A Caveira da Mártir
Capítulo XLI · Desde Março a Setembro daquele ano de…
Desde Março a Setembro daquele ano de 1730, Antónia Xavier ganhou o hábito da tristeza em absoluta solidão.
Fr. André Guilherme, fiado no efeito das suas preces ao Altíssimo, alegrava-se inferindo do silêncio da sua amiga sinais de conformidade.
Josse Frisch alternava as contemplações amorosas com os pensamentos científicos. Dava-se muito com o naturalista Merveilleux, estipendiado pelo rei, e com os jesuítas italianos, professores de matemática, Francisco Musarra, Domingos Capacce e João Baptista Carboni. O estudo é a regeneração das almas desbaratadas. Todo o trabalho é uma redenção. Ainda assim, o jovem naturalista de Berlim, por hábito e por amor, escrevia cada dia uma página da sua vida, e achava sempre meio de enviar, cada semana, uma longa carta à enclausurada de Camarate. O feitor, que Lhe dera o aviso do casamento e o acolhera em casa da sua irmã, sustentara-se leal a ambos.
Todos os criados do defunto Xavier tinham sido despedidos. O abastado Rutier, que, nos lances urgentes, reassumia as funções de pajem, encarregou-se de vender os dois escravos para a tripulação de navios mercantis. Levados à traição a Lisboa, foram entregues ao comprador, e ameaçados com as gramalheiras do uso. As criadas e o escudeiro, já ancião, foram substituídos, salvante Maria Miguel. No governo da casa foi constituída Antónia do Sacramento, amásia do pajem; e no ministério da cozinha entrou uma Simoa dos Santos, mulata. O serviço externo era feito por negros de aluguer, exceto o das cavalariças, em que se conservavam os antigos lacaios de Eliot.
Deste teor, julgava ele cortadas as suas relações com o frade trino e com Josse Frisch.
Neste tempo, levantou-se brava tormenta no coração de Eliot. O amor à menina Caldeirão entranhara-se-lhe nas podridões profundas da alma como a víbora no chavascal. Acalcanhado pelo desprezo dela, sobrava-lhe infâmia para adorá-la em redobro. Se a encontrava na sala de Tomás Darcet, a menina esquivava-lhe as cortesias de mera urbanidade, e repelia-lhe enfurecida os requebros indiretos. Em dia dos seus anos, brindou-a com um colar de diamantes subtraído às joias da mulher. A medianeira no brinde fora a mana Teresa. Leonor lançou-o no pescoço da criada. As manas lançaram-se à criada, tiraram-lhe o colar, e guardaram-no para não ofender o dadivoso médico.
Tomás Darcet procurou um dia o seu benévolo amigo para lhe contar que a mana Leonor era requestada por um primo de Elvas, morgado e galhardo rapaz. Deplorava-se o patrício de não poder impedir este galanteio, como impedira outros, já porque o rapaz era abastado, já porque era fidalgo, já finalmente porque Leonor o amava doidamente.
Infernou-se-lhe o coração ao marido de Antónia. Para haver de tudo na caverna daquele peito, até lágrimas lhe apontaram nos olhos, quando a nova o fulminou.
— E eu que tinha sonhado fazê-la minha esposa, e enriquecer-te, meu amigo, e levantar a casa dos Caldeirões ao prestígio que já teve! — disse ele, ensopando o lenço nas lágrimas.
— Que sonho esse tão disparatado! — obviou Darcet — pois se estás casado com uma menina de dezasseis anos!...
— Não te disse eu já que ela herdou a lesão do padre...
— Ah! eu pensei que ela não fora herdeira tão universal! — motejou o francês.
— Antónia tem vida para pouco... acredita-me, Tomás...
— Sim, eu creio em ti que és o mestre nessas coisas; porém, quando mesmo enviuvasses, meu querido, quem nos assevera que Leonor te queira, depois de tão bruscamente a deixares pela outra que era rica? Eu não to disse tantas vezes? Não eras tu bastantemente remediado com os teus grossos lucros como médico? com os teus duzentos mil reis da tença de cavaleiro? Foi o diabo da ambição;... que a formosura decerto não foi. A respeito de beleza, tua mulher está tão longe da minha cunhada que não há compará-las... e quanto a nascimento, não falemos. Se casasses com Leonor, estavas agora aparentado com a primeira nobreza do reino; assim, casado com a sobrinha ou filha do padre Francisco, quem são os teus parentes? uns judeus obscuros. O dinheiro é bom; sim, eu hei de confessar que o dinheiro é bom, e tomara-o eu; mas que importa ser rico, se a fortuna nos vem de uma mulher que nos aborrece, que ama outro, que...
