A Caveira da Mártir
Capítulo XVIII · As cóleras surdas de Francisco Xavier não…
As cóleras surdas de Francisco Xavier não desfecharam explosão imediata. Conteve-o o temor de irritar Paula e enredar a filha na teia de vinganças que lhe urdisse o despique de duas mulheres assanhadas. Não obstante, recomendou particularmente a D. Feliciana que espacejasse de mês a mês as idas da sobrinha a Odivelas para evitar distrações nocivas ao estudo.
— Pelo contrário — obviou a mestra — enquanto a Sra. D. Paula estuda, também a menina recorda os verbos; e, depois, quando a freira começar a traduzir e a falar, a Antoninha lucra muito, conversando com uma fidalga tão esperta.
— Já disse, minha senhora; cumpra as minhas ordens, que eu represento o pai da sua educanda.
— Bem sei; mas o pai da minha educanda, quando se despediu de mim, disse-me a chorar: «não a constranja; dê-lhe todos os prazeres que não lhe causem dano à saúde». Ora, os passeios a Odivelas são do inocente agrado da menina, e até necessários à sua saúde. Portanto...
— Portanto cumpra as minhas ordens — repetiu o padre severamente.
— Ao menos, consinta V. Senhoria que ela vá uma vez por semana.
Neste comenos entrou Antónia, e Feliciana prosseguiu:
— Ó menina, peça ao tio que a deixe ir, ao menos, uma vez por semana a Odivelas.
— Então o tio não me quer deixar ir?! — perguntou Antónia com uma admiração prenuncia de revolta.
— Quer que vá uma vez somente cada mês — agravou a mestra.
Antónia, sem responder, foi sentar-se à mesa da escrita com as costas voltadas para os dois. O padre viu aquele movimento, abaixou os olhos, e apoiou a testa sobre as mãos.
— Então não pede, Antoninha? — instou D. Feliciana.
— Tanto se me dá de ir como de ficar... Não peço nada.
— Vem cá, menina — chamou amoravelmente o padre.
Ela ergueu-se ligeiramente e foi sem o encarar.
— Desejas ir muitas vezes a Odivelas?
— Sim, meu tio.
— Queres ir de quinze em quinze dias?
— Como vossa mercê quiser.
— Pois vai, vai, filha; mas não troques teu tio pela amizade de ninguém. Olha que neste mundo ninguém te quer mais que eu.
Antónia suspirou do íntimo do peito.
— Porque suspiras?
— Lembrou-me meu papá.
— Aqui tens uma carta dele.
Cintilaram áscuas de júbilo os olhos da menina. Leu duas dúzias de linhas de um fôlego; mas, no fim, rebentaram-lhe as lágrimas. O último período dizia: A minha saúde, aqui, é péssima. O tio te dirá que mando pedir licença para me retirar antes dos três anos. Sei que não te faço falta, minha filha, mas não quisera morrer sem te dar o meu último suspiro num beijo.
— Não chores, filha; que na primeira nau que sair vai a licença que teu... pai requer — disse o padre, abraçando-lhe a cabeça e beijando-lhe os cabelos louros. — Olhe, Sra. D. Feliciana, não lhe tome hoje lição. Eu vou mandar-lhe a minha sege, logo que chegar a casa. Vão dar um passeio até Xabregas.
— Eu não queria sair... — atalhou Antónia.
— Vai, filha...
— Antes quero ir rezar uma coroa à Virgem Nossa Senhora para que dê saúde ao meu pai.
— E que lindo rosário a menina tem! Apetece rezar por ele! Já o mostrou ao seu tio?
— Ainda não.
— Vá buscá-lo... Deu-lho a Sra. D. Catarina de Castro. É o objeto mais lindo!
Voltou Antónia com um rosário de contas de variadas cores; umas pedras eram azuis, safiras orientais radiadas de filamentos lácteos; outras escarlates, rubis do Brasil e granadas da Síria; sobressaíam pedras verdes, esmeraldas do Peru, e crisóprasos, de um verde claro; amarelejavam os topázios, as águas marinhas junquilhas. Os padres nossos eram pequenos diamantes cravejados em lhama de prata que envolvia uns esferoides de ónix de Islândia. O crucifixo era de ouro, uma miniatura primorosa, com a Senhora das Dores, sentada na peanha da Cruz.
