A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 14 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo XIII · Catarina, ponderando as razões que Xavier, mais…

 

Catarina, ponderando as razões que Xavier, mais ou menos sinceramente, lhe prescrevia para não responder à carta, achou-as judiciosas. Não respondeu. Em parte sacrificou a piedade ao dever; mas a explicação complexa do seu silêncio é outra. Não o amava. Lastimar e amar, no coração da mulher, implicam.

Isaac Eliot, falando do seu amigo, deplorava-o, porque era pena ver assim tolhido um homem tão no vigor da idade, porque não tinha uma perna, porque parecia ter cinquenta anos, e até pela prodigiosa arte com que simulava resignação. Isto comovia; mas estremava dois homens: o elegante e juvenil Francisco Xavier do amor, e o amputado e envelhecido Francisco Xavier do arrependimento. Ora, a freira não podia consubstanciá-los no mesmo homem — confundir compaixão com amor.

Apesar da enorme culpa de a levar do convento com promessas de não a expor à vingança dos inimigos — apesar das angústias do cárcere e das afrontas que a receberam no mosteiro, se Eliot, em vez de comiserá-la, a enfurecesse contra o doutor Xavier gentilíssimo, dissoluto, amado das mulheres conhecidas, hoje apaixonado, amanhã saciado, sempre no abismo do mal, mas com muitas vítimas voluntárias à competência de o distraírem na sua caverna e de caírem com ele pelo mesmo alçapão do inferno — se o médico lhe pintasse desta arte o pai da sua filha, não se me dava de apostar que a Muleirinha perdoava ao ingrato celerado, e amava o amante arrependido. Aleijões do pecado original.

A filha, sim. Desse amor ideal sentia a freira as ânsias, a vaga ternura, o instintivo arfar da maternidade.

E soror Paula prometera-lhe que veria a filha naquela sala, e sentada na cadeira em que ela estava.

No dia seguinte à primeira noite que D. João V visitou o palacete de Odivelas, um fidalgo do paço procurou D. Feliciana Pedegache, a hospedeira e mestra de Antoninha; e, reservando o nome do seu augusto amo, disse que uma pessoa da mais alta jerarquia desejava que uma senhora religiosa em Odivelas aprendesse a língua francesa, O mensageiro reconhecia o incómodo que daí provinha a D. Feliciana; mas contentava-se com duas visitas semanais à lecionada, para o que, nos dias e horas designados, estaria uma sege do paço às ordens da sua mercê. D. Feliciana percebeu logo quem era a aluna. Deu-se os parabéns do convite, agradeceu com transporte a honra da escolha; e, apenas o camarista saiu, agourou ao marido que lhe havia de pender do colo a fita do hábito de Cristo. Foi dia de júbilo na casa de Heliodoro Pedegache. Mandou-se recado às relações. Deu-se a nova. Serviram-se bolos, maçapões e carcavelos a granel.

— Vais ver soror Paula! — diziam-lhe as irmãs — Temos-te inveja! A casa dizem que é um paraíso celestial.

— Com uma grande serpente — acrescentou um rapaz de dezoito anos, sobrinho de D. Feliciana.

— Que é isso, André? — acudiu a tia.

— Disseram que vossa mercê — respondeu o jovem — vai ao paraíso celestial; e eu acrescentei que há nesse paraíso uma grande serpente, como já houve outra no paraíso terreal.

— Modera a língua, rapaz — interveio a mãe.

— Estes estudantinhos de hoje em dia são atrevidos e repúblicos — observou Heliodoro Pedegache, o esperançado cavaleiro de Cristo.

O estudante sorriu-se e continuou a regrar o papel que Antoninha lhe pedira para escrever o seu traslado. Era André Guilherme, três vezes por semana, o encarregado de dirigir OS trabalhos caligráficos de Antoninha, a pedido da sua tia.

A mãe, as tias e as irmãs, respeitavam no rapaz a austeridade precoce, a sisudeza desnatural na idade, as falas raras e sentenciosas. Saía da aula de filosofia para a de grego, e daí para o seu quarto a conversar os livros. A sua única e aprazível diversão era dialogar infantilmente com Antoninha, e vê-la adiantar-se maravilhosamente na escrita e leitura. André esperava os vinte anos para professar na ordem da Santíssima Trindade e redenção dos cativos, O seu propósito era sair do reino, depois, e exercitar o instituto da sua humaníssima ordem na moirama.

