A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências

Política – “Não são esses cidadãos a atividade e o centro do partido nas suas localidades?”

No entanto, entre os exemplos usados para comprovação de que seguia

seus estatutos, situam-se a ajuda aos enfermos e a entrega de esmolas. Para ilustrar que a sociedade estava “ocupando-se com negócios importantes em benefício da freguesia”, o artigo menciona a proposta do professor Castilho acerca da necessidade de escolas particulares nos pontos da freguesia que estavam fora do alcance da escola pública:

 

Esta proposta, que foi acolhida com geral aplauso, tem por objetivo uma representação promovida pela sociedade, pedindo ao governo medidas que facilitem o ensino particular nos pontos afastados da escola pública a todos que puderem dar à mocidade os elementos mais indispensáveis da instrução pública.

 

Embora o texto não informe quais eram as medidas que reivindicavam ao

governo, é possível inferir que ela se desse por meio da subvenção de escolas particulares para o ensino de crianças pobres. O professor também ofereceu à sociedade seus serviços em benefício da instrução de adultos. A presença de um professor como sócio da instituição, que fazia propostas para melhorar o ensino na localidade, corroborava a legitimação das atividades da sociedade – que poderia ser também usar a instrução como meio para “propagar direitos dos cidadãos” da freguesia –, bem como fortalecer o nome de Castilho como eleitor, como coincidentemente ocorreu em 1861, no ano seguinte ao da fundação da sociedade.

O conjunto de casos levantados mostram as agências de professores na

vida local no sentido de conseguir melhorias urbanas para a região, dar apoio a atividades de determinados sujeitos e lançar mão de sua imagem de professor para ajudar a legitimar agências coletivas. As ações de instituições como a Sociedade Beneficente e Propagadora dos Direitos dos Cidadãos da freguesia de Campo Grande mostram que as atuações locais também poderiam estar ligadas aos processos eleitorais, analisados a seguir.

 

Política: “Não são esses cidadãos a

 

atividade e o centro do partido nas suas

 

localidades?”

 

… mandai ao parlamento quem, em vossa consciência, possa, pelos seus comprovados talentos, ilustração, probidade e elevadíssimo caráter, promover a resolução do magno problema de nossa vida social.

Carta dos professores aos eleitores do 1.º Distrito da Corte (1881)

A Carta de 1881 era um texto de campanha para eleição de Carlos

Leôncio de Carvalho que, dois anos antes, havia promovido a reforma da instrução na Corte e do ensino superior em todo o Império. Assinavam a carta 58 professores, de nível superior, como os da Faculdade de Medicina; do ensino secundário, como os do Colégio Pedro II; e do ensino primário: Frazão, Sabino, Lisboa, Cony, Póvoas Pinheiro, Carneiro, Augusto Amazonas, Gustavo Alberto e Gomes da Silva (Gazeta de notícias, 30 out. 1881). A carta foi publicada durante vários dias e demonstrava o empenho de uma categoria profissional, de diferentes níveis de ensino, na eleição de um sujeito do Partido Liberal em torno do qual nutriam esperanças de melhorias na área educacional. Interessante destacar que Leôncio de Carvalho, anos antes, enquanto Ministro do Império, havia afirmado em seu relatório que os professores públicos não deveriam se envolver “nas lutas de que é arena a política” (Relatório do Ministro do Império de 1877, p. 24), o que serve para ilustrar que as posições políticas poderiam ser mais provisórias, de acordo com os jogos e disputas em cena, do que constituir arranjos rígidos ou inegociáveis nas tramas eleitorais.

A atuação dos professores na política não ficava restrita aos discursos e

abaixo-assinados de apoio. Também havia uma atuação ativa como votante, eleitor, candidato ou membro partidário, conforme podemos observar no quadro a seguir.

 

Quadro 23 – Professores no cenário político-eleitoral

N. Professor 1ª aparição Condição

 

1 Venancio José da 1847 Votante de Paquetá (Gazeta

Costa Oficial do Império do Brasil,

25 jan. 1847).

