A Caveira da Mártir
Capítulo VII · Fr. Francisco Xavier dissera ao conde do…
Fr. Francisco Xavier dissera ao conde do Rio Grande que andava negociando uma longa viagem ao oriente, não por instigações de devoto peregrino, mas para se espertinar da letargia moral que lhe desbotava o cérebro. De feito, o engenho do frade brilhara em tempo nas conclusões da ordem, e esmorecera na apatia estéril das inteligências que uma secreta dor enoitece.
— Não irá aos lugares santos, doutor; mas irá comigo aos Dardanelos lutar com a armada do turco — disse o conde.
E referiu os pormenores da intentada guerra ao turco.
Era o ano de 1717. Deter-nos-emos algumas páginas para retificar erros de história. É singular que um romance invista as alheias searas, campando de elucidário em pontos competentes a livros graves. É coisa nova; mas não é má.
Ameaçou o turco a república de Veneza em 1716; e, no ano seguinte, fez-se ao mar com uma grossa armada sob o comando do general francês d'Anglerie. Clemente XI, também ameaçado, pediu socorro à França, Espanha e Portugal. A França desculpou-se com o inimigo inglês. A Espanha mandou sete naus, quatro fragatas, com três galeras de Nápoles; mas o general, como ouvisse dizer em Génova que os turcos meteram a pique a armada veneziana, lançou ferro, e, transido de medo, ali ficou. D. João V queria servir o papa, mas com o dinheiro do estado; não havia, porém, no erário dinheiro nem vasos de guerra no Tejo. Não se deteve a ponderar conselhos nem oportunidades. O expediente do absolutismo. Chamou o seu valido e guarda-roupa Pedro António Virgolino, e mandou-o à Junta da Companhia do Comércio que lhe aprontasse uma armada. O presidente da Junta, D. Francisco de Sousa (Calhariz) foi dizer ao rei que a Junta prometia desempenhá-lo. Oito dias depois tornou o marquês de Abrantes com recado novo apressurando a armada. Dizia el-rei que depois pagaria tudo. Não pagou nada; e a história gaba-o da galhardia da façanha em pró da cristandade.
A Junta armou duas grandes naus que tinha no Tejo, uma de 120, outra de 184 peças; comprou duas aos holandeses, outra aos ingleses, e aparelhou duas fragatas. Fardou o seu regimento, e proveu-o de segundo fardamento. Municiou as naus, e deu seiscentos mil cruzados em dinheiro, trezentos mil para mesa, e os outros para eventualidades em que Portugal se devesse estadear com brilho em terras estranhas.
D. João V prometera-lhe, como remuneração, embolsá-la de seiscentos mil cruzados, que os castelhanos tomaram em Cacheu, visto que Filipe IV, no tratado de 1713, se obrigara a pagar. E pagou; mas o rei ficou com o dinheiro. E, quando fazia Mafra, tirou-lhe um milhão e duzentos mil cruzados; e, em 1720, quando a Companhia apenas tinha em caixa duzentos e setenta e quatro mil cruzados, o rei, respondendo a uma representação da Companhia, que deplorava sua decadência, mandou buscar os duzentos e setenta e quatro mil cruzados. Ladroeira real!
Extinguiu-se a Companhia. Caíram na indigência muitas famílias. As pragas não empeciam ao rei. Lá estavam os papas entre a justiça divina e a humana. O pão de milhares de famílias tinha ido para Roma envolto nos cento e oitenta milhões de cruzados que custou a Portugal a certeza de termos aquele Bragança no céu.
Mas o que nós tentamos retificar é que a armada que venceu o turco em Matapão, não é obra do rei, nem zelo cristão da pátria: foi um roubo violento, e a aniquilação de um grupo de comerciantes que desde 1649 até 1651 dera 36 embarcações de guerra a D. João IV; que em 1658 deu a D. Afonso VI as duas maiores naus da Europa; e em 1717, já nas vascas da morte, resgatava a palavra do rei fanático renovando na enseada de Passavia as proezas do velho Portugal.
Mas já naquele tempo estas roncarias extemporâneas davam que rir à crítica. O poeta portuense, Tomás. Pinto Brandão, assistiu em S. José de Ribamar à saída da armada, e improvisou esta oitava:
Saiu em fim a armada pelos ares
Com seus cabos vestidos pelos «eres»
Das estocadas que há de haver nos mares
Se hão de borrar as naus e os escaleres;
Esta se aparelhou sem os vagares
Que costuma haver noutros misteres;
E seguindo o roteiro porque eu surco,
«Papa» leva, acha «papa» e «papa» o turco.