— Que ama outro? — atalhou Eliot — como sabes tu que a minha mulher ama outro?
— O homem! pois não sabe toda a gente que ela amava o alemão que por aí tens visto a passear com o Merveileux?
— Amá-lo-ia... mas não o vê... entendes?
— Isso é questão aparte. Se o não vê com os olhos da cara, vê-o com o coração, que faz o mesmo para a felicidade doméstica. E tu sabes lá se ela o vê com os olhos? Ela está na aldeia, tu estás em Lisboa, vais lá duas vezes por semana, e provavelmente nunca chegas na ocasião em que o outro lá pode estar. Isto não é dizer-te que o prussiano lá vai; mas convence-te de que os maridos como tu não costumam ser os donos absolutos da sua propriedade. Convence-te de que Lisboa nessa parte é uma segunda Sodoma, e até não sei se será uma primeira Sodovia... Mudemos de conversa... estás a mudar de cor, e a ruminar alguma tolice. Nada de cavalarias da idade média, homem! Tu não amas tua mulher: isso é público e notório. Que te importa o mais? Deixa-a divertir; não te queiras parecer com estes selvagens de Lisboa que as matam, quando não são elas que os matam a eles; escreve lá isto nos teus papéis...
— E Leonor vai casar... — disse abstraidamente Eliot — Ó Darcet! diz-lhe que não case... — exclamou ele com suplicantes Vozes — diz-lhe que espere o futuro... Pede-lhe que me ouça, que me deixe mostrar-lhe de joelhos a minha alma... Pede-me tudo... Que queres, meu amigo? Se eu chego a casar com Leonor, dou-te metade da nossa riqueza... Palavra de cavalheiro! metade da minha fortuna é tua...
— Não fales a linguagem do interesse; — obstou o outro — basta-me ouvir-te a da paixão, que bastante me comove, amigo Eliot! Eu vou referir a Maria Teresa o que passei contigo. A minha mulher foi sempre tua amiga, e deve-te grandes finezas de todo o género... Não somos ingratos... Persuado-me que ela conversará com Leonor; mas, meu caro amigo, não ouso agourar-te boa saída. Bem sabes o que é uma menina de nobre condição, como Leonor, não só despeitada contigo, mas também apaixonada por outro...
— Esse outro — exclamou a súbitas Eliot — esse outro... Olha que eu sou capaz de o mandar atravessar por um estoque! Podes dizer-lho...
— A ela? Deus te livre! Que asneiras te fervem nesses miolos, doutor! Matá-lo! Que diabo de culpa tem o homem!
Pois tu não mataste o alemão, e hás de matar o inofensivo galã da minha cunhada?
— É que eu não amava Antónia...
— Isso entende-se, homem; mas não o digas.
— Digo-te a ti que és o meu íntimo... e tu nunca o repetirás...
— Pela minha própria honra... Sou cavalheiro, creio que o sabes. Um De Arcet teria pejo de se ostentar amigo de outro capaz de um homicídio por ciúmes, tendo desdenhado a menina cujo amante quer matar...
— Estou doido, Tomás! estou doido! não faças caso desta cabeça que se perde... Vê-me só no pobre coração que estala de dor...
— Pois bem... sossega, doutor... que eu vou daqui falar a Teresa, e amanhã te informarei do que houver ocorrido.
Se eu não estivesse quase trasladando uma cadeia de sucessos documentados, repulsara a fantasia que me sugerisse Isaac Eliot a meditar no assassínio da sua esposa; mas a história violenta-me, e todas as suspeitas de inverosimilhança me desfaz. O homem, a época, as sevas paixões de todos os tempos, e mormente a devassidão e crueza dos costumes daquele século, não seria tudo bastante a compelir-me ao esboço da monstruosidade de Isaac Eliot, se debaixo dos meus olhos não estivessem as provas.
