A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências

Considerações finais

 

O homem Pardal até poderia ser galhofeiro, como registra Visconde de

Taunay, e ter vivido bastante para a expectativa da época, mas era mortal, e o mesmo professor que nos parece popular a ponto de fazer parte de uma cançoneta, também foi destaque em uma nota de falecimento no jornal (O Paiz, 16 jun. 1888, p. 2).

Figura 38 – Nota de falecimento de Pardal no jornal O Paiz

 

Fonte: O Paiz, 16 jun. 1888, Biblioteca Nacional.

 

Em 15 de junho de 1888, Pardal deixou esposa, dois filhos e netos, mas

também vários discípulos, e afilhados e afilhadas de batismo. Segundo nota do jornal O Paiz, de 21 de junho de 1888, Pardal morreu de “Cachexia cancerosa”. A morte e as missas em homenagem ao professor foram noticiadas em jornais de publicação diária da época, alguns de grande circulação como O Paiz, cuja tiragem era de 25 mil exemplares. O Colégio de D. Pedro II suspendeu as aulas em sinal de luto (Diário de Notícias, 17 jun. 1888).

Jornais noticiaram que a “Comissão executiva permanente do

professorado público” havia mandado fazer uma “riquíssima grinalda”, exposta na Casa de Notre Dame de Paris, na Rua do Ouvidor, com uma fita preta de gorgorão lavrado com rica franja de ouro, onde se lia o dístico: “O professorado público primário da Corte ao professor público Candido Matheus de Faria Pardal” (Diário de Notícias e Gazeta da Tarde). A mesma comissão providenciou a missa de 30º dia, na Igreja São Francisco de Paula, que foi bastante concorrida, com a presença de familiares, “muitos professores” e “muitas pessoas distintas”. As alunas da escola pública da freguesia de Sacramento, dirigida por Adelina Doyle e Silva, entoaram cânticos sacros, acompanhadas pelo “harmonium” tocado pela “Excma. Sra. Rita Bastos” (Diário de Notícias, 17 jul. 1888).

A trajetória do professor Pardal nos conduz à questão: ¿Dónde inicia y

donde termina la escuela? Onde começa e onde termina a escola pública de meninos da freguesia de Santa Rita? A escola começa e termina nos lugares onde estiverem seus sujeitos poderia ser uma das respostas possíveis à pergunta, parafraseada de Elsie Rockwell. São eles que conferem movimento e elasticidade aos poderes e alcances da escola, avançando e recuando conforme as regras dos jogos sociais e políticos que vão se impondo, conforme as negociações que se tornam possíveis pelas ações dos sujeitos ou de acordo com as rebeldias que se tornam imperativas no cotidiano. Ao mobilizar as experiências individuais e coletivas de muitos sujeitos, a partir da escola se estabelece uma série de relações incontáveis e incomensuráveis.

Assim, por meio de seus sujeitos, a escola termina (ou começa) no

Colégio de D. Pedro II, na Escola Municipal de São Sebastião, nas escolas onde foram lecionar seus ex-adjuntos, no programa baseado em Rapet, no Arsenal da Marinha, nas urnas, na Sociedade de Baile Sylphide, na Irmandade do Divino Espírito-Santo, no júri da Corte. Nos lugares, posições e cargos em que seus sujeitos se inserem, uma parte da cultura escolar, de seus saberes, práticas e, principalmente, das relações podem estar presentes (Vincent et al., 2001).

A escola da freguesia de Santa Rita conectava muitos personagens

diferentes que davam movimento ao panorama da cidade. Pardal, como fio condutor da pesquisa e da análise, serviu para fazer aparecer as ramificações e as teias que alinhavaram um cenário observado a partir da escola. Assim, pretendi operar uma análise da trajetória de Pardal no movimento da vida, da profissão, da escola, da cidade e do mundo em quatro capítulos, envolvendo relações com governantes, colegas, alunos e moradores da Corte. Portanto, gerações docentes, vizinhança escolarizada, protagonismo dos professores na cidade e experiências conectadas com o estrangeiro constituíram os eixos, alinhavados por Pardal, em torno dos quais procurei colocar em evidência os sujeitos escolares, enfocando as dimensões individual, coletiva, profissional, governamental e territorial.

O rastreamento do nome de Pardal levou ao rastreamento de outros

sujeitos. As fontes e as informações levantadas permitiram compor um cenário que emerge a partir da escola e de seus atores e se projeta na freguesia, na cidade e em outros territórios. Um cenário que dá relevo à experiência da atividade de ensinar, mas também a de trabalhar em diferentes ofícios, associar-se, festejar, reivindicar, eleger, reprimir, julgar, ou seja, modos de ser e estar na cidade de acordo com as diferentes posições ocupadas pelos sujeitos investigados.

A metodologia empregada permitiu observar na cidade as famílias cujos

filhos ou tutelados frequentavam a escola em 1855: o carpinteiro Leopoldino, preso injustamente; o funcionário público Domingos; a costureira Fortunata; o cabelereiro José, do Teatro São Pedro; o proprietário de armazém de secos e molhados, Manoel; o mestre de embarcação Pedro, que viajava para Angola. Também pudemos acompanhar parte do percurso daqueles que deixaram a escola: os ex-alunos que morreram como Voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai, os que seguiram a carreira militar, o que se tornou músico, artista de teatro, o que se envolveu intensamente com movimentos associativistas e aqueles que, cooptados pela escola, se tornaram professores. A variedade de ocupações, as atividades exercidas na cidade demonstram uma riqueza de experiências pessoais e coletivas, reunidas de diferentes maneiras na escola de Santa Rita, que não seriam possíveis de observar sem privilegiar os sujeitos como procedimento de pesquisa.

