A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 15 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo XIV · Chegou D. Feliciana alvoroçada a casa com…

 

Chegou D. Feliciana alvoroçada a casa com a notícia… Estava o sobrinho corrigindo os desacertos ortográficos da escrita que ditara à pequena.

— Antoninha — vozeava a mestra ofegando escada acima.

— Antoninha! trago-lhe uma nova muito alegre, a mais alegre que lhe posso trazer...

— Chegou o papá?! — exclamou a menina erguendo-se de salto, e correndo para a mestra.

— Não é isso, meu amor; é outra coisa...

— Não? — disse esmorecida a criança — Então não sei que seja...

— Eu lhe vou dizer... Chegue-se e dê-me dois beijos... Sabe o que é? as senhoras de Odivelas querem que a menina lá vá.

— Ora! — disse Antónia com desdém — A mim que me importa as senhoras de Odivelas?... Julguei que era outra coisa...

E foi sentar-se amuada à mesa de escrever.

— Venha cá, sua aborrecida! — volveu D. Feliciana refreando mal o despeito — então a menina não quer ir ver a casa mais rica do mundo, onde moram umas senhoras que parecem uns serafins?

— Eu não, senhora.

— Não? pois há de ir.

— Se o seu tio lhe der licença — interveio André Guilherme.

— Aí vens tu com as tuas retóricas!... — saltou a tia azedada.

— Isto não são retóricas, é moral, minha tia.

— Qual moral nem qual carapuça! Então que é moral?

— Moral é a ciência dos bons costumes, e é bom costume que as meninas de oito anos vão tão somente onde seus pais, ou tios, ou tutores consintam que elas vão.

— Mas o padre já me disse que fosse passear com a sobrinha... Não é verdade, menina?

— Mas não lhe disse que a levasse a casa da madre Paula de Odivelas para a qual casa se entra por uma porta que não é a conventual.

— Sabes tu que mais? estás cada vez mais tolo! Acho que metes livros na cabeça; mas tiras de lá os miolos para te caberem os livros. Que te importa a ti por onde se entra para a casa da religiosa?

— Da religiosa, nego, e distingo — replicou o jovem abordoando-se às fórmulas aristotélicas. — Não é religiosa, porque a religião impõe votos de pobreza e castidade, e soror Paula Perestrelo não é pobre nem... conversaremos particularmente, minha tia. Eu costumo explicar a esta menina as palavras que desconhece,. Suprimo as que ela deve ignorar; pelo menos, não serei eu quem lhas ensine.

— E acabou-se! quem governa nesta casa e nas minhas ações és tu!... — raivou a tia.

— Não governo, minha senhora, deixo-me governar pela consciência do bem, e digo alto o que sinto. Se, todavia, lhe são penosas as minhas reflexões, não voltarei a sua casa.

— Veremos... — resmungou a tia, retirando-se.

Antónia acercou-se do mestre, e disse-lhe em tom implorativo:

— Não volta a esta casa, Sr. André?

— Veremos, disse minha tia.

— Olhe que eu não vou a Odivelas...

— E porque não vai? se o seu tio consentir...

— Também não vou... Eu só faço o que o meu papá mandar... Importa-me cá as freiras!

Neste comenos ouviu-se rodar e parar uma sege.

— Aí vem o Sr. padre Xavier — disse André Guilherme.

— Provavelmente minha tia pede-lhe licença para levar a menina a Odivelas; se ele consentir, Antoninha, não se recuse. Obedeça e vá: peço-lhe isto. A menina é ingrata ao seu tio, que lhe quer muito.

— Pois não vou... — redarguiu a menina com dengosa obstinação.

André olhou-a com triste silêncio.

Entrou Feliciana na sala para receber no alto da escada o padre, que subia muito fatigado, batendo rijo em cada degrau com a inflexa perna de pau.

André desceu ao primeiro mamei para lhe dar o braço e ampará-lo. Antoninha esperava-o para lhe beijar a mão. O padre, desde que a viu, ganhou forças, apressou-se, e sorria-lhe nos lábios e nos olhos.

No topo da escada, parou amparando-se nos ombros da menina; depois, arqueou-se com dificuldade, beijou-a em ambas as faces, cumprimentou a mestra, e entrou na sala onde André lhe pusera da cadeira o tamborete em que ele estendia horizontalmente a perna artificial, sendo dolorosa a curvatura.

