A Caveira da Mártir
A viúva de Domingos Leite e de…
INTRODUÇÃO
A viúva de Domingos Leite e de João da Veiga Cabral já não tinha alma sensível às felicidades convencionais desta vida. Recordações que lhe eram afronta, e saudades atormentadoras — a imagem terrível do primeiro marido, e a imagem amada e deplorativa do segundo — fechavam-lhe em nuvem negra qualquer aurora de esperançoso contentamento. Nem as carícias de Ângela, nem os amoráveis rogos de Francisco Mendes a demoveram de seguir o destino que a norteara a Portugal. O ermo, a soledade, a dor sem distração, morrer, enfim, alheia de amparos que suavizam o transe, era para Maria Isabel uma necessidade do coração, um sacrifício voluntário à redenção das suas culpas para com Domingos Leite, e ao seu imenso amor a João da Veiga Cabral. No entanto, se algum desafogo sentia ao pensar que as suas lágrimas eram vistas desde o seio de eternidade, com certeza não eram os olhos do primeiro marido os que lhe davam a recompensa da imolação.
Adorava a memória do segundo esposo. Santa saudade! Homem mais digno desse culto não poderia dar-lhe o outro mundo. Ele tinha os segredos da sua vida maculada, desde que ela lhos revelou, lembrando-se que uma vez, cega de paixão, não vira em si o labéu que a tornara infame aos olhos do seu primeiro marido. Tudo lhe desvendou, como se os dois cadáveres, que ela fizera, a estivessem acusando para envilecê-la. Pintou-se ignóbil e desprezível no deslumbramento em que a fascinara o rei; arguia-se menos, infamava-se menos por ter sido a cega vítima do padre. João da Veiga Cabral explicava indulgentemente as duas cegueiras: primeiro a da inocência, depois a da alucinação. Defendia-a das suas mesmas severidades. E, quando ela chorava remida pelo amor ardente das almas castigadas, o amante pedia-lhe de joelhos que o aceitasse como marido, não por amor da honra, mas por amor dele.
Nunca vira a ruga do arrependimento na cara do esposo, nem os tédios intermitentes da vida positiva, serena, sem os sustos que refinam o amor. Se ruins lembranças do passado a sobressaltavam, João da Veiga escutava-lhe o gemido recôndito do coração; e, arrancando-a de si mesma, parece que a alma se lhe abria em novo manancial de ternuras. E por isso, a mulher impura, considerando-se depurada das suas nódoas na frágua daquele amor generoso de todas as misericórdias de um Deus, também se considerou digna de morrer na tristeza das mais honradas viúvas.
Ângela, atribuindo a capricho de génio especial a insistência da mãe, doeu-se da separação resistente a súplicas e carícias. O hebreu definiu mais psicologicamente a misantropia da sua sogra. Até certo ponto, desde que viu frustrarem-se as meiguices da esposa no alívio de Maria Isabel, compreendeu que as saudades de João da Veiga não bastava a mitigá-las o amor da filha de Domingos Leite. E notou ainda que a sua sogra parecia ter remorsos de haver procurado nas doçuras maternais impossível distração às angústias de viúva.
Entrou, pois, no Recolhimento da nossa Senhora da Encarnação, e, ocultando as passagens crimináveis da sua existência, logrou estar seis anos desconhecida numa congregação de mulheres conventuais, onde por via de regra a curiosidade das coisas mundanas raro cede o passo à indagação das divinas.
Malogravam-se os tratos da filha em rodeá-la de todas as regalias compatíveis com o seu retiro. Maria Isabel aceitava apenas a satisfação de não ser desprezada. Quanto a recursos, as joias da sua mãe asseguravam-lhe alguns anos de parca subsistência, e dizia ela que, para o final da vida, reservava umas poucas moedas do soldo do seu marido.
