet e a sua visita, amava Leonor. A paixão aconselhava-o a um enlace honroso. Desde que se declarou ao marido de Maria, desmentiu a presunção geral de ser casado com a francesa. Esperava-se que Leonor perfizesse quinze anos para esposar-se com Isaac Eliot, que orçava pelos trinta e dois.

Eis aqui, pelo enquanto, o que importa saber-se das Sr.^ Caldeironas, aconselhadas ao padre Francisco Xavier para lhe polirem a sobrinha, quando nenhuma família de bom nome as admitia às suas salas, por isso que elas já não tinham salas — e bastava esta desgraça para que os amigos e parentes do seu pai não discutissem se elas conservavam a dignidade.

Leonor sabia que o seu cunhado e irmãs lhe tinham já deliberado o destino. Conformara-se, porque os seus vestidos estavam poidos, as suas mantilhas no fio, e o seu pescoço e pulsos eram nus de gargantilhas e braceletes. Mas, no recôndito da sua alma, aborrecia Isaac Eliot.

CAPÍTULO XXV

 

As senhoras Caldeironas, as duas irmãs do noviço André Guilherme-meninas devotas — e a viúva e filhas do historiador francês Jacques Quem de la Neufville, falecido em Lisboa em 1727, criaturas desempoadas e logreiras: tais eram as relações que substituíram os filósofos na sala do doutor Xavier.

Estas senhoras cortejavam Antoninha com admiração da sua beleza e do seu soberbo património; todavia, as irmãs do noviço, estranhas e escrupulosas no meio das gárrulas francesas e das duas Caldeironas, consultaram o mano frade se lhes iria bem tal sociedade.

André Guilherme respondeu a suas manas que se desviassem de tais donas; escreveu a Antoninha perguntando-lhe se o tio endoidecera; e escreveu ao padre, rogando-lhe que não empestasse o ar em que a sua inocente sobrinha estava alimentando o espírito.

As irmãs não voltaram à rua do Outeiro, e confessaram-se ao seu diretor espiritual de comunicarem por meio de gestos e palavras com as Caldeironas. Antoninha retraiu-se aos ares familiares das importunas visitantes, não pagando as visitas. E o padre Francisco Xavier mostrou a carta do noviço a Isaac Eliot.

O médico leu e disse:

— Este homem é um asno acabado. Se em vez de injuriar Pessoas ilustres lá do valhacouto do convento, estivesse cá fora o birbante, eu lhe verberara a face com um chicote, ou o mandaria esbofetear pelo meu pajem Henrique Rutier, que tem queda especial para esbofetear portugueses petulantes. Veja o doutor que bonito frade se está formando neste biltre de língua viperina!

— Não exagere, Sr. Eliot! — acudiu o padre — André Guilherme não insulta ninguém nesta carta. Zela a virtude da minha sobrinha, e presume que as Caldeironas e as Neufvilles não respiram ares muito puros.

— Aí é que está a calúnia! — replicou o médico — a sua sobrinha não é mais ingénua que Leonor Caldeirão; e as irmãs, posto que não aspirem a engrossar o número fabuloso das onze mil virgens, portam-se como fidalgas.

— Mas olhe que as fidalgas, por via de regra, doutor, não se portam bem. O senhor já sabe que eu fui dos saraus destas senhoras, quando elas eram meninas e já prometiam pagar muita tolice ao dízimo.

— Mas Leonor é um anjo! — retorquiu o francês com a veemência de leal paladino.

— Leonor nasceu depois que eu frequentei a casa do seu desbaratado pai; e note que a consideração de eu ter sido dos obsequiados por esta família nos dias prósperos é grande parte na condescendência de a receber na minha casa. Peço-lhe, porém, que seja equitativo com o pobre André, verdadeiro amigo da minha sobrinha, e incapaz de caluniar. Ele conhece, sem o praticar, este mundo de Lisboa, e faz das Caldeironas o conceito ruim que elas, pela sua má sorte, granjearam. De Leonor tenho grande dó. E, se me consente intrometer-me nas intenções reservadas do seu coração, peço-lhe que apresse o desfecho ou o fecho destes seus amores; e, depois, aceite para si também o conselho do meu frei André.