Antoninha chamava-lhe o seu mestre, era-lhe muito afeiçoada, e esperava-o infantilmente alvoroçada, nos dias da lição.

— Estou a ver — dizia D. Feliciana ao esposo — que, se a pequena se faz mulher enquanto ele se não faz frade... onde irão dar estas ternuras...

— Quando André Guilherme entrar no convento, ainda ela é criança — observava o sisudo marido.

Mas não descambemos da linha reta que nos leva a Odivelas no encalço da sege.

Feliciana tem desmaios de assombro quando atravessa as salas da fada; quer ajoelhar e beijar a mão de soror Paula, que a recebe de roupão de seda verde alamarado com presilhas de ouro e pedras. Maria da Luz e Catarina, trajando rigoroso hábito, ladeiam a sultana. Conversa-se, e toma-se chá pérola por taças da Índia com as armas do reino. Feliciana conta que foi em menina uma espécie de aiazinha da mãe dos senhores D. Miguel e D. José, filhos do Sr. D. Pedro II. Responde a todas as curiosidades da freira, que reclinada molemente na espádua de Catarina, quer saber as coisas secretas da Duverger. Nomeia depois a professora as fidalgas a quem ensinou a língua francesa, puro parisiense, como a falava mademoiselle Ana Armanda.

— E atualmente não tem discípula? — perguntou a Perestrelo.

— Não, minha senhora, porque me tenho esquivado. Não me chega o tempo. Apenas tenho uma aluna que é minha hóspede.

— Fidalga?

— Filha de um desembargador que foi para a Índia, o doutor Paulo Xavier, irmão daquele frade que perdeu uma perna na guerra com os turcos. V. Exa havia de ouvir contar...

— Ouvi, sim.

— Que pena me faz ver um rapaz tão novo assim aleijado! Ele vai todas as semanas de carruagem ver a sobrinha, ou vai a sobrinha vê-lo ao palácio do Sr. conde do Rio Grande, onde está de hóspede. Acho que é muito rico, porque rara semana deixa de levar à sobrinha alguma prenda rica, mesmo muito rica: gargantilhas, braceletes, afogadores, fraldelins de Granada, volantes, luvas e leques de França, enfim, coisas que de nada servem a uma menina que vai nos oito anos! E ela — ora vejam, minhas senhoras! — não gosta do tio tanto como isto! Chama-lhe o perna de pau; e, se pode desculpar-se com as lições, foge da sala.

— É esquisita a menina! — disse Paula.

Quanto a Catarina, essa, sem se estrear com um monossílabo, não despregava os olhos da loquacíssima professora.

— E é bonita? — perguntou Maria da Luz.

— Muitíssimo galante: parece-se mais com o tio que com o pai; porque o tal padre manco tem uma cara muito fina; e o meu marido, que o conheceu aqui há oito anos, diz que em Lisboa poucos homens passeavam tão airosos como ele. Pois a menina dá avultações do tio; que ela não quer que se lhe diga isso.

— Quem é a mãe dessa menina, sabe? — perguntou Paula.

— Isso agora, minha senhora, é segredo que eu não pude até hoje descobrir, nem, a falar verdade, me tem importado muito. Antoninha diz que a sua mãe morrera quando ela era pequenina; mas o que eu sei de fundamento é que o Sr. Desembargador nunca foi casado, por me dizer uma criatura lá das bandas de Coimbra que foi ama de leite da menina, e que todos os meses a vem ver a Lisboa. Até já me lembrou se ela seria propriamente a mãe; mas pelo trajar e pelos modos saloios não tem jeito disso. Se ela fosse a mãe de uma menina tão querida do pai, é natural que vivesse com outra estimação...