Porém, não há fiar-se a gente nos lutos perpétuos, nos heroísmos do lento suicídio, quando são trinta e cinco os anos e as cinzas de um cadáver afrouxam mas não apagam as faúlas que subitamente ressaltam e nos entreluzem horizontes imprevistos.
Quem diria que uma criancinha, ao balbuciar a palavra avó, descondensaria de sobre o coração de Maria Isabel o mais espesso da sua escuridade? Como pôde o contacto de uma vida em começo com o peito glacial da viúva aquecer lá dentro uns embriões de afetos desconhecidos? Não se explica plenamente o estremecido amor dos avós. Sabe-se que renasce a ternura que os pais tiveram aos filhos na infância — ternura que esmorecera a par e passo que os filhos se emanciparam das blandícias paternais.
O certo é que a mãe de Ângela, quando Jorge, seu neto, perfez três anos, saiu do Recolhimento porque os Estatutos vedavam a entrada de crianças; e a regente, já cansada de quebrar a Regra a rogos da extremosa avó, lhe declarara não mais excetuá-la dos estilos da casa.
Voltou, portanto, D. Maria para a companhia da sua filha, mantendo os hábitos adquiridos no claustro — o luto, a oração, a tristeza exterior; mas lá do peito adentro brincavam-lhe as santas alegrias de embalar no seio o seu neto, guardá-lo no berço, e ganhar-lhe o amor com ciúmes até da própria filha.
***
Jorge nascera em 1660.
Quinze anos depois, frequentava jurisprudência na Universidade de Coimbra.
A sua avó acompanhou-o durante a formatura.
Aos vinte e seis anos, Jorge Mendes Nobre era um dos mais famosos jurisconsultos do reino, já nobilitado, como seu pai, com o hábito de Cristo.
Eis aqui a descendência do regicida em 1686, quarenta anos depois da sua morte. Maria Isabel ainda vivia quase septuagenária, com a memória das suas desgraças atrofiada, pautando o regulamento higiénico do seu passadio como quem deseja e tenciona durar muito.
Triste e estúpido egoísmo da velhice! Os infortúnios são comoventes, ainda quando os grandes delitos se descontam nas paixões desatinadas. Com as mulheres caídas desce às vezes ao fundo da voragem uma luz, que lhes dá aurelas de mártires da sociedade que as abisma. Há delas, ai mesmo, perdidas e admiradas, e, quantas vezes, amadas! Porém, se os anos — triste regeneração! — restauraram-nas para o respeito do mundo e amor dos netos, a memória das suas desgraças é serôdia alegria que nos dá um involuntário sorriso irónico.
Percebo isto e não explico bem.
O leitor, se o quer perceber melhor, contemple o retrato da George Sand de 1835 e o da George Sand de 1875. Depois leia o romance de há quarenta anos, a Lélia, e o romance de ontem, Monte-Revêche. Aquela mulher de olhar sobranceiro, que transluz na pupila acesa o doce inferno do seu amor, que matava Mussets, e atirava as tranças negras e os escândalos da vida e os escândalos dos livros à cara da sociedade — assombra-me. Sinto que era forçoso saudá-la na morte como os lutadores ao César, no circo. A outra, a Sand dos setenta anos, filtrada do iodo do mar, azotada da sadia cozinha da província, com a touca de despenseira e os bandós espalmados nas fontes, esta, que faria rir a sã moral vingada, a mim faz-me chorar. Ah! As mulheres, que deram vida e morte a muitos corações, deviam morrer cedo! — Que incalculável expiação, ó Deus, se a velhice, que não tem esperança, tivesse saudade! O que seria a antecâmara da morte, se aí deixasses, ó benigna Providência, uma janela aberta para o passado!
O esquecimento é o primeiro benefício da aniquilação. Maria Isabel, a mulher de Domingos Leite, a amada de D. João IV, a viúva do enforcado, a amante e esposa do gentil fidalgo de Bragança, aos sessenta e cinco anos, devia de estar esquecida... pois queria viver! Prelibava as realizadas delícias de um bisneto. Não enxugava uma Lágrima, não respondia a uma frase, a uma reminiscência das cinzas de há trinta anos!
