A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 40 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo XLVIII · Ao cabo de cinco dias, no primeiro…

 

 

Ao cabo de cinco dias, no primeiro de Dezembro, ainda os criminosos estavam na igreja, protegidos pelas águias francesas.

Eliot havia enviado dezenas de cartas, relatando a fidalgos, eclesiásticos de alta jerarquia e a desembargadores o adultério da sua mulher, colhida em flagrante com o frade trino. Às pessoas mais valiosas enviava cartas de Antónia e de Fr. André, e pedia que lhas devolvessem para provas da sua defesa. Vozes autorizadas divulgaram que Eliot desafrontara a sua honra. O ministro de França pedia às justiças portuguesas carta de seguro para os dois asilados se defenderem nos tribunais.

Quando o reviramento quase geral da opinião pública chegou aos ouvidos de Rafael Bluteau contado por Frisch em dilacerante angústia, o ancião pediu ao jovem as cartas que tinha de Fr. André Guilherme e as de Antónia. Saiu do leito, onde quase entrevecera, e, levado por uma sege de mão, foi falar a D. João V, e disse:

— O nonagenário padre Bluteau, antes de sair desta vida, vem dar pregão da inocência de dois assassinados perante vossa majestade. Antónia Xavier e o padre André Guilherme morreram inocentes. Os matadores estão a ponto de ser libertados para se defenderem. Que se defendam, real senhor, mas que o façam desde a masmorra dos grandes facinorosos! Que se defendam; mas que não o ousem diante d’el-rei, meu senhor, depois que a vossa majestade se dignar ver estas cartas!

— Cartas... de quem, padre Rafael? — perguntou el-rei.

— Do virtuoso frade que defendia a desgraçada menina de uma paixão... santa, quanto elas o são na inocência dos catorze anos.

D. João V leu parte das cartas de Fr. André, e disse com alegre rosto:

— Veio levantar-me de sobre a alma um peso imenso, padre Rafael! Eu chorava a religião afrontada por um frade adúltero, a quem pouco há abracei pelos apostólicos serviços que nos fez na redenção dos cativos de Argel. Vá muito confiado em mim, padre. A inocência dos infelizes será proclamada e vingada.

Nesta mesma hora el-rei mandou perguntar ao ministro de França com que direito asilava dois criminosos de tal vulto. O ministro respondeu com as imunidades da igreja francesa e com a justiça do marido desafrontado.

O corregedor, segundo as ordens recebidas, não se deteve a refutar as razões do ministro. Endireitou com alguns soldados e esbirros para a igreja de S. Luís, e mandou arrombar as portas.

Apenas o machado rompeu brecha, a multidão viu coarem dois negros para dentro da igreja; e, ao abrirem-se de par em par as portas por ordem do próprio ministro francês, saiu Eliot amarrado por enleias com os braços para as costas, e cada um dos negros tinha mão da corda por uma das pontas.

O povo urrou aplausos aos dois escravos. O corregedor quis tirar-lhes o preso para dar mais seriedade ao acto; mas a arraia-miúda não consentiu. Quanto a Rutier, esse, com os braços livres, foi levado na onda do povo de encontro aos soldados.

O leitor logo verá como os poetas coevos contaram os pormenores da prisão de Eliot.

Entraram no Limoeiro de tropel. A espaços, algumas mulheres de Alfama davam-lhes saltos de hienas com as unhas aduncadas em garras. Os negros jogavam com o médico, repuxando-o pelas cordas a fim de o defenderem das arremetidas do povo, mantendo-o em equilíbrio. Os escravos de Antónia tinham compreendido e prelibado o espetáculo do carrasco: do contrário, matá-lo-iam com louvor da multidão.

Ao mesmo tempo, entravam no Limoeiro as três criadas de Eliot. Antónia e Maria iam gritando no meio dos quadrilheiros. Simoa dos Santos, chorando, mas sem exaspero, apenas dizia ao meirinho:

— Eu estou inocente... A alma da minha ama bem o sabe... Ela me defenderá.

O primeiro alvitre da justiça, estimulada pelo monarca, respeitador integérrimo do Santo Padre, foi pedir a Clemente XII, a requerimento do Fiscal das Ordens, que permitisse à Mesa da Consciência e Ordens relaxar o réu à justiça secular, sujeitando-o ao julgamento de uma só instância, e não à de três, como era de uso com os cavaleiros professos. O Pontífice, quatro meses depois assinava o Breve impetrado: e el-rei decretava que a devassa baixasse ao corregedor do crime e casa.

A Mesa da Consciência e Ordens fez os autos sumários ao réu, mandando que respondesse de facto e direito dentro de cinco dias.

O advogado de Eliot escreveu uns miseráveis embargos contra a nulidade do Breve. A Mesa da Consciência, mandando despir o hábito ao cavaleiro professo, relaxou-o à cúria secular.

Abstenho-me de repetir minudências que constam das peças transcritas do processo.

O escrivão dos cavaleiros notificou a sentença ao réu. Embargou-a Isaac Eliot; e, tendo já confessado na tortura a inocência, da esposa, recrudesceu na infamação de uns Memoriais escritos do seu próprio punho e enviados aos deputados da Mesa.

Voltou com segundos e terceiros embargos, sempre desprezados.

O advogado negou-se a escrever no processo, e disse-lhe:

— Recorra ao rei, e depois a Deus.