— Não me guio por frades, doutor! — retrucou Eliot, sorrindo — Frades é que eu não consentirei de portas adentro, quer eu case com Leonor, quer com outra. Frade em Portugal conheci um só digno de respeito; e a esse tive eu o desgosto de cortar uma perna.

O padre apertou-lhe a mão reconhecido, e replicou:

— Ora vamos, ora vamos, não é tanto assim. Há muito frade bom, e André Guilherme há de sê-lo ótimo. Verá, doutor.

— Na minha casa, não.

— Mas vê-lo-á, se quiser, por essa moirama a resgatar cativos.

— E cativas... — acrescentou o sarcástico semi-turco.

Continuaram regularmente as senhoras Caldeirões e Neufvilles a alegrar o salão do padre com as suas palrices e prendas. D. Joana, a quem chamavam ainda a morgada, cantava, tangia o violino e dançava minuetes e sarabandas picadas com o lascivo desnalgar-se de uma andaluza. Os seus cantares eram motetes, tarambotes e xácaras de que vamos dar exemplo com a Modinha da Sécia, em que D. Joana era consumada artista. Eliot rebentava de gáudio quando lha ouvia cantar. Foi ele quem pediu a Modinha da Sécia, para alegrar as duas meninas, Leonor e Antónia, retiradas a um canto da sala.

A morgada pegou da violinha e garganteou muito afetada e trejeitosa as seguintes coplas que a música, porventura, fazia menos detestáveis:

 

Eu canto a Sécia

Do rico, que é facécia

Quando fala de estalo

Na quinta e no cavalo,

Na ópera e no jogo,

E, vomitando fogo,

Engole a quantos vê.

Porém, sabem porquê?

Por parecer que é muito,

Mas ele nada é.

 

O padre, que conhecia as trovas de as ter ouvido quinze anos antes em assembleias de loureiras, com que o famoso Campolide enviscava a roda dos rapazes dinheirosos, arrugou a testa, e volveu os olhos a Antónia.

A Caldeirona continuou, depois de preludiar no instrumento uns langorosos sustenidos que deviam de ser os requebros da guitarra fadista que as senhoras de hoje em dia fazem gemer:

 

Do peralvilho

É a sécia, e do casquilho

Vestido de mil cores.

Na véstia fitas, flores,

Peitos à francesa,

Gravata à inglesa.

Quase descalço o pé.

Porém, sabem porquê?

Por parecer que é grave

Quem sabe que o não é.

Bravos do médico, risadas das francesas, novo prelúdio com os ademanes do pátio das comédias, e a continuação:

 

Quem a Sécia canta

Tem dor de garganta;

E geme em falsete

E afaga o topete

E dá gargarejos

Que envolve em solfejos

Do seu sol, fá, mi, ré;

Porém, sabem porquê?

Por parecer de Itália

Mas ai que não é.

 

Ai! a sécia do nobre

Desdenha do pobre

E diz: «fado meu!

Quem te conheceu

Como eu conheci

Mas porque então me vi

Hoje ninguém me vê!»

Mas sabem porquê?...

Por ter coração,

Percebe você?

 

Eis aqui, como amostra de prendas, a mão de verniz que devia polir a educação social da filha de D. Catarina de Castro.

Antónia Joaquina ouvira sem entreabrir um sorriso complacente a insulsa canção, e pela primeira vez observava os meneios lúbricos de cabeça, braços e cintura que a desenvolta, neta de Caldeiras e Caldeirões exibia.

Desfeita a assembleia, disse o padre ao médico:

— Eu já ouvi aquilo cantado pela célebre Paulina da Madragoa, nas bacanais da rua de S. João, em casa do Terra. Que mágoa me faz ver assim abatida a filha de Francisco da Veiga Cabral!

