A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 41 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo XLIX · Numa quarta-feira, 26 de Novembro de 1732,…

 

Numa quarta-feira, 26 de Novembro de 1732, pontualmente no primeiro aniversário da morte de Antónia Xavier, a sala livre do Limoeiro foi decorada com os cortinados da Relação, e o altar, onde os condenados ouviam missa, ornamentado. Dispuseram-se três mesas: uma com a cadeira de espaldar e duas cadeiras rasas; outra, com duas cadeiras de espalda, às ilhargas da mesa; e a terceira com assentos rasos. Na primeira, sentava-se o prior do convento da nossa Senhora da Luz, com o seu secretário e outro clérigo. Na segunda, abancavam o desembargador João Marques Bacalhau, juiz dos cavaleiros, e relator da sentença da Mesa, com o desembargador José Vaz de Carvalho, corregedor do crime. Na, última, estavam o escrivão dos cavaleiros Caetano da Costa Loureiro, e o solicitador da justiça Francisco da Costa Ferreira.

Às três horas da tarde, o cavaleiro Pedro de Castro Correia, vestido com o manto da ordem, desceu à enxovia, e fez revestir Isaac Eliot com o manto, a espada, o bentinho e a cruz. O condenado entrou na sala acompanhado de dois padres da Companhia e do padre Xofreu de Rilhafoles, famoso pelas conversões maravilhosas de alguns justiçados a quem assistira.

Eliot e os padres ajoelharam no taburno do altar. O assassino circunvagava os olhos espavoridos, e pelo hábito da quase escuridade da masmorra cerrava as pálpebras contra a luz forte do sol que se espelhava nas superfícies polidas das mesas.

O cavaleiro Pedro de Castro conduziu Eliot à mesa do prior da Luz, para ouvir ler a sentença pelo escrivão dos cavaleiros.

— Ajoelhe — disse o cavaleiro ao réu.

Ajoelhado Eliot, o prior proferiu uma oração, e despiu-o do bentinho, hábito e manto pela cabeça, depondo as insígnias sobre a mesa, ao mesmo tempo que o cavaleiro lhe desafivelava a espada. Seguiu-se outra oração latina pronunciada em toada plangente pelo prior. O cavaleiro fez ao réu um gesto que se retirasse. Os três padres seguiram-no até ao alçapão da enxovia. Os da Companhia de Jesus retrocederam, e o padre de Rilhafoles desceu com Eliot.

Três dias depois, nos cunhais das praças mais concorridas, lia-se uma pastoral do vigário geral do patriarcado em que o réu Isaac Eliot era proclamado sacrílego e público excomungado, reservada a absolvição a sua Santidade.

A substância deste edital, quando a notificaram ao preso, devia de ser-lhe medianamente aflitiva, salvo se o padre Xofreu vingara amolecer-lhe as sevas entranhas.

Interpuseram-se alguns dias concedidos a requerimento de Noutel de Carvalho, nomeado curador da menor Simoa dos Santos, que era inocente e pedia que a soltassem, chorando às grades da enxovia.

Em 8 de Janeiro de 1733 reuniu-se a Relação. Às 8 da manhã, o corregedor José Vaz de Carvalho começou a propor o processo, e às 6 e meia da tarde foi lavrada a seguinte sentença :

O que tudo visto, gravidade do caso, disposições do direito e Ordenações; e, estando Isaac Eliot confesso nas mortes de que é arguido, não provou de sorte alguma o adultério com que se defende, e que neste injusto facto associou o seu criado Henrique Rutier, os condenam ambos a que com baraço e pregão pelas ruas públicas sejam levados à do Outeiro, aonde numa forca que se levantará na frente das casas, em que cometeu o delito, padecerão morte natural, e depois se lhe porão as cabeças no mesmo lugar em dois postes levantados aonde se conservarão até o tempo as consumir e os condenam outrossim a que pelos bens dos ditos RR se pague ao convento da Santíssima Trindade por cada um deles a quantia de dois contos de réis, e outra tanta importância para as despesas da Relação; e o restante dos mais bens pertencentes ao R. Isaac Eliot aplicam na forma da lei aos herdeiros abintestados da sua defunta mulher, e no caso que não tenha descendentes que segundo a mesma lei lhe possam suceder, mandam que tendo-os lhe paguem vinte contos de reis em que em tal caso o condenam para os ditos herdeiros, e aos mesmos passará também a fazenda do R. Henrique Rutier. E as RR Antónia do Sacramento e Maria Miguel condenam outrossim a que com baraço e pregão pelas ruas públicas costumadas sejam açoitadas e degredadas por tempo de sete anos para o reino de Angola, e por não se considerar igual culpa na R. Simoa dos Santos a condenam somente que com baraço e pregão seja degredada para o mesmo reino por cinco anos, e pagarão as primeiras duas RR as custas dos autos. Lisboa oriental 8 de Janeiro de 1733. Vaz de Carvalho — Costa — Almeida — Silva — Dr. Pereira e Pinto.

Nesta sentença ressalta uma atroz injustiça. Simoa dos Santos é condenada a cinco anos de degredo, porque, tendo dito que vira sua ama encostar a cabeça do religioso, declarou depois que fora em ação de chorar.

Lavrada e notificada a sentença, requereu Isaac Eliot que em atenção ao seu grau de médico e às honras que fruiu de cavaleiro da nobilíssima ordem de Cristo, lhe fosse demudada a pena da forca em decapitação. Devia de lembrar-se de uma ironia de Rutier, quando o pajem teve certas previsões da forca.

— Retira lá essa palavra forca! — exprobrara o amo — Os cavaleiros professos na ordem de Cristo não podem ser enforcados.

