A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências

“Dar ao magistério público uma consideração”: a direção das escolas municipais

Embora em posição distinta e sem a mesma frequência, as questões

pedagógicas brasileiras também estavam em pauta nos periódicos pedagógicos na França. O Manuel Generale de l’Instruction Primaire traz algumas menções sobre o Brasil, como o estado da instrução no país e a introdução das Caixas econômicas escolares. Também cabe lembrar que o Dicionário Buisson faz menção às “trocas internacionais”. Buisson assinala que “a ideia de uma troca de documentos, de publicações administrativas ou científicas, de livros raros, obras ou reprodução de obras de arte, etc., entre os governos, as sociedades sábias, as bibliotecas de diversos países,

é já antiga” (1888, v.1, p. 752, tradução nossa).1 O Dicionário Buisson registra que a França instalou um serviço voltado para essa atividade no interior do Ministério da Instrução Pública e que

 

A França mantém hoje relações de trocas com a Bélgica, Suíça, Áustria-Hungria, Rússia, Portugal, Estados Unidos, Itália, China, Japão, Países Baixos, Brasil, etc. O movimento de volumes trocados em 1879 entre a França e seus correspondentes foi

de 40.000 (1888, v. 1, p. 752, tradução nossa).2

 

Nesse sentido, Bastos (2002) também destaca a atuação de Célestin

Hippeau, que pretendia tornar conhecida na França o funcionamento da instrução pública de outros países. A autora assinala o exercício feito por Hippeau e Ferdinand Buisson de realizarem uma espécie de educação comparada, cujas obras fariam parte das leituras de uma chamada “elite ilustrada” brasileira. No entanto, como pudemos observar pelas exposições feitas nas Conferências Pedagógicas, tais leituras também circulavam entre os docentes públicos primários. Cabe assinalar que, de acordo com Bastos (2002), uma das obras de Hippeau, L’instruction publique aux États-Unis, foi traduzida por ordem do governo imperial e publicada no Diário Oficial do Império do Brasil, em 1871. Esse procedimento poderia ter facilitado o acesso à obra por um maior número de pessoas.

 

“Dar ao magistério público uma

 

consideração”: a direção das escolas

 

municipais

 

A Escola Municipal de São Sebastião, inaugurada em 4 de agosto de

1872 (Diário do Rio de Janeiro, 05 ago. 1872), e a de São José, em 7 de setembro de 1874 (A Instrução Pública, 13 set. 1874), eram as escolas dirigidas por Pardal que teriam recebido um prêmio na Exposição da Filadélfia. Ambas são geralmente mencionadas pela historiografia da educação como sendo parte do conjunto de escolas denominadas “do Imperador” em razão de D. Pedro II ter preterido a estátua, que seria feita em sua homenagem, em favor de usar os recursos para abrir escolas. No entanto, as fontes também mostram várias despesas no orçamento da Câmara Municipal com a construção dos prédios, como por exemplo, o Decreto n.º 4662 de 31 de dezembro de 1870 que orça as receitas e fixas as despesas da Câmara para o ano de 1871, o que assinala que os prédios foram erguidos com dinheiro arrecadado de mais de uma fonte, inserindo-se também as listas de subscrição de donativos.

A cerimônia de inauguração da Escola Municipal de São Sebastião

contou com a presença de várias autoridades, como o presidente da Câmara Municipal, Antonio Ferreira Vianna - que também passara a ocupar o posto de inspetor das escolas municipais -, o secretário da Associação Municipal Protetora da Instrução da Infância Desvalida, Costa Ferraz e o Imperador. O Diário do Rio de Janeiro registrou que o prédio foi aberto para visitação pública e “a festa teve um caráter popular”.

Figura 32 – Escola Municipal de São Sebastião

 

Fonte: Schueler e Gondra (2008).

 

A escola teria dois cursos abertos. O diurno, para as crianças de ambos

os sexos (com entradas separadas, como é possível observar pela foto), e o noturno, para adultos. Outra atividade era a realização de conferências “por cidadãos habilitados”. A primeira estava marcada para o dia 12 de setembro e seria proferida pelo próprio Antonio Ferreira Vianna no salão da biblioteca da escola que faria: “a primeira preleção de educação moral, à qual Sua majestade o Imperador se dignou prometer de assistir” (Diário do Rio de Janeiro, 05 ago. 1872).

