A Caveira da Mártir
Capítulo XXI · A precatada mestra, para esquivar-se ao conflito,…
A precatada mestra, para esquivar-se ao conflito, incumbiu o sobrinho de procurar Francisco Xavier em casa do conde do Rio, e entregar-lhe a carta da freira.
André Guilherme deteve-se a examinar o sinete da carta, gravado fundamente em grossa camada de lacre. Eram as armas dos Perestrelos: escudo partido em pala; na primeira, o leão rompente; na segunda, a banda azul com estrelas, e à volta seis rosas. No timbre é que estava a novidade que fazia sorrir o estudante versado em heráldica. Em lugar do leão com uma estrela na espádua, consoante reza a carta de brasão passada a Filipe Perestrelo em 1437, o escudo compunha-se de dois corações debaixo de uma espécie de dossel formado pelas asas de um querubim. Esta graciosa alegoria deve de ter sido inventada por D. João V num rapto de amor capaz de inventar a pólvora.
A carta ia relacrada no centro e nas extremidades de um grande almaço. Estes resguardos arguiam mistério. André o mensageiro da ignorada missão, farejava o segredo com a subtileza de alma que se apurara nos pensamentos das estranhas ocorrências.
Entregou carta ao padre ao mesmo tempo que ele lhe perguntava:
— Já disse a sua tia que eu amanhã vou buscar minha sobrinha para a nossa nova residência?
— Ainda há pouco tive ocasião de lhe dar as ordens da vossa mercê.
— E que disse?
— Nada. Entregou-me esta carta.
— De quem?
— De soror Paula de Odivelas.
— E a minha sobrinha ouviu o aviso dado a sua tia?
— Não estava presente.
— Mas estava em casa...?
— Não, senhor. Estava em Odivelas.
Xavier carregou a sobrancelha, sacudiu automaticamente a perna artificial, deslacrou a carta, e, vendo-a de relance muito extensa, disse ao portador:
— Vá, que eu responderei.
Os primeiros e os últimos períodos continham o seguinte:
«Se é forçoso que a verdade brote de corações despedaçados, não se respeite alguma dor, não se afogue algum gemido, ainda que o mundo o ouça e insulte.
«Quem disse a Catarina Castro que ela tinha uma filha foi o Sr. Francisco Xavier; quem lha trouxe pela mão foi a divina Providência, quando o pai lha escondia debaixo da espedaçada túnica do mau frade que não podia refazer o mau homem.
«Selvagem até à ferocidade seria o pai que arrancasse dos braços de uma desgraçada mãe a criança que lhe custou a honra, o crédito, as lágrimas choradas num antro da Inquisição.
«Se há nesta terra tamanho bárbaro, não permita Deus que ele se chame Francisco Xavier, um principalmente que há nove anos levou desta casa uma virgem, que se chamava Catarina de Castro, uma doce e formosa menina que, volvidos dois anos, aqui entrou com o estigma de cristã-nova cuspido na cara, e o da desonra gravado na íntima consciência, — na vergonha abafada que só lhe permite erguer o rosto diante de Deus, que é misericordioso, e diante de mim, que sou pecadora.
«Ela ia pendendo à sepultura, com os olhos postos na esperança do eterno descanso. Para que lhe escreveu, Sr. Xavier? Deixasse-a acabar na ignorância de que tinha uma filha; não lhe viesse apertar o coração com as garras da saudade; dissesse-lhe que morresse anelando encontrar a sua filhinha entre os anjos do Senhor.
«E, se à sua alma traspassada de saudades e remorsos, Sr. Xavier, foi desafogo chorar diante desta pobre criatura, que rija têmpera é essa da sua má índole que se compraz no feroz deleite de matar na paixão de mãe aquela que já havia assassinado na paixão de amante? Se a fez mãe pela desonra, doa-se, envergonhe-se de querer que a própria filha seja o involuntário instrumento do segundo e mais acerbo suplicio.
***
«Se é vingança privá-la de ver sua filha, de que ofensa quer vingar-se o senhor? Que mal lhe fez Catarina? Acreditá-lo? Sair daqui cega pela paixão, e voltar para aqui iluminada pelas chamas infernais da experiência provada nas dores todas que podem caber em coração de mulher?... Eu não sei o que o Sr. Xavier deseja que ela faça para lhe merecer a esmola de ver sua filha!
***
«Quer que a religiosa dispa o hábito, e se confesse publicamente desonrada? Ela o fará com a condição de ser mãe. Eu lhe abriria as portas do convento, quando alguém lhe estorvasse a saída, e lhe daria três partes do que tenho para que a necessidade a não obrigasse a pedir ao abastado pai de Antónia os recursos de um viver descansado.
«E assim acontecerá, se o combate for preciso, Sr. Xavier. Quem luta sou eu, não é ela. Eu venci a morte que ma disputou; não hei de agora desampará-la, quando tenho do meu lado, contra menor inimigo, o poderoso auxílio da criança. Lutaremos. Se houver escândalo estrondoso, Deus perdoe a quem o provocar...
«Antónia quer ficar com a mãe, que ainda não conhece; mas, no momento em que uma ordem da corte ou de Alcobaça lhes decretar a separação, Catarina dirá a Antónia que é sua mãe, e depois ambas o dirão a todo o mundo; e o mesmo será apregoar bem alto o nome do seu pai. Medite, senhor. Logo adiante deste passo, veja quantas desgraças se encadeiam. Não se faz precisa dupla vista. A desonra está de lá e de cá. Ambos os contendores hão de cair sob o peso da condenação e do escárnio; mas verdadeiramente infame há de cair um só. Catarina terá por si a compaixão das que se perderam por amor e das que temem perder-se. O Sr. Xavier terá de vestir de novo o hábito do Varatojo para se reconciliar com Deus, e para se esconder ao riso afrontoso dos libertinos e às cóleras mais ou menos contrafeitas dos beatos.
