A Caveira da Mártir
Capítulo XVII · Era de esperar que D. Catarina, depois…
Era de esperar que D. Catarina, depois que Antónia lhe levou alegrias inesperadas, repartisse alguma parte da sua felicidade com Francisco Xavier, em frases de perdão, de estima, ou sequer de mulher que se carpia por não poder dizer àquela amada criança: «sou tua mãe!»
Ele esperava ao menos que D. Paula, agradecendo-lhe a cedência ao seu pedido, incluísse uma palavra da piedade ou do amor de Catarina.
Do amor! Se no amor se pudessem assinalar distâncias, o coração da freira desviava-se do pai de Antónia à medida que a paixão da filha recrudescia a dor de não poder revelar-se-lhe mãe.
— Porque — dizia ela a D. Paula — se este homem cumprisse a promessa de me levar de Portugal, eu, a esta hora, seria muito feliz com a minha filha. Foi ele que se fartou de mim, que fechou o coração de amante e recalcou a honra de cavalheiro quando eu lhe implorei que me salvasse, que fugíssemos, porque já não era eu só que fugia, mas também um filho que lá fora seria o meu maior prazer, e na pátria me seria a condenação. Ele era rico: porque o não fez? Achava-me já indigna da troca pelo irmão e pela pátria. Estava aborrecido. Pensava em enjeitar o filho, talvez, ou dar-lhe um pai suposto; e depois meter-me outra vez na clausura, e abafar o grito da consciência com os renovos de outras paixões. Cada dia, cada hora o detesto mais. É execrável este homem que não soube ou não quis ser pai, e me não deixou ser mãe! Deixasse-me, que eu sairia sozinha de Portugal, e iria viver com a minha filha no fim do mundo. Eu tinha uma tão santa mãe que me chegou a dizer: «venda-se tudo que temos, e vamos para qualquer país, onde ninguém nos conheça»; mas ele, o fementido, prometeu-me até ao momento em que a Inquisição me prendeu, salvar-me, por amor de mim e da sua filha! Nem sequer, aos vagidos da criancinha, soube ser homem e pai! Fez-se frade, como se Deus devesse aceitar o incenso de mãos sacrílegas, de um criminoso que sanava o crime desprezando uma criança e uma desgraçada mulher! Não me tornes a dizer que lhe escreva, Paula! Eu prefiro não ver mais Antónia à ignóbil violência de fingir uma piedade vergonhosa!
E o padre esperava ainda piedade ou amor!
E conversando com Antónia, perguntara ele:
— Ficaste gostando muito das freiras?
— Muito, meu tio.
— Igualmente de todas?
— Igualmente não; de quem eu gosto mais é da Sra. D. Catarina.
— Porquê? por ser a mais bonita? era a que te fazia mais mimos?
— Não é pelos mimos...
— Então?
— Fazia-me pena quando se abraçava em mim a chorar.
— E que te dizia?
— Nada... olhava muito para mim... e queimava com as mãos tão quentes que pareciam lume...
— Gostas então muito dela?... querias lã estar?
— No convento?
— Sim.
— Quem me dera! Se o tio quisesse...
— E elas querem-te lá?
— A Sra. D. Paula até me disse que havia de pedir ao tio que me deixasse ir lá passar a festa... não sei de quê... ah!... do abadessado... É muito bonito... Vão os fidalgos e os poetas fazer versos...
O padre cerrou-se no tal carrancudo silêncio de que a menina se queixou às freiras. Saiu a digerir um novo trago de fel que bebera nas palavras da filha, e dessa elaboração amargosa se lhe incrustou na alma, outra camada de ruins pensamentos.
Dizia ele de si consigo: «Bem sei o plano. Quer-me roubar de todo o afeto da, criança. É a extrema demarcação do ódio... Mas como é isto? Eu estremeço minha filha, dou-lhe tudo que pode agradar-lhe, há um ano que faço todas as diligências para lhe ganhar o coração; e ela parece que recebe com repugnância as dádivas e as carícias. Vai a Odivelas, vê pela primeira vez uma mulher desconhecida, e afeiçoa-se-lhe a ponto de querer ir para sua companhia, sem mostrar o menor desgosto em me deixar. O que pode haver providencial nisto? Nada. É o acaso, uma simpatia tão estranha à natureza como ao raciocínio. O que há é a sedução, a trama planejada de longe, a vingança com requintado egoísmo. Está enganada a sócia da madre Paula... Quem despreza o pai despreza a filha. Nem que ma pedisse com lágrimas eu lha daria... Não tenho mais nada neste mundo. É a minha tábua nesta grande tormenta. Tudo mais é a treva que se continua na perpétua escuridão do sepulcro. Sou rico e quero ser mais rico para a minha filha. Vingo-me da desgraça deixando-a feliz com uma grande barra de oiro debaixo da qual se esmagam os infortúnios e os inimigos. Que querem à minha filha? fazê-la freira? na escola de madre Paula? Nunca! Então que querem? roubar-ma para que eu, sem o amparo dela, acabe de morrer? Enganaram-se. Que me importa a amante do rei? Se eu desconfiar que se urde alguma intriga, fujo com a minha filha para Holanda. Eu comprarei bons espiões no paço, no Santo Ofício, e no inferno».