Apesar das várias identificações realizadas, muitos ainda permaneceram

anônimos neste estudo, por não terem sido localizados nas fontes ou por não ser possível confirmar sua identidade, como no caso de José Bernabé do Espírito Santo, preso na praia do Chichorro por ter sido encontrado em “trajes mitológicos” onde tomava banho com outros indivíduos, entre eles alguns escravizados (Correio Mercantil, 12 jan. 1864). Não foi possível saber se este José se tratava do mesmo José Bernabé do Espírito Santo que constava como encarregado de aluno da escola de Santa Rita. Embora a identidade não tenha sido confirmada, o José Barnabé de trajes mitológicos também poderia ser uma figura representativa de uma parte dos sujeitos da escola que estava inserida numa região conhecida como “Pequena África”.

Por meio do professor da freguesia de Santa Rita, também foi possível

acompanhar outros professores – muitos dos quais ex-alunos, ex-adjuntos, colegas de bancas examinadoras, de associação, de reivindicação – e observar sua atuação na cidade, exercendo outras atividades, não necessariamente laboriosas ou remuneradas, mas com outras finalidades políticas, sociais, culturais. Assim, encontramos professores em irmandades, associações recreativas, em abaixo-assinado em favor de empresário de barcas ou em favor da eleição de um político, em Comissão de comércio e meios de transportes da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, testemunhando um casamento evangélico, compondo música para apresentação em teatro ou se candidatando a eleitor.

Com isso, pretendi mostrar não apenas professores, alunos, pais e

encarregados, mas sujeitos da cidade: votantes, eleitores, subdelegados de polícia, comerciantes, artesãos, militares, funcionários públicos, devotos, sócios, artistas, militantes, negociadores, enfim, agentes sociais que espalhados pela cidade se encontravam na escola de Santa Rita, presencialmente ou indiretamente, em razão da escolarização ou da figura de seu professor. Nesse sentido, os fazeres da escola e da cidade se mesclam, proporcionando aprendizagens diversas e produzindo formas de agir e pensar marcadas pelos seus pertencimentos sociais e pela escolarização. Assim, entram em jogo de forma criativa as agências subalternas, coletivas, negociadas, rebeldes (Bhabha, 1998) e as agências docentes.

Na medida em que o professor recebe reconhecimento da sociedade e é

cooptado para se inserir em outros espaços ou para participar de outros cargos, concomitantemente à docência, a análise de ser professor no século XIX também deve passar pela de ser jurado, juiz de paz, subdelegado de polícia, representante partidário, diretor de associação, de irmandade e de clubes recreativos, entre outros. Circulando por vários postos na sociedade, de caráter público ou em instituições privadas, o professor adquiria uma experiência e um conhecimento da cidade que poderia se refletir na organização da escola, na prática de ensinar e na constituição de “culturas de sobrevivência”, bem como possibilitava diversas agências.

Candido Matheus de Faria Pardal viveu 70 anos (1818-1888), mais da

metade dos quais trabalhando na docência. Estudou na Academia de Belas Artes, foi professor na escola primária, no Colégio de D. Pedro II, no Instituto Comercial da Corte, no Colégio de meninas da Baronesa de Geslin, diretor das escolas municipais, se apropriou de ideias estrangeiras, escreveu livros escolares, aprovou outros, examinou professores, adjuntos e alunos, mobilizou a categoria, e também foi eleitor, devoto, membro de irmandades, diretor de sociedades e associações beneficentes, recreativas e políticas, organizou subscrições e fez parte de diversas comissões para agência na cidade. Pardal deixou viúva, filhos e vários “afilhados e afilhadas de batismo”.

Quando a viúva Elysa Pardal morreu, em 1896, Pardal Júnior ficou

responsável pelo testamento e convocou os afilhados para receberem bens remanescentes da herança do professor Pardal, dos quais era usufrutuária a viúva (Diário Oficial, 26 nov. 1896). O texto publicado no Diário Oficial sugere que Pardal Júnior não conhecia tais afilhados que, seis meses depois da morte de Elysa, ainda não tinham aparecido para se habilitarem a fim de receber a herança, conforme exigia a lei. Sujeitos desconhecidos dos descendentes da família Pardal, mas que, para serem incluídos em testamento, tiveram uma importância na vida do professor público primário da Corte.

No entanto, por meio de suas relações, agências, atuações e seu

“traquejo” social, Pardal deixou outros herdeiros, outras heranças, outras marcas e vestígios da sua trajetória na escolarização na Capital do Império. Estes aspectos se traduzem na materialidade e na cultura escolar, mas também nas práticas e nos sujeitos que delas se apropriam criativamente, produzindo deslocamentos e experiências, que permitem alargar ainda mais o espaço até onde a escola vai, começa ou termina, e formular uma nova pergunta: onde começa e onde termina a docência?