A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências
As ideias francesas em pauta nas Conferências e na imprensa
[…] estudar todos os progressos na arte de ensino e na ciência pedagógica, apresentando relatório circunstanciado sobre os assuntos compreendidos no grupo 26 da classificação da dita Exposição; e que represente o Brasil nas conferências pedagógicas as quais todos os países enviam uma comissão dos seus professores (Relatório dos trabalhos que foram lidos e do debate oral que teve lugar nas conferências pedagógicas, 1873, p. 29-30. In: Relatório da IGIPSC 1872-2A).
Anos depois, o próprio professor Philippe da Motta foi encarregado, por
Decreto de 29 de fevereiro de 1876, de estudar a seção de instrução pública da Exposição da Filadélfia, bem como percorrer os Estados Unidos, Alemanha, Holanda, Suíça, França, Suécia, Itália e Portugal para conhecer uma série de aspectos relativos ao ensino, listados nas instruções que recebeu para a viagem (Relatório da IGIPSC do ano de 1877, p. 5-6). Na Exposição da Filadélfia, segundo Ferreira Vianna, uma escola municipal dirigida por Pardal teria ganho um prêmio (O Cruzeiro, 15 nov. 1878).
Os professores faziam diferentes usos das ideias advindas do estrangeiro
em solo carioca, mas também almejavam a apropriação das mesmas a partir de uma imersão cultural in loco, ao demonstrarem interesse em viajar para o exterior. Segundo Schueler (2007a), as viagens pedagógicas funcionavam como uma formação em serviço, uma experiência de conhecimento, aprendizagem e de produção de um discurso de mediação cultural. Esse era o caso, por exemplo, do professor primário Olympio Catão Viriato Montez, na época regente da escola pública da freguesia de Guaratiba, que, em um livro de sua autoria, “Modo de reger uma escola de Instrução Pública” (1871), relatou seu desejo de viajar para Europa a fim de conhecer escolas (AGCRJ, códice 10.4.2, f. 70). Embora não constasse que Montez tivesse conseguido realizar seu desejo, alguns professores primários iriam fazer viagens pedagógicas, como no caso de Luiz Augusto dos Reis, conforme o estudo de Garcia (2011) e o de Manoel Frazão (Schueler, 2007).
As ideias francesas em pauta nas
Conferências e na imprensa
Nas atas das conferências, um dos aspectos que se destaca nas
menções às ideias estrangeiras é o significativo contato dos professores da Corte com diversas obras e materiais franceses. Bastos (2000), em estudo sobre as ideias pedagógicas de Ferdinand Buisson no Brasil, afirma que o século XIX brasileiro poderia ser considerado um século de “francofonia por excelência” em razão da cultura ter “absorvido” quase tudo o que se produziu na França. A autora, contudo, restringe, de certa forma, a sua apropriação à “elite intelectual” brasileira. Portanto, também cabe ressaltar que tanto ideias vindas de outros países, como dos Estados Unidos, faziam-se bastante presentes quanto eram apropriadas de variadas formas por outros grupos da sociedade, como os professores públicos primários.
Em um momento em que a formação docente se dava de diferentes
maneiras, de que modo eles tinham acesso a essa variedade de ideias e materiais? As explanações dos professores primários durante as conferências e também na imprensa confirmam que o acesso ocorria de múltiplas formas. Diferentes espaços de sociabilidade que contavam com bibliotecas, periódicos nacionais e estrangeiros em seus acervos (SAIN, Sociedade Propagadora das Belas Artes, Colégio de Pedro II), bem como reuniões de estudo como, por exemplo, na Academia Pedagógica e no Atheneu Pedagógico (Diário do Rio de Janeiro, 03 jun. 1877), constituem ambientes nos quais professores poderiam acessar e compartilhar ideias pedagógicas.
Mas as bibliotecas não eram restritas a tais ambientes. Vários
professores públicos primários tiveram a iniciativa de montar bibliotecas nas escolas em que atuavam, como os professores Costa e Cunha e Guilhermina de Azambuja Neves, noticiada na Gazeta de Notícias (22 ago. 1877). Ambos os professores mobilizavam pessoas em busca de donativos para o empreendimento. No caso de Guilhermina, a nota anunciava sua pretensão de “organizar uma biblioteca de trabalhos didáticos de instrução primária”, para a qual esperava “contar com seus colegas e todas as pessoas que a queiram coadjuvar” (Gazeta de Notícias, 22 ago. 1877).
