A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 5 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo III · Francisco Xavier residia em Coimbra. Ao descair…

 

 

Francisco Xavier residia em Coimbra. Ao descair do Sol, cavalgava o seu ginete; e, galopando as quatro léguas que o separavam de Montemor, pela calada da noite, dava o cavalo ao lacaio, e sumia-se na porta arqueada da casa manuelina. Ao repontar da aurora, voltava a Coimbra e emboscava-se nuns arvoredos da Arregaça a cismar na sua ventura, ou talvez a dormir, — o que é mais natural: sejamos um pouquinho realistas.

Quer poetasse, quer dormisse, a poesia ou sonho, volvidos cinco meses, inquietavam-no, confrangiam-lhe o ânimo com mordentes desgostos. Não era o fastio. A felicidade serena, quieta e sem reveses é que descamba no tédio. Se ensanguentamos os dedos nos espinhos das rosas, então nos é mais cara, mais preciosa a flor colhida.

A sua inquietação davam-lha as incessantes lástimas de Catarina, logo que no seio lhe avultara o querido e implacável testemunho do seu delito. Ele queria agora com mais forte causa, mas menos entusiasta, realizar o plano da fuga; mas a monja de Cister, desde os primeiros sinais da maternidade, alquebrada por estranhos terrores, caiu na cama, sem energia, sem arbítrio, desafogando as enchentes de amargura no coração da sua mãe, louca de dor e vergonha. Depois, quando readquiriu vigor morai, era tarde para fugir. A sua mãe perdoara-lhe com a condição de que ela não faria pública a desonra de ambas, fugindo com o amante. E o amante condescendeu prudentemente. Acautelou-se Catarina de vistas suspeitosas; a mãe encerrou-se com ela na sua quinta de Verride, e permitiu que Francisco Xavier deliberasse o destino da criança.

O juiz de fora de Chão de coice, consultado no grande aperto do irmão, combateu o intento da fugida para a Holanda, alegando que uma parvoíce não remediava a outra. Encarregou-se de receber a criança, e mandá-la criar. Acrescentou que, se a criança, no futuro, não devesse conhecer seu pai, ficaria sendo filha do seu tio; e concluiu, sorrindo:

— Não te dê preocupação o filho. Cede-mo a mim, visto que tens a dita de ser fecundo, e é de esperar que continues a dar-me provas de que possuía o dom e a graça dos patriarcas abençoados. Os filhos que sobrevierem di-lo-emos repartindo entre nós. Peço-te, porém, que mudes de rumo quanto às mães da tua futura prole. As freiras acirram bastantemente o pecado, têm amavios e feitiçarias de arte diabólica; mas não servem para mães. Persuadem-se que a esterilidade é uma prerrogativa dos seus amores platónicos; mas, se se esquecem de Platão, por se lembrarem de mais de Epicuro, apavoram-se, como Catarina, quando se acham o mais corporalmente que é possível mulheres etc.

E ficaram pactuados. Assim que a criança nascesse, perto de Verride estaria pessoa confidente de Paulo Xavier para recebê-la. Seria criada em casa do seu tio, o qual deixar-se-ia pacientemente caluniar de pai, visto que, depois de reiterados esforços, não lograra a invejada felicidade de ter um filho.

Catarina de Castro aceitou resignadamente a convenção; mas repeliu o alvitre da sua mãe, que lhe instava pela entrada em Odivelas. Matar-se-ia, se a violência da mãe e o desamor do amante a quisessem repor entre mulheres odiosas, agora que já não tinha coração que desse a Deus, ou que desbaratasse em novos afetos. Francisco Xavier mitigava estes acessos de rebelde desesperação, prometendo-lhe resgatá-la para todo sempre da clausura; mas nestas promessas não havia a intimativa da verdade nem a veemência do amor.

Nasceu uma menina numa noite de Outubro de 1714. À volta do ermo e desconversável aldeia de Verride rangiam as árvores, varejadas por pegões de vento. Se houve gritos, abafou-os o retroar da trovoada. Francisco Xavier viu o rosto da sua filha à luz sulfúrea de um relâmpago, quando a passava às mãos de uma mulher enviada por Paulo. Fitou-a na escuridão alguns segundos, esperando o fosforear de outro relâmpago. Sentiu-a fria, e assustou-se com os vagidos. Bafejou-lhe calor às faces, e depô-la no seio da mulher, que se agasalhou numa casa da quinta, onde Francisco Xavier passara os últimos dias escondido.

A criança, no dia seguinte, foi para Chão de coice, e o pai voltou para Coimbra, carecido de repouso, de solidão e silêncio; porque se sentia cansado, aborrecido de lances tristes, e saudoso dos desprendimentos da sua vida de outro tempo.

Catarina, entretanto, dizia-lhe que o último prazo de licença estava a terminar; que a mãe não cessava de lhe pedir que voltasse para o convento; enfim, que uma sua amiga leal de Odivelas lhe escrevera assustada por saber que Francisca Melo, e outras, alguma maldade teciam contra ela, fosse o que fosse, porque, lá no convento, andavam uns zunzuns a dizerem que ela era de raça judia.

Nem Catarina nem Francisco Xavier deram valor ao dito de cristã-nova; mas a mãe alvoroçou-se e, pálida de susto, referiu à filha a história dos seus ascendentes. Traspassada de medo, a freira acelerou os preparativos da fuga, dispondo-se a procurar, sem antecipado aviso, o amante em Coimbra. Já a mãe propriamente a induzia a sair do reino e censurava a frouxa diligência do perdedor da sua filha pela sua parte, Francisco Xavier, colhendo em Coimbra com autorizados informadores, nos arquivos do Santo Ofício, notícias da família Pinas de Montemor, soube os nomes de vinte e tantos réus daquela família, uns queimados, outros nas galés, e muitos penitenciados com hábito perpétuo. Atemorizou-se como quem era filho de Jorge Mendes e sobrinho do bacharel Afonso Nobre, queimado em 1664. Foi ter com o irmão. Referiu-lhe aflitivamente os seus receios. Paulo não sorriu dos sustos do irmão nem dissimulou os próprios; antes pelo contrário o incitou a partirem sem demora.

Voltou Francisco Xavier a Coimbra. Partiu na mesma noite para Verride, com o propósito de se abalarem dali ao Porto, e negociarem a passagem por mar. A meio caminho encontrou um camponês que o chamou pelo seu nome. Era o quinteiro da aldeia de Verride que ia a Coimbra avisar Francisco Xavier de que as suas amas tinham sido naquele (lia presas por dois familiares do Santo Ofício, e conduzidas a Montemor.

A estupefação nublou-lhe o juízo e a inteligência clara da sua situação. Seguiram-se quinze minutos de agonia que nenhum homem os trocara pelo amor e pelas virginais carícias da formosa freira.

— Eu fui infame em não ter fugido com a desgraçada! — dizia ele de si para consigo, exacerbando a dor da saudade com condenação de ter mentido à vítima que pusera nas mãos dos inquisidores.