A Caveira da Mártir
Capítulo XII · Os recursos inventivos de soror Paula, desta…
Os recursos inventivos de soror Paula, desta vez, surtiram planos tão triviais na indagação da filha de Catarina que, às primeiras tentativas, se malograram.
Uma criada, dentre as seis brancas e cinco negras do serviço da moreninha Perestrelo, era da vila, onde, ao tempo que Catarina foi mãe, estava o juiz de fora Paulo Xavier.
Partiu a criada para Chão do coice a cumprir uma missão cujo alcance não entendia.
Facilmente descobriu que o juiz de fora tivera consigo uma filha, e a ama que a criava; mas, como a ama era desconhecida na terra e muito bem encarada, supunha-se ser a mãe da criança. Outros diziam que uma fidalga da casa da Melroeira namoriscara o doutor, e... etc. Prosseguindo nas averiguações, o agente da criada descobriu dois assentos de batismo, com intermissão de três anos. No primeiro, Antónia Joaquina era filha de pais incógnitos, e afilhada de Paulo Xavier. No segundo, Paulo Xavier era o pai. Além disso, na nota de um tabelião existia lavrada a cópia de um alvará de perfilhação, com outras declarações do juiz de fora nomeando a sucessão dos seus bens havidos e por haver na sua filha Antónia Joaquina Xavier.
Volveu a criada com semelhantes informações ao convento. Soror Paula aceitou — as como decisivas; mas Catarina instava em dizer que a menina era sua filha.
Pensavam ambas em renovar as pesquisas à custa da reputação da fidalga da Melroeira, quando D. Paula Perestrelo recebeu uma carta, de letra contrafeita no sobrescrito, incluindo outra para soror Catarina Luísa de Miranda e Castro…
— Uma carta para ti, minha filha! — exclamou Paula.
— De quem!?
E, reparando nos caracteres, fez-se escarlate, alvoroçou-se como quando recebera a primeira carta com aquela letra, e murmurou com susto:
— É dele...
— Do Xavier?!
— Sim... Abro, Paula?
— Senão, abro eu. — acudiu a outra.
Catarina deslacrou-a a tremer, e leu:
«Ouvi dizer que desejas morrer, e que a mão abençoada da morte já pousou no teu seio. Sei que ainda choras. Saudades, oh Catarina! saudades daquela alma alegre, daquela tua juventude que eu abati comigo a este abismo? Desce a este inferno. Vem ver o que eu fiz de mim em expiação do mal que te fiz. Vem ver os trinta anos de Francisco Xavier. Para que não morras sem fé na Providência, vem até aqui com o teu espírito. Verás como Deus castiga. Se me odeias, irás vingada, irás compadecida! irás desta vida com a esperança de que Deus permite o algoz porque tem recompensas que dar à vítima.
«Ouviste o meu nome e as minhas desgraças sem comoção. Era justo. Reconheci a justiça desse desprezo, não mando afrontar o teu martírio com o meu nome. Eu me confesso infame diante de Deus e de ti, desde aquela hora em que pus de permeio à minha desgraça e à tua o meu hábito de monge, e fiz da cruz de Cristo a âncora da minha egoísta salvação, quando tu soçobravas na tormenta. Como não havia Deus repelir-me da casa dos fortes que deixaram o mundo quando nenhuma desgraça os afugentara? Fui repulso pela consciência da minha enorme vilania. Caí de vergonha quando me vi hipócrita para dissimular a honra do hábito, que era para mim a túnica do condenado. A minha fé apagou-se, quando não pude orar por ti. Enquanto julguei que eras morta, as lágrimas ungiam-me a santidade da oração. Desde que me deram a nova da tua vida, medi a profundeza do teu ódio; e, como já não te via no céu para me perdoares, e não sabia mentir desculpas à tua misericórdia, apertei a mordaça da minha ignomínia. Aqui tens o meu silêncio, Catarina. Eu não podia dar-te outra prova de respeito, não me restava outra dignidade nesta irremediável miséria.
