A Caveira da Mártir

Camilo Castelo Branco · Capítulo 23 de 42

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A Caveira da Mártir

Capítulo XXVII · Divulgou-se, ao mesmo tempo, que o médico…

 

Divulgou-se, ao mesmo tempo, que o médico francês não era casado com a mulher inculcada e aceite em Lisboa como sua esposa; tanto assim que ia esposar-se com a opulenta herdeira do desembargador Paulo Xavier, e já havia posto a francesa em casa afastada.

As duas novidades alvorotaram algumas famílias afreguesadas com o médico, e irritaram os peraltas ricos e ainda mais os pobres, espantados de que uma menina dotada de beleza, educação rara, e cento e cinquenta mil cruzados raríssimos, se enamorasse de um estrangeiro libertino e, para além do mais, herege!

As portas das casas honestas fecharam-se ao concubinário que ousara mentir à sociedade, aproximando das senhoras honradas a barregã. Fecharam-se poucas: tantas como hoje se fechariam. Ao mesmo tempo, os médicos e cirurgiões émulos do francês forjaram calúnias e baleias que o leitor verá formuladas em poemas nas Notas, quando vierem de molde.

Eliot queixava-se do seu pajem valido Henrique Rutier, atribuindo-lhe a vulgarização intempestiva do projetado casamento.

Era Henrique Rutier aquele sujeito cuja destreza em esbofetear portugueses o patrão gabava, quando ameaçou com um tagante o trino Fr. André Guilherme. Trouxera-o assalariado de França, quando lá foi conquistar a fabulosa amante de Um qualquer duque. Figurava trinta anos, era bem apessoado, e bazofiava conhecimentos impróprios da sua posição, O trato mútuo de senhor e pajem mais parecia convivência de amigos. O médico dava-se com ele mão por mão, segredava-lhe os seus projetos, emparceirava-o nas barganterias arriscadas, gratificava-o liberalmente, e atendia-o como a pessoa mais prática na pilotagem de mares aparcelados para quem navega com todos os ventos.

Rutier, com efeito, era um homem de procedência limpa, que mudara de nome e terra para fugir com o pescoço ao carrasco. Em Perpignan o filho de um magistrado fora condenado à perpétua grilheta como falsificador de firmas. Depois, na evasão da galé, matara um guarda, e vingara escapar às perseguições. Em Perpignan chamava-se Alexis Fabre, e em Lisboa Henrique Rutier.

O médico encontrara-o homiziado na Picardia, desprezado da família, às sopas de uns seus parentes, que o eram também remotamente do forçado. Ofereceu-lhe passar a Lisboa; e, sob o título de pajem, mantinha-o no nível de amigo e confidente.

Confessou Rutier que muito de indústria espalhara a nova do intentado casamento por dois motivos graves: primeiro, afastar as pretensões e esperanças das Caldeironas; segundo, publicar hoje o que seria necessário dizer amanhã.

Isaac Eliot achou-lhe razão quanto ao fim; mas da sua paixão por Leonor gemeu umas lástimas tamanhas que o criado, num ímpeto de zelo, disse ao amo, sem prévia licença e muito familiarmente, que era tolo, provando-lho com este argumento:

— Case com a rica, e depois merque a pobre, percebe? Merque todas as Caldeironas, que ainda lhe há de sobrar dinheiro.

Esta ideia não era original. O amo já a tinha concebido; mas sonegou-a com tal qual vergonha do confidente.

A notícia do casamento esvoaçou como se a fama enviasse uma circular a cada família; e então, nas boticas, imagine-se que falario, sendo naquele tempo os boticários a gazeta viva com tantos colaboradores quantas línguas refinadamente mordazes bandarreavam pelas esquinas das duas Lisboas, oriental e ocidental.

O boticário, porém, que mais se impressionou com o boato foi o alemão Jácome Valebelt, medianeiro entre os amores de D. Antónia Xavier e Josse Frisch.

Ainda nessa mesma semana tinha ele remetido à menina uma volumosa carta chegada de Berlim, e transmitido outra não menos compacta ao seu patrício. Raciocinou sobre o caso, e conjeturou que a troca das últimas cartas seria o rompimento dos amores, até mesmo pelo volume. Talvez — inferiu ele — se dessem compridas explicações ou trocassem a mútua papelada. Enfim, o boticário, Ouvindo os frequentadores e calando prudentemente o que podia depor na matéria, aguardou o dia do próximo paquete.