O primeiro general da armada era o conde do Rio Grande, e o segundo Manuel Carlos de Távora, conde de S. Vicente. O doutor Fr. Francisco Xavier embarcou na nau Nossa Senhora da Conceição, e ocupou a câmara contígua à do conde-almirante. Os historiadores coevos, inéditos e impressos, por louvável espírito de patriotismo, expungiram das suas «relações» um desar que denegriu bastantemente a ufania da empresa. Um homem, porém, coevo dos sucessos, o comerciante e literato Manuel Pereira de Faria, numa Memória, que escreveu e entregou ao marquês de Pombal, que o estimava encarecidamente, refere o seguinte: «Partiu (a armada) do Tejo numa segunda-feira do ano de 1717, navegando até Génova; e, encontrando aí a de Castela, fez o general castelhano tal pintura da armada dos turcos e da desfeita dos venezianos, e de que não tinham partido algum ainda ambas juntas, que a nossa voltou para Lisboa, sem tentar nem obrar coisa alguma. Logo que el-rei soube da sua chegada à barra, e como vinha aconselhado pelo general de Castela, mandou que tornasse a sair imediatamente, e fosse sem demora acometer e bater-se com a do turco, procurando-a até os Dardanelos, onde queria que se ouvissem os tiros da sua artilharia, sem mais lhe importar a armada castelhana. A sua majestade assim o mandou absolutamente, e por saber que era esta também a opinião e vontade dos nossos generais».
Esta proeminência na espalmada fisionomia de D. João V era digna de caracterizar algum dos reis da dinastia de Aviz. Estranha-se o arrojo em príncipe de Bragança; e não é menos de estranhar que o visconde de Santarém, tecendo a apologia daquele rei com bagatelas anedóticas, pospusesse, talvez por ignorância, o seu facto único de audácia e de bravura, embora os imolados fossem os vassalos, e os impulsos da empresa ineptos.
Abalou pois de novo a esquadra num domingo, 25 de Abril, e fundeou na enseada de S. José de Ribamar. No dia 28 largou velas e cortou no horizonte uma floresta branca ondulada de flâmulas e paveses, simulacro dos anos juvenis do Portugal navegador.
Não podemos de espaço seguir a rota da armada. Seria curiosa em outra laia de livro. Se o leitor é caroável destas velhas coisas, veja A batalha naval de Matapão particularizada no Sumário de vária história de um colecionador inteligentíssimo.
O doutor Fr. Francisco Xavier, quando o conde lhe perguntava se ia melhor de espírito, respondia com o verso de Horácio:
Coelum non animam mutant qui trans mare currunt.
O almirante, embevecido na eterna majestade do oceano, chamava o frade ao contemplar alto dos místicos e dos poetas. E o frade, com os olhos marejados, fitava o horizonte roxo do poente, onde se lhe figuravam miragens, grupos, e os vagos contornos de Catarina e da filha.
— Em que pensa, Xavier? — intervinha o conde.
— Na felicidade da morte...
— Pois então, amigo, olhe que está, onde essas felicidades se arranjam do pé para a mão.
— Oxalá...
— As balas, às vezes, chegam aos beliches...
— Não é lá que me hão de matar, Sr. Conde.
— Então, cá no tombadilho?
— Ao lado de V. Exa, Sr. Almirante.
— Aqui a bordo há disciplina severa. Quando eu mandar descer os que não professam armas, Fr. Francisco...
— Irá rezar litanias na câmara? Meu general, eu sou como os frades batalhadores dos tempos heroicos de D. João I e D. Afonso V. Se o hábito me tolher os movimentos, despi-lo-ei. Como mortalha, dispenso-o. Antes quero que me vistam das espumas das ondas.
O diálogo foi cortado por um reboliço. Um capitão do regimento da Junta corria sobre o cirurgião da nau com uma faca. O general mandou passar o capitão para outra nau.
— Se nos matam os poucos cirurgiões que levamos — disse o conde — não teremos quem nos ampute os braços e as pernas em ocasião oportuna.
— Levamos um famoso médico, o doutor Pelicão — observou Fr. Francisco.