O protervo pensamento de matar a mulher com peçonha, ou a ferro, pretextando adultério, devia ocorrer-lhe naquele tempo de refinada corrupção.
A apojadura dos perversos instintos de Eliot supurava na fase mais depravada dos costumes portugueses. A primeira metade do século XVIII deixou em Portugal profundos vestígios de desmoralização, que o roçar do tempo foi safando. Os monumentos da piedade resistiram com os seus rijos mármores e granitos; mas quem tiver escassa luz com que entrar às grandes trevas do espírito nacional daquele ciclo, espanta-se do sacrilégio que pôs as santas coisas de Deus como desmentido póstero à vasta infâmia em que se tecia o viver do rei e dos grandes, na época em que o povo padeceu maiores vexames. Os homens de letras emudeceram, rebalsados na podridão comum, ou amordaçados pelo terror dos alcaides. Se algum escritor deixou traços da fisionomia do reinado de D. João V, não o procuremos na língua pátria nem dentro de Portugal. Dos que a Inquisição propeliu ao desterro, raros protestaram. Apenas um, Francisco Xavier de Oliveira, queimado em estátua num auto-de-fé, assinalou, sarcasticamente sereno, os crimes do país em que o homem dotado da liberdade da razão expiava a dádiva funesta na labareda das fogueiras.
Nenhum crime devera parecer arrojado a Isaac Eliot, robustecido pelo exemplo dos nacionais. Lisboa, a devassa, era apostrofada desde os púlpitos nos sermões de Bernardes, de Colares e de Rafael Bluteau. O rei escutava-os com calafrios de contrição, e penitenciava-se, forçando os vassalos a pagar-lhe no telónio dos cardeais as indulgências remissórias. O teatino Biuteau imputava às doutrinas dos estrangeiros protestantes a estragação dos costumes. «A Lisboa — pregava ele — (1723) trazem estrangeiros heterodoxos, com as suas mercancias os vícios das suas terras, juntamente com os erros das suas seitas, e, se os não ensinam, publicamente os professam... Em Lisboa a suavidade do clima afemina os ânimos e às delícias ilícitas os inclina. Em Lisboa, com ódios inveterados, ou com fúrias repentinas, muita gente se mata, e uma das razões das muitas mortes é que os ofendidos, supondo que a justiça não castigará aos que os agravaram, com as suas próprias mãos se fazem justiça. Em Lisboa, com uma folha de papel que se chama carta de seguro, o mais cruel homicídio se abafa. Em Lisboa qualquer sombra de infidelidade no tálamo conjugal afia o punhal para o desagravado, e o matar mulheres é ponto de honra. Em Lisboa, negros e vilões, quando não têm padrinhos, talvez se castiguem; para homens de bem, quando obram mal, raro é o castigo...»
O ilustre filólogo mal se desculpa de lisonjeiro com os portugueses assacando aos estrangeiros a peçonha que viciara os costumes. A lascívia do rei com fidalgas, atrizes, freiras e ciganas poderiam aferventar-lha os filtros franceses; mas com certeza não lha acenderam as doutrinas dos estrangeiros heterodoxos, que, por via de regra, se não eram castos, eram cautos, consoante o conselho do apóstolo. As devassidões espetaculosas do duque de Cadaval com a Paulina, e do conde de Tarouca com a francesa Pelles, que o seu capelão Domingos de Araújo Soares lhe furtou a ele e ao marido, são casos de peste esporádica — não os inoculou a Reforma. Do mesmo teor, eram estranhos a Lutero e Melanchton um certo Bernardino de Vasconcelos Castelo Branco que matou a mulher em 1684, e D. Guiomar Luísa que matou o marido em 1712. Degolou-os o algoz, (mico obreiro daquela civilização, estranho a religiões. Nunca lera Calvino o padre Luís Álvares de Aguiar, denunciado à Inquisição e aí convicto de prostituição das confessadas, que eram meninas da primeira nobreza. Este sacerdote era de ilustre origem e querido da sociedade mais seleta. A Inquisição queimava o hebreu sem fé; e, por caridade, desterrava simplesmente o presbítero que paxalizara com as louras filhas espirituais. Quanto a ciências que transviam o espírito e o perdem nas veredas da razão, o padre era ignorantíssimo. Sabia um dito de S. Jerónimo, e não queria outro evangelho: O amor é a observância e resumo de toda a lei, o que as escrituras santas chamam caridade é isso e mais nada. E lá se ia arranjando com a máxima, que não era de Hus, de João de Leide ou de Calvino.
