A Caveira da Mártir
Capítulo VIII · A 25 de Junho fundeou a armada…
A 25 de Junho fundeou a armada no cabo dos Dardanelos; no dia 29 levou âncora e velejou para o cabo Matapão em demanda das naus venezianas. Estalou a nova no dia 2 de Julho que mareavam trinta e cinco navios turcos na enseada de Matapão. Tudo a postos. O conde do Rio viu entre os granadeiros do regimento de Peniche, que guarneciam a popa, uma estranha figura de gabinardo, cintado de talabarte de couro com pistolas de arção, espada francesa curta e clavina. Perguntou quem se vestira assim um tanto à mourisca. Responderam-lhe que era Fr. Francisco Xavier.
O almirante duvidou do bom senso do frade.
Mandou-o chamar, e disse-lhe:
— Com que então...
— Cá estamos, general.
— O hábito lã vai às ortigas, hein?
— Não, meu general; despi o hábito para o não profanar nem poluir com o sangue de Ismael.
— Bem. O seu lugar, dom paladim, é à beira do seu general.
— Enfileirei-me à popa, esperando lá o senhor conde, por saber que o maior perigo é ali.
Foi falso o rebate. As naus eram da república, que vinham fugindo destroçadas, com o seu general Flangini morto. Foi à fala um prático. O médico Eliot ofereceu-se como entendido no italiano. Volveu e contou que os venezianos em três combates tinham perdido seiscentos soldados. Viu o cadáver do general, e descobriu-lhe entre a clavícula e o queixo um punhado de pregos cravados como à marreta pelas carnes dentro. Disse Isaac Eliot que os turcos sevavam as suas peças com aqueles ferros velhos.
— Tudo é bom guardar — observou o almirante.
— No corpo da gente é mau — emendou o frade.
Chegou a hora da batalha. Eram corridos dezanove dias de Julho, um dia formoso, mar e céu anilados, a enseada de Passavia espelhando os galhardetes, quase calmaria, uma brisa que mal serpeava as flâmulas. As naus do império eram 54, e as condições propícias. Bafejou-as a viração, avizinharam-se de nós, e fecharam-nos na angra, encostando-nos a terra. Rompeu de lá a atroada da artilharia. Em frente da armada turca, e assoberbada pelas alterosas sultanas de Constantinopla, mantivera-se impertérrita a esquadra portuguesa. A de Veneza e as outras voltaram sobre terra, exceto a nau Fortuna Guerreira, da república, inseparável das nossas sete naus até ao remate da batalha. Ao fim do dia, a luta era desesperada. Cinco das nossas naus varejaram catorze sultanas, que vomitavam jorros de fogo. A mortandade era grande. A nau Pilar, com sessenta mortos, ia arribar a pedido do piloto ao conde de S. Vicente: «Se alguém me fala em arribar — bradou o general — varo-o com esta espada!» Não era menos seva a carnagem da nau-almiranta; mas aí a defesa era de homens aporfiados em morrer segundo a arte. A placidez do conde predominava assombrosa. Não deu um tiro enquanto lhe pareceram mal empregados os pelouros. Francisco Xavier esperava a abordagem com a serenidade de quem saúda a morte. As balas rasas fasquiavam os mastros, e as dos arcabuzes zuniam nas enxárcias. O conde, a espaços, dizia ao frade:
— Vá-se embora.
— Creio que irei — respondia Francisco Xavier, atento, fito e fascinado nos relâmpagos da artilharia, e atordoado com o estrugir da celeuma. Neste conflito, o frade caiu; e o conde correu para ele, exclamando:
— Xavier! que é isso?
— Que há de ser, conde? é a redenção...
Tomaram-no em braços; desceram-no à câmara de proa; Isaac Eliot despiu-o; tinha a perna direita separada por uma bala de artilharia, e a vida perdia-se nos golfos de sangue.
— Morre? perguntou o conde ao médico.
— Não, senhor; morre-lhe só uma perna, se eu lha amputar.
