A Caveira da Mártir
Capítulo X · Não está bem líquido, se por gratidão…
Não está bem líquido, se por gratidão às pastilhas, se a rogos do conde do Rio e do doutor Xavier, o médico Eliot foi nomeado cirurgião-mor do exército, com patente de coronel de cavalaria. Os médicos mais distintos de Lisboa, não podendo desabafar nos prelos, sarjavam a reputação do forasteiro, alcunhando-o de huguenote. Avantajavam-se na maledicência e nos créditos Simão Filipe, Manuel da Silva Leitão, o autor do citado Regimento de Paridas, oferecido à sempre Virgem Mãe de Deus, e José Rodrigues de Abreu, médico da câmara d’el-rei, e bom cultor das ciências naturais. Na retaguarda destes, latia e uivava a cainçada miúda da matilha dos sangradores. Eram razoáveis as queixas. Homens encanecidos nos hospitais, bons cristãos, autores de livros in-fólio e até inventores de remédios para flatos e hemorroidas, moirejavam a vida com uns safados cobres, ao passo que o calvinista, estrangeiro, quase imberbe, era despachado cirurgião-mor do exército, chamado às casas mais distintas, relacionado com os mais luzidos fidalgos, e até — suprema prova da real confiança — chamado a Odivelas para medicar soror Paula Perestrelo.
Na volta do convento, perguntou-lhe o doutor Xavier:
— Que tem soror Paula?
— Ciúmes — disse Eliot.
— Que lhe receitou, doutor?
— A outra receitaria eu amores novos.
— E a ela?
— Paciência.
— Como lhe atinou com a moléstia?
— Porque não tinha outra. Languidez, fastio, quebreira, olheiras, suspiros, pulso pirético, espreguiçamentos histéricos — não há que ver: ciúmes.
— E disse-lhe então o doutor: tenha paciência, madre?
— Não, senhor, receitei-lhe água de flor de laranja, que é o mesmo que dizer-lhe: madre, tenha paciência. Estava com ela outra freira, que me pareceu realmente enferma. Perguntei-lhe que sofria. Nada — respondeu ela. «Esta menina — disse D. Paula — é um anjo de bondade que nunca se queixa. Há de morrer sem incomodar os médicos». A freira sorriu-se com a amargura santa das formosas infelizes, e murmurou «Não quero que se enganem, nem que me mortifiquem com os seus xaropes». E eu...
— Sabe como se chama essa religiosa? — interrompeu o doutor Xavier com refreado alvoroço.
— É Catarina, porque ouvi dizer a D. Paula: «Ó Catarina, este médico foi o que amputou a perna do Xavier?
— E ela?
— Ela... quê?
— Que disse?
— Nada…
— Absolutamente nada?! — repisou o padre Francisco, passando a mão convulsa pela cara avincada.
— Essa sua insistência... esse gesto, doutor, tem mistério!...
— Uma simples recordação penosíssima... — dissimulou o mutilado. — Eu conheci essas senhoras, quando era novo e feliz. Elas conheceram-me nesses dias em que o céu e a terra pareciam desentranhar-se em delícias para mim. Quisera e esperava eu que nesta desgraça a que vim, me lastimassem ao menos, e lhe perguntassem se o meu rosto alguma vez estava enxuto de lágrimas. Aqui tem o mistério, Sr. Isaac Eliot.
— O mundo é assim... — decidiu o francês.
— Ainda é bonita? — volveu o padre, passados alguns segundos, com sossegado rosto.
— E há de morrer formosa. Nos olhos tem as cintilações da febre. A epiderme é transparente, com uns laivos de púrpura, em que eu vi o crepúsculo do sol que se esconde. Por baixo e à volta do rubor febril está o emaciado, a morbideza de lírios murchos, a transição para o palor da noite eterna. Mas que maviosidade, que langor, que descair de pálpebras! Eu nunca vi mulher enferma que tanto desejasse salvar!... Está chorando, doutor!? que é isso?
— Conheci-a tão bela, tão cheia de vida!... Vê? eu não queria que ela assim chorasse por mim, não: mas que, ao menos, se compadecesse...