Não seria mais bela aquela mulher lavrada a vulto na tampa de um túmulo? A leitora de fino sentir não quisera antes que a poesia da morte lhe tirasse perante os olhos o espetáculo da velhice, que se resguarda dos nevoeiros e estofa de flanelas o peito, escadeado pela ressicação dos tecidos? Verdade é que a decrepidez da mulher, que triunfou a, vida com as magias da formosura, com os filtros da perfídia, insinuando o amor como quem injeta mortais venenos, é uma profunda lição que refreia os ímpetos da juventude, — quando os não desenfreia e lhes dá de espora no curto estádio dos prazeres.
Como quer que seja, a celebrada beleza da Traga-malhas, e a sua história, na volta dos sessenta e nove anos, se não fossem uma desgraça inconsciente, seriam suplício de sobra às suas culpas.
Não nos deteremos a descrever-lhe a última fase da decomposição. Ali já não podia dar-se o morrer que espanta. Morta já ela estava, na mais viva faculdade do vitalismo: a memória. Seriam consternadores os seus paroxismos, se ela prolongasse um lanço de olhos pelo passado, e revelasse, nas lágrimas derradeiras, saudades ou remorsos. A filha e o hebreu é que choravam, recordando-se da vida daquela mulher, e entrevendo-lhe no rosto morto a formosura, a apagada estrela que tantas fatalidades influíra.
Quando Maria Isabel morreu (1694), já seu neto Jorge Mendes Nobre era letrado insigne na corte; excedia os trinta anos, e havia casado afortunadamente com a filha de outro rico letrado, João Xavier Gomes, de família israelita.
Jorge e o seu pai eram suspeitos ao espírito da intolerância católica, bem que ouvissem missa quase quotidiana na capela da casa. Verdade é que o advogado Mendes Nobre não imitava a cristandade dos seus pais, alegando negócios que lhe reduziam as práticas devotas, com muito grande mágoa sua. E, posto que não faltasse no templo em dias santificados, esta satisfação era diminuta para a crítica, e principalmente para o Santo Ofício, a quem constava que Francisco Mendes, três anos depois da morte do rei, repusera em Amesterdão os cabedais que dali mandara vir para Portugal, quando calculou segura a sorte das famílias israelitas protegidas pela corte, em recompensa dos serviços feitos à independência da pátria e conservação da dinastia. Porém, assim que viu a Inquisição excomungar D. João IV morto, porque ele restituíra aos filhos de alguns condenados pela Inquisição os bens dos seus pais, Francisco Mendes transferiu os seus haveres a Holanda, auferindo dos rendimentos o custeio da sua invejada abastança.
Menos cauto que o seu pai, o eminente jurisconsulto era espiado, desde que ao Santo Oficio chegou o vago boato de que ele tinha e lia livros proibidos no Index auctorum damnatae memoriae, composto pelo jesuíta Baltasar Álvares, e mandado imprimir em 1624 pelo inquisidor-geral D. Fernando Martins Mascarenhas. Agravava esta denúncia o crime de ter peregrinado terras de hereges, nomeadamente Flandres, convivendo com heresiarcas, comendo com eles, e praticando livremente acerca dos dogmas da fé católica.
Infelizmente, Jorge Mendes Nobre usava encarecer a sua fé cristã, despendendo-se em argumentos contra os incrédulos; mas a tibieza com que atacava as razões dos huguenotes, parecia um propósito hostil à sua mesma opinião, se não era antes uma perigosa ironia.
Para bem averiguar o que fosse, o promotor do Santo Ofício requereu contra o doutor Jorge Mendes, alcunhando-o de heresiarca e dogmatista. Em seguida, o alcaide recebeu o mandado de prisão, que se cumpriu no mês de Fevereiro de 1701, quando o letrado estava festejando o décimo quarto aniversário do seu primogénito Paulo Xavier.