“O edifício está acabado: mas quanto falta para se realizar a escola?”,

pergunta Ferreira Vianna em seu discurso de inauguração. Assinala que “quem inicia tão difícil serviço deve ter longa resignação para suportar as desconsolações da inexperiência”. O diretor nomeado por Ferreira Vianna, Candido Matheus de Faria Pardal, parecia se enquadrar no quesito mencionado por ele:

O ilustrado e provecto professor Candido Matheus de Faria Pardal tomou a si o encargo de designar o pessoal docente, de organizar e dirigir o ensino. Seus trabalhos estão em últimos retoques; o sistema é fácil e principalmente prático, resultado da longa e esclarecida experiência.

 

A nomeação do professor Pardal para o cargo de diretor, “sem prejuízo

do magistério público, que o mesmo exerce”, foi bem recebida por colegas professores que registraram a satisfação no periódico A Verdadeira Instrução Pública (15 ago. 1872). A folha, ao assinalar a gratidão à Sociedade da Infância Protetora pela distribuição de vestuário às crianças pobres para frequentarem a escola, agradece também à Câmara Municipal “pela consideração que nos dá incumbindo da direção de suas escolas a um dos nossos mais estimados colegas, o prestimoso professor C.M. de Faria Pardal”.

Os redatores ressaltam que, naquele momento, a escolha de Pardal era

muito significativa. Fato que tem a ver com a agitação inerente da época e da qual Pardal também teve sua parcela de participação ao ser, por exemplo, signatário do Manifesto dos Professores Públicos Primários da Corte. Agradecem à Câmara pela sensatez de não acompanhar a opinião daqueles que “pensam que é desautorando o professorado que se há de conseguir reformar a instrução pública”, uma alusão aos debates e tensões que estavam ocorrendo naquele período, entre os quais aqueles que diziam respeito à outra folha A Instrução Pública dirigida por Alambary Luz.

 

Com efeito, não era difícil encontrar entre tantos cavaleiros ilustrados no magistério particular, algum especialista que viesse com todo o prazer dar direção aos trabalhos das escolas municipais. Nem se poderia com justiça censurar a escolha por ser fora do magistério público. Porém vir escolher o diretor no nosso grêmio, foi manifestar ao público o desejo sincero de dar ao magistério público uma consideração que os poderes do Estado não lhe teriam por certo concedido (A Verdadeira Instrução Pública, 15 ago. 1872).

 

Os redatores procuravam tornar a nomeação de Pardal um

reconhecimento ao magistério público e, sobretudo, àqueles que se mobilizavam e se organizavam. Ao assinalarem sua competência no ensino e o domínio de saberes pedagógicos também destacavam que Pardal fazia parte da categoria que estaria sendo ludibriada pelos governantes. Nesse aspecto, a última frase também emerge em tom provocativo. Os professores alegavam que os “poderes do Estado” não teriam concedido tal honra e apontavam de tal forma os embates entre os poderes do Estado e os da Câmara Municipal. As tensões ficam evidentes no discurso proferido pelo presidente da Câmara Municipal, Adolpho Bezerra de Menezes, por ocasião da inauguração da Escola Municipal São José, em 1874 (A Instrução Pública, 13 set. 1874 e Diário do Rio de Janeiro, 09 out. 1874):

 

Vossa Majestade, que já tem, certamente, pesado a necessidade e grandíssima vantagem de confiar ao elemento municipal a honrosa coparticipação em sua elevadíssima missão, não se tem por momento demorado ante o dizer pouco pensado de que as municipalidades estão decaídas, desmoralizadas por si mesmas.

 

Bezerra de Menezes atribui a imagem decaída da municipalidade à pouca

reflexão e que, se ela assim fosse, seria motivo ainda maior para os poderes públicos elevá-las e moralizá-las:

 

Deem-lhe o que lhes tiraram, e o que lhes falta; deem-lhes a ação e o poder, independência e responsabilidade moral, e tenhamos por certo que, Lázaro ressuscitado, ostentará o vigor de suas forças.

