A Caveira da Mártir
Capítulo XXXVI · Chegara o médico.
Chegara o médico.
Antónia, aturdida e vacilante como se fugisse de um ambiente sufocador, passou à antecâmara da alcova.
Cortejou-a o médico, e perguntou:
— Está mal seu tio? Vejo-a tão perturbada, menina!
— Eu? não tenho nada... O meu tio é que está muito doente...
Eliot entrou na alcova, inferindo da perturbação de Antónia que o padre antecipara o plano.
Ora, o projeto deplorável era simular-se o padre em perigo de vida, colher de sobressalto Antónia, ilaqueá-la na terribilidade do espetáculo da morte, coartar-lhe as resistências, levá-la enfim como um autómato, sem consciência nem relutância, a ajoelhar-se no arco do altar-mor ao lado de Eliot.
O padre, vendo entrar o médico, e interrogá-lo com os olhos suspeitosos, franziu o sobrolho. Era-lhe mais grata, naquela hora, a presença da filha, apesar da inerte mudez que tão desamoravelmente respondera à abrupta revelação do seu Segredo.
— Temos que conversar, doutor — começou Francisco Xavier. — Olhe que Antónia não mentiu a Fr. André Guilherme quando afirmou que as suas inteligências com Josse Frisch eram de todo acabadas A mim mo jurou ela com as mais sagradas cláusulas, agora mesmo.
— Nesse caso, as cartas que vossa mercê possui seriam falsas? D. Antónia negou que fosse sua a letra?
— Não lha mostrei...
— Se assim procedeu, respeitando o pudor da sua filha, fez bem, e beijo-lhe as mãos pelo heroísmo com que se houve, deixando-se dominar pelo decoro e pela piedade.
— Andarão aqui algumas cavilações que nós não possamos rastrear? — volveu o padre meditativo.
— Cavilações de que espécie? Não o percebo bem, meu amigo.
— Intrigas, trapaças, enfim, patifarias de algum inimigo...
— Se bem o entendo, quer dizer que alguém escreveu as duas cartas que entreguei ao doutor...
— Como as pôde o Sr. Eliot haver à mão?
— Comprando-as ao medianeiro da correspondência, como quem compra por baixo preço, a peçonha que havia de matar a honestidade de Antónia e a vida do seu pai. Se eu não comprasse estas cartas, a esta hora sua filha não estaria aqui.
— Quem era o medianeiro?
— O boticário prussiano Jácome, morador na Cordoaria Velha.
— Bem sei... Eu não poderia falar com esse homem?
— Não, senhor. O boticário, assim que Frisch chegou a Lisboa, fugiu para o estrangeiro, com medo de ser descoberto e castigado pelo seu atraiçoado patrício. É preciso que vossa mercê saiba que Josse Frisch, que eu imaginava ser um simples menestrel, é um valentão facinoroso. Há três dias, encontrando-se na botica de Jácome com o meu pajem Henrique Rutier, reconheceu-o como um dos meus domésticos, e, à volta de poucas palavras, sem mais nem menos, meteu-lhe uma pistola ao rosto. O meu pajem, fulminado pelo sobressalto, não resistiu; e, se resistisse, seria assassinado.
— E não o prenderam?! — interrogou o padre espavorido.
— Nem prenderão, porque o patrocinam poderosos padrinhos.
— Quais?
— Só hoje pude colher exatas informações. Josse Frisch está hospedado nos aposentos do padre Rafael Bluteau. Rodeiam-no os homens de letras mais graduados. Escuta-o e recebe-o na sua livraria o Sr. conde da Ericeira. Vossa mercê sabe que el-rei manda todas as semanas saber da saúde de Bluteau, e o padre, quando sai, é conduzido ao paço pelas seges da casa real. Já conhece quem protege o pactuado raptor da sua filha. Mas — pergunto eu — tem ele precisão de a raptar? Tolo seria, se o fizesse. Fugindo com ela, o dote ser-lhe-ia detido através de litígios; casando, levaria a mulher e o património. Não nos espantemos, pois, se de um momento para o outro, a Sra. D. Antónia Xavier se despedir de nós, visto que a está esperando o meirinho do eclesiástico, que a leva a requerimento de Josse Frisch, protegido por Paula Perestrelo, por D. João V, pelo propósito de S. Caetano, por fidalgos de primeira bitola..
— Não se assuste... — regougou o padre — não se assuste, que eu já não luto com a minha filha... é com as Perestrelos, é com o rei, e com os fidalgos... Que tenho eu com esses potentados da depravação e do escândalo?... Nesta casa, o rei sou eu! D. João V!... D. João IV, o amante desaforado da minha bisavó, fez enforcar meu bisavô, que era um marido dos que não usam pontas de ouro como João Lourenço da Cunha. Eu tenho ódio de raça a esta família relaxadíssima dos Braganças! Quando me não queimavam os parentes, roubavam-mos... A minha filha teria milhões, se a riqueza dos Traga-malhas e a dos Nobres se não escoasse parte na guerra da independência e parte nos festins desses canibais da Inquisição. O meu pai e o meu avô foram resgatados dos autos-de-fé à custa de dezenas de mil cruzados; e D. Pedro II, que não saldava as dívidas do pai ao meu avô Francisco Mendes Nobre, deixava queimar um dos meus parentes, e padecer o outro as golilhas que lhe fechavam a garganta e abriam os cofres. Veja-me esse grande devasso que aí reina! Sai de pernoitar em Odivelas, e assiste aos autos-de-fé, e não se afasta da tribuna quando as carnes dos hebreus rechinam na fogueira. Sabe que mais, doutor? Não quero morrer em Portugal!... Tenho parentes na Holanda, e cabedal bastante para me tratar desafogadamente quando a rapacidade de reis e de frades me arrebanharem esses prédios que aí tenho, e esses padrões de juro que aí estão nesses contadores. Horda de ladrões! virão roubar-lhe a filha? O forasteiro Bluteau, que lambia os pés à devassa de Saboia, e alastra as desonradas cãs nos estrados de D. João V, recolhe na sua cela o herege, e absolve-o da infâmia de raptar judicialmente uma criança!... Querem o dinheiro? levem-no! mas deixem-me a minha filha! Ponham à frente da matilha o prussiano. Assaltem esta casa, arrombem estas gavetas, levem tudo; mas não me desonrem, cafres!
