A Caveira da Mártir
Capítulo XL · Frisch confidenciou ao frade trinitário os sucessos…
Frisch confidenciou ao frade trinitário os sucessos do anterior capítulo. Nem sequer os sofreados ímpetos de arrebatar Antónia escondera do austero frade.
— Se ela cedesse à tentação infernal — exprobrou André Guilherme — eu pediria a Deus que me fizesse esquecer a mulher perdida. Sr. Frisch, intenta remediar a desgraça de Antónia e a sua, com a desonra de ambos? Antónia é digna de compaixão e respeito: o senhor, segundo entendo, quer torná-la desprezível e odiosa. Feia ação! Abre-lhe um abismo como evasiva. E depois? Leva para a sua terra uma concubina, não é verdade? O seu pai e as suas irmãs, se as tem, desprezá-la-ão. E o Sr. Frisch, ao ver-se desprezado por causa dela, será um homem extraordinariamente generoso, se, por comiseração, lhe der um frio amparo.
— Sr. Fr. André Guilherme — replicou Josse — a sua alma não pode entender as paixões que nunca experimentou. A ciência não basta. Eu tenho de optar entre o meu suicídio ou a salvação de Antónia.
— Pois suicide-se, que só dará conta de si no tribunal de Deus! — respondeu, severizando o rosto, o inflexível frade. E, feita uma longa pausa porque a sua angústia lhe empecia a respiração, continuou: — A sua ida a casa de Antónia foi o mais acerbo feito que o Sr. Frisch podia cometer, querendo agravar a triste sorte desta senhora. Eu encarregara-me de lhe escrever hoje, a dar as explicações justificativas do seu proceder; o senhor aceitou a minha intervenção; e, apenas o deixei, praticou um arrojo que seria simples loucura, se não fosse crime que pode surtir terríveis resultados. Que foi lá fazer, senhor? Despertar a paixão entorpecida, rasgar úlceras cicatrizadas, insinuar à mulher infeliz que fugisse à infelicidade honrada pela porta do rapto adulterino!? Ora suponha que essa criada, que lhe abriu as portas, denuncia o procedimento da sua senhora... Se ela descobrir que Antónia e um homem desconhecido se fecharam num quarto, o marido e o mundo serão caluniadores inferindo desse acto clandestino a presunção do crime?
— Não me fale em crime, Sr. Frei André... — atalhou Josse — eu estava ao pé de uma irmã...
— As irmãs não suscitam ímpetos de arrebatá-las, Sr. Frisch! Pensava vossa mercê que a sociedade e os maridos aceitam esses fortuitos parentescos com que o crime se dissimula? O mundo tem menos poesia convencional do que os poetas se persuadem. Medite na hipótese de que Antónia é acusada pela vil criada que já uma vez deu prova da sua infâmia. Se Eliot, que, no dizer da francesa, matou duas esposas, assassinar a terceira, pois que tudo conspirou a inculcá-la adúltera, que remédio dará o Sr. Frisch a essa sobrecarga de desgraça e remorso que põe sobre a sua alma?
Frisch compenetrava-se da argumentação do frade, que foi longa, eloquente e às vezes comovedora pelas lágrimas.
Concederam-se reciprocamente cláusulas: não se repetiria a entrada do prussiano em casa de Eliot, e cartear-se-iam cautelosamente. O frade esperava que o prolongar-se a correspondência iria mitigando os ardores da paixão, e intermetendo delongas e distâncias que afinal seria um quase esquecerem-se. Não se arredava muito da generalização da verdade o trinitário; que o esquecimento é pelo comum o desenlace de muitos amores que descaem como foguetes apagados, logo que sobem às altíssimas regiões da quimera; mas semelhantes regras falham quando as esposas, na situação de Antónia, sentem o incessante espicaçar da tortura doméstica, e nenhuma voragem se lhes prefigura mais desastrosa que a presença de um marido detestado.
A correspondência, permitida por Frei André, uma vez por semana, correu regularmente, mediante o escravo.