O frade contemplou a operação com indiferença, e disse, feitas as anatomias: «Corpo e alma! mutilados...» Os ajudantes do operador pasmavam dos instrumentos e da perícia na laqueação dos vasos sanguíneos. Ali se criaram e robusteceram os créditos do francês. Os feridos na nau-almirante bem-diziam a Providência que lho deparara. O conde do Rio abraçava-o com a veemência de um pai, porque dizia ele:
— Se me não salvasse este homem, doutor, eu choraria a morte do meu segundo filho...
A batalha prosseguiu, e acabou pelo modo como a refere o mencionado Manuel Pereira de Faria na sua Memória dirigida ao ministro da marinha: «...O conde do Rio Grande não deu um tiro, sem embargo de os ir recebendo enquanto se não prolongou com a capitania, aonde tremulava a bandeira real das luas otomanas; aí deu uma banda inteira à real sultana, com tanta fortuna que a meteu no fundo, e logo a duas sultanas mais; e, depois de seis horas de combate, tanto que a nossa pôde manobrar toda, a do turco levantou âncora, e se retirou ou fugiu para o Arquipélago. Desassombrado o mar Adriático, da armada inimiga, foram os nossos generais para Veneza, onde os respeitáveis senadores da república os vieram receber debaixo do pálio, deram-lhes banquetes e festejos, quiseram-lhes consertar a armada — o que os generais não consentiram. O papa mandou bater moeda, ou medalhas de dez moedas com a efígie d’el-rei, e, no verso, narrado o sucesso. Deu breves aos nossos em que os mandou para o céu, e aos turcos com o seu general francês, para o inferno. Recolheu-se a nossa armada ao Tejo com os portugueses cheios de honra e glória. Foram testemunhas desta ação dos portugueses duas embarcações maltesas e uma veneziana que imediatas seguiram a nossa armada».
Fr. Francisco Xavier e Isaac Eliot receberam hospedagem no palácio do conde do Rio. O mutilado movia-se com uma perna de pau aperfeiçoada pelo engenhoso médico. Não voltou ao convento. O papa concedeu-lhe a secularização com grandes elogios à sua religiosidade e ao já raro denodo com que se houve na heroica batalha, e também aos seus dotes literários por ter sido ele o tradutor da carta pontifícia, com que Clemente XI felicitou o conde do Rio, triunfador de Passavia.
El-rei quis ver o frade e o médico. Do amante de Catarina sabia ele os segredos que D. Paula lhe revelara, colhidos nas magoadas expansões da sua amiga. Conhecera-o seis anos antes galhardeando juventude, gentileza e pompas indicativas de mais fidalga origem. Condoeu-se da desfiguração. Alvejavam-lhe os cabelos antes dos trinta anos; tinha lágrimas na voz, abstraimentos íntimos de muito triste expressão no rosto. Disse-lhe que requeresse um canonicato, ou um lugar de desembargador nas relações eclesiásticas do reino. O bisneto de Domingos Leite Pereira pediu ao rei que lhe amerceasse o seu médico Isaac Eliot, não porque lhe dera a vida, mas pelo carinho filial com que o velara na sua cura.
Deteve-se o monarca ouvindo a narrativa graciosa de coisas ignoradas de Constantinopla, e mormente dos haréns. Perguntava-lhe sua majestade com certo calor e vivacidade de pupila, se as georginas eram muito boas mulheres; que tais eram as da Circássia; quantas sultanas conversava o imperador, e quantas odaliscas; quais alimentos usava ele quotidianamente; se os climas influíam nos temperamentos; se a essência do âmbar tinha realmente as virtudes que lhe atribuíam os médicos antigos, etc. 23 O francês esmiudava as respostas a sabor da sua majestade, condimentando-as de especiaria dos climas cálidos. Descrevia a mulher da Geórgia, do Cáucaso, as variedades todas do harém com imaginação sensual. Quanto ao âmbar, que devia ser cinzento, não duvidava das suas virtudes; mas tinha ele inventado umas superiores pastilhas de almíscar para uso de três paxás de duas caudas, seus amigos muito particulares. Recomendava humildemente a sua majestade a inconveniência dos chamados filtros amorosos, lembrando a morte do poeta Lucrécio, devida a uma dessas beberagens subministrada pela sua amada Lucília, etc., etc.
El-rei gostou infinitamente de Isaac Eliot, e pediu-lhe as tais pastilhas de almíscar, com as quais se deu bem.