O preso orçava então pelos quarenta anos; Ângela era ainda vigorosa; mas seu pai perfazia os setenta. Alanceado pelo terror da sorte do seu filho, Francisco Mendes socorreu-se das pessoas poderosas na corte; expondo os favores que prestara ao rei e reino; mas concluindo pouco ou nada quanto à ortodoxia do réu. Pelo que, a sua aflição de pai extremoso, oferecendo grosso dinheiro pela liberdade do filho, lhe enredava mais o processo e dificultava o perdão. O Santo Ofício não costumava fazer transações de tal natureza. Se os presos eram ricos, a Inquisição não carecia de os absolver para os espoliar.
Desde a hora em que lhe arrancaram dos braços o seu único filho, o marido de Ângela não teve mais o reparador descanso de uma noite. Nem a esposa nem o neto o distraíam da letargia em que se atrofiou desde que as portas dos amigos se fecharam às inúteis súplicas. Enquanto pôde chorar, viu a esperança ao através das lágrimas; porém, as lágrimas secaram e a luz apagou-se-lhe nos olhos ao mesmo tempo. O infeliz expirou, pensando que ouvia os gemidos do seu Jorge na tortura!... Que morte a daquele ancião cheio de virtudes.
Jorge Mendes ignorava ainda, dois anos depois, que o seu pai era falecido e sepultado no seu carneiro de família que mandara construir na igreja de Camarate, onde possuía uma quinta. O Regimento da Inquisição castigaria com grande rigor o guarda que noticiasse ao preso que o seu pai estava morto.
Entretanto, a situação de Jorge Mendes era decerto menos horrível do que se afigurara ao seu pai. Logo que foi preso e levado ao tribunal, confessou que tivera dúvidas sobre certos dogmas da religião cristã, depois que lera alguns livros condenados, os quais estavam na mesa dos inquisidores. Nomeou as pessoas com quem no estrangeiro praticara, e os apertos em que se vira, para refutar a teólogos luteranos, atribuindo estas dificuldades à sua ignorância dele, e não ao racionalismo dos contendores. Esta confissão, acompanhada de lágrimas e outros sinais de íntimo arrependimento, favorecia o preso com este artigo do Regimento, título 3° intitulado dos Confitentes:
Porém, quando algum réu depois de preso e acusado pela justiça, antes de lhe serem publicados as testemunhas dela, confessar suas culpas e a confissão for muito satisfatória pelos sinais que mostrar da sua conversão e arrependimento, e pela declaração das culpas e dos cúmplices, que deu e descobriu; poderão os inquisidores não votar em pena de cárcere e hábito perpétuo, senão a arbítrio; e isto mesmo poderá ter lugar no réu que posto que não mereça tanto favor pelo tempo, em que fez a confissão, contudo o merecer pelo modo com que a fizer e pelos sinais que der do seu arrependimento e declarações que fizer das culpas e culpados do mesmo crime.
Os requeridos sinais de conversão não podiam ser mais persuasivos. O réu, chorando pela esposa, pelo filho e pelos seus velhos pais, revelava angústias que os inquisidores poderiam supor intenso pesar de haver duvidado da unidade das três pessoas da Trindade santíssima; e, convencidos e compadecidos, poderiam, em conformidade com a lei, mandá-lo estudar melhor as santas teologias, e soltá-lo do cárcere sem penitência grave; porém, o artigo 10 do mesmo título 3° do Regimento, dizia:
Os heresiarcas e dogmatistas, posto que confessem antes de ser acusados pela justiça, sempre devem ser examinadas suas confissões (que gramática a desta santa gente!) com maior advertência, para que se veja se são verdadeiras, e os sinais que dão da sua conversão mostram estarem de todo apartados dos erros em que criam e que ensinavam; e concorrendo estas circunstâncias, serão recebidos com cárcere e hábito perpétuo, sem remissão e com reclusão, pelo tempo que parecer que convém para a sua instrução na Fé... e com o hábito penitencial levarão ao auto-de-Fé carocha com título de heresiarca ou dogmatista.
