A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 33 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo XXXIX · Às quatro horas deste mesmo dia, a…

 

 

Às quatro horas deste mesmo dia, a criada que Eliot levara da sua casa e constituíra acintemente aia da senhora, ou moça de almofada, como então se dizia, ouvindo tanger a campainha da porta da rua, saiu à janela, e viu pessoa desconhecida que disse queria falar à Sra. D. Antónia.

— Quem lhe hei de dizer que a procura?

Josse não previu a pergunta; porém, forte de carácter e aflito de mais para improvisar subterfúgios, respondeu:

— Josse Frisch.

Maria Miguel, que assim se chamava a criada, desconhecia aquele nome.

Foi ao quarto da senhora, que estava escrevendo a D. Paula Perestrelo, e deu o recado.

Antónia levantou-se alvoroçada, e murmurou como em segredo:

— O quê?! Frisch!?

— Sim, minha senhora, um rapaz loiro, e muito branco, branco de neve...

— Maria! — disse Antónia atropelando as palavras — conte com a minha gratidão eterna por um favor que lhe vou pedir... Aqui tem este anel de diamantes... dou-lho...

— Ó minha senhora...

— Dou-lho; mas não diga que eu falei a esse homem... abra-lhe a porta da sala... sim?... preciso muito falar-lhe... muito...

— Então, minha senhora, para que as outras criadas o não vejam, o melhor seria abrir-lhe a porta do escritório... Não acha? Escusa-se de que o ouçam subir as escadas para a sala...

— Pois sim, Maria... — condescendeu a mulher de Eliot acariciando a aia — Vá abrir-lhe a porta, que eu desço já...

A este tempo, Antónia ignorava ainda que Fr. André Guilherme tivesse falado com o prussiano.

Maria Miguel subia lestamente, quando a ama descia tão trémula e comovida que se amparava contra a parede.

— Ele lá está — disse a aia muito desempenada — Eu fico à espreita na janela... Feche a porta por dentro à cautela. Se eu vir a sege do Sr. doutor, bato três vezes com o tacão no sobrado; mas ele não vem cá antes das onze horas.

— Quem sabe? — disse Antónia.

— Sei-o eu... O Rutier disse-me, há pouco ainda, que ia hoje com o amo ao teatro espanhol ver a Gamarro... Esteja sossegada, minha senhora.

Antónia recuou duas vezes antes de entrar no escritório em que Josse a esperava. Frisch pressentiu-a, e saiu ao limiar da porta. Vendo-a, retrocedeu dois passos para ela entrar.

Ela ganhou alento; e, com os olhos enxutos e voz firme, disse:

— Aqui estou, Sr. Frisch... Que pode querer-me?

— Salvar a minha honra, horas antes de perder a vida. Sou acusado de lhe haver escrito uma carta que não escrevi. A minha letra foi imitada; a minha dignidade é que não podia ser falsificada, se D. Antónia a conhecesse. Não a acuso, porque também tenho de que me acusar...

— A carta que eu recebi não era sua?! — atalhou Antónia vivamente ansiada.

— Esta decerto não era.

Deu-lhe, e prosseguiu, oferecendo outra:

— E esta com certeza também não era da Sra. D. Antónia.

A atribulada senhora abriu a segunda carta, viu a sua letra, leu as primeiras linhas, e exclamou:

— Que é isto, ó Virgem santa! Esta carta não é minha! que Deus me fulmine, se eu a escrevi!... Ó Josse, pelas chagas de Cristo, por alma da nossas mães lhe juro que não escrevi isto.

— São desnecessários juramentos, Antónia — volveu Josse. Ambas as cartas são falsas. O homem de quem as confiávamos, vendeu-nos a este que é seu marido, e fugiu de Lisboa quando eu cheguei... Mas que importam já agora as ignomínias que nos perderam? A nossa desgraça é irremediável, e eu venho pedir-te que me perdoes o insulto que te levei à igreja no momento em que aceitavas a tua coroa de mártir! Se eu soubesse, ó infeliz, que eras como eu a vítima de tão grande infâmia, iria escarnecer o teu infortúnio? Eu decerto havia de te dizer que não faltei ao meu juramento; mas não iria atirar às tuas faces cheias de lágrimas a afrontosa irrisão dos meus olhos enxutos... Perdoas-me, Antónia?

E, ajoelhando, foi compelido a erguer-se nos braços dela, que lhe dizia palavras cortadas por arrancos angustiosos.

— Serenidade, minha amiga! — volveu ele, sentando-a com brando esforço. — Serenidade, que deve ser a justificação dos que se suicidam com a sua razão imperturbada e luminosa. As minhas pobres poesias muitas vezes te disseram que eu faria à volta da minha alma eterna escuridão quando a luz do teu amor me faltasse... Eu só compreendia o teu amor como compreendo as virtudes nas divinas criações que estão mais próximas de Deus. Nunca pensei em te denegrir uma só das tuas canduras de anjo. Nunca desliguei a sagração do amor da virtude social do casamento. Estás casada: perdi-te; podes amar-me; perdida estás para mim e para sempre. A vida assim não a quero: é um inferno, que eu aceitaria como expiação, se me sentisse criminoso. Tenho a minha alma cheia de lágrimas; mas não de vícios. Se há outra vida, quem me condenará porque fugi aos suplícios desta?

— Mas que dizes tu, Josse!? — interrompeu Antónia — Queres matar-te, porque és infeliz? E eu?...

— Ah! tu!? hás de ficar desatada do teu poste de martírio, Antónia! O homem, que nos infamou aos olhos um do outro, há de entrar as portas da eternidade alguns momentos antes de mim! Podes tu amá-lo? podes tu perdoar-lhe?

— Não!...