Nem os heresiarcas (nem os pagãos — acrescenta o Cavalheiro de Oliveira) — poderiam referir passagens desta natureza: «Dei ao padre João de Carvalho, da congregação de S. Filipe Neri, meia moeda para missas pelas almas do purgatório. Respondeu-me que não podia aceitar a incumbência, porque tinha de dizer trinta missas a fio, em cumprimento de uma promessa que fizera às mesmas almas, a fim de que a sua amada que era freira não recaísse na armadilha de um seu antigo amante que deixara por amor dele. Sentimentos de igual piedade acrisolavam o franciscano que dizia missa quotidiana, andando em viagem, a fim de que as almas obstassem a que a sua querida voltasse para o marido».
Não são quanto parecem insignificantes estes traços, quando se debuxa o perfil da proverbial corrupção do século XVIII. A história despreza-os, porque as tradições épicas e o sestro das narrativas enfáticas têm impedido que o historiador se apouque e perfile ombro a ombro do povo. Edmond Scherer, pesando o quilate dessas miudezas na interpretação de uma época, aplaude que a história se enriqueça desses «nadas, despercebidos como o ar que respiramos, mas de valia na totalidade dos efeitos».
Se querem crimes de maior estrondo, oiçam os que a história moderna apurou nas tradições de D. Francisco de Bragança, o irmão de D. João V. Encovara-se a fera no antro de Queluz, cevava-se em toda a iguaria ensopada em sangue, matava para experimentar a pontaria, e completava a infâmia visitando oitavários, novenas e lausperenes. E porque da raça dos Braganças havia aí um infante brioso, esse expatriou-se voluntariamente, e dezoito anos errou ao longe deste esterquilínio.
Na literatura desse tempo, fora das graves posto que estéreis lucubrações do claustro, espelham-se como na superfície turva de um charco as feições da sociedade. O Camões do Rossio, o Lobo da Madragoa, o Pinto Brandão, Frei Simão de Santa Catarina abandalharam o talento para terem talher no convívio dos magnates. Esses esgotos não sujaram os prelos; mas os contemporâneos prezaram tanto os inéditos dos seus intérpretes que eu só por mim possuo mais de quarenta tornos que mãos afetuosas encaparam luxuosamente. Não se concebem refinações mais devassas na linguagem e na forma! As histórias versejadas são passagens da vida monástica, com os nomes dos personagens, ou alegorias lardeadas do glossário mais inventivo em obscenidades que ainda tivemos. Fr. Pedro de Sã educara o autor da Martinhada, perrixil afrodisíaco que D. João V, esfalfado no corpo e na alma, pagava com a corregedoria do bairro do Rossio e com a privança.
Num livro desta natureza, mais longa notícia da dissolução dos costumes portugueses viria deslocada e impertinente; é porem que farte o esboço. Espanta relaxação tamanha num pais onde o carrasco suava no exercício das suas obrigações, e o ferro e a brasa do Santo Ofício sarjavam fundo nos inchaços da sociedade apostemada!
CAPÍTULO XLII
Apesar de instada pelo marido, Maria Teresa Caldeirão recusou falar em Eliot à mana Leonor.
— E agora para além do mais — refletiu ela — que o primo Luís Mendes de Vasconcelos lhe escreve cartas recheadas do mais fino amor, e já lhe chama adorada esposa! Pois tu não vês — acrescentou a prevista dama — que de hoje para amanhã o Eliot nos pode tirar a mesada, e ficaremos miseráveis, se a mana Leonor não casar bem? Assim que ele perder de todo a esperança de a conquistar com o dinheiro da mulher, pensas que nos não manda...
— Bugiar? estou bem certo disso; porque afinal de contas este Eliot é um maroto de marca maior. Há de ter mau fim... tu veras...
— Diz-mo a mim! pois eu não sei o que os patrícios rezam dele?...
— Assim é; mas, a falar verdade, tem-nos obsequiado...