— Cheguei, há minutos, de Odivelas — disse D. Feliciana.

— Sim? está contente com a sua discípula?

— Contentíssima! a primeira lição não podia ser melhor. Aquela senhora tem muito engenho! E então graça! faz rir as pedras! Hoje até fez rir a outra senhora triste, em que falei a V. Senhoria, e ainda não sei como se chama...

— Rir é uma felicidade, e fazer rir é um dom impagável, senhora D. Feliciana.

— E não sabe? A Sra. D. Paula quer que eu leve lá sua sobrinha.

— Quer?! Pede ou quer?

— Isto é um modo de falar... Como eu lhe disse que a menina era magrinha e comia pouquíssimo, lembrou-se a senhora freira de que uns passeios de sege fora da terra lhe abririam o apetite, e então me fez a honra de convidar a Antoninha. Resta saber se V. Senhoria dá licença...

— Eu não quero ir... — interrompeu a pequena trejeitando gestos sacudidos, como usam as crianças voluntariosas e amimadas.

— Ora diga-me — perguntou o padre, depois de morosa e agitada reflexão — a Sra. D. Paula sabe a que família pertence esta menina.... Não vá ela pensar que é das fidalgas que a Sra. D. Feliciana tem educado...

— Pois não sabe?! Eu já lhe disse que o pai da minha educanda é o senhor desembargador Paulo Xavier, e que V. Senhoria é o tio da menina. Já da outra vez me fizeram perguntas a respeito... sim... eu lhe direi... com licença...

E, aproximando-se-lhe do ouvido, continuou:

— Perguntaram-me se eu sabia quem era a mãe de Antoninha...

— Perguntaram-lhe ou perguntou-lhe? — disse o padre Xavier — A senhora tem-me falado numa só religiosa; esse perguntaram-me deixa entender que as senhoras eram duas ou mais.

— Eram mais duas; uma é a Sra. D. Maria da Luz, irmã da Sra. D. Paula; da outra já lhe disse que não sei o nome. Ora agora, esta que não sei como se chama, alguma coisa me disse a tal respeito, mas... lembrar-me o que foi... não é possível. Por isso é que eu disse: perguntaram-me. Quem convidou a menina foi a Sra. D. Paula.

— Eu responderei quanto à licença que me pede — concluiu Xavier.

— Mas a senhora disse que amanhã me mandava a licença.

— Licença para quê?

— Para entrar no convento.

— A Sra. D. Feliciana, quando lá vai, entra pela porta do convento?

— Não, senhor.

— Então para que é a licença?

— É que a outra porta é também defesa à inocência — disse André Guilherme aparando os bicos de uma pena, sem erguer a cabeça.

O padre pôs um profundo olhar no perfil descaído do estudante, e disse entre si:

— Ele entenderia bem o que disse?!

A tia olhou também de esguelha contra o estudante, e murmurou:

— Ninguém te percebe!

— Eu percebi — objetou o padre — Repito: responderei. Se tem de ir a Odivelas antes da minha resposta, não altere a verdade, conte o que se passou.

E, beijando Antónia, e apertando a mão ao futuro frade trino, saiu mais opresso de espírito.

Convém saber que o silêncio de Catarina alanceou o coração de Francisco Xavier. Aquela carta era sincera, quanto aos confessados remorsos; mas fraudulenta, quanto à imposição do silêncio. E, porque os remorsos eram verdadeiros, o delinquente queria ser perdoado; e, se não perdoado, arguido; desprezado, é que ele não queria ser. A sua expiação retraía-se a tão acerba prova. No peito daquele homem escabujava ainda o coração com a vitalidade dolorosa das fibras corroídas por um cirro. Tinha trinta anos: amara uma só vez; aniquilara-se para não amar segunda mulher, vestindo o hábito; e o desastre da guerra, a mutilação e o alquebramento físico fechavam-lhe os áditos da sociedade onde a sua alma, posta ao fogo de outras paixões, podia retemperar-se. Se ele tivesse a velhice que se conta por dezenas de anos, o silêncio de Catarina de Castro não lhe mordera no orgulho através do coração; porém como o seu desprendimento era fictício, e a soledade lhe aguçasse as puas do desprezo, e a sua alma trasbordasse do amaríssimo desamor da filha, a imagem de Catarina já lhe não aparecia lastimável e plangente.

