A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 6 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo IV · O doutor Xavier lançou-se nos braços do…

 

O doutor Xavier lançou-se nos braços do irmão. Lastimava-se perdido. A cada rumor nas escadas do juiz espavoriam-se-lhe os olhos contra a porta. Todo o homem inocente e inofensivo se lhe afigurava esbirro do Santo Ofício.

Aconselhado prudentemente, partiu aforrado para Lisboa, onde tinha um sincero amigo, o conde de Rio Grande. O conde escondeu-o na sua casa, e indagou os intuitos da Inquisição de Coimbra no Conselho Geral. Soube que a freira e a sua mãe respondiam por culpas de fé e impureza de sangue; que a denúncia partira de uma casa religiosa; que Francisco Xavier não fora implicado na denúncia. Só um fidalgo tão poderoso, e aparentado com o inquisidor-geral, poderia arrancar tal segredo da secretaria do tribunal.

Qual tivesse de ser a sentença das encarceradas, isso não estava na astúcia humana calculá-lo. Favorecê-las, empenhar na absolvição os validos potentados da corte, é o mais que o conde do Rio podia vencer.

Mas as semanas e os meses arrastavam-se lentos sem que Francisco Xavier tivesse notícias de Catarina. O protetor podia apenas asseverar-lhe que elas viviam aferrolhadas no seu ergástulo de quinze palmos de comprimento e doze de largura, com a escassa luz de uma fresta do tamanho da mão travessa e três palmos de altura, mas tão elevada que as presas só de pé recebiam no rosto claridade. À noite, davam-lhes uma candeia. A mobília era um estrado que apodrecia logo na humidade do chão, e umas vasilhas de barro.

Amolgou-lhe o débil ânimo uma tristeza sem intercadências de esperança. Tudo negro, e o passado irreparável! Convenceu-se de que a pobre menina e a santa mãe pereceriam antes do julgamento. Acusava-se de matador da formosa criatura, cujo amor ele não soubera avaliar. Amaldiçoava-se por haver vilmente faltado à palavra que dera de fugir para Holanda. Era desgraçadíssimo — e devia sê-lo.

Quando a razão ia apagar-se-lhe, iluminou-o o clarão da fé, com todas as suas fulgurações sinistras, reverberadas das penas do fogo eterno. Não viu ponto intermédio entre a vida ascética e o suicídio. Pensava nas duas saídas da sua angústia, ao mesmo tempo. Matar-se de um golpe e cair no inferno, ou dilacerar-se devagar, fibra a fibra, e ganhar a graça de Deus deleitando a divina justiça com o espetáculo da carnificina própria.

Acudiram-lhe à demência o conde e o irmão, pedindo-lhe coragem viril em nome da filha. Ele respondia que a criancinha era a expressão providencial das cóleras divinas.

Naquele ano, falava-se muito da conversão de Baltasar Casqueiro, um homem de humilde sorte, valente facinoroso, espancador professo, que pouco antes pertencera ao bando do arruador noturno Sebastião de Carvalho, que entrou na imortalidade com o título de marquês de Pombal. Casqueiro, que então contava trinta anos, embrenhara-se em fraguedos aspérrimos nas vizinhanças de Évora, chamados Monte furado ou Covas infernais. Havia ali um núcleo de conversos, atraídos pelas rudes penitências de um caldeireiro de Lisboa. Daquele alfobre de ermitões saiu, volvidos anos, Baltasar Casqueiro, o fundador do convento do Senhor Jesus da Boa-Morte, de monges descalços de S. Paulo, primeiro eremita. Lisboa ajoelhava-lhe à saída dos templos. Fr. Baltasar da Encarnação se chamava ele, e não cessava de dizer quando escrevia untuosos sermões que na sua mão assentava melhor a sovela que a pena. Havia sido sapateiro, ou artista confecionador de calçado, como diz na tabuleta um seu atual colega do Porto, menos santo, e infinitamente mais tolo. Já não há sapateiros… nem santos daquela massa.

O doutor Francisco Xavier queria ir para as Covas infernais. Não havia razões e rogos que o demovessem quando o seu condiscípulo e amigo, o irmão do marquês de Gouveia, D. Gaspar de Moscoso e Silva, reitor da Universidade de Coimbra, vestiu o hábito humilde da ordem dos menores observantes de S. Francisco de Assis, ou missionários apostólicos do Varatojo. Assim que lhe chegou a estrondosa nova do sucesso, Francisco Xavier foi lançar-se aos pés do frade varatojano, rogando-lhe que o levasse consigo. Fr. Gaspar da Encarnação, reconhecendo o condiscípulo, cujos devaneios por Odivelas deplorara no âmago do seu peito, levantou-o nos braços; e orvalhado de seráficas lágrimas, entoou vários versículos da Bíblia muito apropositados. Choravam ambos copiosamente.