Este artigo, portanto, frustrou as lágrimas compungentes do advogado: e muitas deviam ser as que ele chorou, desde Fevereiro de 1701 até Setembro de 1703.
E, ao cabo de dois anos e sete meses de cárcere em que lhe era permitida a leitura dos Evangelhos e a prática semana! Com algum frade dominicano, e, melhor que tudo, a confissão mensal, com reserva da comunhão, saiu enfim Jorge Mendes Nobre com sambenito, no auto-de-fé, em 9 de Setembro, a fim de abjurar em público os seus erros, e ver queimar os livros que o derrancaram. A sua contrição era notória. Já por entre a multidão circulava um piedoso soneto que Jorge Mendes escrevera em resposta de outro recheado de sandias injúrias. O público, a corte e o tribunal mostravam-se compadecidos do réu confitente, do sábio jurisconsulto, do filho do cristão-novo que tão liberalmente remira a honra de D. João IV infamada pelos credores holandeses. Aumentava a condolência geral saber-se que Francisco Mendes perecera de paixão, e que a sua viúva era um raro espetáculo de desgraça e força. Pois não obstante este conjunto de circunstâncias, a sentença lida ao réu penitenciado, antes que o inquisidor o absolvesse e tocasse com a vara, continha estas duríssimas penas:
- Proibição de advogar;
- Proibição de insígnias de qualquer dignidade;
- Confiscação de todos os bens;
- Degredo por seis anos para a cidade de Miranda.
A aspereza desta sentença amacia-se bastantemente, se meditarmos que os inquisidores podiam queimá-lo, se quisessem. Ao favor de o não queimarem, acresce a extraordinária benquerença de o aliviarem da pena de hábito penitencial, podendo assim Jorge Mendes Nobre, desbalizado não só dos bens, mas até do ofício por onde podia readquiri-los, pobre e desterrado, com mãe, esposa e filhos, implorar em Miranda uma véstia de burel, visto que não poderia mendigar o hábito de penitente, que a Santa Inquisição costumava vender caro aos que forçadamente se tinham de fornecer dos seus armazéns.
***
A maior parte dos haveres de Jorge Mendes Nobre, como se disse, girava em Holanda no tráfego mercantil, mediante o rico banqueiro de Lisboa, Manuel de Castro Guimarães. Portanto, o neto de Domingos Leite Pereira era rico, a salvo da inquisição.
Aconselharam-no em Miranda que fugisse para Amesterdão: era fácil iludir ou comprar a vigilância dos familiares do Santo Oficio a quem incumbia espiar-lhe o degredo e a observância do ritual católico. Repeliu o conselho, receando perfídia, e, mais que tudo, os trabalhos de uma viagem sobressaltada para sua mãe, que orçava por cinquenta e seis anos, e para sua mulher, que ensandecera quando ouviu tanger os sinos de S. Domingos a auto-de-fé, oito dias antes do espetáculo, um tanger compassado e lúgubre como as badaladas da agonia.
Além disso, os seus dois filhos Paulo e Francisco estudavam humanidades em Lisboa, no colégio da Cotovia, que era casa de Provação. Os padres da Companhia de Jesus predispunham os dois jovens, consoante a sua usual discrição, para vestirem o hábito. Eram ambos bons alunos, humildes e de muito devotos exteriores. O afeto dos jesuítas aos filhos do herege absolto prometia que a pena de degredo fosse comutada, mormente se eles fizessem os três votos. Jorge Mendes confiava também na influência da Companhia, e não impugnava a propensão dos filhos. A prisão de dois anos, as calamidades domésticas, o terror do futuro e as tristezas do desterro aniquilaram-lhe a energia. Ângela era-lhe amparo forte, como se a dor a empedrasse. Alentava-o com as esperanças da sua religião; guardava escondida no coração a ideia pura do Cristo divino. Escutava, chorando, os murmúrios incrédulos do filho, e pedia a Deus que lhe perdoasse pelo muito que ele padecera quando seu marido expirara traspassado da paixão do filho único.