— Aquelas doenças obliteram a memória, gelam o sentimento, e prostram os doentes numa indiferença quase idiota... Hei de falar-lhe do Sr. Dr. Francisco Xavier...
O padre ergueu-se de golpe, e exclamou:
Dê-me a sua palavra de honra que não lhe falará de mim! — E, retraindo-se, como corrido do transporte, cobriu o rosto com as mãos e murmurou: — Eu bem queria morrer... Tinha calculado tudo isto... — Composto o aspeto, prosseguiu com solene serenidade: — Torno a obrigá-lo pela sua palavra de honra que não dirá à Sra. D. Catarina alguma das palavras que me ouviu.
— Basta que mo ordene; é desnecessário o penhor da honra no cumprimento de um dever.
Daí a dias, a enferma de ciúmes mandou chamar o doutor Eliot. Estava Catarina na antecâmara da freira, onde os médicos eram recebidos. Soror Paula Perestrelo, bem que abeberada em essências de flores de laranjeira, piorava. Queixava-se de frenesis. Mirava-se nos espelhos que forravam as paredes, e dizia que estava ética. Punha as pontas afiladas dos dedos sobre o coração, e murmurava: «está aqui a morte». Puxava umas aspirações convulsas, e levantava-se a sorver haustos de Sr. Eliot, com o fim de lhe distrair o ânimo, contou novidades. Referiu o caso do infante D. Francisco e dos ciganos. O infante andava caçando no Alentejo, e afastou-se da comitiva. Embrenhando-se num matagal deu de rosto com uma jolda de ciganos, que o cercaram, pedindo-lhe alguns cruzados. D. Francisco respondeu-lhe que coisa de valor não tinha ali senão um assobio de prata. Gabaram-lho, e puseram-se a assobiar tão alto que a comitiva do infante correu para o ponto à desfilada. Os ciganos queriam fugir; mas o infante matou três à espada, fez amarrar os outros, e mandou-os enforcar...
— Jesus! que crueldade! — exclamou Catarina. — Que mal lhe fizeram ao Sr. infante para assim os matar?
— Menor mal lhe fez o marujo que marinhou pelo mastro para lhe dar vivas, e o Sr. D. Francisco lançou-o abaixo morto com um tiro — acrescentou D. Paula que participava do ódio de D. João V ao celerado duque de Beja.
— Não contem essas coisas que me afligem! — pediu a Muleirinha, contraindo as faces.
Divertiu o médico a atenção para novidades da corte, ressabiadas de galanteria. Tinha estado no sarau do conde de Tarouca, apresentado pelo seu amigo conde do Rio Grande. Viu dançar minuetes a várias damas, e nomeou como superior a todas D. Luísa Clara de Portugal, sobrinha do conde de Castelo Melhor.
Soror Paula carregou o sobrolho, e perguntou:
— Dança bem?
— Perfeitamente. Ê muito linda senhora...
— E promete lindas coisas essa dançarina... — disse a freira.
— Pois julgou que... — volveu Eliot.
— Que julgou, doutor?
— Que era o anjo da candura... Tem quinze anos... uma fisionomia infantil...
— El-rei falou-lhe nela?
— A mim?! sua majestade não me honra tanto que me faça confidente dos seus juízos a respeito das fidalgas da sua corte...
— Pois... — replicou a filha de S. Bernardo — julguei que a paixão faria el-rei indiscreto...
Coração profético de mulher que ama! Aquela D. Luísa Clara de Portugal era grande parte nas congestões, por ciúme, de soror Paula. O rei gabara-lha como joia incomparável, e mais nada. Era então solteira. Casou cinco anos depois com D. Jorge de Meneses; e, do mesmo passo que dava filhos ao esposo, também, por liberalidade fecunda, os dava ao rei. Chamou-se a Flor da Murta. E, se o esposo acabou da paixão da sua condenação, em 1735, na quinta de Ferrugem, a sua viúva teve a dita de ver dois dos seus reais pimpolhos muito bem arranjados: um, que era D. Gaspar, foi arcebispo de Braga; outro, D. José de Bragança, foi inquisidor geral.