O padre conhecia o rosário: era o único enfeite que a religiosa pendia do colo nos dias festivos do convento. Sabia que, desde o reinado de D. Manuel, aquela preciosidade existia na família dos Pinas, e andava estimada em grande valor nos sucessivos inventários da casa.
— Não é uma rica prenda? — perguntou D. Feliciana ao padre, que se demorava absorvido nas recordações com o rosário entre as duas mãos.
— É... — respondeu; e no silêncio da alma retransida de dor, pensou: «Mal diria eu... que nove anos depois veria estas contas na mão da minha filha, e me veria a mim nesta desesperada situação!...
E, dando o rosário à menina, continuou:
— Vai rezar, filha, vai; pede ao senhor por teu... pai!
— E pela alma da sua mamã — acrescentou a mestra. — Eu tenho-a ensinado a rezar por alma da mãe: que a menina, quando veio para a minha casa, nunca rezava por tão sagrado motivo, e disse-me que ninguém lhe ensinara a rezar por ela. Eu fiquei sem a minha há vinte e dois anos, e nunca passou um dia que eu não encomendasse a Deus a alminha da minha mãe e do meu pai.
— Ó meu tio — perguntou Antónia, entre risonha e triste — a minha mãe era bonita?... Vossa mercê viu-a, não viu?
— Era... sim... — respondeu o padre fitando-a com grandes olhos, imóveis como os de um cego de amaurose.
— Devia ser muito linda — conjeturou a mestra — quem deu ao mundo uma beleza como Antoninha!... Que esta menina também tem muitas avultações da família paterna... O feitio do rosto, a testa e a covinha na barba tem alguma coisa de V. Senhoria e do pai... Coitadinha! bem cedo ficou sem mãe!
Francisco Xavier, levantando-se com ímpeto, porque as lágrimas lhe envidraçavam os olhos, deu um ai agudo, ao roçar violentamente no rebordo do aparelho, onde engastava a coxa mutilada, a tuberosidade ciática. Esta dor física espertou-lhe muitas angústias morais. Recaiu outra vez na cadeira e chorou largo tempo, com o rosto amparado nas mãos.
Antónia aproximou-se do padre, e lançou-lhe os braços ao pescoço com extraordinária ternura, murmurando:
— Não chore, assim, meu tio...
Ele então, sentindo-se acariciado pela criança, puxou-a para o peito, tomou-lhe entre as mãos trementes o rosto, e ungindo-lho das lágrimas que o estrangulavam em soluços, balbuciava:
— Tens compaixão de mim, tens, Antónia?
— Molestou a perna? — perguntou D. Feliciana. Quer V. Senhoria que eu mande chamar o cirurgião?
— Muito obrigado, minha senhora... Felizmente chega o Sr. André para me ajudar a descer até à sege.
André Guilherme amparou-o ao Levantar-se. A menina acompanhou-o até à rua; foi dentro da carruagem dar-lhe um beijo; e, voltando melancólica, disse a D. Feliciana que tinha muita pena do seu pobre tio.
O chorar, no mal-acompleicionado bisneto de Maria Isabel Traga-malhas, não deixava a alma defecada dos sedimentos que as lágrimas diluem. Parece que o pejo de chorar lhe azedava a hipocondria e pesava sobre o espírito um maior gravame de tristeza que disparava em frenesis e fúrias manifestadas no sacudir vertiginoso dos braços. Queimavam-no as ardências dos trinta e um anos. Raivava contra a providência que iniquamente o abatera àquela desgraça estúpida, inerte, indigna sequer da compaixão pública em que muitas infelicidades se estejam e resignam.
Na solidão dos seus aposentos, o padre, soberbo das maviosas carícias da filha, voltou a cismar no plano de lha roubarem. Pois que a viu compadecida, com maior amor e avareza a queria fechar no seu coração. As perguntas de Antónia a respeito da sua falecida mãe — perguntas nunca feitas — quem lhas sugerira? — pensava Xavier. — Dir-lhe-ia Catarina algumas coisas com o propósito de ir encaminhando a declarar-lhe que era sua mãe? E, se viesse a declarar-se — inferia o padre — o coração de filha, que já se mostrava tão inclinado àquela senhora, seria todo da mãe. E que faria ele então? queixar-se! a quem? Proibi-la de ir ao mosteiro? obrigar pelo terror a menina a calar o segredo? Mas quantas desventuras envolvidas nessas hipóteses! Afinal, Catarina sairia infamada da luta, e ele execrado pelos virtuosos, escarnecido pelos libertinos, e, sobretudo, odiado da filha.