 

2 Candido Matheus de 1850 Suplente de eleitor; eleitor; e

Faria Pardal vereador (?)

 

3 Marcos Bernardino da 1850 Suplente de eleitor do

Costa Passos Engenho Velho (Diário do Rio

de Janeiro, 21 jan. 1850).

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e no Almanak Laemmert.

N. Professor 1ª aparição Condição

 

4 Joaquim Sabino Pinto 1860 Votante, nota pedindo voto

Ribeiro para o cargo de eleitor

(Correio Mercantil, 29 out.

1856); eleitor de São

Cristóvão (Correio Mercantil,

29 dez; 1860); candidato a

eleitor pela chapa governista

(Diário do Rio de Janeiro, 05

jan. 1861).

 

5 Luiz Thomaz de 1856 Candidato a eleitor no

Oliveira engenho velho (Correio

Mercantil, 25 out. 1856);

suplente de eleitor (Diário do

Rio de Janeiro, 10 nov. 1856).

 

6 Antonio Cypriano de 1856 Candidato a eleitor da

Figueiredo Carvalho freguesia de Santana, com

discurso político (Correio

mercantil, 20 out. 1856);

Votante (Diário do Rio de

Janeiro, 26 jan. 1877).

 

7 Antonio Pinto da 1859 Escrutador da mesa eleitoral

Costa de Souza de Inhaúma (Correio Brandão Mercantil, 19 jan 1859).

 

8 Joaquim José 1860 Eleitor da freguesia de São

Cardoso de Siqueira Cristóvão (Diário do Rio de

Amazonas Janeiro, 10 ago. 1860).

 

9 José Bernardes 1860 Votante da freguesia de

Moreira Santana (Correio da Tarde,

11 maio 1860).

 

10 Francisco Alves da 1861 Eleitor pela freguesia de

Silva Castilho Campo Grande (Diário do Rio

de Janeiro, 12 jan. 1861).

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e no Almanak Laemmert.

N. Professor 1ª aparição Condição

 

11 João Marciano de 1863 Eleitor pela chapa

Carvalho progressista da freguesia de

Santa Cruz (Diário do Rio de

Janeiro, 12 ago. 1863).

 

12 Joaquim Antonio da 1863 Eleitor do partido progressista

Silva Bastos - da freguesia de Guaratiba

(Diário do Rio de Janeiro, 14

ago. 1863).

 

13 Manoel José Pereira 1868 Suplente de eleitor da

Frazão freguesia da Glória (Correio

Mercantil, 24 jul. 1868).

 

14 Jose Joaquim Pereira 1869 Eleitor da freguesia de

de Azurara Guaratiba (AL, 1869).

 

15 Gustavo José Alberto 1876 Lista de qualificação de

votantes, 38 anos, casado

(Diário do Rio de Janeiro, 15

jul. 1876).

 

16 Carlos Augusto 1876 Lista de qualificação de

Soares Brazil votantes, 37 anos, casado

(Diário do Rio de Janeiro, 15

jul. 1876).

 

17 Augusto Candido 1876 Lista de qualificação de

Xavier Cony votantes, 33 anos, casado,

filho de Diego José Cony

(Diário do Rio de Janeiro, 14

jul. 1876); eleitor da freguesia

de Santana (AL, 1878).

 

18 José Alves da 1877 Lista de qualificação de

Visitação votantes, 24 anos, solteiro,

filho de Joaquim Alves da

Visitação (Diário do Rio de

Janeiro, 22 jan. 1877).

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e no Almanak Laemmert.

N. Professor 1ª aparição Condição

 

19 Januário dos Santos 1877 Lista de qualificação de

Sabino votantes, 39 anos, casado

(Diário do Rio de Janeiro, 09

fev. 1877); eleitor da

freguesia de Santana (AL,

1880).

 

20 José Theodoro 1877 Lista de qualificação de

Burlamaque votantes, 44 anos, solteiro

(Diário do Rio de Janeiro, 19

fev. 1877).