A freira de Odivelas tinha alma intuitiva como os nervos que pressentem a trovoada, quando não aponta ainda uma névoa no espinhaço das serras. Quem lhe disse que a joia incomparável viria a engastar-se no seu diadema de sultana aposentada?
Saiu a Perestrelo precipitadamente da antecâmara com um dos tais frenesis, dizendo que tinha precisão de correr, correr muito. O doutor achou-a linda naquela doença em que o menear-se muito sacudida e nervosa lhe ia muito bem. Verdade é que o francês achava todas as mulheres lindas, as sãs e as doentes, as alquebradas e as dançarinas.
D. Catarina ficou fazendo sala a Eliot; e com inquieto receio, lhe perguntou se a sua amiga poderia enlouquecer. E contava que ela tinha uns ataques em que chorava e ria, debatia-se, revirava os olhos, ringia os dentes, agadanhava o espaldar do leito, e ficava por morta...
— Não se assuste, minha senhora — esclareceu o médico.
— Esses insultos nervosos há de curá-los a munificência d’el-rei com medicamentos que nós, os médicos, não podemos receitar.
Catarina abaixou os olhos, e sorriu.
— E como tem passado Vossa Senhoria, desde que eu cá estive? — perguntou o doutor.
— Bem.
— Permite-me que lhe tome o pulso?
— O pulso!... — disse ela, estendendo-lhe o braço. — Que faz o pulso?
— No pulso contam-se as pulsações do coração, minha senhora. É aqui onde a morte diz ao médico a distância a que está da sua vítima.
— Está perto de mim?
— Não, minha senhora... Está longe; mas eu receio que seja Vossa Senhoria que se avizinhe dela.
— Receia?... Pensa bem... Não lhe fujo, não...
— Deve ter família, minha senhora...
— Tinha mãe, que morreu há dois anos. Porque mo pergunta? — disse ela com a angustiosa suspeita de que o doutor lhe soubesse a vida, confidenciada por Francisco Xavier.
— Parecia-me que a saída do convento, outros ares, família, liberdade, campo, uma natureza menos artificial, relva em lugar de tapetes, árvores em lugar de espelhos e arrases, céu em lugar de tetos artesoados, aromas de flores em lugar dos pivetes e caçoulas que rescendem nesta casa... enfim, uma completa mudança de viver...
— Não tenho ninguém lá fora que me ame nem que eu ame. A minha amiga única é Paula. Se ela morrer, estou de todo sozinha. Deus me leve adiante.
Ficou silenciosa. Isaac Eliot contemplava-a com uma compaixão mais atenta que o amor.
— Não disse Paula que o Sr. Doutor... — Catarina, que começara a pergunta com veemência, reteve-se.
— Que eu... — instou o francês.
— Não sei que lhe queria perguntar — disse ela; mas, obedecendo ao reimpulso, completou a ideia. — Ah! sim... Disse Paula que o Sr. Doutor salvara da morte um homem ferido na batalha naval...
— O doutor Xavier? Sim, minha senhora. Salvei-o, perdida uma perna.
— E ele... vive muito triste, nesse estado?
— Magnanimamente infeliz. É a desgraça que chega a parecer bela na serenidade, na paciência, na mudez eloquente do exemplo aos que se revoltam.
Catarina escutava-o absorta, quando soror Paula entrou.
Isaac Eliot ergueu-se à chegada da freira, tomou-lhe o pulso, e disse:
— Está melhor, minha senhora, Retiro a água da flor da laranja.
— E que hei de tomar, doutor?
— Ar; mas depressa, a correr. Faça de conta, minha senhora, que o ar é o amor para o qual vamos aceleradamente...
— O ar é o amor? e o amor é ar, penso eu... Quer então que eu corra?
— Como quem foge de um fantasma; porque a moléstia da vossa Senhoria é um fantasma, uma falsa visão como a dos ciúmes...
— Dos ciúmes?
