A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 19 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo XX · Francisco Xavier, aplaudido por Eliot no desígnio…

 

Francisco Xavier, aplaudido por Eliot no desígnio de assentar a sua residência em casa própria e continuar aí a educação da sobrinha, foi ocupar um dos seus prédios na rua do Outeiro, freguesia dos Mártires. De antemão, se proveu de mestre idóneo para Antónia, convidando com elevado estipêndio e por intervenção do médico, um clérigo francês, chamado De Preville, que se anunciara professor de línguas e filosofia.

Estas miudezas prendem com a veracidade de um processo que ao diante enlutará as páginas desta narrativa..

Agravavam-se de dia para dia os ciúmes e medo do padre. Catarina cativava-lhe a filha no mosteiro com pretextos de festas e com o engodo das carícias. Antónia ia tão agitada e alegre para o asiático palacete de madre Paula, que já se enfadava se a mestra lhe antepunha a vontade repugnante do tio.

No mosteiro, como era de esperar, lavrava a intriga por amor da menina; e, ao divulgar-se que ela era filha de Paulo Xavier, irmão do galã de Catarina, a maledicência gozou o triunfo raro de ser verídica, computando os tempos, calculando a idade da pequena pela saída da Muleirinha, destrinçando feições, e tirando a limpo, enfim, que Antónia devia ser filha de Catarina. Não era caso para grandes assombros, nem a fecundidade de mim monja cisterciense era fenómeno. Muitas freiras andavam apontadas como filhas de outras; e lá estava a organista D. Teresa de Milão que passava por ser produto uterino da celebrada soror Feliciana de Milão e de Afonso VI: calúnia desmentida pelo testemunho da própria rainha, e de outras senhoras ilesas, no processo que julgou Maria Francisca d'Aumale, digna de outra casta de marido. Não foi isso, porém, impedimento às intriguistas energúmenas do ódio velho, acaudilhadas pela Pimentinha.

Mas a honra do convento abafava os rumores adentro da clausura, e também o medo a Paula Perestrelo despontava os farpões da língua mordaz de D. Francisca Melo. A amante d’el-rei ungiu os pulsos para o pugilato, logo que as impaciências maternais de Catarina abriram brecha às suspeitas. Baldada a prudência, recorria às retaliações.

Segundo se desprendia da sua Lista do auto-de-fé para 1724 — à feição da amostra que o leitor viu — não havia em Odivelas freira honrada menor dos cinquenta e cinco anos. Injustiça e exageração, talvez.

Entretanto, Antónia e a sua mestra continuavam semanalmente duas vezes a sua visita ao paçozinho monástico a uma dessas visitas concorreu o médico Eliot, especialista em histerismos e muito feliz nos de D. Paula. Como visse Antónia com soror Catarina na câmara da histérica, maravilhou-se das purpurinas cores da menina e da vivacidade sadia da freira. Conversou em francês com Antónia, fez-se entender de Paula, felicitando-a pela sua rara compreensão, e contou que o tio da menina andava alfaiando ricamente a sua casa da rua do Outeiro, para onde tencionava ir morar com a sobrinha.

Esfriou e alvejou como mármore o rosto de Catarina. Paula, inquieta, e receosa, forcejava por desviar da sua amiga a atenção do médico.

— Quer ir ao jardim, Antoninha? — disse a Perestrelo — Vai tu com ela, Catarina, que eu vou expender os meus flatos ao doutor.

Saíram. Poucos passos andados, Catarina abraçou-se na filha, dizendo-lhe que talvez fosse aquele o último dia em que se viam.

— Porque me diz isso, minha senhora? — perguntava Antónia.

— Porque teu tio não te deixa cá vir mais... Tu vais viver com ele; e depois... quem te há de cá trazer, minha filha?

A menina respondeu com lágrimas, aconchegando-se ao seio da religiosa; porque naquele momento compreendera que a renitente má vontade do padre contra as suas visitas ao convento explicava a inesperada saída para a companhia dele. Além disso, era a primeira vez que ouvia o mavioso tu, expansivo e impensado, dos lábios de D. Catarina.

— Não te vejo mais, não te vejo mais! — exclamava a religiosa, afogada por soluços, ajoelhada ao pé da filha, reclinando-a nos braços, beijando-a, embalando-a como as mães doidas de amor fazem às filhinhas feridas de doença incurável.

— Então eu não volto aqui?! — perguntava Antónia acariciando entre as mãos o rosto de Catarina.

— Não voltas, não, Antoninha, meu querido amor do coração! Não me tomas a ver, porque ele... O teu tio, para que não voltes cá, vai tirar-te de casa da mestra, e leva-te para si...

— Não que eu não vou!... — acudiu energicamente a menina.

— Não vais? não vais, minha filha? Então que fazes tu?

— Digo que não tomo a sair de cá, se as senhoras me deixarem ficar. A Sra. D. Catarina quer que eu fique?

— Quero, filha, quero! — exclamou a mãe, rindo e chorando — E tu deveras queres ficar comigo, Antoninha?

— Tomara eu... O papá, quando vier da Índia, não me ralha.

— Mas se ele...

— O tio?

— Sim... se ele te obrigar...

— Ele não me bate... — replicou a menina, definindo pelo lado mais pueril e tangível a hesitação da religiosa.