O padre expiou estas iniquidades na noite de tormentosa vigília que se seguiu àquele dia. Queria desafogar; e não podia desatar a mordaça. Faltava-lhe um homem a quem talvez contasse o mistério daquela menina... Era o médico Eliot. O conde do Rio, cada vez mais acrisolado em contrições, se lhe aparecia era para o consultar sobre melindres da teologia moral, subtilezas de escrúpulos, hipóteses de pecados que o velho queria levar bem ordenados e classificados ao tribunal da penitência. E, no tocante a freiras, isso então, se o padre balbuciava expressão apontada a profanidades monásticas, o general espalmava as mãos, entreabria os dedos, e com as palmas voltadas para o padre, pegava de as sacudir como se receasse ar empestado pelo bafejo do hóspede.
— Não me fale nisso, Xavier, a menos que não seja para me execrar as minhas enormes iniquidades! Conte-me casos de grandes pecadores convertidos. Repita-me a exemplaríssima penitência de Fr. António das Chagas, fundador do Varatojo...
— Que, primeiramente — interrompeu o padre — foi capitão de cavalos, chamou-se António da Fonseca Soares, matou um homem...
— E, arrependido...
— Suicidou-se no frade, e fez aspérrima penitência... escreveu livros místicos, etc.
— Veja que fim de vida.! — exclamou seraficamente o conde.
— Mas melhor seria tê-la começado melhor... O género humano e a moral lucrariam mais com a vida do homem que ele matou do que lucramos nós com os actos de contrição que aí andam estampados.
— Não o percebo bem!... Isso que v mercê disse cheirou-me a heresia, padre Francisco.
— Então expliquei-me mal, Sr. conde. Eu queria dizer que Fr. António das Chagas não restituiu a vida ao homem que matou.
— Isso é verdade...
— E, se a alma do morto, à míngua de sacramentos, caísse no inferno?
— Deus é pai de misericórdia. As orações do homicida penitente salvá-lo-iam.
— No inferno não há salvação... Ubi nulla redemptio: está escrito.
O conde pôs-se a cismar com um feitio de cara bastante compungido, e com vontade de argumentar; mas andava nos rudimentos da teologia; receava dizer heresias, e calou-se.
Quase quotidianamente havia destes conflitos no quarto do padre Francisco Xavier.
Ninguém o procurava, porque os seus amigos de outro tempo eram todos rapazes ainda, logradores da vida, que achavam curta para os deleites, e não queriam desbaratá-la com o ex-varatojano, torvo, taciturno e lastimável na sua miséria de aleijado e a modo de embrutecido. Uns alcunhavam-no de parvo, outros de hipócrita, como se lhe não bastasse ser desgraçado para o abandonarem.
Por isso, à míngua de fé esclarecida e paciência de santo ou de filósofo, no seio daquele homem fermentava um como ódio ao mundo e a si próprio. A filha poderia salvá-lo, ser-lhe esteio; mas quando lhe disse ele: «entra nas trevas do coração do teu pai, anjo!» dulcifica-me as lágrimas?
Por cúmulo de infortúnio, a piedade esterilizara-se-lhe na alma. As práticas frequentes com Isaac Eliot sobre assuntos da Reforma calcinaram-lhe as raízes da fé que tantos rebentos bracejara nas penhas de Varatojo. Lera Calvino na versão espanhola de Cypriano de Valera. Lera a Confissão de Augsbourg de Melanchton na tradução francesa. Tinha os livros condenados do médico huguenote no fundo de uma arca, e exumava-os de noite, quando não receava ser colhido de improviso pelo conde. E, a respeito da educação religiosa de Antónia, quando André Guilherme lhe perguntava que livros piedosos devia ler sua sobrinha, o padre respondia:
— Explique-lhe bem o preceito: amar a Deus e ao próximo. Toda a religião cristã, e todas as religiões verdadeiras se cifram nestas palavras.
Mas ele, o padre, não amava Deus nem o próximo.