A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências

Capítulo II – Vizinhança escolarizada: a geografia das relações entre professor, famílias, habitantes e a cidade

Capítulo II – Vizinhança

 

escolarizada: a geografia das

 

relações entre professor, famílias,

 

habitantes e a cidade

 

…só ao professor, por estar mais contacto com o povo, é dado apreciar

devidamente.

Professor Soares Brazil (1872)

 

Diante da polêmica do regime do tempo escolar em uma ou duas sessões

de aula nas escolas públicas da Corte, o professor primário Carlos Augusto Soares Brasil fez um discurso em tom categórico: “a bem desse inconveniente apresentam-se outros ainda não menos dignos de atenção, que só ao Professor, por mais estar mais conctato com o povo, é dado apreciar devidamente” (AGCRJ, códice 10.4.19, 28 ago. 1872, f. 85-86). A proximidade dos professores com a população assinalava dois lados da mesma moeda. Por um lado, na perspectiva de Ilmar de Mattos (2004), ela colocava tais profissionais na condição de peças estratégicas na construção do Estado Imperial, como agentes da administração pública. Por outro, os professores sabiam que dispunham da possibilidade de exercer um poder, uma agência – propiciados pela autonomia da qual se faziam imbuir no exercício na profissão, mas também conferidos por sua condição e experiência de estarem em maior contato com o povo –, em favor de seus próprios interesses, fossem eles profissionais, econômicos, sociais ou políticos. Observa-se uma singular fronteira entre a subserviência e a autonomia, que tem a ver com o exercício da intelectualidade.

Uma análise da segunda condição torna possível observar múltiplas

redes de relações constituídas em torno dos sujeitos escolares que transitavam no espaço do Município Neutro. Nesse sentido, torna-se importante compreender a dinâmica local em que as escolas e seus sujeitos estavam inscritos, as relações constituídas entre professores, alunos e habitantes, bem como seus efeitos no processo de escolarização e na configuração da profissão docente.

Durante a pesquisa, procurei mapear escolas, professores e adjuntos, e

seus respectivos endereços. Porém, para dar prosseguimento à investigação até a escala dos sujeitos aos quais era destinada a ação escolar, foi necessário focalizar a pesquisa em torno de uma escola. No caso, a Escola Pública do sexo masculino da freguesia de Santa Rita, onde Pardal lecionava. A partir daí, a pesquisa se concentrou na identificação de alunos, pais ou encarregados, moradores, comerciantes e demais prestadores de serviços, a fim de analisar a distribuição dos referidos grupos no espaço atingido pela escolarização e, dessa maneira, apreender a geografia relacional que é constituída e sustentada por determinadas relações que se tornaram possíveis ou se fortaleceram por meio da existência da escola.