Um artigo publicado pelo professor Augusto Cony, no periódico A
Instrucção Pública (04 maio 1873), sobre as Conferências Pedagógicas, assinala a atividade de estudo e de reflexão em torno da própria prática: “Os mentores encontrei-os nos livros que consultei; as inspirações bebi-as na mesa do estudo e do trabalho, onde sempre me achei a sós com as reflexões que me sugeria a própria prática do ensino” (p. 137). O depoimento nos remete a dois aspectos importantes. O primeiro é a confirmação de que o professor acessava obras pedagógicas, entre elas as estrangeiras, como pode ser notado nas suas exposições durante as conferências. O segundo, o de que não era uma leitura passiva, mas em diálogo com a sua própria experiência, demonstrando o exercício de uma “apropriação criativa” (Vidal, 2005 e Certeau, 1994) ou até mesmo de uma atividade intelectual mais elaborada.
No conjunto de artigos publicados em torno da polêmica da reprovação
da gramática de Vergueiro e Pertence pela comissão formada por Pardal e mais três professores, podemos observar também o conhecimento de obras francesas e uma postura crítica em relação a elas.
Aí ver-se-á que a gramática dos Srs. Vergueiro e Pertence é uma compilação sem critério de trechos de diversas obras, às vezes em contradição uns com os outros; que nela leem-se regras textualmente extraídas de Noël e Chapsal que não têm aplicação à língua portuguesa; que há regras tão inconsideradamente apresentadas, que são destruídas pelos próprios exemplos; que há em certos pontos tal anfibologia que ninguém os pode entender; que finalmente em outras quer a linguagem, quer a doutrina estão fora de alcance dos meninos. (Diário do Rio de Janeiro, 11 out. 1862).
A quantidade de obras mencionadas e de trechos citados, até mesmo na
língua original, trazidas para sustentar o debate, indica que os professores tinham acesso a livros considerados de referência. O caso dos gramáticos franceses François-Joseph-Michel Noël e Charles-Pierre Chapsal, que os professores identificaram na obra de Vergueiro e Pertence, é um exemplo. Os professores tanto conheciam a obra desses pensadores como trouxeram trechos do original em francês para criticar a forma como eles foram apropriados por Vergueiro e Pertence, como na definição de “adjetivos determinativos” e “adjetivos indefinidos”:
E esta definição, também extraída de Noël e Chapsal, é pior do que a destes autores, que assim se exprimem: « Les adjectifs indefinis determinent la signification du substantif en y ajoutant pour la plus part une idée de generalité ». Os Srs. Vergueiro e Pertence traduzindo quase literalmente este trecho, infelizmente truncam-no suprimindo – pour la plus part –; e por isso a uma definição que já não era boa tornaram péssima, convertendo-a em completa falsidade (Diário do Rio de Janeiro, 13 out. 1862, grifos no original).
Ao longo do texto, os professores fizeram vários contrapontos entre as
afirmações de Vergueiro e Pertence e as ideias dos gramáticos Noël e Chapsal, querendo, sobretudo, ressaltar que algumas regras só faziam sentido para língua francesa e não para a portuguesa, argumento que visava igualmente justificar o motivo da preferência pela gramática do professor Polycarpo Dias da Cruz, já mencionada.
Nas Conferências de 1873, diversos exemplos foram mencionados em
defesa do uso de ideias, métodos e materiais franceses. Phillipe de Barros era favorável ao uso do aparelho inventado por Mr. Level, professor do Baixo-Reno, na França, para o ensino do sistema métrico. O método Sarrazin foi defendido pelo professor Gustavo José Alberto e, segundo ele, era adotado na Escola Normal de Paris (França) e também na Escola Normal da Bahia (Brasil), na qual se formou. Olympio Montez observou que: “já em 1838 em Paris se procurava ensinar a leitura conjuntamente com a caligrafia. Assim diz um membro da Universidade em seu Manual das escolas primárias” (Trabalho do professor Olympio Catão Viriato Montez, p. 7, Relatório… 1872-2A, A-B12-7). A ponderação demonstrava o conhecimento do professor sobre o assunto e igualmente funcionava como um alerta às autoridades para o fato de que a questão já parecia superada em outros países, que tinham adotado o “novo” formato havia bastante tempo.
Phillippe da Motta também elaborou comentário em torno de algumas
práticas e objetos usados nas escolas francesas, provavelmente, baseado no conjunto de trabalhos apresentados pelos professores.
