A Caveira da Mártir
Capítulo XXVIII · — As cartas por mil cruzados são…
— As cartas por mil cruzados são baratíssimas — encareceu Henrique Rutier batendo as palmas.
— Contando com a tua habilidade, que eu gratificarei com outros mil cruzados — acrescentou Isaac Eliot.
— Diga lá o seu plano a ver se concordamos.
— Concordamos sim, meu Henrique. Plano aqui há só um: imitando a letra de Frisch, dirás a Antónia o bastante para ela se julgar esquecida ou desprezada.
— Isso! — afirmou Rutier.
— E imitando a letra de Antónia, dirás a Frisch que obstáculos insuperáveis a obrigam a casar à vontade do seu tio, etc.
— Tal qual. Pensamos os dois pela mesma alma. Esse et etecetera é exclusivo do meu engenho. Se as letras se fingirem facilmente, discursarei a propósito dos deveres dos filhos e das sobrinhas. Ele dirá coisas sublimadas só inferiores às coisas superfinas que ela há de expender.
— És o rei dos velhacos! — aplaudiu o filho da sarracena batendo-lhe no ombro duas cariciosas palmadas.
O boticário, concluída a veniaga, renovou as drogas e os créditos, obrigando com súplicas o médico a restabelecer-lhos. Eliot acedera aos rogos que eram equívocas ameaças de desfazer a perfídia, avisando secretamente D. Antónia Rutier aconselhava todas as concessões ao traidor enquanto o casamento se não fizesse e encarregava-se na extrema apertura de arpoar O segredo no bucho do boticário com duas estocadas. O certo, porém, foi que Jácome inventou por esse tempo um «unguento para impigens de humor frio» e uns «rebuçados para obstruções do bofe» com aprovação do cirurgião — mor do exército português e cavaleiro professo na ordem de Cristo, o doutor Isaac Eliot, bem conhecido da nobreza lusitana, dizia o anúncio da Gazeta.
Ensaiando a mão primorosa na imitação das letras, Henrique mostrou ao amo a primeira prova. O médico hesitou em distinguir as cartas verdadeiras das imitadas. A destridade do falsificador justificava a sentença que o condenara a perpétua grilheta nas galés de Touion. «Mas — dizia ele com tal qual filosofia bebida nos frenologistas — que culpa tenho eu, se a natureza me aperfeiçoou tanto a bossa?»
Resumidamente, das duas cartas, que serviram aos ensaios de Rutier e nortearam o plano de Eliot, constava que Josse Frisch obtivera licença do seu pai e comissão da academia de Berlim para continuar em Portugal as suas investigações científicas nas ciências naturais; não vinha, porém, a Portugal antes do ano seguinte, 1730, porque só então seu pai recolhia das suas renovadas excursões a Inglaterra e Irlanda. Esta carta denunciava propósitos algum tanto arrojados e menos conformes ao conceito de perfeição que o douto progenitor formava da candura do rapaz. O intento de se casarem parecia matéria deliberada. Depreendia-se do fraseado das duas cartas que a vontade do padre e do tutor seriam fraco impedimento ao santo enlace dos amores contrariados. Entre outras expressões usuais da paixão vulgar, Josse escrevera as palavras rapto e fuga com a desassombrada franqueza de quem pensa segredá-las à mulher amada e amante pela sua parte, a menina, com raro resguardo em anos inocentes, omitia na sua carta o consenso em fugir; mas entregava-se ao destino, e fundava a sua confiança na cega fatalidade, acrescentando estas linhas:
...Tenho tido aflições, que me cortam o coração, desde que o médico me diz palavras semelhantes às tuas, e se fica a olhar para mim muito firme à espera que eu lhe responda, ou a ver se me lê no rosto o amor que te tenho e a raiva que ele me faz. Tenho muito medo à amizade que o meu tio ganhou a este francês... E o seu único amigo. Não está contente senão com ele. Em dia que o não veja ninguém o atura. Até hoje nada te disse a respeito do médico para evitar que te inquietes; nem te deves inquietar, meu amado Josse; mas quero que lá saibas que eu vivo cada vez mais mortificada. O que me vale é o extremo carinho da freira que me dá esperanças e alento, prometendo-me a proteção que me daria a mais estremecida mãe. Contemos com ela; também te quer muito, por ver quanto eu te amo; e não devemos contar menos com o valimento da D. Paula, que faz o que quer com o meu tio, não sei porquê. Oxalá que a tua primeira carta me diga que arranjaste modo de vir para Lisboa, com licença do teu pai. Se torno a ver-te, meu Josse, morrerei contente, se não puder viver feliz. Esta poesia que me mandaste mostrei-a à minha freira. Ela chorou, e disse-me que a faziam chorar os versos em que tu me figuras morta e vens chamar-me à sepultura. Que triste pensamento! Não penses desgraças tamanhas, meu amado Josse! Deus há de permitir que me leves para o teu país cheia de vida e contentamento. Cedo ou tarde assim há de acontecer...
