A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências

“Para maior brilhantismo”: espaços de sociabilidade, festejos e organização coletiva

que, premido pela pobreza, tornara-se ‘pegador de escravos fugidos’, passando a sentir-se ‘bastante rijo para por ordem à desordem’ (p. 269, aspas do autor).

 

O levantamento em torno dos pais e encarregados dos alunos da escola

de Santa Rita mostra que vários estavam comprometidos com a política de governo da cidade, em menor ou maior grau de atuação, como no caso daqueles que ocuparam diferentes funções do aparato político e repressivo da Corte. Muito possivelmente, nesse conjunto de famílias, estavam aqueles a quem se destinava o controle e a vigilância e aqueles que eram responsáveis por mantê-los, cujos filhos dividiam, durante algum tempo, o mesmo espaço de experiência escolar.

 

“Para maior brilhantismo”: espaços de

 

sociabilidade, festejos e organização

 

coletiva

 

Figura 22 – Anúncio da Irmandade do Divino Espírito-Santo

 

Fonte: Correio Mercantil, 28/05/1858, BN.

 

O anúncio convite de que o “império estará armado e iluminado” (Correio

Mercantil, 28 maio 1858) foi assinado pelo secretário da Irmandade do Divino Espírito-Santo da freguesia de Santana, João José Alves Ferreira, já mencionado como o fiscal que anunciou a proibição do entrudo em 1857. Da mesma irmandade fazia parte a costureira Fortunata Maria de Mendonça, responsável pelo aluno Pedro Fortunato Lamin, e que nela ocupara os cargos de “juíza da sagrada família” e de zeladora.

Confrarias, irmandades, ordens terceiras, devoções entre outras

organizações de caráter religioso faziam parte do cotidiano de alguns pais e encarregados. Podiam reunir sujeitos de diferentes grupos sociais podendo nelas se estabelecer “solidariedade verticais” e também servir como associações de classe, profissão, nacionalidade e etnia (Abreu, 1999). A Irmandade do Divino Espírito-Santo era formada por pessoas de variadas situações sociais como médicos, comerciantes, carpinteiros e funcionários públicos, assinala Abreu.

Em geral, tais instituições possuíam o intuito de incentivar a devoção a

um santo e procuravam atuar com fins beneficentes. As irmandades, organizadas por leigos, e as ordens terceiras, subordinadas às ordens religiosas, com maior poder e dinheiro tinham hospitais e atividades voltadas para o atendimento à população pobre.

A Confraria dos Mártires São Gonçalo Garcia e São Jorge, da qual era

cobrador o cabeleireiro José Pinto Ramos, era uma irmandade de negros (Mattos, 2004), o que poderia a nos levar pensar que José também o fosse. No entanto, no caso de outra irmandade negra, a Irmandade de Santo Elesbão e Santa Efigênia, Reis (1996) assinala que os africanos oriundos da Costa da Mina, Cabo Verde, Ilha de São Tomé ou de Moçambique serviam como juízes, enquanto o cargo de tesoureiro seria sempre ocupado por um branco. Diante disso, torna-se complicado arriscar uma afirmação.

Embora tivessem finalidades diferentes, tanto a Irmandade do Divino

Espírito-Santo da freguesia de Santana quanto a Confraria dos Mártires São Gonçalo Garcia e São Jorge estiveram ligadas por um tempo. Quando a Igreja Matriz da Irmandade foi demolida, ela se instalou provisoriamente na Igreja da confraria (AL, 1858).

As festas, no entanto, eram o momento máximo dessas instituições,

fossem elas grandes ou pequenas, e João e Fortunata participavam de um grande evento que, segundo Abreu (1999), era considerado como o mais concorrido na cidade até meados do século XIX. A Festa do Divino Espírito-Santo da Irmandade de Santana ocupava uma imensa área no campo de mesmo nome, com barracas, atrações, como leilões de prendas e fogos, danças, música e público. Durante a festa, o imperador do Divino era escolhido, um menino menor de doze anos, e construído um império para abrigar o patrocinador das festividades.

As festas eram frequentadas por variados tipos. Ancorada em Moraes

Filho, Abreu (1999) relata a presença da plebe, burguesia, escravos, aristocratas, homens de letras e fortes indícios de que a festa criava a oportunidade de encontro dos habitantes da cidade, inclusive mulheres,

 

Mais do que o encontro, favorecia a mistura dos escravos com os livres pobres, confundindo e difundindo entre si, independentemente da situação jurídica, gostos estéticos e práticas culturais diferentes, abrindo a possibilidade para se criar sempre algo diferente e novo (p. 102).