— Com a pontaria feita à mana Leonor!... Forte amigo!... Destes temos nós muitos de melhor casta, se os admitirmos a nossa casa... O vilão vai casar com a outra, depois de nos trazer enganados, e pensava que uma Caldeirão se vendia ao dinheiro dos judeus! Fora, patife!
— Tens razão — modificou o professor de esgrima — porém, se ele te falar, não o escorraces. Deixa ver o que faz Leonor com o primo. Enquanto ela precisar de nós, precisamos nós dele... bem vês, filha.
— Ai! meus avós! — apostrofou ela voltada para onze lonas roídas nos seus onze retratos apócrifos de Veigas e Caldeirões — se soubésseis a qual baixeza chegaram vossas netas!...
— Deixa lá os monos — interrompeu o marido — Fala comigo que também tenho na Picardia uns figurões estupidamente pensativos como estes teus avoengos, e nunca lhes apanhei um franco. Se o Eliot se entender contigo, dá-lhe uns longes de esperança...
— Eu!... tu injurias a minha dignidade, Tomás!
— Não que eu te conto, menina. O Jerónimo Fidié tem enriquecido com o negócio dos veludos e damascos; e, se eu me associar a ele com o capital de cinco mil cruzados, tiro lucros bastantes para vivermos com decência. Ora eu, se estes teus onze avós me não emprestarem a juro módico os cinco mil cruzados, tenciono pedi-los ao Eliot. Tens percebido, amor? é preciso mostrar-lhe a mana Leonor ao longe... por um óculo... percebes? O que tu hás de dizer à mana Leonor...
— Não lhe digo nada! — cortou Maria Teresa.
— Espera... Nada de bazófias... diz-lhe somente que o trate com menos carranca, e faça de conta que é um diabo que está para aí. Que lhe custa a ela isso? Supõe tu que o Luís Mendes, melhor avisado, norteia noutro rumo? Temos um fundo comercial de cinco mil cruzados; e, se Eliot nos retirar a mensalidade, já podemos viver desafogadamente.
— E se ele te pedir os cinco mil cruzados que te emprestou? onde os hás de ir buscar?
— Peço-os a estes onze avoengos... — e apontava para os retratos com dramática solenidade.
Ao outro dia, o zombeteiro Darcet respondeu desta arte à sôfrega expectativa de Eliot:
— Maria Teresa acha espinhos na comissão; mas é tamanha a vontade com que te serve e a amizade que te vota, que todos os recursos esgotará em demover a mana de casar-se com Luís Mendes.
— Ótimo! quanto vos devo, meus bons amigos! — clamou expansivo de risos o médico, abarcando-o pelo peito e costado.
— Maria Teresa é sagaz...
— Se é!...
— O plano gizado vem a ser pintar-lhe com as mais vivas cores a tua paixão e o teu remorso... Chorar até, se for possível!
— E não mentirá por mais que diga, meu Tomás...
— Depois, quando o patético houver coado ao coração da mana, dir-lhe-á que a tua mulher está doente, mortalmente doente de lesão no peito...
— Muito bem!
— Por fim, das duas uma: se a tua mulher falece, casas: sim, digo eu que casas; ponto é enviuvares... Se não falece já, vai-se paliando o negócio...
— Não há de ser preciso: minha mulher tem um aneurisma no último período.
— Coitada! morre muito nova... — lamentou Darcet — E a respeito da herança? já pensaste nisso? Olha que eu desconfio que, não havendo escritura nem testamento, o que tu herdas e nada é tudo o mesmo. Sempre será bom consultar... Como a maior parte dos bens são propriedades... Que eu creio que o padre tinha ainda negócio em Amesterdão...
— Pequeno...
— A propósito de negócio... sabes que o Fidié, nestes últimos seis anos tem enriquecido com as sedas e damascos de Leão?
— Sei, sim.
— Há dias me disse ele: entra com cinco mil cruzados em caixa, que eu associo-te numa quarta parte, e no fim do ano receberás 50 por cento. Fidié, se eu tivesse cinco mil cruzados, estou que me não convidava... que te parece?
— Diz-lhe hoje que aceitas, e amanhã vem receber os cinco mil cruzados.
— Ó Isaac, tu és o anjo da minha família! — clamou Darcet, abraçando-o pelos joelhos — Hoje mesmo a mana Leonor há de saber mais este rasgo da tua liberalidade! É assim, é assim que tu hás de chegar até ao âmago dos peitos mais de bronze, amigo, meu nobre amigo!