O doutor Xavier, passados dois meses, era frei Francisco da Luz, macerado, envelhecido, estúpido, fanático, bestial à força de se degenerar, de se amputar, de se infamar de assassino das duas encarceradas. O único acto louvável da sua mortificação claustral era celebrar missa quotidiana por alma de Catarina, com licença do seu diretor espiritual, posto que ninguém lhe dissesse que Catarina estava morta. Na filha não falava, quando respondia às cartas do irmão. Verdade é que Paulo, falando da menina, escrevia sempre: «A minha Antoninha, a minha querida criança, a minha doce filha, o meu pequenino anjo, etc.».

Por onde se depreende que a filha de Catarina fora batizada com o nome de Antónia, e vivia na companhia de... O seu pai. Pai é que diziam todos, e a ama que a criava, ao fim de dezoito meses, conseguiu que a menina articulasse a palavra papá.

Deixemos o frade, e vamos à Inquisição de Coimbra.

As duas presas, passados os primeiros meses, sentiram a influência das valiosas proteções. O conde do Rio Grande movera à comiseração da religiosa o real coração que pulsara por ela uns dias. D. João V foi, também, rogado por D. Paula a favor de Catarina. Esta generosidade da amante do rei denotava a compaixão pela mulher que D. João lhe sacrificara. Duas tinham sido as vítimas imoladas a Paula. Catarina resignara-se e continuara boas aparências de amizade com a ditosa; porém, Francisca Melo não só cortara relações, mas até a tratava de mulatinha por ser morena (como era justo que o Salomão português tivesse uma — Nigra sum, etc.). Bastava isso para que Paula protegesse a inimiga de Francisca.

Como quer que fosse, as duas senhoras, acusadas de cristãs-novas, depois de removidas para uma sala do edifício, com liberdade de mudarem as suas roupas e escolherem seus alimentos, foram confiadas à doutrinação de um dominicano, ancião bondoso que lhes explicava as estampas de uma bíblia francesa, e lhes traduzia e comentava La História de Santo Domingo pelo mestre Hernando de Castillo. Contava-lhes os casos miríficos de conversões que estrondeavam no mundo, e particularmente em Portugal: por exemplo, a conversão do façanhoso Baltasar Casqueiro, a entrada de D. Gaspar Moscoso no Varatojo, e também a conversão que levara ao mesmo convento o rico e mundanal doutor Francisco Xavier.

Catarina com febril transporte perguntou-lhe se esse doutor era um que...

Atalhou-a o padre, dizendo:

— Era um que vós, soror Catarina, havíeis de conhecer há dois anos entre os regalões que o inimigo do género humano deputava ao vosso convento de Odivelas. Esse é, irmã, que não outro.

— E está frade?! — exclamou Catarina, sem atentar na mãe que lhe fazia trejeitos aflitos.

— E frade varatojano — respondeu o padre atribuindo a veemência da freira ao assombro de tamanha maravilha.

Desataram-se as lágrimas dos olhos de Catarina e nem assim respirou da sua grande opressão. Soluçava sufocando os gritos; contorcia os braços, e enclavinhava as mãos, erguendo-as para a cruz. E o dominicano estava espantado ou desconfiado de tais demasias, até que a mãe dissimulou aquelas posturas trágicas, explicando que a sua filha, quando ouvia passagens que a comovessem, tinha semelhantes ataques...

— Então é nervos... — assentiu o padre de boa-fé. É moléstia a que as freiras são muito atreitas. Mas algumas conheço eu em Celas, que sofrem disso, e já lhes receitei uma boa disciplina ao deitar, outra ao erguer, e muitos jejuns; porque tenho observado, senhoras minhas, que as mulheres do campo, que trabalham e suam, não têm desses ataques... Eu acho bom e saudável para a alma que uma pessoa se edifique ao ouvir contar casos maravilhosos de conversões. Bom sinal é esse de predestinação... Mas cada coisa tem seu lugar; e a sua aflição, Sra. D. Catarina, é extraordinária... Sempre me quer parecer que a irmã Catarina, ouvindo falar dos pecadores e pecadoras de Odivelas, teve um ruim demónio, que lhe trouxe uma saudade e lha pôs sobre o coração como brasa viva... É preciso apagá-la...

— Está enganado, senhor... — atalhou Catarina estancando as lágrimas.

— Debaixo destas abóbadas mentir é mentir a Deus, que não pode ser enganado — admoestou o qualificador do Santo Ofício. — A profana Odivelas explica a Santa Inquisição... Creio que me percebe; e, se não percebe, não posso esclarecê-la. A sua prisão, senhora, é uma vingança, e ainda bem que a culpa é de fragilidade e não de fé. Quando voltar ao seu convento, confunda as suas inimigas com exemplos de virtude... E se esse desvairado doutor Xavier, que Deus chamou ao seu aprisco, foi Parte nos desvarios de soror Catarina, peça ao Senhor que lhe ilumine o coração com as luzes da mesma graça.

E, pondo-lhe brandamente a mão no ombro, concluiu:

— Os maus exemplos... os maus exemplos!... Madre Paula dará no inferno os formidáveis gritos da alma que arrastou outras, e o cetro que tudo pode será vara de eterno fogo e eterna justiça nas mãos do mau príncipe...