 

Foi nesse sentido que Abreu, em sua pesquisa sobre festas religiosas e

cultura popular no Rio de Janeiro ao longo do século XIX, escolheu a festa do Divino Espírito Santo como eixo, para compreender “o exercício da religiosidade popular e sua relação dinâmica, criativa e política com os diferentes segmentos da sociedade, seus próprios pares, representantes do poder, autoridades locais, setores eruditos e reformadores católicos e protestantes” (p. 37-38), em um período atravessado pelos impasses entre um projeto político imperial de civilização europeizante e a prática de manifestações culturais vistas como perigosas e atrasadas.

Dessa forma, chama atenção o fato de João José ser também fiscal da

freguesia de Santana, visto que os fiscais eram os auxiliares da Câmara Municipal no controle das condutas desordeiras e que a Câmara era responsável por autorizar a realização de festas na cidade (Abreu, 1999). Os fiscais recebiam parcos vencimentos, mas deviam saber ler e escrever para dar conta do regime de escrituração do serviço. Será que o fato de haver um fiscal na organização da festa conferia maior confiabilidade ao evento? Seria essa uma estratégia das irmandades para manutenção das festas ou mera coincidência? O fato é que no grupo pesquisado havia mais dois membros de outras irmandades que também ocupavam cargos de vigilância e repressão, como Domingos Thimoteo de Carvalho, fiscal suplente da freguesia de Santa Rita e oficial da Câmara Municipal; e Manoel Antonio Mafra, inspetor de quarteirão freguesia de Santa Rita

(quadro 16).

 

Quadro 16 – Irmandades e Confrarias

N. Nomes Instituições e cargos

 

1 Adriano José da Silva Mesário da Irmandade do Santíssimo

Braga Coração de Jesus na igreja matriz de S.

José (AL, 1869).

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

N. Nomes Instituições e cargos

 

2 Belmiro Borges “Andador” da Venerável Confraria da

Pereira Imaculada Conceição (AL, 1853).

 

3 Domingos Thimoteo Irmão vigário (AL, 1864) e irmão de Capela

de Carvalho da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos

Milagres (Diário de Notícias, 21 jun. 1871);

Secretário da mesa de fundação da

Irmandade Santa Rita de Cassia (Gazeta de

Notícias, 24 maio 1878).

 

4 Florenciana Candida Secretária da Irmandade do Senhor Santo

Gomes da Costa Cristo dos Milagres, da freguesia de Santa

Rita (várias edições do Correio Mercantil de

1858).

 

5 Fortunata Maria de Juíza da Sagrada família da Irmandade do

Mendonça Divino Espírito Santo da freguesia de

Santana (AL, 1857, p. 193);

 

Zeladora da Irmandade do Divino Espírito

Santo da freguesia de Santana (AL, 1858).

 

6 Francisco Joaquim de Secretário da irmandade que organizou a

Nazareth festa da Virgem Santíssima Senhora da

Conceição (Diário do Rio de Janeiro, 13 dez.

1851); Secretário da Irmandade do

Santíssimo Sacramento (Diário do Rio de

Janeiro, 14 dez. 1860).

 

7 Jacintho de Souza Irmão de capela da Irmandade de Santo

Ribeiro Guimarães Antonio dos Pobres e Nossa Senhora dos

Prazeres (AL, 1860).

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

N. Nomes Instituições e cargos

 

8 João José Alves Ferreira Consultor da Irmandade de Nosso

Senhor do Bonfim (AL, 1857); Escrivão (AL,

1857) e secretário da Irmandade do Divino

Espírito Santo da freguesia de Santana

(Diário do Rio de Janeiro, 19 abr. 1858);

Anúncio de missa fúnebre de João

promovida pela Ordem Terceira da

Imaculada Conceição (Diário do Rio de

Janeiro, 26 nov. 1858).

 

9 José Pinto Ramos Mesário da administração da Devoção de

Nossa Senhora da Piedade (Diário de

Notícias, 14 out. 1886);

Cobrador da Confraria dos Mártires São

Gonçalo Garcia e São Jorge (Diário de

Notícias, 30 ago. 1886).

 

10 Luiz Rodrigues de Na lista de irmãos e devotos que

Faria contribuíram com donativos para o traslado

da imagem do Senhor do Bonfim para

Irmandade Nosso Senhor do Bonfim (Correio

Mercantil, 11 dez. 1857).