— Ah! portugueses, portugueses! — exclamou Eliot — quem vos espanejara a poeira dos olhos! Vá a Paria, doutor, vá a Paris, e ouvirá as grandes damas da corte de Luís XV cantar tonilhos, seguidilhas de Espanha, e dançar as mais libidinosas sarabandas!

— Não irei a Paris ver isso — volveu o padre — nem tampouco outra vez consentirei que a minha sobrinha assista às tramoias teatrais de D. Joana. Não reparou que a menina parecia vexada?

— Se é tão inocente, quanto me persuado que é, não estava vexada. O vício aborrece tão somente aos que o conhecem. Inocentíssima é D. Leonor, e não se escandaliza de ouvir a irmã; pelo contrário, diante de pessoas íntimas, dança um sarambeque tão boleado que é um encanto de olhos.

— Feia, feia coisa, doutor! — recalcitrou o padre — Se a quer para esposa, vá-lhe jarretando essas tendências para sarambeques.

— Não que eu quero esposa que me agrade e alegre — replicou o francês — Péssimo sistema este dos maridos portugueses! Tornam as esposas chumbadas, tristonhas e sonolentas como umas lerdas despenseiras, por amor da moralidade; e vão-se gozar a vida com as amásias lestas, joviais e espertinadas para toda a casta de brincadeira! Ora eu prefiro estar divertido com a minha mulher a ir comprar os risos e as folias a casa das meretrizes. Antes quererei que ela me salte o sarambeque e me caia nos braços suavemente cansada, do que me resmungue impertinentes queixumes quando eu me recolher alta noite com saudades de uma concubina fresca e alegre.

— À francesa... — retorquiu Xavier.

— Vocês, os portugueses, se farão franceses afinal como o seu rei, que se veste, e come, e pensa, e ama à francesa.

— Assim será; mas eu quero que a minha sobrinha se eduque para marido português. Hei de procurar-lho em família ainda ilesa do contágio que por aqui nos deixou a de Saboia, a esposa dos dois irmãos. Há aí muito fidalgo que representa o velho Portugal, e vive sequestrado dos mananciais da corrupção de Lisboa. O dote da minha sobrinha, cento e cinquenta mil cruzados, quando for conhecido, há de ter muitos competidores, e eu darei a preferência aos titulares que vivem nos seus solares provincianos.

— A preferência, meu amigo, será bom que a dê sua sobrinha. Não vá sacrificá-la a algum rabicho do tempo dos Afonsos que vive no seu paço solarengo da montanha com o capelão que lhe explica os animais antediluvianos da sua pedra de armas, e apenas se deixa ver do sol e dos feudatários quando se embrenha pelos matagais a matar porcos bravos. Cautela com esses casamentos calculados sobre ridicularias das gerações que pertencem à mitologia.

— Lá em França são as filhas que escolhem os maridos? — interrompeu o padre.

— Em França escolhe o coração das filhas, e a razão dos pais. Mal por mal, se a escolha do coração é errada, antes isso que a violência imposta à filha na aceitação de um marido odiado. O que lá não há é a crueldade de sepultar as filhas no claustro, onde elas, muitas vezes, ressurgem para a devassidão, e vingam-se dos pais e das leis, em nome da natureza ultrajada. O doutor Xavier deve saber muitas histórias desta ruim espécie...

— Porque mo pergunta?! — acudiu o amante de Catarina.