 

21 Joaquim José de 1877 Votante (Diário do Rio de

Souza Ribeiro Janeiro, 28 jun. 1877).

 

22 João Pedro dos 1877 Lista de qualificação de

Santos Cruz votantes, 35 anos, casado

(Diário do Rio de Janeiro, 18

jan. 1877).

 

23 Amando de Araújo 1877 Lista de qualificação de

Cintra Vidal votantes, 36 anos, casado

(Diário do Rio de Janeiro, 16

jan. 1877).

 

24 Carlos Antonio 1877 Lista de qualificação de

Coimbra de Gouvea votantes, 28 anos, casado

(Diário do Rio de Janeiro, 21

jan. 1877).

 

25 José João de Povoas 1877 Lista de qualificação de

Pinheiro votantes, 26 anos, solteiro

(Diário do Rio de Janeiro, 21

jan. 1877).

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e no Almanak Laemmert.

N. Professor 1ª aparição Condição

 

26 Olympio Catão Viriato 1877 Lista de qualificação de

Montez votantes, 36 anos, casado

(Diário do Rio de Janeiro, 03

mar.1877); Presidente da

mesa paroquial das eleições

para vereador (O Cruzeiro, 23

fev. 1878).

 

27 João Ferreira 1878 Eleitor da chapa liberal

Moscoso (Diário do Rio de Janeiro, 09

ago. 1878); Constava na lista

da chapa liberal da freguesia

do Espírito Santo (A Reforma,

03 ago. 1878); eleitor da

freguesia do espírito Santo

(Diário do Rio de Janeiro, 09

ago. 1878).

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e no Almanak Laemmert.

 

O quadro 22 não representa uma pesquisa exaustiva dos nomes dos

professores nos periódicos em razão dela estar centralizada na investigação do professor Pardal. Portanto, outros professores que não estão citados no quadro também poderiam estar envolvidos com as eleições.

Conforme mencionado, o “votante” era aquele que, participando das

eleições primárias, elegia o chamado “eleitor”. Deveria possuir uma renda de 200 mil réis (fato que tecnicamente permitiria a todos os professores homens serem votantes) e não havia exigência de saber ler e escrever até 1881. A lista de qualificação de votantes publicada nos jornais é um documento muito rico, pois apresenta uma espécie de currículo pessoal sucinto, informando nome, filiação, idade, “estado civil”, instrução, renda e profissão. Vários professores foram encontrados em tais listas, demonstrando que eles se interessavam por questões políticas ou que eram cooptados para participarem das eleições. De uma forma ou de outra, o envolvimento, ainda que no âmbito das eleições primárias, torna-se evidente.

No caso dos eleitores, era exigida renda de 400 mil réis e precisavam ser

eleitos pelos votantes. Pardal e Marcos Bernardino (que ainda não era professor público à época) são os professores mais antigos encontrados como eleitores, ambos na condição de suplentes, em 1850. Observa-se que os professores eleitores identificados no quadro eram de diferentes freguesias, entre urbanas e rurais, e ao atuarem nos processos eleitorais, ajudavam a configurar o cenário político da época.

Havia professores ligados ao Partido Progressista, ao Liberal e ao

Conservador, o que demonstra que não existia somente uma posição política no interior da categoria e nem que isso impedisse os professores de grupos políticos diferentes de agirem juntos em prol da classe. Apesar das rivalidades no interior do magistério público primário, evidenciados pela imprensa pedagógica (Villela, 2002b), havia uma tentativa de passar uma imagem de união do grupo, aspecto que fica evidente em artigo da folha A verdadeira Instrução Pública – presidida por Manoel Frazão e dirigida por comissão composta por Pardal e mais alguns professores –, que rebatia as suspeitas de dissidência.

 

Por outro lado blasonam de ter ao seu lado os distintos professores Costa e Cunha, e Castilho, dos quais fazem apologia.