Convém saber que o boticário da Cordoaria Velha odiava Isaac Eliot. Fora o caso que o médico receitara um vomitório manipulado por Jácome. Ora o doente esteve a pique de vomitar a vida. Chamado a toda a pressa, Eliot examinou a poção, e perguntou quem aviara a receita. Foi à botica e injuriou o alemão, chamando-lhe grã besta, e ameaçando-o de o acusar ao físico-mor do reino, porque ele na interpretação dos sinais indicativos das doses confundira onça com oitava.

O doente melhorou com a descarga abundante, graças ao equívoco; mas o médico daí por diante, sempre que formulava para novo doente, recomendava que não se aviasse a receita na botica de Jácome Valebelt, que era um burro assassino. Vulgarizou-se o descrédito do alemão, propalado pelo autorizado médico, e por tal maneira que o pobre homem não vendia nada, e conservava apenas a freguesia do gamão e da maledicência.

Pensava ele um mudar de terra com as suas drogas revelhas e avariadas, quando o acaso lhe abriu oportunidade de fazer-se necessário ao médico inimigo, e refazer a sua fortunazinha esbanjada.

Em tempo competente chegou carta de Berlim para D. Antónia Joaquina Xavier. O boticário relutou com a miséria que o espicaçava, antes de se render à ignomínia; mas os credores afogavam-lhe os respiráculos da consciência, o senhorio intimara-lhe a deslocação dos garrafões, do ervaçal seco que se Pulverizava nas gavetas, e do S. Miguel do balcão que, já carcomido, com a balança na mão e um pé sobre o cornígero Lúcifer, parecia dizer ao dono que as balanças eram as dos seus pecados, e que o diabo, apesar de esmagado no seu peito de pau de nogueira, o levaria mais dia menos dia.

Passava, uma tarde, o doutor Eliot na sua sege. Jácome saiu à rua, fez sinal de parar ao boleeiro; e, acercando-se da portinhola, segredou-lhe que tinha coisa que lhe dizer muito interessante à sua honra.

— À minha honra?! então que temos? — respondeu com sobranceria Eliot.

— Di-la-ei quando vossa mercê se dignar vir a minha casa, ou consentir que eu vá à sua.

— Não duvido ouvi-lo na sua casa. Vou ali ver o marquês de Távora, e ao anoitecer aqui estou.

Neste momento, um negrinho da casa do doutor Xavier parava na testada da botica, esperando que o boticário entrasse. Eliot, reparando no escravo, perguntou:

— Aquele moleque não é aqui da rua do Outeiro?!

— Sim, senhor.

— Que vem aqui fazer à botica?!

— Vossa mercê o saberá logo.

Já os acicates da curiosidade espicaçavam a inquieta curiosidade do médico.

Deu pressa ao lacaio, e despediu-se.

O negro ia procurar a carta de Berlim e entregar outra da sua ama. Jácome respondeu-lhe secamente:

— Não há carta.

O escravo, percebendo a dor que levava à sua senhora, encarou com amargurado espanto o boticário e murmurou:

— Não há!?

— Não há, já to disse.

Passados minutos, Isaac Eliot, que no pátio do marquês de Távora recebera a paga das visitas feitas, e ordem de não voltar, saltava da sege, mandava o boleeiro esperá-lo às Portas de Santa Catarina, entrava na botica e subia ao primeiro sobrado da casa, seguido do boticário reverentemente mesureiro.

Sentou-se num velho tamborete, e o boticário em pé, diante dele, tirou estas vozes do íntimo peito:

— Quisera eu, Sr. doutor, oferecer-lhe uma cadeira digna; mas não a possuo. Algumas alfaias preciosas tive; porém, obrigado pela crueldade com que vossa mercê me desacreditou, vendi-as. Estou muito pobre, e os meus colegas, cuja ignorância vossa mercê protegeu, estão ricos.

Eliot, com a boca escancarada de assombro e cólera, interrompeu, erguendo-se:

— Então foi para isto?!

— Não, senhor, não foi para isto; queira sentar-se e ouvir um homem que paga o mal com o bem, e que, em troca do descrédito que lhe deve, quer salvar a sua honra, ou proteger os seus interesses arriscados. Ouvi dizer que o Sr. doutor casa ou pretende casar com a sobrinha do padre Francisco Xavier, a qual herdou do seu pai...