Quando menos o esperava, Jorge Mendes, no quarto ano de degredo, recebeu perdão da sentença, e a livre escolha de domicílio, com a restituição dos seus direitos civis. O portador da nova foi um poderoso amigo que pusera o infante D. Francisco, irmão de D. João V, aclamado no ano anterior, em luta com a Inquisição. Era Pedro José Supico de Morais, que o leitor talvez conheça de uma Coleção política de vários apotegmas, publicada em 1720. Não pense, porém, que Supico, segundo a obra indica, fosse um grave e conspícuo escritor de máximas e sentenças. Era pontualmente o reverso do homem que se rege por bons axiomas próprios ou alheios. Este sujeito, àquele tempo, jovem da câmara e valido do perverso infante D. Francisco, havia matado, em 1698, uma mulher por ciúmes. Acoitara-se num mosteiro, e fizera-se defender no tribunal por Jorge Mendes Nobre. Não sei se foi a eloquência do causídico, se a influência de Pedro II que lavraram a sentença absolutória. Supico afrontava, em 1707, o ódio de Lisboa, cavalgando o seu ginete arrogante ao lado do Grão-prior do Crato, neto de D. João IV.
Quando o bacharel foi preso, Supico de Morais andava viajando com as largas posses do seu património. Voltando à pátria, e insinuando-se na estima do infante, precocemente facinoroso aos dezasseis anos, vingou ingerir a vontade do rei nos decretos do Santo Ofício, e indultar as maiores cruezas da sentença que degredara o seu advogado, e lhe matara as poderosas faculdades de orador, fechando-lhe a tribuna.
O amigo de D. Francisco de Bragança descontara nas suas culpas a virtude acrisolada da gratidão. Jorge Mendes era livre, podia repatriar-se à capital, abrir o seu escritório e revestir a beca de primeiro advogado da corte.
Mas não voltou a Lisboa, nem advogou mais.
D. Ângela tinha-lhe perguntado um dia:
— Se sobrevivermos ao nosso degredo, para onde iremos, meu filho?
— Para onde minha mãe quiser.
— Eu to direi... e, se tiveres morrido, irei dizer-te para onde vou, à sepultura.
— Diga-mo agora, minha mãe, que eu receio não poder ouvi-la na sepultura. Os ouvidos dos mortos estão cheios de vermes... A podridão é surda. Para onde iremos? Eu não quero morrer, mãe! Tenho dois filhos: tenho minha mulher, que nos está ouvindo, posto que esteja morta, e tenho minha mãe que me dá exemplo de coragem. Hei de sobreviver ao degredo. Diga-me para onde iremos...
— Para a casa onde nasceu teu avô, se a casa ainda existir.
— Para Guimarães? Sei que o meu pai tinha comprado esse pardieiro aos oficiais do meu bisavô cuteleiro...
— Comprou... Vaticinava-me o coração que eu iria acabar na casinha da rua de Infesta onde começara a sentir a felicidade. Pedi ao teu pai que a comprasse aos mesmos a quem a déramos, quando meu avô morreu... Bem sei que me hão de traspassar cruéis angústias quando entrar naquela casa... Não importa... Se me queres acompanhar, Jorge, vem comigo; depois, irás para Lisboa, melhorar a tua vida, que ainda pode ter algum contentamento, e vai ver-me uma vez por outra.