Soror Paula declinou o palavreado noutro rumo. Pintou-se-lhe tão fácil o êxito premeditado que deferiu para outro dia mostrar desejo de ver a educanda. Ao mesmo tempo, lembrava-lhe se Francisco Xavier, sabendo que a mestra de Antónia era sua preceptora de língua francesa, entraria em indagações de Catarina que beliscassem a curiosidade da Feliciana, sugerindo-lhe desconfianças. Por outro lado, ocorria-lhe que o padre não estorvaria que Antónia entrasse em Odivelas e fosse vista da sua mãe. Nisto cismava Paula enquanto a mestra lhe ensinava a pronunciar o abecedário francês e os ditongos, objeto da primeira lição.

Assim que a mestra saiu, Catarina lançou-se nos braços de Paula, e por entre beijos e lágrimas soluçava:

— Já sei que hei de ver minha filha! Tu és um anjo, minha querida amiga! Queres por força que eu viva, e não há desejo que me não satisfaças!... Que farei eu quando a vir, ó Paula! Como hei de eu conter-me que me não abrace nela?...

— Olha se tens juízo, doudinha! — admoestou a Perestrelo — Isto não é brincadeira... Lembra-te das inimigas que temos... Eu receio tanto que o segredo se descubra que nem ao rei disse ainda uma só palavra a tal respeito. Ele sabe os teus amores com Xavier — sabe tudo; menos o que é forçoso que ninguém desconfie. Vê lá como te portas, já que me obrigas a estudar francês, e a fazer-me por isso alvo da chacota destas estúpidas do convento, que hão de ser toda a vida bernardas...

— Se vires que eu me excedo, filha — disse Catarina acariciando-a — faz-me um sinal, sim?

— Que sinal, menina! De que servem sinais!... Tu é que deves fazer um estudo para não te excederes. Podes afagá-la e beijá-la, que tudo é natural entre uma religiosa e uma criança; podes até chamar-lhe «filha» que não será isso reparado; mas não de transportes e arrebatamentos, percebes?

A trigueirinha estudou a sua lição, e o rei ajudou-lhe a pronunciar os ditongos. A sua majestade sabia regularmente a língua francesa e espanhola. A italiana ensinou-lha, vinte anos depois, a atriz Petronilla, a quem deu presentes que carregaram trinta carruagens quando a cantora se fez na volta de Espanha, diz o Cavalheiro de Oliveira. D. António Caetano de Sousa, na História Genealógica da casa real, tom. VIII, pág. 4, diz que o rei sabia também latim com perfeita inteligência. De um sujeito que lia Horácio e Cícero, dizia Bocage: «Pena é que saiba latim, pois perdeu-se um parvo grande!» D. João V, ainda com o latim, não era parvo pequeno nem perdido.

Disse Paula a primeira lição com bastante ciência dos ditongos e tritongos, mormente os nasais, que a sua majestade lhe ensinou com a mais fanhosa graça. D. Feliciana benzia-se da esperteza linguística da sua discípula, e fingia não acreditar que ela desconhecesse inteiramente os ditongos e os tritongos, os nasais particularmente.

— A outra sua discípula já deve estar muito adiantada... — disse Paula.

— A Antoninha?

— Sim.

— Já começa a conversar em francês comigo.

— Já?! que linda coisa! falar francês aos oito anos!

— As crianças aprendem mais de ouvido que pelas regras — explicou a conspícua Feliciana — Eu segui sempre o método por onde aprendi. Quando abri uma arte de falar francês, já sabia conversar com mademoiselle Duverger. Ora, a minha hóspede tem tal memória que não lhe esquece palavra que eu lhe diga. Daqui a um ano há de poder-se ouvir falar francês.

— Daqui a um ano? E eu, daqui a um ano, poderei conversar em francês?

— Pois não, minha senhora! V senhoria, com mais duas ou três lições, começa a conjugar o verbo aimer. J'aime, eu amo, tu aimes, tu amas, il aime, ele ama.

— Isso é bonito! — atalhou a ridente moreninha, fazendo rir Catarina — Graças a Deus que riste, minha casmurra! — disse ela, tocando-lhe no rosto com as pontas dos dedos.

— Tenho notado — observou a mestra — que esta senhora é muito melancólica, e parece não ter a melhor saúde...

— Sou doente — respondeu Catarina.