— Sim... — atalhou Eliot, impaciente e aguilhoado pela desfeita que acabava de sofrer no pátio dos Távoras — então que tem a dizer-me a tal respeito?...

— Que essa rica herdeira ama outro homem e é dele amada com o maior ardor e com a firme esperança de que há de ser seu esposo...

— Quem é?... o frade trino? — acudiu o outro turvadíssimo.

Sorriu-se o boticário e respondeu:

— Não sei de que frade trino me fala vossa mercê! Se eu lhe digo que a pessoa espera ser esposo de Antoninha Xavier, já vê que não se trata de frades, salvo seja!

O namorado, e invencível rival do Sr. doutor Eliot, é um jovem prussiano...

— Frisch?

— Esse mesmo, Josse Frisch, filho do sapientíssimo João Frisei, e ele mesmo poeta, gramático, filósofo, etc. Já vejo que o conhece, e não lhe deve ser de todo estranho que a menina, há dois anos, se a deixassem ou se ele tivesse o desembaraço de muitos e ela o de muitas, a esta hora estariam ambos em Berlim muito descansados, no gozo dos cento e tantos mil cruzados do desembargador Paulo Xavier...

— Mas essas relações continuaram?!-replicou o médico, esbugalhando os olhos cintilantes de lumes felinos.

— Continuaram, continuam e continuarão, se...

— Como é que se correspondem? — atalhou Eliot.

— Carteando-se; pois como há de ser?

— Quem recebe as cartas? é o que eu pergunto.

— Eu. Recebo as dele e remeto-as a ela; recebo as dela e remeto-as a ele. Dito isto, é escusado juntar que depende de mim continuar ou interromper o comércio epistolar destas duas avezinhas, que estão ganhando pena para voarem. Contaram-me que o Sr. doutor ia casar com a herdeira. De mim para mim pensei eu logo: se o casamento depender da vontade dela, este boato é uma história; e se o doutor Eliot, (disse eu na ausência) está fiado nalguma promessa da menina, ela engana-o; e eu então, em paga do mal que me faz o doutor, vou desenganá-lo para que se precate e combine as coisas de modo que a ave não bata as asas.

Demorou-se Eliot a mordiscar as unhas e a roer-lhes o sabugo, guinando feiamente os olhos de lado a lado.

Tinha meditado o que quer que fosse.

Depois, erguendo-se, apertou a mão de Jácome, e disse, sacudindo-lha:

— Obrigado. Serei grato ao seu aviso, remediando o mal que fiz.

— Saibamos então: — volveu o boticário — a última carta que recebi de Berlim posso dar-lhe o destino das outras, ou retê-la?

— Ah! o Sr. Jácome tem no seu poder uma carta de Frisch? — exclamou Eliot agitado por novo plano.

— Que chegou ontem; e tenho outra de Antónia que chegou hoje.

— Dá-mas?

— Não, senhor: mostro-lhas.

E, sacando-as da algibeira interior da véstia, acrescentou:

— Ei-las aqui.

Eliot conheceu no sobrescrito a letra de Antónia.

— Franqueza! — volveu o médico — Isto é um obséquio ou um negócio?

— Como?

— Dá-me essas cartas ou vende-mas?

— Franqueza! Vendo-lhas, Sr. doutor, para me indemnizar das drogas que não vendo há cinco anos, por causa da difamação com que vossa mercê me afugentou a freguesia. Quando um homem mente à confiança de outro, e faz isto que eu faço, é que a desgraça O aperta. Preciso dinheiro, mas pouquíssimo em proporção do serviço que lhe faço. Quero um por cento.

— Não o entendo... Um por cento?! de quê?

— Se a namorada de Josse Frisch tem cem mil cruzados, eu receberei como gratificação de a desencaminhar de Frisei para vossa mercê, a centésima parte, mil cruzados, quantia inferior às minhas perdas de cinco anos; mas bastante para mudar de terra e pagar dividas; porém devo estipular uma condição óbvia: a minha percentagem entra em caixa quando as cartas saírem da minha algibeira para a do Sr. doutor.

— Amanhã respondo — concluiu Eliot — mas considere o negócio tratado.