A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências

Capítulo IV – Experiências conectadas: relações e mediações docentes entre sociedades

Capítulo IV – Experiências

 

conectadas: relações e mediações

 

docentes entre sociedades

 

As nações mais adiantadas aprendem todos os dias umas com as outras…

Professor Costa e Cunha (1873)

 

A circulação de objetos culturais, modelos pedagógicos e pessoas entre

mundos tem sido uma problemática que vem recebendo enfoque significativo na História da Educação brasileira. Vidal (2006) considera que a categoria “circulação” torna-se fértil em razão de poder deslocar “a ênfase de um ponto original de partida (ou de difusão) para vários centros difusores”, como também por considerar “as mestiçagens operadas no movimento mesmo de passagem das ideias, pessoas e objetos pelas sociedades e culturas” (p. 245, grifo da autora). A proposta deste capítulo, nesse sentido, tem como objetivo realizar uma reflexão a partir da perspectiva de “histórias conectadas”, buscando apreender a interlocução dos professores públicos primários da Corte com saberes, sujeitos ou experiências advindos de outros lugares, mais especificamente, em conexão com a França, por meio do professor Candido Matheus de Faria Pardal. Para tanto, apresento um abordagem da circulação das ideias francesas entre os professores, seguida de uma análise acerca da criação e do funcionamento das escolas municipais dirigidas por Pardal, nas quais implementou um programa baseado no sistema de Jean-Jacques Rapet, a fim de compreender as condições de aparecimento dos pensamentos desse inspetor francês no círculo docente, bem como a forma como foram apropriados por Pardal.

Os conceitos de “história comparada” e de “história conectada” podem

emergir como possibilidade fértil de análise das trajetórias docentes. No debate em torno desses conceitos importa destacar a reflexão de Detienne (2004) de “construir comparáveis” a partir de um conjunto de precauções metodológicas, em que não se torna necessário atribuir semelhanças para fazer comparação, mas sim buscar um território em comum para observar a adesão dos sujeitos a uma geografia. Vale também atentar para Gruzinski (2001 e 2003) quando opera com o conceito de “connected histories” assinalando que o “historiador tem de converter-se em uma espécie de eletricista encarregado de restabelecer as conexões internacionais e intercontinentais que as historiografias nacionais desligaram ou esconderam” (2001, p. 176).

No caso da Corte, dois espaços, entre outros, destacam-se em relação

aos registros de troca e de circulação de ideias, modelos e referências a materiais pedagógicos entre os professores: a imprensa pedagógica e as Conferências Pedagógicas, organizadas pelo governo imperial nas décadas de 1870 e 1880.

Teixeira (2016), ao tratar da imprensa pedagógica no período de 1870 a

1919, entende os jornais e as revistas como agentes construtores da escola, sendo, portanto, lugares privilegiados para circulação de ideias. A autora assinala que a imprensa pedagógica se constituiu no interior de um campo de lutas, usada por professores, alunos e autoridades governamentais para intervir no funcionamento da escola e nas questões educacionais. Por meio dela “faziam circular informações, expunham e debatiam ideias e se esforçavam para persuadir seus pares” (2016, p. 293).

Nos documentos existentes acerca das Conferências, podemos ver os

próprios professores públicos primários fazendo um exercício de comparação ao expor seus trabalhos, previamente elaborados com base numa pauta de discussão estabelecida pelo governo. O exercício remete ao estado da educação em diversos países, como Portugal, Estados Unidos, Suíça, França, entre outros. Professores comparavam práticas escolares, formas de organização do ensino, usos de materiais e livros. Colocavam as ideias em circulação abordando tanto a produção estrangeira quanto a nacional e, em vários casos, ressaltando a qualidade da produção dos próprios colegas professores da Corte: uma produção nacional, mas conectada com os países estrangeiros.

Nesses documentos encontra-se uma espécie de parecer em torno dos

trabalhos apresentados durante a primeira edição das Conferências Pedagógicas (1873). O professor do Imperial Colégio de Pedro II e membro do Conselho Diretor da Instrução, Philippe da Motta Azevedo Corrêa, foi encarregado da tarefa de elaborar os “pareceres”. Preocupado com a necessidade do professor “gravar na alma infantil o amor do bem e a prática da virtude”, sugere que o governo mande traduzir e distribuir gratuitamente pelas escolas alguns tratados de pedagogia. Menciona, como exemplo, os autores Rendu, Barrau, Braun, Dunn, Zweiler, Fröebel, Rapet, Daligault, Naville e Théry – a maior parte deles citada pelos próprios professores nas conferências, conforme sinalizam as atas do evento. Também apresenta uma pauta de nove medidas que deveriam ser tomadas pelo governo imperial, entre elas, a criação de uma escola normal. Porém, alerta para a necessidade de se enviar antes uma comissão para estudar a organização das melhores escolas normais na Europa e nos Estados Unidos e para ir à Exposição Internacional de Viena com o objetivo de