— Não nos separaremos — volveu o filho. — Desde que saí do sepulcro da Inquisição ainda não vi o sol da alegria que dá o sentimento íntimo da vida. Que me faz Lisboa? Que me importam os triunfos de advogado, se já os não posso repetir? Não tornarei a ser o que fui... E que fiz eu?... A desgraça apagou-me a memória. De todos os meus estudos e triunfos apenas colhi um amigo, um homem de quem o povo pedia a cabeça, quando eu o arrancava às mãos do algoz. Salvei-o, e... desprezava-o!... mas Pedro Supico de Morais, dando-me a liberdade e o direito ao trabalho, faria de mim o antigo homem, se eu pudesse recompor o cérebro que me fizeram pedaços e mo arrancaram nas lágrimas. Tenho obrigação de viver, porque sou filho, esposo e pai. Privaram-me dos meus filhos; levaram-mos como reféns da minha fé; serão jesuítas, serão padres, se eu quiser alguma vez, na minha vida, estreitá-los ao peito e dizer-lhes que sejam hipócritas para que o seu pai não volte ao cárcere. A condição para que eu viva é que eles sejam imolados... a Deus! Seja assim... Vamos, minha mãe, vamos para o pobre casebre donde saiu seu pai a implantar na terra uma árvore de vergônteas malditas regadas com o seu sangue... Esperemos lá os meus filhos; não nos resta esperar outra alegria antes do último sono do sepulcro.
Nos últimos meses de 1707, Jorge Mendes e a sua família residiam em Guimarães, na casa onde nascera Domingos Leite Pereira, setenta e oito anos antes. Ângela, se antevisse a cerrada tristeza que a esperava naquele recinto onde volteavam as sombras do avô e do marido, teria o egoísmo de se arredar de um suplício de nenhum modo compensado. No engano de Ângela há exemplos de muitos iludidos. Figura-se-nos que no sítio onde nos bafejou a felicidade ainda poderemos aquecer ao calor das recordações a alma retransida das glaciais desgraças. Pinta-se-nos na fantasia alucinada por saudades que as pessoas mortas, que lá nos floriram a vida, deixaram toques de suave melancolia impressos na tela desluzida da nossa juventude. Prelibamos o agro das lágrimas que vamos chorar; mas julgamos que, depois das primeiras angústias, se nos há de a alma ir serenando em doces quebrantos daquela melancolia cismadora que é o remanso, onde a vaga tormentosa quebra e adormece. Funesta miragem! Os repulsos das alegrias do presente que aí vão buscá-las onde lhes ficou o túmulo delas, encontram a desolação, as ruínas das coisas reais sobre as ruínas das imagens redivivas na saudade. Os mortos amados erguem-se perante nós; mas hirtos, taciturnos, com as pálpebras roxas da tabidez dos vermes, e outra vez se reclinam no seio da sua podridão. Tudo aniquilado e perdido! Se aí há desafogo algum, é para aqueles que se compenetraram da bem-aventurança da morte — o grande abismo de tudo, a eterna serenidade do nada.
O diadema de Santo Inácio de Loiola parecia perpetuar-se na ciência da sua progenitura espiritual. Os filhos de Jorge Mendes, António e Francisco Xavier, fadara-os o vaticínio dos mestres para os elevados postos da Companhia. Em 1709 eram eles os mais distintos alunos do colégio em Coimbra; mas o braço poderoso de Pedro Supico de Morais ousou chegar aí e arrancar do tesouro da próvida Companhia aqueles dois preconizados sucessores da dinastia do talento.
Jorge Mendes confidenciara-lhe a mágoa de se ver afastado dos filhos, sendo essa uma cruel pena a que o Santo Ofício expressamente o não sentenciara. Queixava-se de que os jesuítas desatassem os vínculos da família, degenerando em quase indiferença o amor que os seus filhos tiveram aos pais, até à hora em que a Companhia os avassalara. Carpia-se por se ver obrigado a dissimular e transigir com essa ímpia tirania, receoso de recair nas masmorras do Santo Ofício e enredar os filhos na sua irremediável perdição se o acusassem de reincidência. Mostrava ter informações de que os seus inimigos se confederavam para reagir à influência do infante D. Francisco, suspeitando-o insidiosamente à Inquisição, que o trazia espiado pelos seus familiares em Guimarães, que eram os mais fidalgos e os mais devassos moradores da terra, Finalmente, pedia ao valido do infante prior do Crato que por algum modo fizesse saber aos seus filhos que se não esquecessem dele, nem aceitassem como divino o sevo preceito que impõe aos filhos a barbaria de desprezarem seus pais por amor de Deus.