Desde aquela hora, Eliot, abalado pelas dúvidas de Darcet acerca da sucessão, consultou o mais famoso advogado da corte, João Miles de Macedo. Contrariado pela resposta, sondou se poderia vender uns trinta contos de ações chamadas de Boadita; mas ainda aí lhe tolheram os jurisconsultos o intento com a indispensabilidade da assinatura da consorte. Estas consultas começavam a rumorejar fora dos escritórios dos advogados. Perguntava-se se Antónia Xavier estava perigosamente enferma; e o desembargador Santa Marta Soares, ex-tutor dela, avisou-a por carta que não assinasse papel algum, sem o consultar a ele.
Malogrou-se o projeto de matar a esposa com veneno.
Invocou a sua segunda consciência na pessoa de Henrique Rutier. Este homem sentia-se disposto à regeneração da sua pessoa, porque começava a auferir boa ganância da sua mercadoria, criara relações, visitava-se com mercadores acreditados, pensava em se casar com uma cunhada do seu sócio Estêvão Gautier, enfim, tinha dez mil cruzados, e uma vez por outra dizia na Casa da Índia e na graderia da rua Nova dos Ferros aos seus colegas: «eu sou um negociante honrado».
Aventurava-se pois a dar bons conselhos ao amo, quando Isaac Eliot levantou a cabeça, franziu a testa, e perguntou:
— A quem vens tu cantar lérias, Henrique! Olha que eu só sirvo para amigo ou inimigo. Associei-te ao meu destino. A tábua em que eu naufragar há de ser o teu esquife. Quando eu subir ao galarim da felicidade, hás de estar ao meu lado! Escolhe: amigo até à morte, ou inimigo até ao inferno?
— Estou às suas ordens, Sr. doutor; mas cuidado para que não naufraguemos. O senhor quer matar sua mulher como adúltera; mas, atenda, se não provar o adultério, matando-a em flagrante delito, conte com a forca.
— Retira lá essa palavra forca. Os cavaleiros professos na Ordem de Cristo não podem ser enforcados.
— Bem sei, degolam-nos: a diferença não me parece a melhor das consolações... Mas como quer o Sr. doutor matar sua mulher por adultério, se não temos o adúltero? Olhe que eu por informações da sua criada Sacramento sei todos os passos da ama. A Maria Miguel, sua criada do quarto, diz tudo quanto sabe à outra. Sei que ela recebe cartas de Frei André Guilherme; mas ninguém se lembra de suspeitar que ela ame o frade.
— E porque não? — acudiu Eliot.
— Porque o frade, desde que vossa mercê casou, nunca mais viu D. Antónia. O Sr. doutor tem procedido de maneira que ela, se o quisesse obsequiar com um amante, não poderia arranjá-lo. Encarcerou-a em Camarate, cercou-a de espiões, tratou-a como se lhe tivesse um amor ferozmente cioso. Quem quer arranjar um adúltero para o apanhar com a mulher, expõe a mulher aos adúlteros, como se põe o visco aos pássaros. Para que a levou de Lisboa? Estava aí o prussiano tanto à mão para uma cena decisiva; e o senhor foge-lhe com o engodo, e corta-lhe todas as avenidas para além do mais, sua mulher, protegida das tentações do diabo pela cruz vermelha de Frei André, se não escorregou aos braços do Frisch, pode contar que já não escorrega de modo que vossa mercê a veja cair. Quer um conselho? tire-a da aldeia, finja-se mudado com ela, deixe-a aparecer na missa, nas ruas, nas festas das casas conhecidas, dê-lhe conhecimentos novos, deixe-a esvoaçar, e depois veremos o que faz a natureza. Esta é a minha opinião: agora ouvirei a sua.
— O meu plano era forjarem-se umas cartas — expendeu Eliot — cartas de amor, se entende.
— Escritas a quem?
— A alguém...
— Ao prior de Camarate talvez...
— Não gracejes, Henrique. Olha que eu tenho a alma abrasada pela paixão mais devastadora que ainda experimentei. Se eu não enviuvar, Leonor vai ser de outro homem. Dizias-me tu que a mercasse: dez mil cruzados já despendi: ainda ontem dei cinco mil a Tomás Darcet.