Nas escolas da França não se passa para o cálculo escrito sem que o menino esteja habilitado a fazer as 4 operações fundamentais verbal e mentalmente, assim como a calcular praticamente pelo sistema métrico; para um e outro fim há em cada escola aparelhos apropriados como o boulier-compteur, o aparelho Level, os quadros Boniface, etc. além de uma série de modelos e padrões dos pesos e medidas do novo sistema; o estudo é feito sobre problemas com relação aos usos da vida e de que existem coleções apropriadas em diversos tratados especiais, particularmente na pequena aritmética de Guilmin, na coleção de Salgey, nos pequenos tratados de Dumouchel. Para esse fim existe também o engenhoso método usado nas salas de asilo e publicado por sua autora Mme. Pape Carpantier no seu curso de educação e de instrução primária; citarei também o método de Jorge Ritte e o engenhosíssimo método de João Macé, o mais apropriado possível aos meninos, ainda os de mais tenra idade, e a que ele deu o nome de Aritmética do Vovô (Arithmetique du grand papa). E por um processo análogo a este último método que nos Estados Unidos se ensina a aritmética elementar e o sistema métrico (Relatório…, p. 26 / 1872-2A, A-B7-26, grifos do autor).
Em que pese as várias referências à França, havia igualmente um
posicionamento crítico em relação ao seu modelo pedagógico, conforme podemos observar na imprensa. O professor primário Antonio Estevão da Costa e Cunha assinalou, nesse sentido, que
Já que tocamos neste ponto permita-nos S.S. que lhe digamos que não é a França mais própria para dela recebermos inspirações em matéria de instrução, pois ela mesma para consertar e remendar a sua vai buscá-las na Inglaterra, nos Estados-Unidos e até na Prússia sua mortal inimiga (A Instrucção Pública, 14 jul. 1872).
No entanto, o número de referências aos franceses é considerável no
próprio jornal A Instrucção Pública, de onde foi extraída a fala do professor. A folha pedagógica apresenta desde divulgação de decisões oficiais tomadas pelo governo francês no campo da educação até comentários de livros publicados recentemente na França, passando por dados estatísticos, discussão em torno do ensino obrigatório, o ensino de filosofia, a aprendizagem agrícola, a questão da higiene, a menção a pensadores da educação como Charbonneau, Théry, Rendu, Daligault, Dumouchel, Carpantier, Macé, Hippeau, entre vários outros assuntos.
A publicação de tradução de obras ou de trechos também fazia parte das
colunas do jornal, como no caso do Conde Roselly de Lorgues, um dos fundadores do Journal des Instituteurs Primaires, em 1833 (D’Hauterive, 1963). O trecho publicado chamava-se “O mestre-escola”, extraído da obra “Le livre des communes, ou Régénération de la France par le presbytère, l’école et la mairie”. A tradução imprensa na folha era de uma edição portuguesa, sinalizando que as ideias francesas poderiam chegar ao Brasil via outros países, principalmente, por meio de Portugal.
Entre os autores referenciados, está o inspetor francês Jean-Jacques
Rapet, que aparece em 16 edições de A Instrucção Pública. Contribui para esta estatística o professor Candido Matheus de Faria Pardal, que obteve destaque no periódico em 1872 e 1873, ao apresentar seu programa baseado no sistema de Rapet. Tal destaque emerge em um momento em que os relatórios oficiais afirmavam que a maior parte das escolas públicas primárias do Rio de Janeiro não tinha programa, nem tabela de distribuição do tempo ou não seguia o programa existente. Outra problemática era a dificuldade em classificar e dividir os alunos em classes, já que, nesse período, uma escola pública primária na Corte tinha apenas um professor. Outro fator que favorece o destaque obtido por Pardal é o uso de um conhecimento pedagógico advindo do “mundo civilizado”, o que serviria para legitimar e adornar a obra realizada, tendo em vista que nesse mesmo ano outros professores também apresentaram programas que elaboraram para uso nas escolas em que atuavam.
Compreender como se deu a presença das ideias de Rapet e de outros
franceses na trajetória do professor Pardal, nos debates pedagógicos da Corte e nas escolas públicas da cidade pode tornar possível esmiuçar e compreender também importantes aspectos tanto das relações travadas entre os professores, governo e sujeitos escolares quanto da constituição do ofício de professor e do próprio processo de escolarização.
As apropriações que Pardal, um professor conhecido e respeitado na
Corte, fez das ideias de Rapet e a considerável divulgação desse fato na imprensa pedagógica também nos colocam outras questões como: quais os seus efeitos no funcionamento das escolas municipais criadas (e construídas) na década de 1870 e no debate entre os professores da Corte sobre organização do ensino nas escolas públicas? As ideias de Rapet também teriam contribuído na elaboração do livro de gramática escrito juntamente com José Ortiz e na larga adoção do mesmo nas escolas da Corte, assim como em outras províncias do país?