A inação voluntária e forçada é como o trabalho material – absorve e gasta a energia vital; e as faculdades da alma, sopesadas pela indiferença, dormem em sono profundo, deixando apenas perceber, por algumas raras e inúteis manifestações, suas secretas virtudes.

Só a regeneração do elemento municipal, constituindo centros múltiplos de atividade, terá o poder de quebrar a inação – de apagar a indiferença e de plantar o estímulo no coração do povo brasileiro.

 

O discurso, por meio de um evento bastante propício, a inauguração de

uma escola com presença de D. Pedro II, buscava o reconhecimento da Câmara Municipal como órgão indispensável no progresso do país pela promoção da marcha do povo brasileiro, estagnado pela inércia e indiferença. A Câmara Municipal advogava para si outra imagem, a de ser o “melhor auxiliar de Vossa Majestade” na difícil tarefa de dirigir a sociedade brasileira.

Figura 33 – Escola Municipal de São José

 

Fonte: Schueler e Gondra (2008).

 

A nomeação de Pardal, portanto, teria sido por reconhecimento de sua

atuação no magistério público, mas também possui forte relação com as disputas de poder entre Estado e Câmara. O Estado poderia não conceder a Pardal tamanha honra, em razão da desvalorização da competência do magistério público ou de seu envolvimento com as manifestações docentes, mas essa mesma postura não procederia quanto aos poderes da Câmara, com os quais Pardal estaria envolvido por questões político-partidárias. Desse modo, apesar da experiência e sabedoria sempre ressaltadas do professor, é possível adicionar mais alguns critérios no que diz respeito às condições de nomeação, que podem ser inferidas nos artigos que tratam da sua exoneração em 1878 e 1879. Ambas teriam sido políticas. Cabe ressaltar que no mesmo mês de inauguração da Escola de São Sebastião tiveram lugar as eleições primárias, na qual Pardal foi candidato a eleitor. Na apuração final, conforme já mencionado, Pardal ficou em 6.° lugar entre os eleitos, com 736 votos. O primeiro colocado teve 751 votos, o que mostra uma pequena diferença de votos (Correio do Brasil, 03 set. 1872).

No discurso de inauguração, Ferreira Vianna assinalou que, no âmbito

pedagógico, os saberes a serem ensinados na Escola de São Sebastião compreendiam: instrução elementar, religião, desenho linear, noções de geografia e música vocal. A inserção de desenho linear no programa condiz com a prática de Pardal de lecionar a matéria na escola primária de Santa Rita, mesmo sem fazer parte do programa oficial.

A “instrução elementar” referida por Ferreira Vianna pode ser vista no

programa, baseado no sistema de Rapet, enviado por Pardal para o inspetor geral da instrução na Corte. Ao analisar o relato do inspetor pernambucano Uchoa Cavalcanti, Schueler e Gondra (2008) afirmam que as escolas municipais visitadas por ele

 

[…] foram positivamente destacadas não apenas pelo aspecto moderno e grandioso da arquitetura (os “palácios escolares”), mas pela adoção de novos métodos e programas de ensino, nos quais surgiam alguns elementos da modernidade pedagógica (Nunes, 2000): a adoção do ensino seriado e graduado em três anos ou séries, das classes simultâneas e da forma escolar organizada sob um novo modelo com novos espaços tempos e modos de funcionamento escolar. Modernidade que também implicava em um único prédio escolar, específico para a instrução de crianças de ambos os sexos; vários professores, homens e mulheres inclusive um especialmente destinado ao ensino de música; a presença de uma hierarquia na gestão do ensino e de novas funções no espaço escolar (diretor, inspetor, professor, bedéis, servente, jardineiro) (p. 441-442).

 

Para colocar em prática o programa, Pardal contava com uma equipe que

incluía, segundo edições do Almanak Laemmert: primeiros professores, segundos professores, professor de música, professor de curso noturno, bedéis, servente e até um jardineiro. A seleção de professores também estava sob os cuidados de Pardal que divulgava, em jornal de grande circulação, a realização de concurso, seguindo o mesmo processo usado pela “instrução pública”. O programa do concurso contava com dez itens entre os quais, desenho linear, cosmografia, geografia e pedagogia. Os candidatos também deveriam apresentar título de capacidade profissional expedido pela Inspetoria.