 

11 Manoel Antonio Mafra Tesoureiro da Devoção Nossa Senhora da

Conceição em São Francisco na Prainha

(Correio Mercantil, 24 set. 1857).

 

12 Manoel Ferreira dos Definidor da Venerável Ordem Terceira de

Santos Lima São Francisco da Penitência (AL, 1873);

Mesário da Confraria Nossa Senhora das

Dores da Candelária (AL, 1874).

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

 

Podemos observar pelo quadro que tais sujeitos ocupavam posições

distintas dentro das irmandades e que alguns eram membros de mais de uma entidade. Segundo Reis (1996), o corpo dirigente das irmandades era chamado de mesa, da qual faziam parte juízes e provedores, que eram considerados os dirigentes máximos, e escrivães e tesoureiros que também tinham grande poder. Os outros cuidavam “da organização de festas e funerais, coleta de esmolas, assistência aos doentes, administração da capela e do culto divino” (p. 4). É bastante provável que vários outros pais e encarregados também tivessem sido membros de irmandades, mas não aparecem nesse conjunto de fontes de pesquisadas por não fazerem parte dos quadros administrativos.

A inserção nas irmandades consistia numa oportunidade de frequentar

um espaço de estabelecimento de laços de solidariedade, numa forma de garantir assistência em momentos difíceis e por vezes um lugar de reconhecimento social numa sociedade hierarquizada e excludente (Oliveira, 1998). Para a Igreja, as irmandades representavam um conjunto de fiéis importantes para sua afirmação perante o Estado e, segundo Oliveira (1998, p. 3), para o Estado, “representavam uma perspectiva na manutenção da ordem social na medida em que dirigiam a vida dos fiéis dentro dos preceitos da religião oficial”. No entanto, o autor assinala que a autonomia das irmandades preocupava as autoridades eclesiásticas e do governo, pois sustentavam uma perspectiva leiga e tradicional da religião que os eclesiásticos procuravam “depurar” e que o Estado procurava modernizar, alterando espaços e costumes que desestruturavam práticas costumeiras. Nesse jogo entre poder temporal e poder espiritual, as irmandades procuravam viver nos espaços intersticiais entre Estado e Igreja aproveitando-os para afirmar sua autonomia (Oliveira, 1998).

Alguns desses sujeitos também estavam envolvidos com outros espaços

de sociabilidade, como sociedades de caráter cultural ou mutualista. Era outra maneira de assegurar alguma proteção e auxílio ou um caminho para participar mais ativamente na vida política, econômica e social da cidade. O professor Pardal também era membro de algumas dessas instituições listadas no quadro a seguir, como a Imperial Sociedade Amante da Instrução, a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e a Imperial Companhia de Seguro Mútuo contra fogo.

 

Quadro 17 – Sociedades e associações

N. Nome Instituição

 

1 Francisco Joaquim de Escriturário da Imperial Sociedade Amante

Nazareth da Instrução (Diário do Rio de Janeiro, 05

ago. 1855).

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

N. Nome Instituição

 

2 Francisco Pereira da Membro da diretoria da Companhia Resgate

Silva Vidal Militar (Gazeta de Notícias, 11 jul. 1876).

 

3 João José Rebello Sócio da Sociedade Alpha-literária (O Globo,

17/02/1875).

 

4 Joaquim Cosme Conselheiro da Imperial Sociedade

Monteiro Auxiliadora das Artes mecânicas e Liberais e

Beneficente (Diário do Rio de Janeiro, 13

mar. 1877).

 

5 Joaquim José Pereira Membro de loja maçônica (Boletim do

d’Almeida Grande Oriente do Brasil, 1878, p. 418).

 

6 Luiz Rodrigues de Secretário adjunto da Sociedade de Baile

Faria Sylphide (AL, 1854).

 

7 Manoel Antonio Mafra Secretário (04 abr. 1863) e tesoureiro da

Sociedade Patriótica Sete de Setembro com

reunião na Rua de Mato-Grosso (Diário do

Rio de Janeiro, 11 out. 1863).

 

8 Manoel Ferreira dos Mordomo da Sociedade Portuguesa de

Santos Lima beneficência (Diário do Rio de Janeiro, 03

set. 1874);

Sócio da Comissão Central Portuguesa de

Socorros (Diário do Rio de Janeiro, 28 abr.

1874);

Membro de loja maçônica (Boletim do

Grande Oriente do Brasil, 1875);

Sócio da Associação Promotora da Instrução

de Meninos (Diário do Rio de Janeiro, 09 jun.