— Bem sei — replicara Rutier — degolam-nos: a diferença não me parece a melhor das consolações.

No dia 8 de Janeiro, o alcaide da prisão com o padre Xofreu e o padre Luís Baptista da Companhia de Jesus conduziram o condenado ao Oratório.

Rutier, acompanhado de outro jesuíta, foi levado a oratório diverso.

Era extremo o abatimento de Isaac Eliot. Reclinara a cabeça na espádua do virtuoso ancião de Rilhafoles, e sentira no rosto o gotejar das lágrimas alheias, as únicas que olhos humanos lhe deram. Quanto a Henrique Rutier, dispensou-se de amparo, de lágrimas e de catequeses religiosas. Engolia aguardente a tragos vertiginosos, e, alquebrado no sopor da embriaguez, desencovava a espaços os olhos esgazeados, e fitava estupidamente o padre e a imagem de Jesus Cristo crucificado.

Isaac Eliot, no oratório, pedira papel e tinteiro. Escreveu de alto a baixo duas meias folhas de papel, e deu cada metade a um dos padres, dizendo:

— Publiquem vossas reverendíssimas depois da minha morte o que aí escrevi, se eu o não disser na forca; receio que lá não possa ou mo não deixem dizer.

O padre Xofreu e o jesuíta leram os papéis, e abraçaram Eliot. O ancião exclamou lavado em lágrimas:

— Desça sobre nós a unção das santas palavras, e sobre ti a divina misericórdia!

Às duas horas da tarde de dez de Janeiro de 1733, saíram do Limoeiro os padecentes, acompanhados de cento e cinquenta irmãos da misericórdia. Ladeavam Eliot os padres da Companhia, e o padre Xofreu mais à beira dele. Chegados ao Largo do Espírito Santo, Eliot desmaiou, e foi preciso transportá-lo tão devagar, que soavam as Ave-marias quando se defrontaram com o patíbulo. O primeiro justiçado foi Henrique Rutier. Subiu a escada da forca desgarradamente, repelindo com a mão os clamores do sacerdote.

Eliot não erguera a face do seio do padre Xofreu, senão quando ele disse:

— Filho! esperam-te! ânimo! invoca o nome de Jesus, até que a tua alma suba aos pés da sua justiça misericordiosa!

Isaac foi amparado até à escada da forca; fez menção de falar, e falou sonoramente nos seguintes temos:

Senhores! pela hora em que me acho, declaro que desde o dia em que pela misericórdia divina detestei os erros da heresia em que vivera, e passei à religião católica, sempre cri e creio tudo o que ensina a santa Madre Igreja Católica romana, em cuja fé morro com grande consolação, e desejara que a morte que padeço pelas minhas culpas a merecesse padecer em protestação de qualquer das verdades que a nossa Santa Igreja nos ensina; pois morro conhecendo que ninguém se pode salvar sem crer tudo o que crê e ensina a santa Madre Igreja Católica romana. E, porquanto eu correspondi tão mal a este singularíssimo favor que Deus me fez de me tirar da heresia, caindo em tal cegueira como foi matar injustamente a minha própria mulher e a um religioso da SS. Trindade, ofendendo com isto a Deus, a sagrada religião, a minha própria mulher e os seus parentes, escandalizando toda esta corte e toda a Europa onde tiver chegado a notícia deste meu pecado, e o mundo todo; pelo que, agora arrependido e ajoelhado com as lágrimas nos olhos, peço de novo perdão a Deus Nosso Senhor desta e de todas as minhas culpas. Peço também perdão à sagrada Religião, e aos parentes da minha mulher, e a todos geralmente, pois a todos ofendi, com tão grave escândalo e mau exemplo, esperando da piedade de todos quererão perdoar este meu pecado, para merecer de Deus o perdão de todas as minhas culpas e eterna salvação, como espero pelos merecimentos de Cristo Senhor nosso, mediante a poderosa intercessão de Maria Santíssima Senhora nossa e de todos os santos. Peço também e espero da piedade de todos me favoreçam depois de morto, aplicando-me alguns sufrágios pela minha alma, para que Deus seja servido levá-la ao eterno descanso pela sua infinita misericórdia.

*

As cabeças dos justiçados, arvoradas nos postes, ai estiveram doze dias; e, quando o fedor incomodava os moradores da rua do Outeiro, o almotacé requereu que as descessem. Assim se fez às 9 horas da noite de 19, e as levaram ao cemitério de Santa Ana, onde estavam sepultados os corpos.

No dia 30 de Março saíram Antónia do Sacramento, Maria Miguel e Simoa dos Santos a percorrerem as principais ruas de Lisboa. As duas, condenadas a açoutes, levavam as costas rajadas de sangue. A outra, a compadecida amiga de Antónia Xavier, ia morrer em Angola e esperava que a sua ama lhe alcançasse de Deus a bem-aventurança dos que padecem sem culpa. É o que ela dizia, chorando; mas ninguém lhe dava mais crédito que os juízes que a condenaram.

Pelo que respeita aos benefícios que resultam da forca, já como espetáculo, já como terror aos instintos perversos, o que apurei dos costumes ulteriores ao suplício de Isaac Eliot nada prova em favor da pena de morte. No ano seguinte de 1734, foi degolado o fidalgo Luís Álvares de Andrade e Cunha porque fez assassinar a sua mulher por um mulato; e, no mês seguinte, para variar de sexo assassino, era degolada Catarina Gonçalves porque matara o marido. O século da religiosidade, da magnificência, da patriarcal, de Mafra, da Capela de S. Roque com o seu altar estreado pelo Papa, da Inquisição, e finalmente da forca! O que seria Lisboa, no século XVIII, sem aqueles corretivos!