A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 7 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo V · Catarina e a sua mãe saíram absoltas…

 

 

Catarina e a sua mãe saíram absoltas em auto particular. Nem levemente lhes infligiram penitências; que as testemunhas inquiridas em Odivelas e Montemor aliviavam da menor suspeita de judaísmo a viúva e a filha.

Assim que ao mosteiro chegou a nova de que a Muleirinha ia ser reintegrada na sua cela, soror Paula deu a perceber que pisara o orgulho das inimigas de Catarina. A maioria da comunidade odiava a amante do rei — umas freiras por virtude, outras por inveja do vício, e algumas, o restante delas, porque a concubina de D. João V se afrontava petulante com as mais fidalgas. Logo, pois, que Paula se manifestou arrogante protetora da Muleirinha, até as indiferentes à rival de Francisca Melo se confederaram contra a protegida. As pouquíssimas amigas da caluniada cristã-nova alhearam-se do bando hostil; mas não se encostaram a Paula, que as repelia todas, como quem desejava lutar sozinha, e estender uma bofetada de mão real a todas as caras das suas irmãs em S. Bernardo e co-esposas de Jesus.

Imagine-se os conluios, o reboliço, o redemoinho de duzentas e setenta e oito freiras, à mistura com mais duzentas e tantas fêmeas entre seculares e criadas! Havia conventículos particulares sujeitos às deliberações do centro, presidido pela Pimentinha. Discutiam o mais perentório expediente a seguir logo que Catarina de Castro reentrasse no mosteiro. A prelada, por conselho e indústria dos frades cistercienses, procuradores e diretores do rebanho, fez uma alocução às mais mexediças, admoestando-as a submeterem-se às ordens de el-rei e do dom abade de Alcobaça, de quem eram subordinadas. Pactearam-na com gritos e com os saltos dos sapatos em desaforada rebelião. A abadessa não ousou impor penas, porque não tinha força, nem queria pedi-la ao rei para não assoprar a soberbia de soror Paula Perestrelo.

Os zângãos daquele colmeal de abelhas celestiais, os fidalgos e cónegos atiçavam a revolta a fim de prolongarem a farsa e conduzi-la à catástrofe das gargalhadas. O voto comum dos desfrutadores conveio em que as freiras saíssem todas incorporadas, logo que a cristã-nova regressasse. Parece que a trama era havê-las cá fora muito à mão, e dispersas, como fato de cabrinhas novas por giestais em flor, quando lhes abrem os cancelos do curral. E, como se não bastasse a zombaria com Deus e com as suas doidas esposas, zombavam também do rei, induzindo-as a que se encaminhassem processionalmente em assuada ao paço da Ribeira a pedir providências contra o próprio soberano e contra a omnipotência de soror Paula. O entrincheirarem-se no convento, trancarem as portas e resistirem ao ingresso da freira não era caso original nem esperançoso de bom sucesso; além de que, os mal-intencionados alvitristas perdiam o lanço de pescar nas águas turvas aquela pesca decerto menos estranha que a estranha caça de Camões.

No entanto, Paula e a sua irmã, com as suas poucas faccionárias, riam, mofavam e esperavam em jovial sobressalto a recondução da Muleirinha.

Um dia, pouco depois de nascido o Sol, quando se não esperava, chegou à portaria de Odivelas D. Catarina de Castro em sege com a sua mãe, e dois monges de S. Bernardo em outra sege. A prelada recebeu a nova que lhe levou a porteira juntamente com a ordem do dom abade-geral, na qual se incluía a sentença absolutória da freira, acusada falsa e protervamente por denunciantes contra quem as leis civis iam proceder, se o Santo Ofício fosse, contra os usos e direitos, menos executivo.

A fim de não amotinar a comunidade, que ainda ressonava ensopada nas molezas da manhã, a prelada foi silenciosamente à portaria, recebeu com boa sombra a freira, e ordenou que se recolhesse a mãe à hospedaria do mosteiro.

Catarina entrou na cela, e fechou-se para chorar e gemer, abafando os gritos com o lenço premido na boca. Mas, às vezes, a pontada no coração era tão lancinante, agonizavam-na tão insofridas aflições, que os soluços estalavam-lhe agudíssimos da violenta represa.

Escutaram-na as religiosas mais convizinhas. Saíram assustadas ao dormitório. Disseram, com supersticioso assombro, que se ouviam gritos na cela de Catarina de Castro. A abadessa deu as indispensáveis explicações, pedindo prudência e juízo. Mostrou a ordem do prelado de Alcobaça, e, lendo as frases respetivas à falsa denúncia, acrescentou:

— Deus queira que as inimigas de Catarina de Castro não tenham maiores trabalhos...

Serpenteou o boato por aquele interior labirinto do mosteiro. Batia-se às portas, resmoneava-se, saiam grupos de umas celas, dispersavam-se entrando em outras, O ruído, ao princípio receoso, era já tumulto, uma gralheada de vozes argentinas, em que realçavam as incitações de Francisca Melo, aplaudidas por palmas e um bater de tacão fremente de cólera. Aquelas senhoras, assanhadas como colarejas, eram a nata da nobreza lusitana.