Escreveu a D. João V uma petição lardeada de figuras retóricas e cláusulas latinas, com um estilo retorcido em antíteses, e velhos artifícios de péssimo género desta ordem de súplicas. Não há aí relevo de frase comovente, nem vislumbre de remorso que fira a corda da compaixão! A carta, copiada do traslado do processo dizia assim:

 

Senhor! Implorando a soberana proteção e Augusta Clemência de V. Real Majestade, prostrado aos seus reais pés, se representa Isaac Eliot, cavaleiro professo da Ordem de Cristo, preso no cárcere do Limoeiro desta corte, pelos enormes, calúnias e sacrílegos crimes que cometeu, por impulso do seu iníquo e mal intencionado ânimo, executando na maior inocência os efeitos da sua cruel tirania, confessa a gravidade do seu delito, e reconhece a exímia e magnífica benevolência de V. M com que, sem deslustre da sua justiça, tem por débito a comiseração dos seus vassalos, principalmente para aqueles que, para remédio da sua própria vida, recorrem ao real patrocínio e augustíssima piedade de V. M.

Graves são, invictíssimo e poderosíssimo Senhor, os delitos porque em este tenebroso cárcere me acho preso, e a sua própria graveza é o motivo porque imploro a vossa augustíssima piedade; pois o régio perdão da Majestade não se emprega nos beneméritos, senão nos indignos. E assim V. M deve ostentar sua real demência com os facinorosos mais execrandos; pois do perdão dos seus mais abomináveis delitos resulta o maior lustre da Majestade, pois esta tanto mais brilha quanto mais benigna com aqueles a favor de quem se ostenta, e quanto maiores são os crimes tanto mais cresce o motivo da comiseração, e quanto mais um homem se faz indigno com o labéu da sua culpa tanto mais o Soberano Monarca o avalia por mais capaz do emprego da sua piedade.

Pediu David a Deus que lhe perdoasse uma grave culpa, que tinha cometido contra a sua divina bondade, e fez-lhe a sua petição nesta forma: propter nomen tuum, Domine propitiaberis peccato meo, multum est enim. «Senhor! — diz David — heis perdoar-me o pecado que cometi contra vós, porque é pecado enorme!» Pois esta é a razão que David alega, esta a causa que aponta? Aponta e alega David a enormidade da culpa para alcançar a absolvição? Não é evidente que as pecados quanto são mais enormes tanto se fazem mais indignos? Pois porque se empenha David em lhe encarecer as indignidades quando trata de lhe pedir misericórdias? A razão não é outra mais que querer David experimentar a Deus muito misericordioso (propitiaberis peccato meo) porque sabia que tinha Deus por brasão da sua majestade olhar muito para o encarecimento da indignidade da culpa, mostrando-se-lhe muito indigno (multum est enim). Quer Deus ter neste mundo um grande nome (propter nomen tuum, Domine); e o logro dos nomes grandes não se granjeia com o perdão de delitos pequenos, que quanto maior é o delito de quem peca quanto maior é o nome de quem perdoa: por isso David não fez mais que encarecer a Deus a graveza do seu pecado para do mesmo Deus segurar o perdão e encarecer-lhe a grande dignidade que tinha para conseguir a grande misericórdia que esperava.

Da mesma maneira, Sereníssimo Senhor, suplico e imploro a vossa real piedade pelo mesmo método com que o real profeta soube facilitar de Deus as misericórdias, e assim lhe sirva a V. M de exemplo o mesmo Deus para me perdoar.

Alegou David a Deus que era enorme a sua culpa multum est enim, para assim ter melhor despacho a sua súplica, e assim eu, invictíssima Senhor, confesso e reconheço a gravidade do meu delito, porque da sua própria graveza tiro eu o motivo de o perdão da Vossa real piedade; e, coma Deus pôs os Príncipes na terra para imagem do seu poder, e para sombras da sua soberania, parece e mostra dever ser a majestade uma na imitação da divina, e como esta para no mundo ter grande nome, como suplica David: Propter nomen tuum, Domine! deve granjear com o perdão dos delitos graves a majestade humana, e não deve engrandecer seu nome com os pequenos.

Nasceu Cristo Rei, e no seu nascimento se lhe chamou SOL: orietur vobis sol: e por nenhuma outra razão senão porque vinha para perdoar e remir o género humano da gravíssima culpa em que tinha incorrido nosso primeiro pai. Intitulou-se sol, porque nele tudo havia, de ser piedades: tudo nele havia de ser clemências, e tudo nele havia, de ser misericórdias: porque um rei com todas estas propriedades é um resplandecente sol: orietur vobis sol.

Sol racional é Vossa Real Majestade; e assim, debaixo da sua real proteção, se devem amparar as vidas dos seus vassalos; para crédito dos seus luzimentos é que costumam acumular-se esplendores dos raios da sua real piedade. Grande é, Senhor, o delito que cometi, e tão grande que parecerá irracional a minha súplica a quem lhe faltar o conhecimento da real demência de V. Majestade, pois toda a culpa, ainda que grave, está na esfera do seu real poder, e tanto maior quanto mais digno se faz do perdão de um tal soberano monarca: pois é todo o delito pequeno a respeito de uma tão grande majestade.

Esta é, invictíssimo Senhor, augusto Rei e soberano Monarca, a súplica com que humildemente me ofereço aos pés de V. M. Não alego para a minha defesa mais que a mesma gravidade do meu delito para assim ter mais lugar a Vossa real piedade, e a generoso ânimo com que se ostenta vossa augustíssima demência! A minha vida está nas contingências do seu último fim, e só na vossa proteção poderá encontrar o melhor remédio, pois o perdoar delitos graves é a maior glória, assim humana como divina. Esta guarde a V. M por dilatados anos porque a nação portuguesa se jactancie em ter um Soberano Monarca, e na sua coroa cada vez mais se acumulem maiores aumentos e felicidades.

Isaac Eliot