Este fragmento, encerrando o passado e o esperançoso futuro de Antónia, não podia ser mais explícito. Eliot colheu aí bastantíssimos elementos com que gizar o seu plano. Ele nos dirá oportunamente o itinerário que traçou em consulta com Henrique Rutier.
Entretanto, Antónia, assustada com a falta da carta, escrevia outra, e desoprimia-se a chorar na grade de Odivelas.
D. Catarina fantasiava as consolações triviais do costume; extravio no correio, ou retardamento na remessa; mas pressagiava desastre. As pessoas que padeceram muito avultam agoureiramente as desgraças alheias. Que diremos das mães na condição de Catarina?
O padre, apesar de perspicácia de pai avaro da sua filha, nem de leve suspeitava os desígnios do médico. A compostura respeitosa do francês na presença de Antónia era tanta, que Francisco Xavier, por vezes, reparando nos modos gélidos do seu médico e na gravidade da filha, dizia de si consigo: «Parece que se detestam!»
Uma vez disse ele a Eliot:
— O doutor trata esta menina com umas cerimónias que já raramente se usam com as damas de idade madura. Olhe que ela fez há poucos meses catorze anos...
— Mas como aos treze já amava, afiz-me desde então a considerá-la senhora — respondeu Eliot.
— Já amava! — replicou o padre em tom jovial — Não amava, brincava. O primeiro amor de uma menina é a vingança de uns arrufos com a boneca; é uma diversão pueril. Os arrufos passam, e a menina volta às suas bonecas.
— É coisa que sua... filha — perdão! — bonecas é coisa que a sua sobrinha nunca teve, desde que eu a conheço.
— Tem-nas no espírito: brinca e folga com as suas fantasiazitas como nós os do sexo duro com os fantásticos espetáculos das nossas ambições de ciência, riqueza, glória. Creia que a minha sobrinha está tão afastada da criancice do tal amor como eu estou corrido do cabedal que fiz dessa rapaziada.
— É cedo para se arrepender, meu caro amigo do coração... — objetou o francês.
— Não gosto do ar com que me faz a advertência, doutor! — acudiu o padre desassossegado — Sabe alguma coisa?
— Do coração humano... bastante.
— E do coração da minha sobrinha?
— Quem conhece um conhece-os todos. As variedades são acidentes casuais das circunstâncias. É o barro com diversas cores; mas tudo barro.
— Nada de figuras, Sr. Eliot. Linguagem de amigo. Sabe se a minha sobrinha se carteia com o alemão?
— Não sei.
— Qual é então a base das suas desconfianças?
— O coração humano — insistiu Isaac.
— O Sr. é especulativo da pior filosofia! Defendo minha sobrinha dessa suspeita extravagante. Ainda que ela quisesse escrever ao prussiano ou aceitar-lhe as cartas, quem podia ser o medianeiro na correspondência? As visitas de Antónia são as poucas que o doutor sabe; e não visita ninguém, salvo as religiosas de Odivelas. Quem lhe parece capaz de ser terceiro ou terceira na correspondência? As irmãs de Fr. André Guilherme? as Caldeironas? ou as freiras?