1875);

Conselheiro da Imperial Companhia de

Seguro Mútuo contra fogo (AL, 1885).

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

N. Nome Instituição

 

9 Theodoro Jansen Sócio efetivo da Sociedade Auxiliadora da

Muller Indústria Nacional (Diário do Rio de Janeiro,

04 ago. 1864);

Vice-presidente do Club Guarany (Diário de

Notícias, 22 jun. 1871).

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

 

Instituições que também promoviam eventos, como a de Manoel Antonio

Mafra. Enquanto secretário da Sociedade Patriótica Sete de Setembro, cujas reuniões se davam na rua onde residia (como não há o número, não é possível ter certeza se acontecia em sua própria residência), convocou as pessoas para o toque da alvorada do dia 7 de setembro, na “varanda iluminada” instalada no Morro do Jogo da Bola (Correio Mercantil, 06 jul. 1863). O evento seria seguido de missa na capela de São Francisco da Prainha, onde funcionava a Devoção Nossa Senhora da Conceição, da qual também fazia parte. Na nota, Mafra também convocou as sociedades de música a estarem presentes no evento. Podemos igualmente observar que o trânsito dos sujeitos por diferentes instituições favorecia o intercâmbio de atividades realizadas por elas. Tal evento, por exemplo, mobilizou os membros da Sociedade Patriótica, da Sociedade Musical Monarquista e da Capela São Francisco da Prainha e ainda procurava mobilizar outras por meio da nota de jornal.

Para Viscardi (2004), as associações cumpriram um papel fundamental

na sociedade civil, pois proporcionavam amparo aos desvalidos, garantiam aposentadoria aos trabalhadores, ainda que parcial: “se constituíam como espaços de lazer e solidariedade, contribuíam como reforço de identidades coletivas e chegavam até a funcionar como instrumentos facilitadores do processo de construção de cidadania” (p. 100).

Cabe lembrar que José Pinto Ramos, que consta no quadro das

irmandades, mas não neste último, era cabeleireiro dos Teatros de São Pedro e de Santa Theresa, o que de certa forma o inseria na convivência desse espaço artístico. O teatro também poderia ser utilizado com fins beneficentes, como a já mencionada apresentação beneficente no Teatro São Pedro de Alcântara em favor da viúva de João José Alves Ferreira e filhos, e a apresentação em benefício da Associação de Socorros Mútuos Liga Operária (Gazeta de Notícias, 24 set. 1882). Coincidentemente ou não, os filhos ou tutelados que foram identificados teriam participação maior nas sociedades e associações do que nas irmandades.

A subscrição de listas e abaixo-assinados era outra prática recorrente da

época e da qual tomaram parte alguns sujeitos (quadro 18). As listas localizadas tinham intuitos diversos, como fazer arrecadação para a festa de chegada das majestades, encanamento do Rio Maracanã e estátua equestre de D. Pedro I, para a qual o professor Pardal constituiu sua própria lista, contando inclusive com o nome de vários alunos. Pardal tinha interesses na organização da lista, mas ao fazer seus alunos participarem também propiciou uma oportunidade de iniciá-los nas agências sociais, na prática de organização coletiva em prol de um objetivo comum, bem como dos usos da leitura e escrita na sociedade.

 

Quadro 18 – Listas e abaixo-assinados

N. Nome dos pais/ Lista e abaixo-assinados

encarregados

 

1 José Joaquim Ferreira Lista para estátua equestre de D. Pedro I,

Leal lista do professor Pardal (Diário do Rio de

Janeiro, 22 dez. 1855);

Lista para festejar a chegada de suas

majestades imperiais (Correio Mercantil, 30

abr. 1860).

 

2 Manoel Machado Abaixo-assinado contra fechamento do

Fagundes cemitério de São Francisco de Paula no

Catumby (Correio Mercantil, 22 ago. 1851).

 

3 Alexandre Soares Lista em favor das vilas de Diamantina e do

Pinheiro Príncipe (Diário do Rio de Janeiro, 20 mar.

1834).

 

4 Theodoro Jansen subscritor da lista de donativos para festa de

Muller chegada de suas majestades imperiais

(Correio Mercantil, 30 abr. 1860); Solenizar a

chegada de suas majestades imperiais

(Gazeta de noticias, 29 ago. 1877).

 

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

N. Nome dos pais/ Lista e abaixo-assinados

encarregados

 

5 Manoel José da subscritor da lista de donativos para festa de

Rocha Paranhos coroação de Pedro II (Diário do Rio de

Janeiro, 19 jul. 1841).