Até o ciúme, a fantasia que dá a preexistência do ideal do inferno, até o ciúme lhe cravou a garra. Amaria ela outro homem? Hóspede de Paula, poderia ser honesta? Os camaristas do rei ser-lhe-iam indiferentes? A doença e a tristeza seriam enfeites de namorada para dar graças mórbidas à poesia da paixão?

Se assim era — depreendia o injustíssimo caluniador da pobre senhora — que queria Catarina da sua filha? Cativá-la? fasciná-la com carícias? segredar-lhe que era sua mãe? usurpá-la ao amor dos outros? desgraçá-la talvez?

— Não! — pensou ele — tu não me roubarás a minha filha! Se ela me não ama, há de amar-me quando bem compreender que eu a adoro! Quererias, porventura, ensiná-la a desprezar-me pela mesma razão que tu me desprezas? querias dizer-lhe que houve um homem que lhe chamou filha, porque eu lhe não quis dar esse título? que eu, ao vestir o hábito de monge, foi como se vestisse a mortalha de pai? Não lho dirás, não! Se te era desonroso responder aos gritos da minha alma, não queiras diante de ti a filha do teu crime. Sê coerente se não podes ser boa nem compassiva. No ar dos pestilenciais aromas do palácio de Paula, não quero que a minha inocente filha respire. As impressões que se insculpem numa alma nova são boas ou más no futuro. Eu não quero que a minha filha se recorde da alcova de uma freira amásia de um rei. Pode ser que a mãe se embriague nessa atmosfera; mas a embriaguez que delicia uma alma gasta pode matar as flores ainda abotoadas no coração da minha filha. Não a verás, Catarina.

O padre Xavier seria péssimo carácter, se não fosse um grande desgraçado.

CAPÍTULO XV

 

À hora do costume, as senhoras Perestrelos e Catarina, por entre as cortinas das janelas, esperavam D. Feliciana. Quando conheceram a sege das cavalariças reais, disseram as três a um tempo:

— Elas aí vêm!

— Olhem o meu coração como pula!-murmurou Catarina pondo sobre o peito as mãos das suas amigas.

— Até eu estou alvoroçada... que farás tu!... — disse Paula.

— Não se divisa quem vem dentro... — notou Maria da Luz agachando-se para espreitar rente com o peitoril.

Catarina ajoelhou também, formando com as mãos um tubo para convergir os raios da luz, e disse com desalento:

— Parece-me que vem sozinha a tua mestra...

A este tempo já Paula tinha o óculo de longa-mira assestado à sege.

— Tens razão — confirmou a Perestrelo — a menina não vem...

— Talvez não entregassem ontem a licença à Feliciana — lembrou Maria da Luz.

— Bem me dizia o coração! — disse Catarina.

— Aí estás tu já aflita!... Qualquer insignificante embaraço impediria a vinda da pequena... Olha que é preciso não nos mostrarmos muito contrariadas na falta. Deixa-me só falar a mim.

Entrou a mestra com desconsolada cara; e feitas as mesuras, disse:

— A menina não veio porque o diabo do tio negou a licença, isto é, disse-me que pensaria e responderia ao meu pedido.

Catarina voltou as costas a Feliciana e chegou-se de uma janela que dava sobre o pomar, a fim de encobrir as súbitas lágrimas. Quis represa-las; mas não podendo, saiu da saleta, e recolheu-se ao seu quarto. A mestra não percebeu nada. Paula e Maria da Luz, com as suas perguntas, distraíram-na de atentar nos precipitados movimentos da outra. No entanto, Paula gesticulou um rápido aceno à irmã, que seguia Catarina.

A mestra referiu pontualmente o que passara com Francisco Xavier. Não lhe esqueceu a distinção da porta conventual e da porta particular. Omitiu somente por cortesia o comento do sobrinho quanto à defesa da inocência por qualquer das portas. Paula absteve-se discretamente de retribuir ao padre as farpas indiretas. Mostrava-se sentida do desgosto da mestra, e lastimava a criança, que o tio decerto amaria com melhor resultado, se, em vez de lhe dar enfeites, lhe desse ar puro.