Mas, que querem inferir do fato de escreverem esses ilustres professores de preferência na Instrução Pública? Que são nossos inimigos, ou que estão em dissidência?

Forte ingenuidade! Pois nós interpretamos a coisa de outro modo. Esses dignos cavalheiros não querem que suas asserções sejam apreciadas como são as nossas; lá nisso eles fazem justiça ao caráter de nossos adversários.

E depois, se o ter escrito na Instrução Pública significasse dissidência, então nosso companheiro de lide, o ilustre professor Marques, seria também dissidente! Ora, meus amigos, outro ofício! Estamos mais unidos do que nunca o estivemos! (A verdadeira Instrução Pública, 15 jul. 1872)

 

O recado dirigido à folha A Instrução Pública, embora não trate de

questões partidárias, aponta as tensões políticas existentes entre os membros dos jornais. No entanto, a redação de A Verdadeira Instrução Pública parecia cuidar para não serem interpretadas como enfraquecimento da categoria, em um momento em que estavam ganhando terreno e mais visibilidade nos debates da época. Os professores admitiam a existência de discordâncias, mas não de dissidências. E alfinetavam: não eram “políticos” que falavam de educação, eram do ofício docente; por isso, mais unidos do que nunca. Mas, se não admitiam a existência de intrigas internas na categoria, o mesmo não se dá no caso dos grupos políticos nos quais os professores também circulavam e cujas tramas surtiam efeitos no exercício docente. Nesse sentido, cabe lembrar a exoneração de Polycarpo José

Dias da Cruz do cargo de professor público primário e a de Pardal do cargo do diretor das escolas municipais por motivos políticos.

Para se inserirem na política via eleição de segundo grau, alguns

professores apelavam para algumas estratégias como publicar nota nos jornais para votar, ser votado e agradecer votos. O professor da escola pública de Inhaúma em 1856, Joaquim Sabino Pinto Ribeiro, pode servir de exemplo para os dois primeiros. A estratégia discursiva do professor é bastante interessante e pode ser vista na nota publicada em 29 de outubro 1856, intitulada “Candidatura ao honroso e popular encargo de eleitor!”. Os adjetivos chamam a atenção: “honroso” e “popular”, dando a ver as representações em torno do cargo. O professor informa que ainda havia vaga na sua lista para votar em eleitor e pede, a fim de que os candidatos não fiquem lhe devendo favores, para que também votem nele, usando como argumento de valorização e legitimidade da candidatura o fato de morar há dezoito anos na freguesia. Apelava para a tradição de se confiar em quem não era “forasteiro”.

Figura 27 – Nota sobre a candidatura de Joaquim Sabino

 

Fonte: Correio Mercantil, 29 out. 1856, Biblioteca Nacional.

 

No caso de Francisco Alves da Silva Castilho, da freguesia de Campo

Grande, o professor publica nota agradecendo aos “comparoquianos” e aos amigos que se empenharam na sua candidatura a eleitor (Correio Mercantil, 27 jan. 1861), demonstrando que havia uma rede de relações que o permitiu sustentar uma candidatura a eleitor na freguesia rural onde residia e trabalhava como professor. Agradece também aos adversários da chapa pela bondade, delicadeza e cavalheirismo com que foi tratado. O tom de agradecimento pode sugerir a existência de tensões produzidas por disputas no interior da própria chapa que poderiam ter sido amenizadas no caso de Castilho.

Figura 28 – Agradecimentos de Castilho

 

Fonte: Correio Mercantil, 27 jan. 1861, Biblioteca Nacional.

