A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 37 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo XLIV · Porque se julgara atraiçoada pela aia, D.…

 

Porque se julgara atraiçoada pela aia, D. Antónia repeliu-a da sua presença, e dispensou-se de criada do quarto. Pensou em despedi-la; mas sentiu-se desautorizada. Se a despedisse, Eliot impor-lha-ia, sobrepondo à perfídia a humilhação, na presença dos servos.

Maria Miguel guardava ainda o segredo da entrada de Frisch, porque era cúmplice; assanhada, porém, pelo desprezo da ama, revelou o caso a Antónia do Sacramento.

Rutier avisou Eliot, e disse-lhe:

— Que excelente ocasião lhe fugiu, Sr. doutor! e quantas se perderam com a ida de D. Antónia para a quinta!...

Pouco depois da denúncia, Eliot entrou inesperadamente na alcova da sua mulher. Surpreendeu-a orando, de joelhos, aos pés do leito, amparando a face nas mãos erguidas em súplica.

Antónia ergueu-se sobressaltada.

— Menos orações e mais virtudes — disse o protervo Cínico.

Ela, não replicou à injúria. Sentou-se, porque sentia desfalecer-se em terrores da morte. Transia-lhe a alma o medo de ser assassinada.

— Diga-me cá, senhora — prosseguiu ele, sentando-se no leito, e bamboando as pernas cruzadas. — Estava pedindo aos seus indulgentes deuses que lhe perdoassem o adultério?

— O adultério! — exclamou Antónia, erguendo-se ereta, majestosa de ira, e espanto.

— Comédia! — resmoneou Eliot sarcasticamente. Eu não represento, ouviu? Que veio fazer a esta casa. Josse Frisch? veio rezar consigo? Diga lá... Veio ou não veio aqui o seu amante Frisch?

— Veio — respondeu ela com a voz estrangulada.

— Rezar consigo?

— Chorar...

Eliot cascalhou uma risada estridente.

Depois, desceu-se da cama, carranqueou o aspeito, e disse:

— Que me atraiçoasse, explica-se; mas que faça de mim parvo, é original! Com que então, uma dama casada fecha-se com um amante, ao fim da tarde, num quarto, e... choram ambos, às escuras! A senhora é tão devassa como tola!...

— Ó Virgem Santíssima! — murmurou Antónia, relançando os olhos a um retábulo pendente sobre o leito.

— Veja se interessa a Virgem nas suas virginais choradeiras com o versista loiro... Vamos ao ponto essencial. Frisch esteve com a senhora fechado num quarto desta casa, sendo a senhora minha esposa?

— Esteve.

— Basta!

E, abrindo de par em par a porta da alcova, disse para fora:

— Entrem.

Entraram Henrique Rutier, Antónia do Sacramento, Maria Miguel e Simoa dos Santos.

— Ouviram o que esta senhora acaba de confessar?

— Ouvimos — disse Rutier.

— Que recebera nesta casa o seu amante fosse Frisch repetiu Eliot.

— Isso mesmo — confirmou o pajem.

— Podem sair — voltou o médico. — Se um dia forem interrogados a tal respeito, respondam o que ouviram. Quanto à senhora, fique entendendo que as minhas criadas... são minhas criadas. Aqui governo eu.

Uma das criadas saiu chorando. Era Simoa dos Santos, a cozinheira.

Eliot desceu ao escritório com Rutier, o qual, cruzando os braços, perguntou:

— Isto de que serve? não me dirá, Sr. doutor?

— De que serve?!

— Sim, pergunto: que lucrou o Sr. Eliot com o espalhafato das testemunhas? Provavelmente, vai matar o prussiano; depois, mata sua mulher. Feito isto, declara que matou os adúlteros, e prova-o com o depoimento dos seus servos. Está bem aviado!

— Não percebes nada, Rutier. A vida mercantil bestificou-te.

— Desconfio que sim... Queira iluminar a minha bestidade.

— Há de haver um segundo adúltero e o primeiro será a confirmação do segundo.

— Estou cada vez mais bronco, Sr. doutor.

— Fecha bem aquela porta, e vem cá.

— Eis-me.

— O adúltero há de ser o frade...

— André?

— Sim.

— E ele aceita o papel... real ou fantástico? Vossa mercê tem a cabeça opiada pelo marguillé de Constantinopla, perdoe as demasias da minha amizade, ou explique-se.

— Não me deixas explicar, diabo! Eu hei de encontrar nesta casa o frade com Antónia em flagrante delito.

— Ah! pois o frade também... Há de encontrá-los em flagrante delito?

— Supõe...

— Sim, suponho; mas é ou supõe-se...

— Faz de conta que é... e, colhidos no crime, estão mortos.

— Por quem?

— Por mim.

— Ah! isso, pode ser... Pensei que me ia dizer que seria eu o executor da alta justiça...

— E não eras?

— Não, senhor.

— Como estás mudado, Henrique!

— Não é mudado: é cansado...

— Estás rico: é o que queres dizer... Esqueceu-te a proveniência dos teus doze mil cruzados...

— Não me esqueceu, Sr. doutor; mas vossa mercê dispõe de mim por maneira que eu receio esquecer na escada da forca os favores que lhe devo — respondeu gravemente o pajem.

— Palavra de cavalheiro! o senhor está perdido! Aquela D. Leonor é a perdição de nós todos... Deixe-a, com dez milhões de diabos. Deixe o frade, que é tão amante da sua mulher como eu. Se não quer viver com ela, meta-a num convento, e alegue que ela o atraiçoou com o prussiano...