Encerrada no seu quarto, Antónia Xavier, durante o dia, uma ou duas vezes via o marido, quando se juntavam à mesa. Eliot, muitos dias, ia jantar a casa de Tomás Darcet. O silêncio, a tristeza e até o desalinho da esposa alojavam-no. Se ele violentava um sorriso caricioso, ela reconhecia-lho sorrindo-lhe com igual esforço. Sentiam-se entranhadamente inimigos; mas nunca entre si, nas curtas ironias que se trocavam, proferiram palavra ou nome que revelasse ciúme. Isaac Eliot elaborava muito em segredo um projeto, qualquer que fosse. Não soltava palavra irada que pudesse traí-lo; mas esquivava-se também a mostrar-lhe agrados, porque se sentia humilhado diante da mulher.
Antónia respirava, quando ouvia rodar, afastando-se, a sege do marido. Voltava para o seu gabinete, fechava-se, relia as cartas de Frisch e as de Frei André Guilherme, cheias de santos conselhos, de invocações à sua coragem, de exemplos de esposas que se santificaram no seu martírio, de casos um tanto acondimentados das insulsarias de crónicas fradescas. Uma certa filosofia que levanta a alma às nebulosidades do seu destino, independentemente das contemplações religiosas, estava então nas faixas da infância; hoje, porém, que essa filosofia está adulta e pende à velhice, tanto monta nos resultados, que são os mesmos. O frade falava-lhe, com grande unção, de Deus remunerador, da bem-aventurança dos que choram; e, às vezes, para transigir com o mundanal, admoestava-a a sair da reclusão do seu quarto, a visitar as suas relações, a espairecer-se no campo.
Por este tempo, na primavera de 1730, Eliot deliberou passar a estação em Camarate. Antónia contrariou-o. Não podia voltar mais àquela casa de horríveis recordações. Ali, recobrando-se do desmaio na igreja, abrira os olhos sobre o cadáver do tio. Estas razões irritaram o marido, porque lhe avultavam à fantasia aquele Josse Frisch que tantas vezes perpassava por ele, com a cabeça alta, nas ruas de Lisboa. Eliot recalcitrou. Antónia disse pertinazmente que não ia para fora da terra. Ele estorcegou os dedos, e, com um trejeito labial que a mulher nunca lhe vira, resmoneou:
— O que não fazem razões, fá-lo-á a chibata.
Ficou empedernida. Era a primeira ameaça que ouvira na passagem dos seus dezasseis anos. Quando as lágrimas lhe vibraram as pálpebras, Antónia ergueu a cara, e disse com energia:
— Quero entrar num convento!
— A senhora não tem querer! — replicou ele, voltando-lhe as costas.
Passados dias, Eliot, no fim do almoço, repetiu secamente:
— Amanhã vamos para Camarate.
Ela não respondeu. Alegrava-a a esperança de que Frei André Guilherme, rogado com as mais instantes razões, lhe obtivesse entrada em qualquer recolhimento, onde livremente pudesse escrever, e receber cartas de Josse.
Isaac Eliot exercia o magistério de cirurgia no hospital real. Ia quotidianamente a Lisboa. Raras vezes pernoitava na quinta. Dava jantares estrondosos de brindes na rua do Outeiro à colónia folgazã dos franceses, e pela noite fora improvisavam-se bailes em que estralejavam as castanhetas das comediantes espanholas. As irmãs de Frei André contavam ao irmão estas orgias que alvoroçavam a vizinhança. O frade pedia-lhes que o não dissessem à pobre Antónia nas suas cartas.
Em Camarate, era-lhe mais serena e monótona a sua dor. O marido recolhia tarde, e partia cedo. Escrevia muito. Havia ali duas criaturas que a serviam nas suas correspondências com a pontualidade de servos que a lamentavam e adoravam: eram dois escravos antigos do finado Francisco Xavier, que Eliot verberara com um tagante, ao terceiro dia de casado... Entre eles fora pactuada a morte do francês; mas a consciência da escravidão algemava-lhes os pulsos.
O médico, estando à mesa, perguntou uma vez à criada Maria Miguel:
— Que faz essa senhora que não vem jantar?
— Está no seu gabinete.
— E que faz?
— Ora lê, ora escreve.
— A quem escreve? às freiras?
— Não sei, meu senhor.
— Vai chamá-la.
A criada voltou, dizendo:
— A senhora não tem vontade de jantar.
Eliot esmurraçou a mesa, ergueu-se arrebatado, e encaminhou-se para o gabinete. Um dos negros, antecipou-se-lhe por um corredor que comunicava para uma porta do gabinete enquanto o amo se dirigia para a outra porta, através das salas. O escravo colou os beiços à fechadura, e murmurou:
— Cautela, senhora!