Nesta relutância de encontrados sentimentos, decorreram algumas semanas, durante as quais, a menina, abusando da licença, foi ao convento todas as quintas-feiras. Francisco Xavier adoecera. Antónia visitava-o com André Guilherme; queria falar da freira; porém o cauteloso padre, na presença do estudante, desviava noutro rumo a conversa, receando exaltar-se ou interessar-se estranhamente.
Entretanto, a solidão e a ociosidade iam lavrando o rastilho da cratera. O homem não se descia da hipótese pior: — que as duas freiras conjuravam em lhe roubar a filha.
Pedira-lhe Antónia licença para assistir às festas do abadessado.
— Vá — disse Francisco Xavier, acrimoniando o monossílabo com um tratamento em terceira pessoa, que nunca lhe dera.
A menina foi, e ficou três dias e três noites no convento, se devemos considerar domínio claustral das bernardas o palacete da madre Paula. Pernoitava no leito de Catarina, e adormecia-lhe reclinada no braço direito. Espertava sob a pressão dos beijos, e às vezes sentia no rosto a humidade das lágrimas. Na terceira manhã, ao descerrar as pálpebras, viu a sua querida freira em joelhos, sobre os degraus da escadinha do leito, curvada para ela: sentia nas faces o hálito quente. Sentou-se, estrouvinhada e assustada, na cama. A mãe cingiu-a a si impetuosamente, dizendo-lhe em segredo:
— Não queiras ir hoje, não? olha, Antoninha, diz a D. Feliciana que queres estar até amanhã, sim?
— Mas o tio... se ralha à mestra... e não me deixa cá voltar... — reflexionou a criança magoada.
— Tens razão... — anuiu D. Catarina — Vai, filhinha... para voltares na festa do oitavário.
Àquela hora, Francisco Xavier esbravejava contra a mestra, porque deixara sua sobrinha no convento. Defendia-se Feliciana com a licença impetrada pela menina; e ele replicava que não se lhe tinha pedido consentimento para pernoitar no harém d’el-rei.
Feliciana abriu a sua boca escandalizada, e regougou:
— No harém! credo!... Bendito seja Deus, nem estamos na Turquia, nem o Sr. D. João V é imperador de Marrocos! Vossa senhoria desatrema, Sr. padre Francisco!... Deus me livre que o ouvissem!...
Estas palavras vibraram-lhe as cordas do medo. Não lhe sobrava dignidade, nem caridade, nem coragem. Vociferava insolências, e absorvia logo a bílis com medo ao rei, aos frades domínicos, ao sequestro, ao cavalete, e principalmente à perda da filha. Martirizava-o aquela criança, balançando-o da petulância à covardia.
— Peço-lhe que não faça caso destas expressões rudes — dizia ele à mestra — As minhas doenças exasperam-me...
— Pois, sim, sim, coitado! Eu bem vejo que o Sr. padre Francisco Xavier tem o coração de um anjo; mas as dores do corpo bolem muito com o génio das pessoas... Diante de mim pode desabafar como quiser. Quanto à menina, vou logo buscá-la, apesar de ontem me pedir a Sra. D. Paula que a deixasse ficar até amanhã.
— Não pode ser! — acudiu o padre — não pode ser!...
— Pois bem, bem... quem governa é vossa senhoria.
— E não ma leve lá estes quinze dias...
— Nem na festa do oitavário? É muito bonito então, porque voltam lá os poetas, e há motes.
— Que lhe importa à minha sobrinha poetas e motes, não me dirá?
— Pois olhe, quer creia quer não: a menina me disse ontem que gostava muito de ouvir as décimas do Tomás Pinto Brandão, que faziam escangalhar tudo com riso!
— Como lá se divertem! — murmurou o padre, em ar de o dizer a si mesmo — Como 14 se divertem!...