— Não te peço conselhos, Henrique... Lembra-te do que eu já te disse: a minha tábua de naufrágio há de ser o teu esquife.

— Bem me lembro...

— Enquanto eu subir, subirás tu... — rugiu desentoadamente Eliot — Dá-me Leonor que eu dou-te tudo... Tê-la, ou morrer, entendes? mas antes de me matar, hão de cair, a ferro e fogo, todos os obstáculos. Não sabes o que é uma paixão sem lágrimas? É uma congestão de sangue... É a fome do tigre... Estou perdido!

— Fale baixo! — admoestou Rutier — Olhe que o pode ouvir na rua alguém que saiba francês... Deixa-me dar-lhe um parecer? Venha comigo... Saia desta casa por algum tempo... Tem a minha casa. Pensaremos, meditaremos, resolveremos, lá, e...

— Resolvi... — interrompeu Eliot.

— Que resolveu?...

— Quebrar estas correntes, seja como for.

— Mas, se premedita aproximar o frade da sua mulher, o passo que hoje deu, com toda a certeza, produz o efeito contrário. Pois pensa que ela se atreve a receber aqui um segundo homem, depois que o senhor convidou testemunhas contra o primeiro? Está cego, Sr. Eliot! O que o senhor devia fazer, se refletisse ou me consultasse, era pôr-se à cacha com o segredo do Frisch, e ajeitar-lhe modo de ele cá tornar. E que fez o senhor? Espantou a caça! Agora, espere-o ca...

— Tens razão... — acedeu Isaac Eliot — Leonor fez de mim um sandeu! Era isso o que eu devia fazer... Porque mo não aconselhaste?

— Quando? o Sr. Doutor tem a notícia; sai da loja de bebidas onde lha dei, manda-me chamar a sua casa, leva-me com as criadas para a saleta, entra na alcova da sua mulher, e faz o destampatório que se viu!... Quando nos mandou entrar, que remédio havia? Ora agora, sua mulher está aqui está, em casa do desembargador Santa Marta ou da irmã do frade. E depois? Bem sabe que ela, rodeada de criadas que detesta, há de estar sempre a recear que a envenenem; vê-se só, sem ninguém que a proteja, e safa-se. E depois, pergunto eu? Divórcio. E a fortuna? a quem é que a dá a lei? já consultou?... Aí vai um conselho, quer?

— Diz lá — aceitou o amo bastante abalado pelas ideias jurisperitas do pajem.

— Vá ter-se com Alberto Borges, e com a irmã do frade. Conte-lhes o acontecido. Diga que o ciúme foi a causa do seu destempero. Peça à mulher do Alberto que venha aqui fazer companhia a D. Antónia, ou a leve para sua casa por algum tempo. Mostre-se ofendido do adultério; mas diga que está disposto a desculpá-la, atendendo à maneira como se fez o casamento. O senhor tem palavreado quando quer. O grande caso é evitar que a sua mulher fuja, e vá pôr em alarme os amigos do pai e os inimigos do doutor, que são muitíssimos, bem o sabe. Deixe passar algum tempo. Não venha a casa, vá fazer uma viagem a França.

— É impossível! — refutou Eliot — Não posso viver longe de Leonor...

Pois se quer estar bem perto dela, vá ser hóspede do Tomás Darcet, que ele há de estimar muito, como bom explorador que é.

— Não ofendas o meu amigo!

— Pelo contrário, gabo-lhe a esperteza. Não me disse vossa mercê que já lá vão dez mil cruzados, afora a baixela de Prata e ouro? E o mais que há de ir... Enfim, já agora é aguentar-se meu bom amigo. Convém-lhe o conselho?

— Não vejo outra saída... Tens razão... O divórcio não me convém. Esmagava-me a justiça, que é portuguesa, e para além do mais esta no desembargo o tutor, e o frade é todo do patriarca, e o Frisch é hóspede do Bluteau que o rei respeita...

— Tudo isso, e uma coisa de que vossa mercê se esqueceu; e é que o testemunho dos seus criados não prova nada contra sua mulher... Ande-me, doutor! Vá falar à mana do frade.

Entretanto, Antónia escrevia à irmã de Frei André pedindo-lhe que sem demora instasse com o irmão no recolher-se a um convento; porque se via na maior afronta, e no extremo apuro de morrer ou matar-se.

— Mas quem me levará esta carta? — dizia ela, suspendendo a escrita.

E, descaindo a face sobre o papel, chorou em crebros soluços. Ouviu então um bater surdo e pressuroso na porta. Foi abrir, e viu a criada Simoa dos Santos, que lhe disse muito baixinho, guinando os olhos a todos os lados:

— Minha senhora, olhe que eu fui obrigada a escutar o que a vossa senhoria disse. Perdoe-me pelo amor de Deus... Venho saber se quer jantar, que ainda está em jejum, coitadinha...

— Não quero nada... mas... fazes-me tu um favor, Simoa?...

— Sim, minha senhora...

— Levas-me esta carta à rua da Oliveira, a casa do Sr. Alberto Borges?

— Mas as outras vêem-me ir... e depois...

— Não importa... vai... eu vou entrar num convento, e levo-te comigo...

A cozinheira aceitou a mensagem; e com o pretexto de ir ver sua mãe, foi à rua da Oliveira.