***
«Nenhuma destas funestas previsões me assusta. Não. Antónia, com o consentimento do seu tio, fica em Odivelas na companhia da sua amiga e condiscípula Paula Perestrelo. Irá ver seu tio, quando ele assim o ordenar. Continuará aqui sua educação. O santo amor de mãe lhe irá formando a alma. As lições úteis à vida, mais úteis que a ciência da língua francesa, lhas dará a desgraça da sua mãe. Os olhos, que muito choraram, são os mais penetrantes: não se lhes esconde nada. Catarina verá desabrocharem no espírito da sua filha as flores que recendem, os aromas que aviventam, e os que matam. Creia que, se Catarina nascesse nas condições de Antónia, o Sr. Xavier não acharia aqui uma cega vítima.»
***
Quebrantou-o a justiça das acusações e o pungir das ironias. Apesar da forma acre dos queixumes e da arrogância com que a amante d’el-rei traçava o destino de Antónia, o padre Francisco Xavier denotava nas lágrimas o sentimento de não poder defender-se, e talvez o apertar das algemas que lhe frustravam a luta. De relance viu que o antagonismo com a poderosa Paula lhe sortiria a derrota com muitas vergonhas, e talvez com a perda da filha. Calculou que a freira, se pedisse a D. João V que lhe mandasse transferir para fora do reino Catarina e Antónia, o desejo seria logo executado, e a criança para todo o sempre alheada do seu amor.
Sucumbiu. Respondendo à carta de Paula, com discreta reserva, assentia ao desejo da sua senhoria, sem ressalva; suplicava, porém, que a condição de ele ver «sua sobrinha» lhe não fosse quebrantada.
A concessão foi recebida em Odivelas com as imagináveis exultações. No coração de Catarina renasceram sentimentos de dó e gratidão. Já lhe perpassava sem rancor pelo espírito alegre a imagem daquele homem que tanto amara. Via-o na florente juventude dos vinte e dois anos com a gentileza distinta realçada pelos dons da inteligência, raros nos cortesãos de Odivelas. Pediu à filha que pensasse no seu tio com amizade, e se afizesse à ideia de que ele a adorava, porque assim, com o decurso dos anos, o que não fizera o amor espontâneo o faria a gratidão refletida. Antónia teimava em só querer amar seu pai, e a mãe contristava-se quando a menina, desatenta de delicadezas e afetos, prometia voltar para a companhia do pai quando ele recolhesse da Índia.
— E deixas-me então, Antoninha? — perguntava Catarina doloridamente.
— Se o meu papá me mandar sair, que remédio há? Sou tão amiga dele, que não há um dia só que o não veja a chorar quando me deixou.
A mãe olhava tristemente para Paula, que lhe observava:
— Não to disse eu? A natureza entre país e filhos é a coisa mais artificial deste mundo... — e voltando-se à menina:
— Lembra-se da sua ama, Antoninha?
— Se lembro! quem me dera vê-la... Há seis meses que não voltou cá... Talvez morresse...
E agitaram-se-lhe os grandes olhos imóveis e pensativos.
— Está a chorar, coitadinha... — acudiu Catarina — Falemos noutra coisa...
— Quando ela assim chora pela ama, que faria se fosse pela mãe... — insistiu D. Paula — Que lhe dizia a ama a respeito da sua mãe? falava-lhe dela?
— Disse-me uma vez que estava no céu; e o meu papa também mo dizia.
— E o seu tio?
— O tio não me disse nada... só uma vez que a mestra lhe perguntou não sei quê da minha mãe, reparei que ele estava a querer chorar, e a beijar-me muito, muito...
— Queria ter mãe, Antoninha? — perguntou Catarina.
Antónia fez com os ombros um gesto pueril de indiferença. Era a verdade seca e natural. Só os filhos que viram a agonia dos seus pais e apalparam o vazio horrendo da orfandade, invejam a felicidade das crianças que têm mãe.
— E, se tivesse mãe carinhosa como esta senhora, não era tão feliz, menina? — replicou a Perestrelo, apontando Catarina.
Antoninha fez um sinal afirmativo, mas moderadamente entusiasta na hipótese de ser filha da freira, que parecia esperar a resposta como a revelação de um oráculo.
Entretanto, D. Catarina, embevecida nas suas alegrias, apenas ouvia os rumorejos da maledicência, que lhe soavam desde o interior do mosteiro. Lá, ninguém já duvidava que a Muleirinha era mãe da pequena. De Paula Perestrelo rosnava-se a medo; mas intrigava-se com o dom abade de Alcobaça, aquele tanto ou quanto filósofo, varão de bom aviso que se desviava, dizia ele, da torrente das viciosidades por medo de escorregar e ser levado no enxurro. Quando lhe deram a denúncia de que a freira Catarina de Castro chamara para si, com o patrocínio de soror Paula, uma filha, o prelado respondeu:
— Se está dado o exemplo, as outras freiras que chamem também as suas filhas.
Replicaram-lhe que o pai da recolhida era o ex-frade varatojano Francisco Xavier.
— Aconteceu essa desgraça a grandes santos — observou edificantemente D. Bernardo de Castelo Branco. — O grande bispo Santo Agostinho também teve uma filha; e na ordem dos seus crúzios são tantos os exemplos de fecundidade que o céu viria abaixo com o peso dos bem-aventurados, se os santos fossem tantos como os pais.