O padre, à proporção que bramia, saltava do leito, amparado no médico, e envergava o vestido com vertiginosa celeridade.
— Quero esperá-los, quero ver cara a cara o tal pimpão das pistolas! — resmoneava o padre a impar de cólera e tão rúbido que o sangue parecia ressumar-lhe nas faces.
Antónia que lá ao longe, no seu quarto, ouvira a troada indistinta daqueles clamores, aproximou-se e entrou na antecâmara do padre, no momento em que ele dizia com o alento quase exaurido nos braços do médico:
— Afinal... é a minha filha que me mata! Ó Sr. Eliot! que terribilíssima expiação!... Como Deus me tem castigado com a severidade de um cruel demónio!
— Não culpe sua filha, Sr. Xavier — disse o doutor — Antoninha é uma criança, é uma doce alma que a fatalidade quis envenenar... Se o Frisch a não inquietasse no regaço do anjo da inocência, sua filha seria o bálsamo do seu pobre coração ulcerado, meu infeliz amigo!...
O subtil ouvido do médico dera tento de Antónia na próxima saleta. Estas frases que o seu bom ou mau demónio lhe inspirara, ouviu-as Antónia com admiração e contentamento. Desconfiava do despeito recôndito do médico; e detestara-o quando ele lhe suspirara finezas, tendo ela o coração cheio de amor de Frisch. A sua alma era já outra para agradecer as consolações da amizade. Figurou-se-lhe, naquele lance, Isaac Eliot um sincero amigo sacrificado a um falso amor. As expressões afetivas do médico, proferidas na sua defesa e na sua ausência, deram-lhe a reconhecer um bom carácter, e melhor coração que o do outro que a traíra com singular vilania.
O padre passou rapidamente à antecâmara; Antónia já não pôde fugir: titubeou, e disse que chegara naquele instante para saber da saúde do tio. Ela não usou reticências na escolha do grau do parentesco. É que não se lembrava já que ele fosse pai. A revelação ficara-lhe na concha da orelha, e não filtrou ao coração.
— Ia procurar-te... — disse o padre em vozes intercadentes e picadas pelos espasmos da respiração difícil. — Já que aqui estás, ficaremos aqui. Senta-te, Antónia. Sr. Eliot, sente-se também. Antónia, isto vai acabar. O teu maior amigo vai fechar os olhos, cansados, cegos de chorar. Eu choro há muitos anos; há tantos quantos tu contas. É tempo de ir adormecer o sono eterno na sepultura dos meus pais. Antónia, vai-se-te o primeiro amigo; e eu quero deixar-te amparada no coração do segundo. Se queres que as minhas derradeiras palavras sejam as de um pai extremoso que te abençoa, aceita como esposo o Sr. Dr. Eliot, que te adora há três anos, e tem por amor de ti sofrido todas as dores ocultas dos que amam com honra.
Eliot levantou-se: ajoelhou aos pés de Antónia Xavier, e balbuciou:
— O Sr. doutor Xavier disse o que os meus Lábios não ousariam proferir. Sra. D. Antónia Joaquina, se o seu pai falecer — o que Deus não há de permitir tão cedo — e a menina precisar de um amigo dedicado como pai, achar-me-á sem ser minha esposa. Eu lhe peço de joelhos, não a sua mão; peço-lhe a sua amizade.
Antónia contemplava-o... e não respondia. Era como se não o ouvisse. No espanto da vista, ainda assim, havia luz suave; se aquela imprevista cena a angustiasse, o rosto vibraria em contrações, e as lágrimas golfariam, quando o medo e a obediência lhe represassem os gritos.
Eliot esperava de joelhos a resposta. Antónia espertou da sua letargia quando o pai lhe perguntou:
— Minha filha, dás o teu futuro, os teus haveres e o teu coração ao Sr. Eliot?
— Como quiserem — respondeu ela.
O médico beijou-lhe a mão convulsa. O padre ergueu-se com os braços abertos, e exclamou:
— Abraça-me, querida filha! e perdoa-me as injustiças que eu fiz à tua dignidade... Agora, creio que não morrerei tão cedo...
E sentou-se, quase resvalando dos braços deles, chorando, arquejando e empalidecendo.
Eliot sondava-lhe o pulso, e dizia entre si:
— Que horrível desastre, se a comoção lhe rompia o aneurisma nesta conjuntura!