 

Por outro lado, notas de jornais acerca de fraudes eleitorais também

poderiam trazer nomes de professores. Em uma delas, menciona-se que o professor Joaquim Antonio da Silva Bastos reclamou de irregularidade na eleição de 1878, pelo fato da mesa ter deliberado a favor de um pedido, feito no próprio dia das eleições, de dezessete votantes para votar (O Cruzeiro, 1878). O problema veio à tona com o sumiço de duas folhas de votantes que não haviam comparecido, cuja culpa recaía em torno de quatro ou cinco dissidentes “despeitados pelo malogro de suas pretensões”. Embora o artigo não acuse o professor pelo sumiço, o fato de Joaquim Bastos ter reclamado, mas não ter apresentado o “protesto” formalmente, como havia declarado, poderia tê-lo colocado no rol dos suspeitos ou ao menos ter favorecido o evento ao repassar informações.

Pardal era eleitor pela freguesia de Santana, mesma freguesia onde mais

tarde outro professor, Augusto Candido Xavier Cony, aparecerá nas listagens de eleitores. Nas eleições de 1872, a apuração dos votos pôde ser acompanhada diariamente pelos jornais e o resultado final apontou Pardal em 6.° lugar com 736 votos, sendo que o primeiro colocado obteve 751, diferença muito pequena, deixando para trás um Visconde (de Itamaraty) e o Conselheiro Antonio Félix Martins (seu “chefe” no Conselho Diretor da Inspetoria Geral de Instrução). Dias depois, o jornal publica a “ultima e definitivamente [lista] adotada pelos conservadores da mesma freguesia” em que Pardal aparece em 10.° lugar (Correio do Brazil, 09 nov. 1872). Muitos dos votos que o professor primário recebeu podem ter sido conquistados por transitar e ganhar visibilidade em diferentes organizações sociais. Essa pode ter sido a última eleição em que Pardal foi candidato a eleitor pela freguesia de Santana.

A informação de que Cony era eleitor pela freguesia de Santana foi

localizada no Almanak Laemmert de 1878, período em que Pardal já havia alterado seu domicílio eleitoral, por ter mudado sua residência para o Engenho Novo. No entanto, a filiação partidária de Cony era outra. A Gazeta da Tarde (20 abr. 1882) noticiou que o eleitorado liberal da paróquia de Santana, sob a presidência do médico, político, ex-presidente da Câmara Municipal, Adolpho Bezerra de Menezes, elegeu para o diretório do Partido Liberal cinco indivíduos, sendo um deles Augusto Candido Xavier Cony. Cony dividia a responsabilidade com o médico Pedro Borges Leitão, o tenente Joaquim Duarte do Nascimento (AL, 1880), o médico e vereador Amaro Manoel de Moraes (AL, 1880) e Antonio Joaquim Lázaro Ferreira, amanuense da Junta Central de Higiene Pública (AL, 1880) – os dois últimos, juízes de paz da freguesia de Santana (AL, 1880). Um professor público primário, um militar, um empregado público e dois médicos agindo juntos em nome do Partido Liberal na localidade, na qual Pardal atuou por vários anos pelo Partido Conservador. Tal fato sinaliza a agência de professores em atividades partidárias locais também como representantes de partidos.

Cony igualmente atuou vários anos junto ao Partido Liberal. Podemos ver

seu nome ainda como membro do diretório local em 1889, em um texto que comenta disputas e divergências no interior do Partido. O artigo escrito por Henrique Alves de Carvalho - que se defendia da intenção de um correligionário de retirá-lo da disputa nas eleições -, faz uma lista dos membros dos diretórios paroquiais do Partido Liberal, na qual consta o nome de Cony, que teriam apoiado sua candidatura. Uma observação que Henrique faz ao final da listagem chama atenção: “Não são esses cidadãos a atividade e o centro do partido nas suas localidades?” (Gazeta da Tarde, 10 jul. 1889). A observação data do último ano do Império e pode evidenciar um longo processo de atuações diversas – e até controversas – junto às localidades, contando com professores em suas fileiras.

A mesma freguesia de Santana teve ao longo de três décadas sempre

um professor público primário na condição de eleitor, contribuindo para a configuração política das instâncias de governo e das disputas locais. Embora Pardal e Cony fossem ligados a partidos opostos, a rivalidade política não se traduzia em desavenças pessoais. Cony e Pardal, por exemplo, adotaram experiências pedagógicas similares, como a apropriação do sistema Rapet, e notas na imprensa registram elogios de Cony ao trabalho de Pardal.