Era tarde. Quando a porta se abriu de repentino repuxão, Antónia Xavier, espavorida, deixou cair a pena sobre um papel em que traçara estas linhas:
Meu bom irmão. Já me custa escrever-lhe. Sou tão infeliz que já me não alivia queixar-me. Esta casa só tem para mim uma atração: é a capela porque encerra a sepultura onde irei cedo vingar-me da sorte. Paz e esquecimento! é tudo quanto me é dado ambicionar! Vai-me faltando o amparo dos dois corações que amo. A desventura pode mais que eles. Até a luz que me dava a minha querida amiga de Odivelas se apagou de todo! Soror Paula pede-me que vá lá, e não posso, porque este homem diz: «não quero!» Que hei de eu fazer? Nada posso contra a violência. Receio ser morta num ímpeto de ferocidade. Tenho escrito ao...
— A quem escreve? — bradou o marido.
— A Frei André Guilherme — respondeu ela tremente de medo.
— Pediu-me a senhora Licença para se cartear com esse frade?
— Não... — balbuciou ela, recolhendo o papel.
— Mas escreve-lhe... Porque esconde a carta?
— Não a escondo... bem a vê...
— Quero lê-la...
— Aí tem — volveu Antónia contrafazendo valor.
Eliot leu.
Neste lance, Antónia viu o perfil do escravo por entre os resquícios das portas.
— Quem são estes dois corações? — interrogava o francês.
E leu: Vai-me faltando o amparo dos dois corações que amo. Depois:
— Que quer dizer isto? Um dos corações é o do padre; e o outro?
— O outro, o outro... — tartamudeou ela — é o da religiosa de Odivelas.
— E isto? — prosseguiu Eliot, deletreando pausadamente e ferindo as sílabas: Tenho escrito ao... a quem? que nome ficou no tinteiro? Diga!... quem é este ao!? Não responde?
— Tenho respondido... Já lhe disse que me quero recolher a um convento... — gaguejou Antónia amedrontada pela atitude ameaçadora do marido.
A cara do escravo mostrou-se de frente pela abertura das duas portadas. Eliot não o via, e Antónia ganhou ânimo.
— Olhe bem o que lhe digo!... não me escreva mais ao seu amigo frade; senão o seu amigo frade paga por ele e pela senhora, percebeu?
— Deixe-me!... — exclamou ela — senão salto por esta janela... ou saio por essa aldeia fora, gritando por socorro!...
A energia da desesperação esfriou as cóleras de Isaac Eliot. Aquelas fúrias dele eram pouco menos artificiais. Se ela se precipitasse da janela, naturalmente como a janela era baixa, fraturaria algum osso, quando muito: era um escândalo de péssimas consequências para ele. Se Antónia gritasse por socorro, as testemunhas desse acto ser-lhe-iam nocivas no futuro. Não lhe convinha a queda, nem a evasiva a gritos pela aldeia. Saiu do gabinete, e deu de face com o escravo.
— Que fazias aqui, negro? — bradou Eliot.
— Ia passando...
— E paraste? escutas às portas, patife? Vais ser azorragado!
Antónia saiu ao corredor, e bradou:
— Não bata nos meus escravos!
— Nos seus?! — refutou Eliot. — Eu lhe provarei que são meus...
— Francisco! — disse ela ao escravo — Vai chamar o teu companheiro!
— Aqui estou, senhora! — respondeu o outro, assomando como um manequim na envasadura de uma porta.
— Vocês ambos são livres... podem sair desta casa.
— Livres! — bradou Eliot — Com que direito os forra a senhora? Eu sou seu marido! sou o chefe da casa...
— Pode destruí-la! — recalcitrou Antónia — Desbarate tudo; que eu só quero salvar do meu património estes dois escravos que me criaram. São meus... Não os quero azorragados porque são meus amigos... Podeis ir livres à vossa vida!
— Eu não vou... — disse Francisco.
— Nem eu... Queremos ser escravos da senhora — disse o outro.
— Cá o senhor não nos bate... — volveu Francisco, mostrando a Eliot a dentadura alva, por entre um rebitar de beiços que semelhava o rosnar do rafeiro.
E entreolhavam-se de maneira os dois negros, que o francês temeu-os.