Pedro Supico não se considerava ainda bastante desobrigado com o defensor que o salvou do patíbulo ou do degredo perpétuo. Por mediação direta de D. Francisco de Bragança, os filhos do bacharel Mendes Nobre foram transferidos do colégio das Artes a fim de serem empregados no serviço do infante. Impugnou a Companhia alegando o primeiro voto e a vocação dos jovens devotados liberrimamente ao instituto. Por secreta via, receberam os noviços conselhos do pai e do subsecretário de D. Francisco. Os rapazes, desoprimidos do temor de exporem o pai às insídias de inimigos, despiram o hábito com desafogo, e respiraram a haustos o primeiro ar de liberdade na juventude.
Paulo tinha vinte anos, e dezoito Francisco Xavier. O primeiro estudou jurisprudência; o segundo continuou teologia. Nenhum estorvo lhes dificultou a carreira. Os padres da Companhia doeram-se da perda, mas não se vingaram dos trânsfugas, conforme os ardis da Monita secreta, delatados ao ódio público pelos atrabiliários amanuenses do marquês de Pombal, meio século depois.
Os filhos de Jorge Mendes alegraram a precoce velhice do seu pai, e assistiram aos paroxismos da sua avó. Ângela finou-se em 1712, à volta dos sessenta e oito anos. Dado que cortadas de dores, as fibras desta raça de gente resistiam com rara tenacidade de vida. Dir-se-ia que as molas orgânicas da matéria se desgastam menos quando sobre a alma é que as dores atuam.
***
Vai terminar a longa necrologia. Era forçoso que a introdução se expusesse a enfastiar o leitor que assiste à rápida passagem de duas gerações. Não é meu costume inquirir a última moda, o moderníssimo paladar da opinião pública em iguarias desta espécie. Não sei se aprazem as delongas de Dickens, se as nudezas de Flaubert, se as tramoias de Ponson. Ouço dizer que a sentimentalidade é hoje uma vergonhosa miséria. Comover o leitor pelo coração é coisa pouco menos nefanda que anavalhá-lo pelas costas. No realismo há tudo, tirante a verdade das lágrimas. Foliar com a desgraça, arregaçar em hilaridade burlesca as feições retraídas pela agonia, é a escola novíssima — dizem eles que é novíssima. Eu, há vinte e quatro anos, remedava essa novidade nos romances de Voltaire. Escrevia a Filha do Arcediago e as Cenas da Foz. Onde isto vai! Como as novidades de agora são antigas!
Hoje estou na verdade da dor humana. Parece-me impiedade vesti-la de farsa e pô-la na praça, a escambo de risadas. O histrião não está perfeitamente acentuado no escritor. Sendo a escola, alcunhada de realista, a perversão do natural, os sectários desse desvario já se vão gozando do direito indiscutível de me refugarem da sua camaradagem de novelistas. Escrevo à antiga, porque tento comover — dizem, e é verdade.
Os personagens, extintos no decurso destas trinta páginas, tinham de morrer, pelas duas fatalidades, a da vida e a da história. Um artista mais atento às proeminências de gosto público, rescindiria a precisão de ligar Maria Isabel Traga-malhas à sua trineta, infausta personagem deste livro; eu, porém, que vi o berço dos meus personagens, segui-os até à sepultura, com muita fadiga na averiguação de miudezas dignas das insónias de uma academia, e de mim.
Está cerrada a Introdução, no momento em que a sepultura de Jorge Mendes Nobre se fecha.