«Porque te escrevo hoje? se eu fosse, aos trinta anos, um homem com o vigor de corpo e alma, com a vida retemperada pelo remorso reparador, não te escreveria. Sou um velho encanecido, aleijado, repelente, inspirando a quem me vê a compaixão que pedem, à beira dos caminhos, os mendigos mutilados. Escrevo-te, porque nunca recearás que um homem, que a si se vê esquálido, use a desvergonha de implorar outro afeto que não seja o da caridade, É o que te pede o homem não de todo degradado enquanto conservar na alma a lembrança de que foi honrado pelo teu amor. Se tens de morrer antes de mim, quero que me absolvas do único delito que não tenho, Catarina, embora leves desta vida a dolorosa certeza de que deixas aqui uma filha...»
A religiosa expediu um ai, retraiu para o peito a mão em que tinha a carta, e com a outra apertava convulsa o braço de Paula. O gesto é indescritível, porque mal pôde bosquejar-se a expressão pávida dos olhos, o tremor dos lábios entreabertos, os revezes de rubor e palidez que de instante a instante lhe demudavam o rosto.
A Perestrelo tomou-lhe a carta da mão e, atentando no período que ouvira ler, disse:
— Não há dúvida... É tua filha...
— O quê? — perguntou Catarina.
— Deixa-me ler o resto, que eu estou a recear que não percebêssemos bem.
E leu:
«Não a deixes nos meus braços de pai, porque ela me não dá este nome, não me conhece, repele-me como eu a repeli. Quando me viu, pela primeira vez, estava eu amortalhado no meu hábito. Teve pavor do meu aspeto. Se lhe dissessem que eu era seu pai, esta palavra seria vã e ininteligível na sua alma… Pais são os que bebem as lágrimas das criancinhas desde os primeiros vagidos. O homem que ela estremecia com invejadas carícias, chamando-lhe pai, era meu irmão Paulo. E, no futuro, se alguém insinuasse, como ultraje, a esta criança que é minha filha, a igreja desmentiria a injúria, mostrando que Antónia foi batizada como filha de Paulo Xavier, e legitimada para lhe suceder nos avultados bens.
«A tua filha nunca te será labéu nem embaraço, Catarina. Nem ela nem o mundo saberá quem é sua mãe… Se pudesses viver engolfada nos deleites, nunca deveras temer que o remorso te aparecesse vingativo com a tua filha, pela mão. Não a verás. Eu nunca lhe vedaria que te visse; e, se ela pudesse amar-te quanto me aborrece a mim, pensaria eu que Antónia, chorando no teu seio, te pedia o perdão de um qualquer desgraçado sem nome, que devia ser eu.
«Digo-te que a não verás, porque te aconselho que a não vejas. Não exponhas o peito ao penetrante espinho da indiferença com que ela contemplará as tuas feições estranhas. Se lhe pudesses chamar «filha», talvez ferisses a corda intacta do coração onde nunca tal palavra soou; mas esse nome não lho darás, por amor à tua honra, e por amor da mesma criança. Se a reconhecêssemos, seria para lhe deixar legado de condenada. Que ela nunca saiba que a sua mãe era freira, e que o seu pai, degenerando em ascético fanatismo os generosos sentimentos de homem, chorava no estéril chão do Varatojo as lágrimas que eram da sua filha, e tuas, minha vingada vítima!
«Não tem resposta esta carta, Catarina. Queima-a. Responde-me no silêncio da tua cela, com estas palavras: «Faltou aos teus crimes o de atirares tua filha à roda. Puderas estrangulá-la, submergi-la, e não o fizeste. Ainda bem que nos suplícios da tua agonia derradeira não entrará esse remorso». Adeus! Perdoa-me, se esta carta é mais um trago de fel que eu verto no teu cálix. Ajoelha, minha adorada e santa sombra do passado, ajoelha, e oferece a Deus esse cálix em redenção do teu verdugo».