— Ah! sim? pois pena é que tão novinha comece a padecer! Isto de viver na clausura não é para todas as compleições. Umas senhoras engordam e outras definham — se. Se fosse aos ares, minha senhora...

— Aos ares vou eu, se ma tiram do convento — calemburgou Paula.

— Bem se vê que são amiguinhas inseparáveis... — disse a mestra — mas, se Deus quiser, como está uma criança, ainda pode ter muita saúde, minha senhora. Às vezes fazem-se na gente umas revoluções interiores, e vão-se os achaques. Porque não consulta o médico francês que tem feito milagres, monsieur Eliot? A mim me curou ele de uma obstrução, ou o que quer que fosse, nos rins; andei por todos os doutores famosos, encharquei-me em tisanas e sempre a pior. Fui-me ter com o francês, por sinal que ele ficou espantado quando viu uma portuguesa a falar a sua língua; e sabem com que ele me curou, minhas senhoras? Vejam lá se podem adivinhar...

— Foi com leite de burra — disse Paula.

— Ora esta! quem o disse a V senhoria? — acudiu espantada D. Feliciana, enquanto a Muleirinha ria pela segunda vez.

— Não se admire, D. Feliciana — explicou Paula — eu conheço esse médico, e sei que ele cura todas as doenças com leite de burra. Aqui a minha amiga também anda no uso dele.

— Faz muito bem, minha senhora. Ainda ontem eu pedi ao Sr. padre Xavier, porque o vi muito amarelo, que tomasse os leites; e assim que entrar o verão vou dá-los à Antoninha...

— Ela é doente? — perguntou Catarina.

— É magrinha, tem poucas carnes, e come como um passarinho. Depois, estuda bastante; meu sobrinho André, que lhe ensina a escrita e a ortografia, puxa bastante por ela. Eu ralho; mas a menina zanga-se, se a tiram dos livros.

— Porque não dá uns passeios com ela? — perguntou D. Paula.

— Falta-me tempo, minha senhora. Sou eu só a governar a casa, e não tenho em quem descanse.

— Porque a não traz consigo quando aqui vem? — disse a freira — um bonito passeio de sege. A Antoninha assiste às minhas lições, é minha condiscípula, e talvez que eu, ouvindo-a conversar em francês, me vá desembaraçando. Faça isto, D. Feliciana, dê à criança o prazer destes ares do campo, e verá como ela aqui chega com apetite.

— Diz V. Senhoria muito bem — assentiu a mestra — mas é necessário uma licença para ela poder entrar.

— Não lhe dê isso preocupação. A licença lá a recebe na sua casa amanhã ou depois.

— Como ela vai ficar alegre!... Quando eu daqui fui, a menina quis saber como isto era, como as senhoras andavam vestidas, como eram as celas, enfim moeu-me a paciência com perguntas. E quantas vezes ela me tem dito que o seu maior prazer era voar da trapeira a umas árvores que se avistam lá para as bandas de S. Sebastião da Pedreira! Eu já pedi ao tio da menina que fosse dar uns passeios até Chelas com a sobrinha; mas ela, assim que eu falo nisto, perde logo a vontade de sair. Enfim, acho que nem para o céu queria ir com o tio perna de pau. Embirração assim não se acredita, minhas senhoras! Eu já perguntei ao meu sobrinho André Guilherme, que é muito sábio e estuda para frade Trino, como explicava ele esta antipatia da pequena. O meu sobrinho respondeu-me que nem o amor nem a aversão se explicavam; mas que lhe bacorejava que o tio havia de ter influência funesta na sobrinha. Enfim, minha senhora, Deus é que sabe... São horas e mais que horas de me retirar. Tenho abusado da bondade com que V. Senhoria me trata.

— Pelo contrário, eu é que sou a reconhecida. Lê lhe mando a licença — repetiu soror Paula — Dê o alegrão à minha condiscípula. Estou persuadida que o tio não a impedirá.

— Com toda a certeza. Ele já me disse que estimaria muito que as minhas ocupações me deixassem passear com a sobrinha. Ela cá vem, visto que V. Senhoria lhe faz a honra de a receber.

Renovaram-se os beijos e lágrimas jubilosas de Catarina.