— Tiveste já o pressentimento de poder aceitar o amor deste homem? Diz-mo pelas tristezas que me impelem à morte... Poderás ainda aceitar resignada a tua sorte?

— Tenho momentos de suave resignação, quando uma voz íntima me diz que hei — de morrer cedo... Olha... sabes? Eu estava casada havia sete dias... era ao escurecer, quando uma mulher desconhecida, coberta de luto, conseguiu que a levassem à sala onde eu estava. Falou-me em francês, e pediu-me uma esmola... Depois que eu lhe dei quanto tinha comigo, disse-me que era uma desgraçada a quem o mundo chamava esposa de Isaac Eliot; disse-me que era certo ele havê-la recebido; mas que, fazendo-se católico, o seu casamento não tinha valia. Depois, disse-me estas terríveis palavras «Senhora, depois que Eliot me atirou ao abismo, de que eu fujo mendigando, é que eu soube dos franceses que vivem em Lisboa, que ele havia assassinado duas mulheres, uma em Constantinopla, outra em França. Não lhe tenho ódio, pobre menina, porque sei que veio de rojo até esta situação; faz-me imensa pena vê-la tão nova e tão rica entregue a um malvado que uma vez me falou da filha do padre como de uma mina de que havíamos de sair todos ricos. Eu queixei-me do ultraje, e ele repulsou-me de um só arremesso à miséria de pedir socorros àqueles que me tinham oferecido os seus coches. Acautele-se — disse ela com muita instância — olhe que ele ama outra mulher, que o domina sobre todas, e na hora em que essa lhe puser um pé no coração, ele é capaz de a matar, senhora D. Antónia, é capaz de a matar para casar com ela». — Foi o que ela me disse, Josse... E eu nem me acautelo nem fugirei à morte, quando chegar a hora...

— Não morrerás às mãos dele, Antónia — contraveio Josse Frisch.

— Não o mates... que eu nada lucro com a morte dele, se me tu faltares, Josse! — clamou ela com arrebatado carinho.

— Não te suicides, que to pede aquela ditosa criança de há dois anos... Dá-me o exemplo da coragem, que és homem, e tens pai, e tens-me a mim que fico sendo a tua irmã, sim, meu querido Josse? Olha... quem sabe o futuro? quem sabe se Deus castigará este mau homem? Eu tenho no céu quem peça por mim... Lá está minha mãe, e o meu pai, e o meu desgraçado... tio, que morreu de repente quando me julgou morta... Não te hás — de matar, não? Enquanto eu souber que me amas por compaixão, hei de ter momentos de alegria, hei de escrever-te muito, e todos os dias. Algumas vezes virás aqui ver-me; quando a saudade me aniquilar, chamo-te, choro e ganho forças para continuar esta vida que tu me hás de fazer cara. Tem esperança, meu querido amigo... Se podes estar em Lisboa, deixa-te estar; mas tem cuidado: olha que este vilão tem um pajem que a tal francesa me disse que era um forçado das galés que falsificara firmas e matara um homem na França... O teu coração que me responde, Josse? Eu já não vejo o teu rosto, que é noite; não posso adivinhar o que se passa na tua alma... Responde-me...

Josse Frisch apertou-lhe as mãos, levou-as ao coração e murmurou:

— E, se eu te arrebatasse neste momento, Antónia!... se fugíssemos...

As mãos de Antónia, e toda ela, tremiam. O corpo convulsionado vacilava, e pendia para onde as mãos eram premidas sobre o arquejar do peito.

Neste instante, ouviu-se o rodar acelerado de uma sege, que parou à porta da casa.

— É ele! — exclamou ela, e fez um arremesso para fugir.

— Não podes fugir de ao pé de um irmão... — e aperrou uma pistola.

Era Isaac Eliot, com os seus três amigos, Jerónimo Fidié, Tomás Darcet e Estêvão Gautier.

Em frente do quarto em que estava Antónia, chamado o gabinete anatómico — (ali fora anatomizado Jácome, o boticário) havia outro mais espaçoso e ricamente decorado, onde ainda se viam as livrarias do advogado Jorge Mendes Nobre e do seu filho o doutor Francisco Xavier.

Era ali que Isaac Eliot recebia os doentes que o consultavam, e os seus amigos mais particulares nas palestras devassas e nas beberagens alcoólicas.

Apearam da calege, e entraram para aquela saleta os quatro franceses. O dono da casa pediu castiçais, garrafas de água-ardente, de Champagne e Madeira. Em tempo competente, veremos que Eliot andava reputado pelos poetas como bebedor afamado de água-ardente, e tão convicto das virtudes medicatrizes desta poção que a receitava em todos os achaques resistentes ao leito de jumenta.

Bamboavam-se em poltronas; e bebendo a froixo, altercavam confusamente acerca de jogo e comediantes espanholas. Do falario estrídulo depreendeu Antónia que o seu marido, depois de grande perda, viera a casa prover-se de dinheiro para nos intervalos dos actos encher o tempo numa casa de tabulagem contígua ao teatro; e, quando a hora do espetáculo — que até ao ano anterior fora sempre de dia — aproximava-se, Isaac Eliot mostrou aos seus amigos um trancelim de ouro com relógio inglês, dizendo que o levava de presente à Gamarra, e jurava tirá-la ao marquês de Gouveia e a D. Valentim da Costa de Noronha.

— Foi o relógio que me deu meu tio no dia dos meus anos... — segredou Antónia a Josse Frisch.

E subiram-lhe as lágrimas do coração que perdoava ao pai, àquele funestíssimo algoz da sua felicidade.

Isaac Eliot, quando entrava para a sege, perguntou ao velho escudeiro de Francisco Xavier:

— A senhora?

— Está no seu quarto.

— Diz-lhe que pode cear, que eu venho tarde.