Paula sabia pontualmente a hora da entrada da freira. Enviou-lhe os seus cumprimentos e as suas melhores criadas. Este passo encruou a fúria das outras. Vociferaram-se palavras obscenas, aprendidas na vida prática e nas poesias fesceninas de Tomás Pinto Brandão, poeta muito de casa. Aplicavam a soror Paula uns epítetos que vexariam a comborça de um lacaio. Catarina ouvia o tropel nos dormitórios, a vozearia que toava pelas abóbadas, e tinha medo. Paula e Maria da Luz desceram dos seus aposentos, entraram à cela da religiosa e levaram-na consigo aterrada em turvações de louca.

Exacerbações novas nas insurgentes, e a deliberação definitiva de saírem de cruz alçada. A abadessa mandou entrar os frades, que arengaram inutilmente. Ninguém os atendeu, posto que trovejassem; mas não abriram o saco das excomunhões, porque, até certo ponto, os filhos de S. Bernardo gostavam de ver o rei e a sua freira enredados no escândalo.

As freiras tumultuárias eram cento e noventa. Ficaram as provectas, as entrevadas, as neutrais, que eram poucas, e as parciais de Paula, que eram menos.

Quando a torrente golfou da portaria e espadanou no amplo átrio para se formar em fileira, e marchar no coice da cruz, saiu para o paço um cavaleiro à espora fita com carta de Paula para o rei.

Momentos depois, abalava de Lisboa um troço de cavalaria com o juiz do crime do bairro da Mouraria, Caetano José da Silva Sotomaior.

As revoltosas, quando chegaram aí pelo Lumiar, avistaram umas nuvens de poeira e ouviram tropear de cavalos.

A condessa do Rio Grande, prevenida pelo marido a quem — posto que já passasse dos cinquenta anos, doía o desastre de uma das mais galantes rebeldes — no lanço em que a tropa se avistou, convidou-as a entrar no seu palácio. Aceitaram, espavoridas do esquadrão e da carranca do corregedor, que as intimou a retrocederem. Responderam tumultuosamente que não voltariam a sua casa enquanto lá estivesse uma judia saída da Inquisição. O Camões do Rossio, que tinha graças e farsolices em primeira mão, chasqueou bastante com as bernardas e, despedindo-se, disse que a sua vontade era agarrar uma de cada vez, e levá-la ao santo redil, pelo caminho mais torto; porém, que o não fazia sem ordem da sua majestade, que estava em primeiro lugar, e não gostava de fazenda em segunda mão.

A condessa empregou todos os recursos da persuasão para as regressar ao convento. Era enfurecê-las mais, depois que viram a tropa, e os aspetos marotamente petulantes dos soldados, e os sorrisos amoriscados dos sargentos que lhes piscavam os olhos como o fariam a mulatas de regatia. Confiavam no patrocínio dos parentes; mas nenhum fidalgo se aventurou a ferir o rei na pessoa de soror Paula, desde que a individualidade da Muleirinha se confundiu no capricho ostentivo da amante de D. João V. Concorreu ao Lumiar, durante dois dias, a parentela daquelas senhoras com o frustrado propósito de as repor no mosteiro. Por fim, o rei, conformando-se ao parecer do secretário de estado, mandou ao magistrado Cunha Sotomaior que, à frente de uma boa esquadra de polícia e alguma tropa, compelisse, por jeito ou força, as freiras desgarradas a entrarem em numerosos coches da casa real, e depois as levasse ao convento.

O Camões do Rossio já não logrou ser admitido a parlamentar com as bravas monjas. Assim que as atalaias lhes deram sinal de se avistar o exército, acastelaram-se na parte mais defensável do palácio. Algumas subiram ao terraço da casa, cujo parapeito era formado de adobes desconjuntados pelo tempo, e circuitado de ameias, com as suas torrinhas ou miradouros angulares. As que galgaram àquela espécie de adarves eram as mais mal condicionadas, e mais virilmente apostadas a triunfar ou morrer.

Assim, pois, que o ministro, frustrados os expedientes corteses, deu voz de escala e arrombamento aos quadrilheiros e soldados, do alto do terraço granizou sobre os assaltantes uma chuva de tijolos à mistura com pedaços de ameias aluídas. Ao mesmo tempo, do segundo andar do palácio irrompiam sobre os guardas, fulos de marciais raivas, não só as alfaias de madeira, mas até as vasilhas de barro, mais secretas e menos olorosas, das alcovas. A gritaria das assaltadas seria a imagem do inferno, se elas, tão lindas, não figurassem os anjos bons nos luciferinos prélios cantados por Milton.

Os sitiadores, favorecidos talvez por traição da própria dona de casa — vítima principal do conflito — como o boticário de Nicolau Tolentino, entraram no palácio, acoroçoados pelo juiz. As freiras ainda quiseram lutar peito a peito; mas vedava-lho o pudor e o hábito. Não foram agarradas como dizem alguns historiadores: renderam-se incólumes, intactas e puras como eram. Seria inverosímil agarração essa; a menos que os águazis não tivessem os braços de Briareu. Eles eram menos de quarenta, e elas pouco menos de duzentas.

Quando os coches pararam no terreiro do convento, ouviu-se uma gargalhada estrídula no segundo andar do palacete contíguo ao mosteiro.

Era soror Paula Perestrelo. Estava vingada. Então soube quanto era bom ser amante de um monarca poderoso, devasso e parvoeirão.