— Porque sou o seu maior amigo, porque devia ser o seu mais íntimo confidente. Seria possível ignorar eu, o médico das mais gradas famílias da corte, o que é notório na roda ilustre em que floresceu o gentil Francisco Xavier? O que tenho feito, como discreto respeitador de todas as dores recalcadas no seio, é nem sequer dar vislumbres de querer violar o seu segredo. Qualquer homem vulgar me teria dado o prazer de consolar as lágrimas ocultas da sua saudade; mas o Sr. Xavier é tão extraordinariamente honrado e infeliz que nunca balbuciou o nome de Catarina de Castro, na efusão da sua dor, com receio de que eu lha adivinhasse. Mas, pois que chegamos a este lance supremo de franqueza — prosseguiu Eliot, abraçando-o, quando falarmos de Antoninha, sem testemunhas, diga expansivamente: «minha filha».

O padre colheu-o calorosamente nos braços, e murmurou por entre soluços:

— Eu nunca poderia ser mais seu amigo do que sou neste momento... Sinto-me menos só neste mundo, desde que tenho um irmão a quem possa falar na minha filha...

O lance de se reabraçarem seria virtualmente sublime da majestade dramática, se no peito do francês não levedasse, naquele instante, uma volumosa massa de infâmia, cifrada nestes algarismos: 150 000 CRUZADOS.

CAPÍTULO XXVI

 

Cresceu a preponderância de Isaac Eliot no afeto e nas intimidades do padre. Conversavam até altas horas da noite. Xavier contou-lhe a história dos seus antepassados desde Domingos Leite. Deliciava-se repetindo-lhe as miúdas particularidades do seu amor a Catarina. Era eloquente e interessante, porque represara a exuberância da sua mágoa, desde que o irmão se fora à Índia, e o conde do Rio se refusava a escutar-lhe recordos pecaminosos.

Das confidências do ex-varatojano passou Eliot facilmente às da freira bernarda. O padre autorizou-o a declarar-se único fiel do segredo, porque lhe era consolativo ouvir as frases repassadas de saudade que D. Catarina dizia ao médico em resposta de outras que o médico inventava ou refazia. Mediante a intercessão do velhaco, obtivera a freira que a filha a visitasse semanalmente, acompanhada da sua aia, e algumas vezes também do médico.

A menina, sempre ignorante do segredo do seu nascimento, contava ingenuamente à freira o seu amor a Josse Frisch, mostrava-lhe os versos e as cartas, chorava de saudades, e jurava professar naquele ou em outro convento se Frisch não voltasse.

Mas bem sabia ela que o seu amado pensava em voltar. O boticário alemão do canto da Cordoaria todos os meses lhe remetia cartas de Berlim, e recebia as respostas. D. Catarina admoestava-a a distrair-se de coisas ainda impróprias dos seus poucos anos, e a precatar-se contra grandes penas, se ao tio repugnasse tal casamento; no entanto, a comiserada religiosa prometia-lhe empenhar o valimento do médico em abrandar o tio, quando fosse tempo.

Antónia dissuadia o intento da freira, desde que Eliot, aludindo aos seus amores infantis, apodara com remoques o poetastro alemão. E, afora isto, nas idas a Odivelas, Antónia ouvira do médico expressões parecidas com as de Josse Frisch, quando ele, a medo, aventurava as primeiras balbuciações do galanteio. Esta segunda revelação afligia Catarina, prefigurando-lhe a desgraça da filha, se o médico a disputasse ao outro. Bem ou mal avisada, aconselhou à menina dissimulação, e artes de enganar, fingindo-se indiferente para o alemão, e desentendida para o francês.