Na década de 1880, quando residia no Engenho Novo, Pardal apareceu

em uma lista publicada em jornal na condição de vereador (O Paiz, 02 set. 1885). A nota informava que os vereadores haviam entregado ao tesouro da Câmara Municipal uma quantia “agenciada” na freguesia do Engenho Novo. Essa foi a única menção encontrada ao posto de vereador ocupado por Pardal durante a pesquisa, não sendo possível obter mais informações acerca do fato ou verificar se a nota havia incorrido em erro ao incluir o nome de Pardal. A lista de vereadores publicada pelo Almanak Laemmert nesse período não traz o nome de Pardal, por exemplo. Todavia, a possibilidade de eleição de um professor jubilado para um cargo mais alto nos processos eleitorais poderia sugerir a conquista/construção de uma importância e imagem pública ao longo da sua trajetória no cenário carioca.

Outro cargo que estava relacionado às eleições era o de juiz de paz,

eleito nas eleições de segundo grau, juntamente com os vereadores. A reforma do Código do Processo Criminal em 1841 limitou os seus poderes, mas sua figura continuou representando uma autoridade local de controle social. Os incisos do artigo 91 do Código que se referem ao papel do juiz de paz eram:

 

§ 4º Fazer por em custodia o bêbedo, durante a bebedice.

§ 5º Evitar as rixas, procurando conciliar as partes; fazer que não haja vadios, nem mendigos, obrigando-os a viver de honesto trabalho, e corrigir os bêbedos por vicio, turbulentos, e meretriz escandalosas, que perturbam o sossego público, obrigando-os a assignar termo de bem viver, com cominação de pena; e vigiando sobre seu procedimento ulterior.

§ 6º Fazer destruir os quilombos, e providenciar a que se não formem.

§ 7º Fazer auto de corpo de delito nos casos, e pelo modo marcados na lei.

§ 9º Ter uma relação dos criminosos para fazer prende-lo, quando se acharem no seu distrito […].

§ 14º Procurar a composição de todas as contendas, e dúvidas, que se suscitarem entre moradores do seu distrito, acerca de caminhos particulares, atravessadouros, e passagens de rios ou ribeiros; acerca do uso das aguas empregadas na agricultura ou mineração; dos pastos, pescas, e caçadas; dos limites, tapagens, e cercados das fazendas e campos; e acerca finalmente dos danos feitos por escravos, familiares, ou animais domésticos.

 

Pardal exerceu o cargo na freguesia do Engenho Novo quando já tinha se

aposentado. Outros professores também exerceram a função ou, ao menos, se candidataram a ela: Simão Bernardino Costa Passos – Juiz de direito do Engenho Velho (Correio Mercantil, 15 maio 1848); Joaquim Sabino Pinto Ribeiro – agradece a indicação para juiz de paz, mas por achar “voto perdido” indica outros três nomes para o cargo (Correio Mercantil, 27 jun. 1856); Joaquim José Cardoso de Siqueira Amazonas – em uma lista para concorrer ao cargo de juiz de paz foi apresentado como médico e professor público (Correio Mercantil, 09 maio 1858); Joaquim José Cardoso de Siqueira Amazonas – anúncio de onde atenderá na função de juiz de paz, que era mesmo endereço da escola (Diário do Rio de Janeiro, 25 jan. 1861), juiz de paz da freguesia de São Cristóvão no período de 1861 a 1864 (AL, 1861); João Ferreira Moscoso – candidato monarquista a juiz de paz (Gazeta da Tarde, 03 ago. 1886); Olympio Catão Viriato Montez – suplente de juiz de paz (Gazeta de Notícias, 18 fev. 1878) e juiz de paz de Paquetá (AL, 1881). A presença de professores primários na função de juiz de paz também foi identificada por Munhoz (2012) na 5ª Comarca de São Paulo, incluindo os postos de júri e vereador, servindo de exemplo para demonstrar que o envolvimento docente em tais atividades também se dava em outras regiões do país.