— É verdade; mas foi necessário mandá-lo buscar preso a Cascais. Assim mesmo evadiu-se, e apresentou-se-me com receio das severas penas de guerra. Bem vê com que bom rosto o afago para que não fuja, nem nos mate com alguma tisana.
No dia 10 de Junho deu fundo a galera em frente da praça de Corfu. Era o porto confluente das galés de Veneza, de Florença, do papa e de Malta com o generalíssimo Bel-Fontaine, balio, nomeado pelo pontífice.
Neste porto ancoravam navios de franceses.
Fr. Francisco Xavier, que lhes sabia a língua primorosamente, entrelinha-se palestrando com franceses. Entre estes preferia a noticiosa eloquência de um médico, que lhe contava minudências de Constantinopla, onde nascera, posto que o seu pai fosse francês, da Picardia. Chamava-se o médico Isaac Eliot. Devia ter vinte e dois anos. No conceito dos patrícios, era portentosamente hábil na sua profissão.
O capitão do navio mercante segredou ao frade que Isaac Eliot era filho de um calvinista francês, que, fugindo à perseguição, passara ao império otomano, onde exercitara as armas e atingira a patente de Spahilar Agassi e morrera em batalha, deixando aquele menino, filho de uma turca, sem património; que o hyaia (lugar-tenente do Grão-Vizir) o doutorara em medicina à sua custa, e lhe permitira visitar a Europa a fim de estudar o adiantamento das ciências médicas nas principais escolas, encargo que recomendava o superior talento do jovem médico.
Relatou estas coisas Fr. Francisco Xavier ao conde do Rio Grande.
— Quem nos dera assim um médico nesta conjuntura! — disse o general. — E quanto estimaria el-rei se conseguíssemos apresentar-lhe no paço um médico de tanta consideração!
— Sobretudo — conveio o frade — ser-nos-ia muito útil para as amputações das nossas pernas, se os turcos não preferirem amputar-nos pelos pescoços...
— Folgo de o ver assim faceto, Xavier! — volveu o Rio-Grande — mas, chegada a hora, recomendo-lhe que não se imole à perícia dos cirurgiões. Ora diga-me a respeito do tal filho do huguenote, não poderíamos seduzi-lo com bom estipêndio e melhores promessas a aceitar partido na armada portuguesa? Se ele viaja, decerto lhe não desconvém ir a Portugal...
— Estudar o adiantamento da medicina lusitana? — atalhou ironicamente o frade.
— Não direi tanto; mas poderá ir ensiná-la e enriquecer-se em curto espaço, como aconteceu ao seu logreiro patrício que vende a água do francês.
— Então, o Sr. Conde quer que o pobre rapaz, filho de huguenote e turca, vá purgar na fogueira os delitos do pai e da mãe? Não serei eu que o induza.
— Valha-o Deus, doutor! — replicou o almirante sorrindo. — A maioria dos médicos portugueses é da raça proscrita: são mais ou menos seus primos. Quem os persegue? Todos os charlatães e curandeiros, que vão de França, são huguenotes. Quem os incomoda? Apenas eles têm o incómodo de se fazerem católicos, se querem ofício ou mulher; mas, feito o seu negócio em Portugal, vão-se nas boas horas, e tomam a incomodar-se ligeiramente descatolizando-se. Por esse lado, pode convidar o médico francês a servir nesta armada, que eu lhe dou caução de não correr perigo em Lisboa. Como aí está o coronel fiscal da esquadra, Pedro de Sousa Castelo Branco, que também fala francês, avenham-se entre si, e conquistem o rapaz, que el-rei lho agradecerá.
Não foi fácil a conquista; mas lograram os dois comissários do almirante ajustar com Isaac Eliot o partido do médico da nau-almiranta por avultado estipêndio, e promessa de ser recomendado à magnanimidade do Sr. D. João V, logo que a armada recolhesse a Lisboa.
Começou desde logo Eliot a estudar a Língua portuguesa com Fr. Francisco, e a poleá-la em conversa com todos como um tradutor de novelas. Contava aos generais, ao frade e a Pedro de Sousa Castelo Branco picarescos pormenores das odaliscas, dos eunucos ou ytzoglans, descrevia-lhes os tesouros do serralho, os aposentos privativos do grão-senhor, a câmara das sultanas, as lubricidades requintadas e outras miudezas que espantariam os ouvintes, se eles não fossem vassalos de D. João V e não conhecessem mais ou menos de outiva o harém bastantemente turco de Odivelas.