— Ora, se divertem! — confirmou a mestra — Há lá gente mais regalada que as freiras de Odivelas! Que lhes falta! só se for sarna para se coçarem. Ali vai tudo quanto há bom em Lisboa. Ontem estava o terreiro a trasbordar de fidalgos, e as janelas cheias de senhoras. A menina, de janela em janela parecia doida de alegria; e a Sra. D. Catarina Castro parecia uma criança a brincar com ela.
— Alegre? — disse o padre.
— Quem?
— Essa senhora...
— D. Catarina?
— Sim.
— Pois então! Já não é a mesma. Era da cor desta parede, e parece uma rosa. Estava para ali sempre amoixada nas almofadas, e agora salta que nem um passarinho. Diz a Sra. D. Paula que a menina a tirou do seu sério fazendo-a brincar e correr. Muito amigas são! Estão sempre abraçadas uma na outra... Coisa assim!... Eu acho que é ela que prende a menina. Como nunca sentiu os carinhos de mãe, penso eu, a criança regala-se de ser ameigada por aquela linda senhora, não lhe parece, Sr. padre Francisco? Esta é a opinião do meu sobrinho André; e ontem disse ele umas palavras muito acertadas... Deixe ver se me lembro... ah! disse ele que Antoninha era áspera e um tanto dura de génio, e que as carícias delicadas de uma senhora tinham de amaciar-lhe o temperamento muitíssimo, acha ele.
Francisco Xavier escutava reconcentrado, e sentia espessar-se a escuridão lá no íntimo.
— E que acha o senhor? — prosseguiu a palreira senhora.
— O quê? — disse o padre, acordando.
— Dizia eu... — propunha-se repetir a opinião de André aumentada.
— Ah!... sim... dizia a senhora que no convento vai grande alegria...
— Lá me pareceu que a vossa senhoria não estava aqui... — disse sorrindo D. Feliciana — Eu estava contando o que disse meu sobrinho...
— Ouvi — atalhou o padre carranqueando-lhe um daqueles gestos capazes de estagnarem a torrente palavrosa de Feliciana.
Depois, para não expelir mais longe o jacto da atrabílis, o padre ergueu-se, cortejou a mestra, e saiu apoiado ao corrimão da escada, raspando rijamente nos degraus com a ponta ferrada da perna artificial.
— Valha-te o diabo, manco! — responsava-o a velha, quando ele, em boa correspondência mental, ia dizendo consigo:
— Eu me livrarei de ti, quanto antes, canalha!
CAPÍTULO XIX
Desde este dia, começou o padre a destemer parte dos receios que o constrangiam a consentir nas visitas de Antónia ao mosteiro. Pensou em estabelecer-se e levar para sua companhia a filha. Era, ao seu ver, um corte radical. O conde do Rio, em nome da sua amizade, ainda conseguiu detê-lo irresoluto alguns dias; mas, na correnteza dos últimos sucessos, chegou de Roma o doutor Isaac Eliot, a quem o padre comunicou o plano de residir nalgum dos seus prédios de Lisboa, a fim de ir criando à volta de si uma família que lhe florejasse os ásperos matagais da velhice.
— Quem fala em velhice aos trinta e um anos? — disse o médico — A sua velhice, meu amigo, parece-me fantasia como a de um padre arranjar família.
— Pois não tenho uma sobrinha?
— Ah! não me lembrava a criança!... então é ela a presuntiva colonizadora dos seus futuros matagais? Quando verei eu a colónia!... Faz muito bem, doutor. Quando mais não seja, sua sobrinha há de alegrar-lhe a vida doméstica e destecer-lhe o véu negro que lhe esconde as coisas belas desta vida, que não é de todo feia...
Deter-nos-emos algum espaço a desenhar a vida como ela se coloria e variegava no prisma daquele meio-francês e meio-muçulmano.
Alguns meses depois que se estabeleceu em Lisboa, Eliot foi a França, e voltou depressa com uma dama daquele país. Saiu com ela a público em sege própria, parou à tarde no Rossio onde confluíam os faceiras e ainda os homens de maior porte. Os seus amigos, todos das raças finas, cumprimentaram a francesa, que se fazia valer pela cara e estranho garbo. Eliot era o intérprete dos curtos diálogos das apresentações.