— Injustos, infundados, caprichosos, miragens funestas que se figuram aos corações muito contemplativos e abstraídos das coisas reais.
— Então... persuade-se...
— Que a vossa Senhoria é ingrata quando sofre, porque faz sofrer quem lho não merece.
Referindo soror Paula estes dizeres ao rei amado e amantíssimo, D. João V gostou tanto do francês que resolveu agraciá-lo com hábito e tença de cavaleiro professo na ordem de Cristo.
CAPÍTULO XI
Por este tempo foi despachado desembargador para a Índia Paulo Xavier. Quis recusar por amor de Antónia; mas o padre despersuadiu-o, raciocinando que a menina carecia de alguma educação em companhia de família hábil; que, no fim do seu triénio, Paulo voltaria desembargador para o reino, e então encontraria a menina com dez anos de idade e já bem encaminhada a uma perfeita educação que lhe fosse realce ao grande património. Lançou o desembargador inculcas, e descobriu família virtuosa, em que havia uma senhora muito prendada de quem algumas meninas da primeira nobreza recebiam lições de francês. O chefe da família chamava-se Heliodoro Pedegache, era empregado na Índia e Mina, e casado com a tal dama de cujas prendas e virtudes soavam, grandes louvores.
Foi Paulo Xavier com recomendações valiosas procurar o Pedegache. Disse-lhe que, tendo de servir três anos em Goa, não queria expor a sua filha única aos padecimentos e incertezas de tão demorada viagem para um clima doentio. Pedia-lhe instantemente que lha recebessem como aluna, porque ela não tinha senão remotos parentes, à exceção do seu tio, o padre doutor Francisco Xavier, que vivia aleijado e hóspede do conde do Rio Grande. Que o tio de Antónia iria vê-la algumas vezes, e gratificar o impagável serviço que faziam a um pai extremoso e a uma filha orfanada de mãe.
O separarem-se foi lance doloroso. Antoninha abraçava-se no tio, desfeita em lágrimas, bradando que nunca mais veria seu pai. O padre Francisco Xavier, que assistiu à despedida, e se esforçava por consolar a menina, foi recebido e quase repelido desabridamente. E quando a senhora Pedegache, na ausência do consternado padre, lhe insinuava que repartisse com o tio o amor que tinha ao pai, Antónia respondia que nunca pudera afazer-se ao tio Perna-de-pau.
Ó sangue, como tu gritas! Ó homem, que impostor e iníquo és tu, negando-te de primo-co-irmão do macaco! Não vês que te avantaja em dom de palavra o que te escasseia em instinto filial? Se te não mostrarem teu pai, passarás por ele, como ele por ti, se a roda lho cuspiu à lama que pisa. Desce do vértice da pirâmide em que te aclamaste rei da criação, e olha-me por essa espiral abaixo as simpatias instintivas que entreligam filhos e pais!
Assim declamaria o doutor Xavier quando a filha, dando as costas com arremessos aos seus carinhos, segredava ao tio:
— Meu pai, não me deixe, leve-me consigo que eu morro de saudade!
— Cá te fica o tio padre que te quer muito...
— Que me importa a mim o tio padre... — soluçava a filha de Catarina de Castro.
Francisco Xavier passou este dia muito atribulado. Saudades do irmão e o desamor da filha, com o acréscimo das novas tristes que o médico lhe trouxera de Odivelas.
Ao outro dia contava Eliot a Paula e a Catarina que o doutor Xavier passara a noite ansiadíssimo, e o não dispensara de lhe fazer companhia até de manhã. Historiando o motivo desta mágoa sobrevinda a tantas e tamanhas, disse que um irmão do doutor embarcara para a Relação da Índia, e deixara entregue à vigilância do padre uma sua filhinha.
— Era casado o irmão? — perguntou Catarina.
— Eu não sei, minha senhora, se foi casado. Sei que a menina já não tinha mãe.
— Que idade tem? — disse a religiosa.
— Sete anos ouvi dizer, e é muito bonita.
— Viu-a?
— Sim, minha senhora.