— Gastou-os mal. Eu, se me desse para aí, fazia-lhe isso com dez cruzados. Uma noite, quando Leonor estivesse ao em casa, atava-lhe uma mordaça, metia-a numa sege e levava-lha ao pinhal da Azambuja.
— Isso faz-se às mulheres que não se adoram, e eu adoro e respeito D. Leonor — encareceu o francês, dando ao rosto o enlevo amoroso de um madrigal.
Rutier arregaçou um sorriso de farsola, e Eliot abaixou os olhos com a gravidade de patrão que se quer respeitado.
Em todo caso, prevaleceu o alvitre do pajem, quanto a mudar Antónia Xavier de residência e de costumes, abrindo-se-lhe as avenidas às tentações. Voltou a esposa de Eliot para Lisboa. Concorreram famílias de franceses à rua do Outeiro a passar as noites com as sem-cerimónias usadas entre eles. Ao princípio, Antónia retraía-se estranha e acanhada em tal convivência; mas Eliot, vexando-a pela sua rudeza e ignorância da sociedade fina, dizia-lhe que apertasse as mãos aos franceses que lha ofereciam, e se desbastasse de umas grosserias de sabia que tornavam duvidosa a sua educação de senhora.
Volvido algum tempo, o médico, encontrando-se com Alberto Borges, cunhado de Frei André Guilherme, queixou-se que a sua mulher e irmãs não visitassem Antónia; e, a respeito do frade, acrescentou que o não convidava receoso de ser desfeiteado, visto que os santarrões de Lisboa consideravam a assembleia francesa uma bangalé de demónios; no entanto, rematou ele, a sua casa não se fechava ao mestre da sua esposa.
André Guilherme admoestou suas irmãs a não aceitarem o convite de Eliot em noites de sarau; mas que a visitassem de dia com a sua mãe e lhe oferecessem a sua casa. Trocaram-se as visitas. O frade nunca se encontrou com Antónia em casa do seu cunhado nem da sua mãe, nos primeiros meses.
Maria Miguel, industriada por Antónia do Sacramento, e de antemão galardoada com dádivas indiretas do amo, forcejou por captar a confiança da senhora. A amásia aposentada de Rutier operava sob a influência do pajem honorário. A conjuração dava-se pressa instigada por Eliot.
D. Antónia, que tinha o segredo de Frisch na suposta lealdade da criada, confiou-lhe as cartas escritas a Frei André, e enviadas com grandes intervalos. Perguntava-lhe Maria Miguel se aquele lindo jovem estrangeiro, que estivera com a senhora no escritório, já não estava em Lisboa. Antónia esquivava-se a encetar confidências neste melindroso ponto; mas o coração desejava-as, e afinal deixou-se ilaquear. A criada estudara as seduções da perfídia: era fácil embair uma mulher de dezasseis anos. Contou-lhe a sua história. O interesse da revelação elevara a confidente muito acima da sua baixa condição. Falava como se a escutasse uma experimentada amiga. São assim todas as senhoras que o erro e o desvio da linha reta do dever abaixaram ao nível das suas ignóbeis confidentes.
Incitou-a Maria Miguel a receber Josse Frisch, assegurando-lhe o nenhum risco da empresa. Encarregava-se de lhe entregar a carta. D. Antónia aceitou jovialmente o favor de lha levar; mas recusou-se a convidar Frisch a vir a sua casa, porque jurara, por alma do seu pai, a Frei André nunca mais repetir a temeridade de o receber. Maria Miguel, depois de várias reflexões tendentes a zombar do beatério do trino, mostrou-se suspeitosa de que o frade amasse a senhora, e imposturasse, no zelo da honra dela, uns biocos de religião com que mascarava o crime. D. Antónia indignou-se secretamente com a calúnia da criada; e, desde esta passagem, receou-a tanto que se arrependeu dolorosamente de lhe contar sua vida. Mas sendo o retrocesso impossível, e ardente o desejo de ter cartas de Josse, Antónia dissimulou o medo e confiou de Maria Miguel a entrega de duas, uma para Frei André, e outra para o estrangeiro.