Naquele tempo a ciência da língua francesa andava tão descultivada, que mais de três anos um professor de línguas, chamado Villeneuve, anunciou na Gazeta, que se iria embora de Lisboa, se dentro de um mês não arranjasse seis discípulos. E nunca os arrolou; mas também deixou-se estar para fazer pirraça aos portugueses com o repetido anúncio que aí ficou estampado para morredouro condenado da nossa ignorância linguística no século XVIII. Creio, porém, que Villeneuve arredondou os seis alunos depois que madame Eliot, não avara na exibição das Ligas, pulava da caleche no terreiro do Rossio, e dava seus passeios, boleando-se de quadris, e picando o passo com certa desenvoltura que as senhoras sérias, untuosas e esparramadas de Lisboa viam de esguelha, acotovelando os maridos menos escarlates do pudor.
Diziam uns que a forasteira era legítima consorte do médico, outros negavam; todos, porém, procediam com igual cortesia no trato de tão donosa criatura. Eliot, quando apresentava a francesa, escusava-se de dar explicações que ninguém lhe pedia; ela, pela sua parte, mostrava-se desempeçada do acanhamento das situações equívocas; parecia uma esposa com todos os cânones da legalidade social e sacramental.
Todavia a um homem, único em Lisboa, confidenciara o herege e concubinário, que não era casado com a francesa. O padre Xavier sabia o pecado; mas indultou-o visto que o escândalo dependia da ciência do delito; e a confidência, fora do confessionário, que ele não exercitava, obrigava-o a tolerar e calar.
Historiando os seus amores, dizia Isaac Eliot que, indo a França várias vezes, se deixara escravizar daquela mulher, que era manceba de um duque, e de família muito ilustre na Picardia. A francesa, com o seu savoir-vivre, e o savovir un peu son monde, não o desmentia; e o tom familiar com que ela, relatando casos de altos personagens de Paris, denotava sociedade seleta, foi muito na graciosa aceitação que algumas casas titulares lhe deram, talvez de plano para obrigarem o médico.
Sem dúvida, madame Eliot conhecia a vida anedótica do reinado de Luís XIV e noviciara o seu tirocínio nos primeiros anos da Regência. O apaixonar-se pelo filho da moura e desligar-se do duque tem uma explicação que a nobilita. Queria regenerar-se pelo amor, e amou o galante rapaz. Quis honestar a sua virginal paixão, e rendeu-se-lhe sob promessa de casamento. No propósito de casar-se, ia Isaac a Paris quando em Corfu os portugueses o negociaram. E, como a fortuna lhe bafejasse em Lisboa, onde com estrangeiros a brisa era sempre de servir, mormente se vinham de França e estanciavam cá onde reinava o macaco de Luís XIV, Eliot mais ufano se foi a conquistar o velo que nem era de ouro nem de Gedeão pela pureza. Quanto a casamento, porém, os indissolúveis laços diferiu-os ele para Lisboa, onde lhe convinha, a um tempo, apostatar de heresias calvinistas, e dar público testemunho da sua religiosidade sem ervilhaca, matrimoniando-se catolicamente.
Se o francês perjurou a palavra dada, os créditos de madame Eliot conservaram-se abonados pela descuriosidade da opinião pública. A sociedade transige, enquanto pode alegar ignorância e observar o pacto da honra convencional. Guardem-se as aparências do decoro; que o mais cada qual sabe de si e Deus de todos: é a máxima eterna da eterna corrupção.
O padre Francisco Xavier pensava no caso, espantava-se da facilidade e familiaridade com que algumas damas da flor da nobreza tratavam a forasteira sem lhe indagarem da procedência, e concluía que a mulher infame não só é a que é infame, mas a que dá ares de o ser. Às vezes, por muito afeiçoado ao médico, observava-lhe que teria sido melhor abster-se de sair à praça com uma companheira equívoca e dar azo a que lha considerassem como esposa; porque, se um dia, ele por conveniência de mais legítimo consórcio ou por enfado, e ainda por motivos de perfídia se desligasse da francesa, as famílias, que a receberam, tinham de levar-lhe a mal o ardil do silêncio.
A isto replicava o herege com o cinismo de muito acreditados católicos daquele tempo:
— Eu reservo as explicações para quando o duque de Cadaval ou o marquês de Gouveia ou o conde de Tarouca me soprarem a dama.