Neste em meio, o cunhado de Leonor Caldeirão apertava o patrício a satisfazer os votos da noiva e das suas ilustres manas; a menina, porém, ainda espicaçada pelos estímulos da necessidade, retraía-se às amabilidades do médico, vencida por instintiva implicância. Ele, ao seu pesar, adorava-lhe o desdém, e a fidalga isenção na pobreza. Antónia, comparada a Leonor, no tocante a beleza, desmerecia muito; e, ainda nas finas graças da corte, a palaciana Leonor avantajava-se muito. Se o confronto lhe fosse penoso, a filha de Catarina consolar-se-ia ouvindo dizer que a mais nova das Caldeironas era a mais formosa menina de Lisboa, e que uma irmã de D. João V, indigitada a princesa mais linda da Europa, vendo Leonor, dissera que nunca vira viva nem pintada criatura tão perfeita. Mercadores opulentos e fidalgos alcançados pensaram na felicidade legal de se apossarem daquela joia; mas desviava-os a nomeada das irmãs, a entrada de forasteiros franceses e italianos na casa, e o viver um tanto airado e patusco daquelas abastardadas senhoras. Em compensação, o médico de mais voga, cavaleiro professo com tença, aparentemente rico pelo luxo da sege, da libré, dos pajens e das relações com a principal nobreza, era bom partido, e forte esteio à ruína suprema das três senhoras desvalidas e do professor de equitação e esgrima sem discípulos nem poldros.

Todavia, o médico, pesando o encargo de uma família afeita às pompas e ao desconcerto, vergou um pouco; e, neste dobrar-se, O coração premido deu de si o aleijão de comparar Antónia a Leonor, pondo no regaço da primeira, entre flores, cento e cinquenta mil cruzados, e no regaço da segunda, também entre flores, as áspides das irmãs. Nós gracejamos com o confronto; mas ele, quando se decidia por Antónia, ajoelhava mentalmente, pedindo perdão a Leonor. Não amava, sequer por amor ao dote, a filha do padre; mas cento e cinquenta mil cruzados, naquele tempo, dotariam a esposa de um marquês; a assimilação daquele tesouro infernou-lhe as vigílias; contava moeda a moeda de ouro até treze mil; emborcava a cornucópia fantástica, e via saltarem dentre o monte do metal carruagens, palácios, deleites em refestelada ociosidade, viagens, ostentações no seu país, bailes, mulheres, os seus salões a desbordar de nobres, e ele mesmo, entre eles, nobilitado, e salvo dos enfados da clínica, e do magistério da ciência no hospital real. Eis aqui o que foi.

Mas o cunhado de Leonor importunava-o, já receoso que Antónia galvanizada a ouro deslumbrasse a peregrina noiva, e ao mesmo tempo esporeava a cunhada incutindo-lhe os seus temores. A menina, bem que beliscada no seu orgulho, ria-se, e votava aos deuses infernais que lhe pusessem o noivo nos braços de outra. Isaac Eliot foi informado deste voto pagão. Quis dar explicações mentirosas das delongas no casamento. Leonor, amestrada pela mana que cantava a Sécia, aceitou-as, aprovou-as todas, dispensou-o de lhas dar notícias qualquer que fosse o seu proceder; e, para lhe mostrar que estava tranquila, ofereceu-lhe o pulso, e uma franca risada, redopiando um dos passos mais tocantes do sarambeque. Estas evoluções trituravam os ossos do médico até às medulas.

Por outro lado, Tomás Darcet vingava-se do hipotético cunhado sangrando-lhe as algibeiras com uns chamados empréstimos, e a mana Joana e a mana Maria, sob pretexto de prosseguirem na apelação dos pleitos perdidos, pediam com confiança, porque os interesses eram comuns, sendo ele já contado como da família e co-herdeiro nos bens litigados. Pois todos estes emolientes, capazes de deslaçarem as fêveras mais tensas do coração, eram improfícuos na tenacidade do médico. Leonor desprezava-o, e não fingia o desprezo; e ele, duas vezes vilão, nem se descravizava de uma, nem se afazia à ideia de prescindir dos cento e cinquenta mil cruzados da outra.

E nunca nos seus balanços de fortuna interveio a, conjetura de que o padre prescindiria do seu enlevo de casar a filha com um conde provinciano para lha dar a ele. Não sabemos quantos planos infames o dispensavam daquele dado essencial. O seu único impedimento era a paixão por Leonor, excruciante como a expiação, pesando-lhe sobre a alma como a forte mão de Deus que sustenta os incalculáveis mundos.