Neste momento chegou D. Feliciana com Maria da Luz, trazendo cada uma seu ramilhete dos canteiros do terraço. O médico saíra ao mesmo tempo, e D. Paula mandara procurar Catarina para, sozinhas, se combinarem no modo de cativarem Francisco Xavier.

— Para quê? — perguntou Catarina.

— Que pergunta! Pois não percebes que o Xavier põe casa para subtrair a pequena da companhia da mestra e da tua?

— Percebi, e então?

— Então é preciso que o Xavier não proíba a filha de cá vir.

— E se Antónia não quiser sair da minha companhia? — perguntou ufanamente D. Catarina — Que há de fazer ele?

— Eu sei lá o que ele fará, minha pobre Catarina! Escândalo te assevero eu que temos.

— Deixá-lo... Aceito tudo, menos o teu desafeto, minha querida Paula, e a perda da minha filha. Achei-a... Tenho-a... Amo muito menos que a ela os meus créditos e a minha vida. Que me importa o escândalo e a desonra? Protege-nos tu, e não me lastimes se ouvires que me insultam aqui e lá fora. Não consintas que me roubem a minha filhinha, não, Paula?

E, pondo as mãos, quase dobrava os joelhos diante da poderosa amante de D. João V.

— Ó doida! — dizia com extremado carinho soror Paula, apertando-a nos braços, e levantando-a da postura suplicante — pois será preciso que me peças proteção? Que faço eu senão amar-te desde que sou metade da tua alma, e sinto, como se fossem minhas, as tuas alegrias?... Queres tu que a tua filha fique connosco? Pois que fique.

Fechemos os olhos. Se hão de vir desgostos, deixá-los vir. Eu cá estou ao lado do teu coração. Que pode acontecer? Pensemos...

D. Feliciana, neste comenos, mandava perguntar a D. Paula se a sua senhoria estava disposta a dar a sua lição, porque era hora de sair.

— Que entre — ordenou a freira.

Catarina receava pedir à sua amiga que Antónia ficasse no convento desde logo.

— Já sabe — perguntou D. Paula à mestra — que o Sr. padre Xavier está mobilando casa onde vai morar com a sobrinha?

— Não, minha senhora... — respondeu D. Feliciana espantada. — Eu não sei nada!

— Saiba pois — prosseguiu a freira — que tanto a senhora como nós vamos ficar sem a nossa Antoninha!... Tem pena de nos deixar, anjinho? Leva saudades das suas três amiguinhas do convento?

— Eu já disse à Sr. D. Catarina — respondeu Antónia a ponto de chorar — que se as senhoras me deixassem cá ficar... eu não ia...

— E era muito bem feito castigar assim o tal manco! — obtemperou a retrincada preceptora. — À espera disto já eu estava... Ele, a última vez que lá foi a minha casa, esteve a conversar com o meu sobrinho André, e a perguntar-lhe coisas a respeito da educação da menina, pelo sistema de um certo padre francês que por aí anda a ensinar umas pantominices pelas casas. Por sinal que o meu André me disse depois que o padre queria dar à sobrinha demasiada sabedoria. Mas o que isto é sei eu... Quer-me tirar a menina porque eu fui a causa de ela vir ao convento, e tenho continuado a trazê-la todas as semanas contra vontade dele. O padre, seja lá pelo que for, não gosta das vossas senhorias. Encasquetou-se-lhe na coroa que esta menina...

— Diga... — incitou soror Paula, curiosa de decifrar as reticências — que esta menina...

— Afagada por vossas senhorias, se afeiçoaria a alguma, como acontece às crianças que não conheceram as carícias maternais; e lhe perderia a ele, de todo em todo, o afeto.

— Disse-o ele? — instou D. Paula..

— Não, minha senhora... O meu sobrinho é que tem lá estas ideias, e explica deste modo o amor da menina à Sra. D. Catarina, quando ela, em vez de escrever o traslado, lhe está contando ao meu André Guilherme as palavras amorosas que as senhoras lhe dizem...

D. Catarina chamou com um gesto a filha, sentou-a no regaço, e segredou-lhe por entre beijos sôfregos:

— Não queres ir?

— Não, minha senhora.

— Ouve? — indicou Paula à mestra — Diz que não vai.

— E eu estimo isso muito — condescendeu D. Feliciana — Ensine-me agora Vossa Senhoria o que hei de eu dizer ao tio... Sim, no caso que ele esbraveje, que hei de eu dizer-lhe?

— A verdade: que a menina ficou em companhia de D. Paula Perestrelo, por vontade de ambas; e acrescente que eu particularmente lhe escreverei, solicitando a licença que a sua delicadeza não há de recusar-me.

A mestra, chegado o momento de sair sem a educanda, ponderou a gravidade do caso, e temeu as iras de Francisco Xavier. A razão reprovava-lhe a condescendência ao capricho das freiras e à criancice de Antónia. Visivelmente hesitante, quando a menina lhe pedia que mandasse vê-la ao convento o Sr. André Guilherme — única saudade que lhe aguava as alegrias — D. Feliciana pediu à freira d’el-rei que escrevesse duas linhas ao padre, duas palavras que a desculpassem.

— E quer esperar? — disse Paula. — Pois, espere, que eu vou escrever ao Sr. padre Xavier.