Estes três fidalgos, useiros e vezeiros na caça de aves arribadas, eram os mais devassos da corte de D. João V, cunhado do primeiro.
Nada obstante, a pedido do cardeal Nuno da Cunha obteve Isaac Eliot o hábito de cavaleiro professo na ordem de Cristo, Não se persuadam que seria fácil e insignificante a mercê. O Cavalheiro de Oliveira encarece esta coisa que hoje em dia apenas engoda as aspirações cavaleirosas do regedor de paróquia rural. «Os reis de Portugal, diz o celebrado escritor, fundaram, desde certo tempo, uma espécie de veniaga com os que não podem ser cavaleiros, conforme o direito: inventaram uma dispensa. E o certo é que tem havido récovas de sandeus que, esporeados pela vaidade de exibir uma fita escarlate ao pescoço, a compram caríssima, obrigando-se a descontar em dinheiro de contado os graus de fidalguia que lhes faltam. Há dispensas de dois, quatro, seis, dez mil cruzados; e já vi subir tais dispensas até vinte mil cruzados. É tão despótico o poder do rei de Portugal, que, sem prévio informe do tribunal das Ordens, e até sem dispensa, dá ele o hábito de extraordinário modo, pondo-o com as suas próprias mãos no pescoço das pessoas que quer nobilitar. É todavia tão raro isto que, se me pedissem exemplos, eu apenas poderia citar dois ou três».
Um dos dois ou três exemplos era o cirurgião-mor do exército, Isaac Eliot, armado cavaleiro sem dispensa, pela própria mão do monarca.
Decorridos alguns anos, quando os achaques apodrentavam as carnes estafadas do rei, e a ciência disputava primazias ao milagre à cabeceira do monarca enfermiço, os cirurgiões mais conhecidos lograram entrar na Ordem de Cristo. Um viajante que nos visitou em 1723, escrevia: Le roi et la plupart des grande seigneurs et des fidalgos, portent l'ordre de Christ, qui est néanmoins tellement avili que l'on voit plusieurs officiers subalternes, même des marchands, des commis, des chirurgiens, etc.».
Este viajante, se viesse a Portugal vinte anos depois, que diria vendo D. João V a armar cavaleiros de Cristo os banheiros que o baldeavam à tina nas Caldas da Rainha?
Encadeavam-se os lances da fortuna cega na prosperidade de Eliot.
No ano de 1723 lavrou em Lisboa uma formidável peste que, em poucos dias, matou seis mil pessoas. Era a febre amarela. Votaram uns médicos pelos derivativos, outros pela sangria; mas tanto os purgados como os sangrados todos pereciam. Salvaram-se, porém, os empestados a quem Eliot medicava. Voga a notícia. Alvoroça-se a capital. Tumultuam à porta do francês e à volta da sua sege as multidões consternadas. Não pode o salvador acudir a todos os enfermos; mas magnanimamente avia uma receita universal: leite de burra. E com leite de burra se apaga o incêndio da febre os atacados convalescem, preservam-se os ilesos, e à volta de poucos dias, a peste já nem sequer faísca na capital ressurgida do seu letargo.
D. João V remunera então o cavaleiro da Ordem de Cristo com uma tença de duzentos mil réis. Esta verba ainda assim montava pouco na ganância do famoso médico. Enriquecia-se e simultaneamente desbaratava-se em pompas. Assoldadou pajens, e comprou escravos. Os seus lacaios eram negros, e vestiam fardas de fantasia. O seu pajem particular, também francês, distinguia-se pela bizarria dos trajes estrangeiros. Acompanhava-o à estribeira raspando com a anca dos soberbos cavalos os transeuntes nas ruas estreitas. A caleche de Isaac Eliot estremava-se por uma Vénus calipígia pintada na popa, obra de execução acabada em primores de artista lúbrico. E não era das mais indecentes que se alardeavam nos passeios do Rossio e do Paço. Ao propósito desta e de outras, invetivava o contemporâneo padre Manuel Bernardes... «Há de ir um fidalgo na sua calega passeando, e desde a popa dela, como se fora de uma nau de guerra, há de ir disparando tiros de escândalo a quantos empregarem ali os olhos?... »