Quando Feliciana lhe perguntou se queria dizer a lição, a freira respondeu que uma forte enxaqueca a impedira de estudar. Despediu-se a mestra, e Paula correu à alcova de Catarina, que estava a chorar ao lado de Maria da Luz. Esta, fitando a irmã, e depois declinando a vista de esconso para uma bacia de lavatório, dizia-lhe mudamente que visse o sangue de Catarina. Não era a primeira hemoptise; mas Paula assustou-se; foi para ela impetuosamente e estreitou-a ao coração.

— A tua filha há de vir, eu to juro, Catarina.

— Que vil homem aquele! — soluçava a mãe de Antónia — Acho-o mais infame neste proceder, comparando isto com a carta que me escreveu. Aqui tens o penitente, o contrito! Participou-me que existia minha filha, como quem inventa um flagelo novo para mim. Pensou que eu vivia resignada. Afligiu-o a ideia. Engenhou uma tortura, prevendo que eu cairia outra vez na cilada. Disse-me que eu tinha uma filha com o plano de me aviltar não consentindo que eu a veja. Aqui tens a perfeição da maldade humana, Paula!... Deixa-me chorar e morrer, que eu tenho mais vergonha que dor de o ter amado! Não faças diligência alguma... Que vem ela cá fazer? Eu... estou morta...

— E eu não quero que morras, minha querida filha! Deixa todo o mundo, e vive para mim! — exclamou Paula desfeita em lágrimas — Olha que eu só deixo de ver escura a minha vida quando encontro a luz dos teus olhos. Se nunca te disse isto, é porque só agora pude recalcar no peito a vaidade de parecer feliz aos olhos de toda a gente, de amigas e inimigas!

Catarina abraçou-a, beijou-a muitas vezes, ganhou alento na convicção de ser precisa à felicidade daquela mulher tão odiada e invejada.

Paula levou-a consigo, segredou-lhe muitas dores ignoradas, muitos ultrajes recebidos do capricho de D. João V. Entreteve-a com as suas angústias — o melhor anódino para mitigar as alheias.

Depois, enquanto Catarina meditava uma carta fulminante para o pai de Antónia, Paula entrou no seu gabinete escreveu algumas linhas, lacrou o sobrescrito, e escreveu:

Ao reverendo Sr. Padre Francisco Xavier. Em casa do Exmo. conde do Rio Grande, no Lumiar.

Chamou uma negra, deu-lhe explicações, e voltou, dizendo coisas diversas e alegres à sua amiga.

— Vou escrever-lhe...-disse Catarina com desabrimento.

— Raios e coriscos? Não escrevas, filha. O que tu pensas deve ser o pior despacho. Nós estamos ainda no começo. Há muito que fazer antes que lhe dês o prazer de o castigar com a tua carta. Se lhe tivesses respondido afrontas, já cá tinhas a filha, O teu silêncio foi como se em cima da sua memória lhe voltasses a esmagadora pedra do sepulcro. Quando eu desconfiar dos meios brandos, então lutaremos como desesperadas.

Francisco Xavier recebeu a carta confiada ao ajudante do sacristão-mor das freiras. Estes funcionários em Odivelas acumulavam todos os ofícios compatíveis. Curavam das aras do templo, e velavam o fogo não sagrado das sacerdotisas para que não se apagasse.

Este subalterno conhecera Francisco Xavier no galarim do luxo e do amor. Pôs-se a chorar quando o viu sem perna, sem cores, arrugado, desfeito.

— Quem o viu, meu senhor! — dizia, e benzia-se.

Depois entregou a carta.

— De quem vem? — perguntou o padre, reparando na letra desconhecida do sobrescrito.

— Deu-ma uma das negras da senhora freira... d’el-rei — E circunvagou uns olhares cautos. Xavier abriu e leu:

Paula Perestrelo cumprimenta o Sr. Francisco Xavier, e pede-lhe a fineza de consentir que venha a Odivelas sua sobrinha Antónia.

Deteve-se largo espaço a estudar silabicamente as duas linhas. Meditou, enquanto o sacristão comparava o brilhante jovem de oito anos antes, com aquele homem encolhido e descadeirado entre as almofadas de uma preguiceira.

