A Caveira da Mártir
Capítulo XXII · André Guilherme acompanhava Antónia a visitar o…
André Guilherme acompanhava Antónia a visitar o tio, todos os domingos. Era defeso à menina sair com a mestra. Odiava-a secretamente o padre quanto lhe estimava o sobrinho. Na juventude mais florente, André tinha a gravidade e compostura de um velho. Insinuava-se pela sisudeza e pela modesta autoridade da precoce ciência. Ganhara fama de prodígio nas lidas escolares, e várias ordens monásticas aporfiavam em atraí-lo. Mas a sua vocação inflexível era a ordem da Santíssima Trindade, no propósito de se passar à moirisma a resgatar cativos. Entranhara-lhe raízes na alma esta aspiração desde que soube que o seu quarto avô e três irmãos, à míngua de resgate, pereceram cruelmente trateados nas séjanas de Marrocos, para onde foram cativos depois da derrota de Alcácer-Quibir.
Antónia ouvia-lhe os conselhos com docilidade e uma espécie de amor mais submisso que o filial. Desde que o estudante, compadecido da misantropia do padre, começou de arguir à discípula a ingratidão de se ficar no mosteiro, quando o tio alegremente preparava casa para vivenda de ambos, a menina escutava-o com alguma compaixão do tio.
Ao mesmo tempo, Francisco Xavier esfriara nas carícias, bem que a recebesse com alegre rosto. Escutava o que lhe referia do mosteiro; mas com aparente desinteresse. Havia naquele descaimento de espírito e ar taciturno a melancolia precursora de doença mortal.
Antónia levava impressões dolentes do tio para o mosteiro, e muito mais vivas na alma as brandas, mas penetrantes advertências de André Guilherme.
— Se o seu pai morrer na Índia, e o seu tio lhe faltar com a vida, Antoninha, verá que fez mal em trocar a companhia dos seus pelos ligeiros afetos de umas senhoras ociosas que muito mal procederam em lhe ensinarem ou permitirem a desobediência ao seu tio.
Este era o tema das censuras de André Guilherme, desenvolvido em frases acomodadas ao espírito de Antónia, já aos onze anos muito esclarecido pelo trato da conversa e da leitura.
Dois anos e meio decorreram, conservando-se a menina em Odivelas, apesar das representações da prelada e de outras influências exteriores que atuavam diretamente sobre o rei.
E, quer o amor de D. João V à freira arrefecesse, quer a inconstância do seu natural, atreito a intermitências de religiosidade, O emancipassem, é certo que ele pendeu a escutar como justos os queixumes da comunidade cisterciense contra a escandalosa convivência da freira com uma recolhida em que assentavam fundadas suspeitas de filiação sacrílega. Soror Paula destramente conheceu que a sua vaticinada émula D. Luísa Clara de Portugal, ou quaisquer outras, lhe tinham contraminado o rastilho inflamável por onde ela acendia o coração do rei, solapando-lhe a hombridade e o decoro.
Deu D. João a perceber à sua freira que convinha satisfazer às reclamações da prelada e de outras fidalgas protegidas na corte pelos primeiros dela; que Antónia poderia, a miúdo, visitar a mãe, sem todavia passar das grades adentro; e que D. Catarina, sob qualquer pretexto saísse às temporadas, do mosteiro, e gozasse plenamente a companhia da filha. Se madre Paula retorquiu, a palavra do rei não voltou atrás: — provérbio que anda em vínculo na monarquia portuguesa, e a história confirmará rebuscando nas novelas algum lance heroico da importância deste que levamos relatado.
Houve muitas lágrimas quando soror Paula Perestrelo aconselhou a saída espontânea de Antónia, antes que a intimação assinalasse a vitória da Pimentinha.
Apesar da concessão das visitas ao locutório e do alvitre da saída, Catarina, colhida fulminantemente em plena felicidade, aturdiu-se, perdeu o alento, e em poucas horas desmereceu de cores e vida como se recaísse no torpor de dilatada doença. Menos sensível incomparavelmente foi Antónia. Chorava, consoante choram meninas de doze anos, quando o sangue do coração não é parte nas lágrimas.