— Onde?
— Em casa do conde do Rio, onde ela vinha todas as semanas com o pai visitar o tio, que parecia adorar a criança. A primeira vez que a pequena viu o tio com a perna de pau, recuou espantada, fugiu para o pai, e rompeu em alto choro, que eu pensei ser de compaixão; mas parece que era de medo. O padre perguntava-lhe cariciosamente se gostava dele, e a Antoninha respondia que só gostava do pai. Isto desconsolava-o a termos de lhe saltarem as lágrimas. E quer-me parecer que as agonias desta noite prendiam com o desafeto da menina, porque ele, contando-me as particularidades da despedida, a falta que lhe faz o irmão, e o presságio de mais o não ver, juntou que nem ao menos lhe restava o doce esteio do coração da sobrinha.
Catarina recolhera-se em taciturnos pensamentos. Soror Paula, ferida das mesmas suspeitas da sua amiga, desejava esclarecer alguma vereda que a conduzisse ao mistério, mas via raio de luz. Isaac Eliot não sabia mais nada nem não rastreava o interesse reservado da amante d’el-rei. O mais que adiantou foi que a menina entrara como educanda em casa de um tal Heliodoro Pedegache, casado com uma matrona muito prendada que falava francês e que havia sido, em menina, aia de Mademoiselle Ana Armanda Duverger, amante do Sr. D. Pedro II.
Logo que ficaram sozinhas, Paula, olhando muito a fito a amiga, murmurou como se receasse que a ouvissem:
— Eu estava no teu coração, Catarina... Tive a mesma suspeita... Será tua filha?
— Ah! tu, Paula!... também desconfiaste?!
— Logo; e não te sei dizer porque... Assim que o doutor te disse que a menina tinha sete anos... E depois as angústias de Francisco Xavier, impróprias e desnaturais num tio que viveu sempre afastado da sobrinha... Não achas?
— Mas... não posso acreditar... — acudiu a religiosa — Se fosse minha filha, ele tinha-mo feito saber... havia de querer que eu o não considerasse tão vil, tão sem entranhas que enjeitasse a minha filha...
— Isso não me despersuade... O que me aflige é ver tudo cerrado... não sei por onde hei de chegar ao desengano... E, se não nos enganarmos, filha... se for ela? que fazes?
— Se a poder ver, se a poder beijar não morro... Verás...
— E, se ela te repelir como repele o... pai?
— É impossível!... uma filha repelir sua mãe!...
— Jesus! há tantos exemplos!... Não há aí uma fidalga que seja amada dos filhos. Entregam-nos às amas, e afastam-nos das salas para não incomodarem as visitas nem mancharem os tapetes. As crianças, aos seis anos, só conhecem e verdadeiramente amam as amas e as aias que lhes acalentaram o choro com brinquedos, e lhes encobriram as travessuras para que as mães as não castigassem mais por aborrecimento que por educação… Depois, as crianças fazem-se mulheres, e escondem-se das mães para verem e conversarem os futuros maridos. Se são homens, preferem o engodo da mais baixa libertinagem à glacial serenidade da vida doméstica. Não te espantes, pois, se a tua filha, que nunca te viu, te repelir. E de mais, tu decerto lhe não dirás que és sua mãe...
— Não decerto...
— Portanto, se ela existe, e chega a ver-te, faz de conta que viu uma senhora muito carinhosa, que nunca tinha visto...
— E, se o coração lhe disser...