— Não acuso ninguém, Sr. Xavier-retorquiu retraindo-se Eliot — nem afirmo que a Sra. D. Antónia se carteie com o poeta Frisch. Porém, se um dia o acaso nos desenganar, recorde-se então de que eu, sem poder apresentar as provas, desconfiei que esta menina não brincava com o amor tão candidamente como com as bonecas...
— Pois bem... — concluiu o padre — antes que o desengano venha com providências tardias, pensarei em casar Antónia. Verá quantos maridos da melhor nobreza se rivalizam... Corte-se radicalmente o mal, não é assim?
— O casamento forçado... — gaguejou o francês — corta, mas radicalmente não. A mulher que ama outro... não leva em si, nem dá ao marido imposto, a felicidade.
Francisco Xavier ponderou as palavras de Eliot, e balançou a cabeça repetidas vezes, sorrindo.
— Há no coração humano abismos que o doutor ainda não sondou. Está muito novo, e viveu muito na Turquia onde os péssimos costumes, pelos modos, estão armazenados nos haréns; ao passo que em Lisboa andam por aí às soltas e a retalhos... As mulheres são várias...
— Disse lá o meu Francisco 1°, e acrescentou: muito tolo é quem se fia nelas.
— A inconstância da mulher é uma das perfeições deste planeta.
— Filosofia nova!
— Velhíssima, doutor. A constância degenera em tédio, e o tédio é o cancro que rói as frágeis ligações do coração com a felicidade. A variedade remoça a alma, repovoando-a de imagens novas. Isto é tão antigo, que nem eu sei onde Ovídio e Horácio o acharam. Mas a minha questão, vista por outro lado, é menos antiga e mais moralizadora. Se não fosse a volubilidade das mulheres, quantos enlaces desgraçados produziria um imprevisto choque de olhos e corações? Quantos casos sabemos nós de donzelas que aceitaram o convento como holocausto do seu amor contrariado pelos pais; e, à volta de poucos dias, aceitaram os maridos que os pais lhes escolheram? Que valera a razão dos pais, se a paixão das filhas fosse rebelde e duradoura?
— Mas — atalhou o francês — se a inconstância da donzela se continua nos hábitos da esposa?...
— Exceções não são argumentos — replicou o padre — A depravação do adultério é peste que lavra pouco em Lisboa. Os maridos portugueses castigam briosamente.
— E são degolados ou enforcados, quando se vingam.
— Se matam mulheres inocentes...
— Seria inocente uma D. Úrsula de Odivelas que foi encontrada com um frade trino?! — perguntou Eliot.
— Era; e, porque era inocente, o comendador Brás da Costa seu marido foi degolado.
— Ouvi dizer o contrário, quanto à candura da dama.
— Não lho digo eu, que mais ou menos conheci todos os figurantes dessa tragédia, passada em 1710. Já lá vão vinte anos! parece que se passou ontem!... Eu lhe conto: Foi meu contemporâneo, no colégio das artes em Coimbra, António Coutinho de Lacerda, o mais belo rapaz daquele tempo, e um dos mais antigos fidalgos deste reino.