O padre, ainda escandecido do acesso de fúria do dia anterior, no bilhete de Paula não viu frase que o aplacasse. Nem uma letra, uma inicial com referência a Catarina! Ela, orgulhosa, aviltadora, esquivara-se a ser parte na petição — pensava ele. Delegava glacialmente na amiga o satisfazer-lhe um capricho, sem risco da sua dignidade, sem sacrifício da sua soberba. Se fosse servida, nada tinha que agradecer ao homem desprezado... Se o não fosse, a descortesia feita à amante de el-rei não ficaria impune.

— Quer expor-me ao ódio d’el-rei — dizia ele.

E, derivando a sua preocupação ao ínfimo grau onde a podia abaixar, pensou nos perigos da repulsa, graduando-os, pela omnipotência real. E, remontando-os aos antepassados, pensou em Domingos Leite Pereira, seu bisavô, enforcado como regicida; em Francisco Mendes Nobre, seu avô, falecido de angústias quando lhe aferrolharam o filho; no seu tio de Vila Viçosa, queimado; no seu pai, três anos preso e desterrado.

E, depois, ele era rico; os seus haveres, transferidos de Holanda, eram conhecidos; e o seu irmão era desembargador em anos florentes; e a sua filha era a herdeira de mais de cem mil cruzados. E estes cem mil cruzados, com ele, com o irmão, com a filha, tudo poderia sorvê-lo a voragem do Santo Ofício, ao mais leve aceno d’el-rei. E, para além disso: ele conhecia o fôlego vingativo de Paula Perestrelo. Sabia que, mediante ela, Catarina e a sua mãe, na Inquisição de Coimbra, amolgaram a ferocidade dos frades, e saíram ilesas. Sabia que uni bilhete dela enviado ao paço da Ribeira, pôs na rua os quadrilheiros e a tropa que rebateram a comunidade de Odivelas para dentro do mosteiro. Sabia, enfim, que Paula se prestava a executar as vinganças de Catarina.

Ilaqueado por estes medos sinistros, em que nenhum pensamento nobre sobressaía, o ex-frade varatojano mandou ao sacristão que lhe chegasse uma papeleira portátil, e escreveu:

Francisco Xavier tem o prazer de cumprimentar a muito reverenda soror Paula do Santíssimo Sacramento, e, agradecendo em nome do seu irmão Paulo Xavier a distinção que s senhoria liberaliza a sua filha, vai ordenar sem detença que a menino se apresse a conhecer a digníssima senhora que tanto nos honra.

E, ao mesmo tempo, enviava o seu consentimento a D. Feliciana com expressa recomendação de forçar sua sobrinha, dado caso que ela tentasse desobedecer-lhe.

Abriu Paula a carta. Estava presente Catarina. Tremiam ambas. Leu-a mentalmente perfilando-se de modo que a sua amiga a não lesse ao mesmo tempo. E, lido o bilhete, exclamou:

— É um cavalheiro o Xavier! Olha... aí tens!... Vês como se vence tudo? é assim. As armas da mulher são as meiguices, quando os inimigos são homens; ora, se os inimigos são mulheres, então a arma eficaz é o tagante. Alegra-te, que amanhã tens aqui tua filha.

Catarina também parecia deletrear as palavras do escrito, afetadas e ironicamente cortesãs. Não obstante cerrou-se-lhe a alma de escuríssimas saudades, quando Paula a incitava a exultações. Luzia-lhe uma das auroras do passado — a primeira alvorada na casa de Montemor, quando ela da janela ogival viu dobrar a colina fronteira o gentil jovem, e se ficou vendo repontar o sol, alegre como as aves. Era feliz, tão feliz como se esposo, e não amante, lhe tivesse naquela noite nectarizado os lábios com os primeiros beijos. Ela amou... o amor, naquele retrocesso; mas, desde a primeira alvorada de Montemor, não se recordava de outra manhã sem as nortadas glaciais da alma. Depois, era o recordar-se das angústias e terrores da gravidez; do resfriamento do homem a quem pedia a fuga para salvar a honra e vida da sua mãe da Inquisição; da herança afrontosa de tantos antepassados seus ali queimados; da sua mãe ali, louca de pavor... e enfim do seu covarde amante, além, a cantar litanias, a contundir o peito, a missionar nas aldeias, a pedir a Deus que o salvasse, visto que ele, pela sua parte, deixava a justiça humana desassombrada no castigo da sua vítima.

Ah! ela também era injusta!

Devia descontar nas graves culpas do amante a unção com que o frade lhe dissera centenas de missas pela sua alma.