Ambas as cartas, depois de cautelosamente abertas e lidas Por Eliot, chegaram ao seu destino. A substância do conteúdo na de Frisch eram expressões escritas temerosamente, e mais enigmáticas, de onde Josse depreendeu que Antónia se temia da interceção da carta. O remate era mais cordial e expansivo: Quando tornarei a ver-te, Josse? Talvez no céu, onde a presença do Senhor e a tua me hão de ser o prémio deste suplício.
Frisch não respondera, advertido pela sequidão de tal carta, depois do silêncio de dois meses. Receou traição, e um facto se dera que o justificava. Algumas vezes se encontrara face a face com Isaac Eliot. Repugnava-lhe fitá-lo; mas o ódio tem uns olhares provocativos a que maquinalmente obedecem os mais prudentes. A covardia é que finge não ver os inimigos. Portanto, o prussiano frechara de fito com a vista a cara do francês, e dizia a Frei André Guilherme que Eliot era um poltrão de tal espécie que, se a sorte o castigasse com outra casta de esposa, os amantes dela poderiam afoitamente conviver no mesmo domicílio.
— Acautele-se! — recomendava o frade.
Aconteceu passearem no Terreiro do Paço da Ribeira, Josse Frisch e Mr. Merveilleux, o naturalista Cesáreo. Concorreu Eliot na sua sege com Darcet. O amigo do médico foi cumprimentar o seu patrício, e Eliot quis ser-lhe apresentado.
— Não vês quem está com ele? — observou Darcet.
— Por isso mesmo...
Eliot foi apresentado ao naturalista; e, no mesmo lanço, Josse Frisch, apertando a mão do amigo, retirou-se. Entre franceses, havia matéria para desafio, no dizer do marido da Caldeirão. Isaac Eliot sorriu à reflexão briosa do seu patrício e disse:
— O desafio há de ser sem testemunhas.
E, no dia seguinte, Eliot, concorrendo ao mesmo passeio ao perpassar por Merveilleux e Josse Frisch, cortejou os dois, e voltando-se para o prussiano, disse com ênfase:
— Eu zelo tanto a minha honra de marido e o nome sem mácula da minha mulher que, abafando despeitos e melindres venho declarar ao Sr. Frisch que o não considero meu rival; e não quero que a sociedade de Lisboa o considere tal. É preciso que todo o mundo me veja falar com o Sr. Frisch, porque vai nisso a ressalva da minha dignidade. Ainda mais, estimarei que frequente a casa onde já esteve com o seu pai. Já não vive o sábio doutor Xavier que os recebia e entretinha; mas, se Mr. Merveilleux quiser honrar as salas de um seu patrício, já eu terei um douto hóspede que possa entreter o outro.
Frisch fez um leve meneio de cabeça; o naturalista agradeceu o convite, e Eliot recolheu-se à carruagem.
— É um excêntrico! — disse o francês — mas há não sei que de cavalheiresco neste passo!... Eu, no teu caso, Frisch, ter-lhe-ia apertado a mão...
— À francesa... — murmurou o alemão. — O que eu já uma vez apertei para lhe mostrar o meu afeto foi a coronha de uma pistola.
Frisch relatou estes sucessos a Frei André Guilherme.
— Acautele-se! — repetiu o trinitário.
E, respondendo à carta de Antónia, escrevera estas poucas linhas:
Vamos ao que muito importa. Eu ia hoje falar com a minha irmã para lhe entregar um bilhete, minha santa amiga. Previna-se, receie, acautele-se das liberdades que lhe dá esse homem abandonado de Deus. Acabo de saber que ele convidou Frisch para sua casa, alegando razões que nenhum homem de bem alega. Desconfio que ele forja a mais execranda das traições. Quer facilitar a ocasião de adultério para poder justificar a morte de um ou de ambos. António, minha, querida irmã olhe que está à beira de um abismo. No dia em que vir Frisch na sua casa, fuja para casa da minha mãe, que eu depois a defenderei, fazendo-a recolher a um mosteiro. Reze muito à Virgem Maria, que a proteja. Eu não cesso de pedir pela minha pobre António. Do seu irmão em Jesus Cristo, o padre Frei André Guilherme.
Eliot leu esta carta: e, na vertigem da raiva, fê-la em pedaços; mas, momentos depois, olhando para os fragmentos dizia:
— Que diabo fiz eu!... esta carta era-me necessária!...