 

6 Jacintho de Souza Abaixo-assinado de moradores contra a

Ribeiro Guimarães calha de despejos construída em frente às

suas residências na Rua de Santa Luzia

(Correio Mercantil, 11 nov. 1863).

 

7 Joaquim José Pereira Subscrição de lista de oficiais da guarda

d’Almeida nacional para a construção de um arco

luminoso para chegada do imperador (Diário

do Rio de Janeiro, 17 abr. 1846);

Subscritor da lista para estatua equestre de

D. Pedro I (Diário do Rio de Janeiro, 15 mar.

1856).

 

8 Manoel José de Morador de São Cristóvão que subscreveu

Serpa lista para “encanamento do Maracanã”

(Diário do Rio de Janeiro, 23 set. 1830);

Doação de 5% do salário para defesa dos

portos (Diário do Rio de Janeiro, 20 jan.

1863).

 

9 Leopoldino das subscrição de lista promovida pela Imperial

Chagas Oliveira Sociedade Auxiliadora das Artes mecânicas

e Liberais e Beneficente para Estátua

Equestre de D. Pedro I (Correio Mercantil, 14

mar. 1855).

 

10 Luiz Antonio da Sª Para estátua equestre de D. Pedro I, lista do

Beltrão professor Pardal (Diário do Rio de Janeiro,

22 dez. 1855).

Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

 

A organização de uma lista, por Pardal, em favor da estátua equestre do

ex-Imperador Dom Pedro I sugere algumas questões, como os interesses políticos que poderiam estar envolvidos em uma demonstração pública de apoio à figura de um representante do regime monárquico e a capacidade de recrutar pessoas para apoiar algo. Mas a aceitação dos pais a subscreverem uma lista também sugere outros interesses. Ter seus nomes numa lista como essa ou para os festejos da chegada da família imperial pode representar a adesão ao regime monárquico e, portanto, à ordem instituída, corroborando para a construção de uma imagem de boa conduta e moralidade, necessária para exercer certas atividades e, inclusive, entrar em determinadas irmandades e associações, ou mesmo receber benefícios ou a “caridade” de instituições. Oliveira (1998) ressalta que, na segunda metade do Oitocentos, o discurso filantrópico incorporou a noção de benemerência, ou seja, o pobre deveria ser merecedor do benefício. Tal perspectiva foi assumida por irmandades como a Ordem Terceira da Imaculada Conceição, da qual fazia parte o fiscal João José Alves Ferreira, que passou a exigir das “desvalidas”, desejosas de serem admitidas no asilo, um atestado de boa conduta emitido pelo inspetor de quarteirão (Oliveira, 1998).

Por outro lado, ter seu nome em listas reivindicatórias, como a realizada

contra o fechamento do cemitério de São Francisco de Paula, contra a calha de despejos construída em frente às suas residências ou a favor do encanamento do Rio Maracanã, mostra que tais sujeitos buscavam intervir nos “problemas da ordem” existente, contra as quais estavam insatisfeitos. A intervenção requeria organizar o procedimento reivindicatório; mobilizar sujeitos; escrever seu próprio nome em um documento ou, no caso dos que não soubessem, recorrer a quem pudesse fazê-lo; entregar o documento à autoridade competente; e até mesmo publicá-lo nos jornais, instrumento que serviu de fonte para o quadro em questão. Várias etapas a cumprir que mobilizaram moradores, ajudaram a constituir um sentimento de coletividade e de atuação na localidade em que viviam, uma agência e experiência coletiva, enfim “para maior brilhantismo” na cidade.

***

Observa-se que os pais e encarregados analisados estavam

intensamente comprometidos com as redes existentes na sociedade da Corte. Envolvidos social e politicamente no governo, na economia, na cultura, nos espaços de sociabilidade e de solidariedade, tinham sua parcela de participação na ordem, ou desordem, da cidade, subvertendo-a, contornando-as, adquirindo experiências diversas, criando agências nas contingências, na emergência de um campo para mudança, disputa e resistência.

O mapeamento das atividades mostra também a rede de relações

estabelecida pelo professor Pardal com vários desses sujeitos na cidade, evidenciando conexões sociais, culturais, políticas. O fato do nome dele constar na nota de missa fúnebre de José Joaquim Ferreira Leal demonstra que algumas relações eram muito próximas e que mesmo com a morte dos pais iriam continuar com os filhos, como veremos a seguir.