Este jovem amava D. Úrsula César, da arrogante prosápia dos Mascarenhas. Era filho segundo; mas esperava herdar os grandes haveres do seu tio D. José Pereira de Lacerda. Entre as duas famílias estava pactuado o casamento, quando Úrsula, vendo acaso, em Lisboa, Brás da Costa, capitão de cavalos, e galã de famosas aventuras, encovou a dignidade senhoril e a honra do juramento nuns abismos do coração que o doutor Eliot parece desconhecer. Após a notícia da perfídia, o meu pobre amigo António de Lacerda recebeu a segunda e mortal punhalada. Úrsula casou, e António de Lacerda morreu ao mundo vestindo o hábito de frade trino. Depois embarcou-se para Argel a resgatar cativos, e por lá se ficou três anos a servir os miseráveis no hospício português. No discurso dos três anos, a pérfida expiava duramente o seu desprimor de fidalga e de mulher transgressora de sagrados juramentos. O marido enfastiara-se dela até ao ódio, e volvera-se às suas afeições antigas que o repuseram na velha libertinagem. Úrsula compreendeu que a sua desgraça era um castigo; queria morrer; mas pedia a Deus e às pessoas compadecidas que lhe dessem modo de pedir perdão a Fr. António de Lacerda. Os seus próprios parentes, logo que os frades da Redenção recolheram, pediram instantemente a Fr. António que perdoasse a Úrsula. Ele jurou pela cruz do seu hábito que lhe perdoara no dia em que fez profissão. A enferma instou pela sua presença. Queria que ele visse aquelas descarnadas faces, aqueles olhos apagados, aquela transfigurada imagem do crime e da ingratidão. Esquivara-se ainda o frade, enviando-lhe por outrem palavras de muita caridade e esperança de ainda se recobrarem das penas da vida na glória prometida aos que muito choraram. Instou de novo a inconsolável e exasperada senhora. Moveu-o a autoridade do provincial Fr. António da Fonseca. Foi finalmente à quinta de Odivelas, onde D. Úrsula de Mascarenhas residia. Alvoroçada com a nova, a mulher de Brás da Costa, fiada na cavilosa ausência do marido em Lisboa, saiu a recebê-lo na primeira sala. Não sei o que passou naquele conflito. O que todos souberam foi que Brás da Costa assomou inopinado à porta da sala, quando a esposa estava de joelhos aos pés do frade; e, arrancando da espada, traspassou o coração de Fr. António de Lacerda. Úrsula perdeu o alento. O marido ia matá-la, quando alguns parentes dela o investiram e desarmaram. Gritava o homicida que colhera de sobressalto os criminosos em adultério; mas, D. Francisco de Mascarenhas, da casa de Óbidos, que solicitara a vinda de Fr. António de Lacerda, e o acompanhara, amordaçou o caluniado como se amordaça um molosso e levou-o de rojo até o entregar aos esbirros. A infeliz dama, recuperando os sentidos, e sabendo que o seu desgraçado amigo estava morto, chamou os fidalgos e o clero da terra para que lhe ouvissem a sua derradeira confissão. E, com as avançadas da morte já a regelarem-lhe o peito, referiu tudo que provava a santa inocência do mártir. Ela rendeu o espírito a Deus no dia seguinte, e Brás da Costa sobpôs a cabeça ao cutelo do carrasco quarenta dias depois: tão rápida correu a justiça de mãos dadas com a vingança pública. Aqui tem a história do frade trino: é assim que o doutor a sabia?
— Pouco mais ou menos — respondeu desdenhosamente Eliot.
— Já vê que em Portugal...
— É preciso cuidado com o carrasco... e com os frades... — acrescentou o francês sardonicamente.
— Diz bem, doutor. Acautele-se dele e deles.
— Não terei contendas com tal gente por tais motivos. A mulher, que houver de ser minha esposa, há de ser honesta.
— Mas não precisa casar e matar os amantes da sua mulher. Basta-lhe publicar suas ideias a respeito dos frades... que dois carrascos lhe prometo eu a míngua de um.
— A propósito de frades — volveu Eliot — que é feito daquele Fr. André Guilherme que abocanhava as Caldeironas?
— Está na província de Entre Douro e Minho pedindo esmola para a redenção dos portugueses cativos em Marrocos.
— Admiro que não viesse despedir-se do doutor e da sua sobrinha!
— Não pôde. Recebeu à noite ordem de partir na madrugada do dia seguinte para a sua missão. Aqui tem a carta de despedida.
Eliot leu mentalmente: Desculpe vossa mercê ao frade obediente a falta do amigo fiel. A minha querida discípula uma saudade muito cordial. — Fr. André.
Fechou o francês a carta pelas dobras muito devagar e murmurou:
— Estes frades...
— Que têm estes frades?
— O império da melhor parte do mundo...
— Da parte mais iluminada do mundo, quer dizer o Sr. Eliot.
— Não, senhor: da mais corrompida.
— Como assim? o que não dirão hereges!
— O poder do clero agiganta-se ao mesmo passo que a depravação dos costumes professa ainda o terror do inferno — replicou enfaticamente o luterano — Quando se apagar o inferno, extinguem-se os frades.
— Cuidado, doutor! — acudiu mais faceto que escandalizado Francisco Xavier — Não repita isso em presença do meu escudeiro, se me não quer dar o dissabor de o ver assar.