Flory (1986) ressalta a importância local e informal do juiz de paz. Em sua

paróquia “era uma personalidade de carne e osso cujos poderes estavam definidos em igual medida pelas pressões individuais e comunitárias que

pelos estatutos e decretos” (p. 109, tradução nossa).2 Um professor público primário era uma pessoa de carne e osso conhecida também por sua atuação profissional. Ao ocupar o posto de juiz de paz, poderia mesclar funções diferentes, mas correlatas: educar e ajudar a manter a ordem, encarnando assim duas “missões”. O mesmo indivíduo era, pelo menos, ao mesmo tempo, eleitor, juiz e professor público: “como era uma figura tão básica e um produto de seu ambiente, descrever o juiz de paz imperial é, em grande parte, descrever a vida política e social da comunidade paroquial

brasileira” (p. 109, tradução nossa).3 Dessa forma, no caso das freguesias em que havia a atuação mais intensa dos professores públicos primários, pode-se pensar que descrever o juiz de paz também pode ser descrever a vida política, social e escolar daquele espaço.

O interesse dos professores públicos primários em ocupar o posto de juiz

de paz também chama atenção, bem como o fato de exercerem o ensino e o juizado no mesmo lugar, o prédio da escola pública. Era sinal de que a escola, mais do que um espaço de ensinar as primeiras letras, poderia representar um lugar político, concentrando a política de instrução e a política de resolução de problemas locais. De tal forma, a presença de uma escola na localidade poderia gerar mais efeitos do que os esperados pela escolarização primária, dependendo do envolvimento do professor com as agências sociais. Efeitos eleitoreiros, ordenadores, punitivos, conciliadores. Nesse sentido, a importância do papel da escola na paróquia poderia extrapolar as intenções almejadas com o processo de escolarização, visto que poderia estar intensamente envolvida com outros processos políticos e sociais.

O juizado de paz era visto como um instrumento para garantir a

“independência judicial” juntamente com outro mecanismo, o de jurado (Flory, 1986). Ser convocado para compor o júri da Corte também tinha relação com as eleições, pois seus membros eram designados a partir do quesito de probidade e do critério de elegibilidade nas eleições de segundo grau. Pardal foi selecionado para o júri várias vezes em sessões em que o promotor público foi seu ex-aluno Antonio Ferreira Vianna – que viria a se tornar inspetor das escolas municipais em 1872 –, que ocupava um posto que participava diretamente da qualificação de jurados.

Além de Pardal, havia uma quantidade significativa de professores

convocados para compor o júri da corte: Luis José de Mello (Correio Mercantil, 07 nov. 1848); João José Pereira Sarmento (Diário do Rio de Janeiro, 18 jan. 1834); Felizardo Joaquim da Silva Moraes (Diário do Rio de Janeiro, 18 mar. 1830); João Ferreira Moscoso (Gazeta de Notícias, 07 abr. 1880); Joaquim José de Souza Ribeiro (Gazeta de Notícias, 10 jun. 1888); Antonio Pinto da Costa de Souza Brandão (Correio Mercantil, 21 jul. 1868); José Bernardes Moreira (Diário do Rio de Janeiro, 13 nov. 1873); João da Matta Araujo (Gazeta de Notícias, 05 ago. 1885); Antonio Cypriano de Figueiredo Carvalho (Correio Mercantil, 17 abr. 1858); José Joaquim Xavier (Diário do Rio de Janeiro, 30/05/1871); Gustavo José Alberto (Diário do Rio de Janeiro, 10 jul. 1877); Olympio Catão Viriato Montez (Gazeta de Notícias, 09 ago. 1881); Antonio Candido Rodrigues Carneiro (Gazeta de Notícias, 04 nov. 1885); e João Pedro dos Santos Cruz (Gazeta de Notícias, 08 nov. 1883).