— Valha-te a Virgem dos Impossíveis! o coração não diz nada; o mais que faz é repetir o que lhe dizem. Deixa-me cismar... Dá-me tempo. Isto não há de ficar assim... Mas tem muito melindre o negócio, não tem, filha? Primeiro que tudo, é preciso salvar a tua honra; porque ninguém te perdoa, sendo o teu amante, hoje em dia, um sacerdote afastado do mundo, sem nome, nem glória de ter perdido uma perna. Deus nos livre que estas serpentes de Odivelas pudessem enroscar-se-te ao pescoço! Afogavam-te com a espuma das goelas peçonhentas! Olha a Pimentona, (soror Paula variava entre Pimentona e Pimentorra, quando falava de Pimentinha) amarrava-te ao pelourinho do escárnio público, visto que não pôde fazer-te deslocar os ossos no cavalete da Inquisição. Estas santas empurravam-te para a rua, e atiravam com o teu desdouro à cara do rei, que as obrigou a voltar para aqui a pontapés dos quadrilheiros do corregedor. É precisa muitíssima astúcia nas tentativas que se fizerem. Deixemo-nos de modéstia: eu sei que tenho génio para gizar os mais complicados tramas; confesso, porém, que desta vez me sinto estúpida como a nossa madre abadessa.
Soror Paula meditou o que quer que fosse, atingindo duas empresas. Primeira, indagar nas terras onde Paulo Xavier serviu lugares da magistratura, e particularmente em Chão do coice, se ele tinha uma filha legítima ou ilegítima de mãe mais ou menos conhecida.
Quanto à legitimidade, asseverava Catarina que Paulo era solteiro, quando Francisco Xavier, em Verride, recebeu a filha; e, se casou depois — concluiu a freira — esta menina não pode ser filha dele.
A segunda empresa, dado que a primeira sortisse a certeza de que a menina era filha de Francisco Xavier, seria trocada depois, quanto à maneira de aproximar Antónia de Catarina.
No plano da ladina religiosa, Isaac Eliot havia de prestar inconscientemente serviços preciosos, respondendo a certas curiosidades muito de indústria pensadas com ressalva da menor presunção do intento.
Este elemento do seu desenho falhou.
Falecendo o pontífice Clemente XI, naquele ano de 1721, D. João V ordenou que se aparelhasse uma nau para levar a Roma, a votarem no conclave, os cardeais Nuno da Cunha e Pereira de Lacerda. A ostentação desta mensagem custou a Portugal dois milhões de cruzados, diz o visconde de Santarém, elogiando a liberalidade régia. Como os seus enviados levavam missão de aliciar cardeais no sufrágio de um determinado papa, deu-lhes o rei dois caixotes de barras de ouro para a veniaga. A baixela que foi para bordo era de prata e oiro. Só de pratos cinquenta dúzias. Na companhia dos cardeais, que receberam cinquenta mil cruzados cada um para ajuda de custo, iam outros funcionários, e entre estes, como físico-mor, Isaac Eliot, escolhido pelos cardeais. O que recebeu menor espórtula à saída foi um ajudante de cozinha a quem couberam vinte moedas, isto num tempo em que se decretava para um lente de medicina no hospital real um tostão por dia.
Francisco Xavier, afeito à convivência do seu médico, e tão amigo dele quanto cabe ser a homem sequestrado do mundo, magoou-se do apartamento, e delicadamente motivou a sua dor com a soledade, desamparo, e misantropia em que o deixava. Não pôde, todavia, o cirurgião-mor do exército esquivar-se à soberana vontade. Queria o rei que o médico dos seus cardeais se empavonasse em Roma por dotes de galharda presença, e pelos créditos da profissão. Além disso, o cardeal Cunha julgava-se escape da morte pela virtude de uma burra que o aleitara, receitada por Eliot; e pelo tanto não prescindia de levar o medico.
Na tristeza do padre era grande parte não ter notícias de Odivelas. O conde do Rio envelhecera mordido de contrição das suas culpas. Era o costume. Lograr Satanás no fim. Fazer-lhe como o sujeito do Garrett. Meter a parte exposta na benta água, e dizer:
Agora, seu diabo, venha para cá, se é cavar!
Não queria ouvir falar de freiras, e louvava o silêncio penitente do seu hóspede a respeito de Catarina que, ao parecer do reformado libertino, devia andar de amores com algum dos perdidos que lá se infernavam naquele viveiro de tentações. O doutor escutava-o constrangido, e dizia-lhe:
— Se ela é pecadora, perdoemos-lhe, Sr. Conde, para que Deus nos perdoe.
— Ámen — obtemperava o outro bastantemente ungido de caridade.