Mais amargas as chorou ela, quando, por esses dias, André Guilherme a procurou em Odivelas para lhe dizer que o Sr. desembargador Paulo Xavier morrera em naufrágio, quando recolhia da Índia, e já avistava Lisboa. A menina correu espavorida e em gritos a dizer que o seu papá estava morto. Velou-lhe a passageira angústia D. Catarina. Ao fim de três dias, Antónia, divertida da sua saudade, diligenciava revivê-la recordando-se das feições incertas de Paulo Xavier. Ora, havia dois anos e meio que o desembargador embarcara; e a menina poucas feições lhe retivera na infantil memória.
Fora dos romances e dos poemas imaginosos, estes esquecimentos são naturais e providenciais no dizer dos providencialistas. Eu, por mim, deploro entranhavelmente este péssimo feitio da sensibilidade humana.
Voltou André Guilherme pedindo a soror Paula, em nome do doutor Francisco Xavier, que lhe permitisse a companhia da sua sobrinha por algum tempo, já porque a sua paixão, na falta do seu único amigo, merecia do dever ou da comiseração algum lenitivo, já porque sua sobrinha, única herdeira do seu pai, ia ser tutelada, e não podia de hora em diante dispor de si sem o consentimento do tutor.
Condescendeu D. Catarina; mas já estava no leito quando a filha, na despedida, a foi abraçar. A devotada amiga da mãe infeliz, na ausência de Antónia, desentranhou-se em consoladoras promessas, fantasiando porvindouras felicidades. Paula vaticinava que a velhice de Catarina seria ditosa em companhia da filha; que a menina viria frequentes vezes vê-la; que Francisco Xavier seria o primeiro a pedir-lhe a saída perpétua do convento; «e talvez — juntava Paula — ainda te esperem dias de inefável gozo ao lado do amante e da filha, muito longe de Portugal».
O sorriso de Catarina iludira a sua amiga. A esperança da morte iluminara-lhe aquela expressão dos que tem a máxima evidência de que não esperam em vão; porém, Paula Perestrelo atribuiu o gesto risonho às cores maviosas e ridentes do seu quadro de família.
André Guilherme entregou a menina ao padre Xavier, abraçou-a ofegante de soluços e lágrimas, como se se despedisse da sua irmã mais querida, e balbuciou:
— Adeus, Antoninha! se o seu tio morrer primeiro que eu, lembre-se que estou no mundo...
— Pois deixa-nos, Sr. André!? — interrompeu o padre.
— Amanhã começa o meu noviciado no convento da Santíssima Trindade. Volvido o ano da prova, se Deus o permitir, virei saber da minha discípula, e do meu bom amigo, que me ensinou, sem querer, a coragem nas grandes mortificações. Eu, Sr. padre Xavier, sei os segredos da sua vida...
— Os segredos... — acudiu o padre com assombro.
— Os segredos revelados pelas torturas mudas, que são gritos formidáveis aos que têm a intuição de grandes dores alheias e o vaticínio das próprias. Veja, meu amigo — prosseguiu André Guilherme fervorosamente — veja se defende esta menina da influência de duas estrelas sinistras... Eu sei a travação de desgraças que derivam desde Domingos Leite Pereira — o regicida — até ao nascimento da sua última representante...
— Última... — repetiu o filho de Jorge Mendes Nobre — porque há de ser última?...
— Não o disse como profeta; empreguei o termo em relação ao tempo atual.
E, como Antónia estivesse absorta nos dois sem os perceber, André Guilherme tomou suavemente entre as mãos o rosto da menina, beijou-a na cara, e murmurou:
— Adeus, minha querida irmãzinha... Quando me tornar a ver com a minha túnica branca e a cruz escarlate de frade trino, já a minha amiga me não conhecerá... e quem sabe se eu a conhecerei? Daqui a dois anos é senhora... e eu sou um quase velho frade...
E, alegrando o rosto, André Guilherme devorava as lágrimas, em que havia o travor complexo de muitas dores. Ele amara como pai a criança, e adorava agora como idólatra aquela peregrina formosura dos doze anos com feições acentuadas de prematura juventude.
E Antónia, cingindo-se-lhe ao pescoço, chorava convulsiva como quando se despedira do homem a quem chamava pai.
— Não vá para o convento... — balbuciava ela.
— Vou pedir a Deus que dê uma boa sorte à minha amada discípula...