Um artigo de Augusto Cony em A Instrução Pública de 5 de janeiro de

1873, acerca dos exames da Escola de São Sebastião, relata que “O corpo profissional está superior às necessidades do ensino, mas não é só isso que tem feito medrar o trabalho, é o estímulo, o incentivo, a distribuição igual de favores com que sabe animá-lo o seu diretor”. Relata também que a professora Joanna Margarida da Silva subiu à tribuna e

 

[…] em bem delineado discurso, expôs que ao diretor desta escola se devia o resultado favorável que o auditório tinha presenciado, que nas lutas da inteligência

suas companheiras muito a tinham auxiliado na execução do plano de ensino, posto em prática, e que a dedicação do Sr. inspetor geral era o ponto de onde tinham dimanado todos os esforços empregados ao bom êxito de tão justa causa.

 

Cony expõe que várias professoras a sucederam na tribuna e “nada

deixaram a desejar”. Depois, subiram os professores, entre os quais Dr. Navarro que “em elegante frase e bem formulados pensamentos mostrou-se igualmente acima do cargo que ocupa”. O diretor Pardal também fez seu discurso, após a execução do hino nacional.

 

[…] subiu à tribuna o diretor deste estabelecimento, e em um discurso cheio de animação, expôs o que se tinha passado nas aulas no espaço de quatro meses; depois dirigindo-se ao distinto inspetor geral das escolas municipais, o Sr. Dr. Antonio Ferreira Vianna, fez a justiça aos merecimentos desse senhor, que não tem poupado sacrifícios em levar a efeito a obra da educação da mocidade.

 

Cony, nesse momento, assinala que Pardal, com “experiência de 35 anos

de serviço público”, sabia “que mais vale a quem se preza uma palavra de louvor publicamente dita, do que sórdido interesse pecuniário”. O comentário de Cony soava bastante político, colocando em evidência as estratégias do discurso que poderiam ser lançadas em situações públicas para estabelecimento ou fortalecimento de relações.

No entanto, Pardal também possuía críticas ao modelo das escolas

municipais. Quanto aos prédios, um ofício assinala que Pardal havia se reunido com o Inspetor Geral da Instrução na Corte (que não era o mesmo Inspetor das Escolas Municipais), ocasião na qual manifestou as suas ideias “conforme o pensamento” daquela autoridade, “a respeito da necessidade de multiplicar-se o número de escolas públicas de instrução primária em ordem a satisfazer às exigências deste Município”. No documento, o professor não poupou críticas aos prédios das escolas que dirigia:

 

O sistema inaugurado de grandes edifícios, além de ser sobremodo dispendioso apresenta alguns inconvenientes que seria de grande vantagem remediarem-se. Entre eles sobressaem: 1.º A falta de acomodações nas próprias escolas para os professores respectivos; 2.º A existência de duas escolas que se estão prontificando, embora de custosa construção e ainda mesmo quando seja construída uma dessas em cada Freguesia, não comporta o grande número de alunos que nelas tenham de se matricular; 3.º A grande distância em que ficam estas escolas dos pontos mais afastados das respectivas Freguesias (AGCRJ, códice 10.4.19, 22 nov. 1872, f. 119).

 

O professor defendia que, em vez de se construir uma grande escola,

seria mais proveitoso construir três ou quatro menores em pontos equidistantes da freguesia, com moradia para o professor. Dessa forma, “ter-se-ia aliado a economia pública com a comodidade e facilidade do ensino, fiscalização e muitas outras vantagens que resultam do sistema de divisão do trabalho”. Assim, Pardal enviou ao Inspetor Geral um plano de construção de modelos de escolas menores, com orçamento, feito pelo engenheiro Rocha Fragozo, a seu pedido. O professor alegava que o trabalho projetado satisfazia “a necessidade desejada, além de oferecer uma bela fachada, em harmonia com o fim a que se destina e o embelezamento desta cidade”. A agência do professor – que também ocupava uma posição de autoridade destacada, em razão da direção das escolas municipais – no sentido de aumentar o número de escolas primárias, demonstra que, mesmo após ter alcançado um posto maior, em outra esfera da administração pública, Pardal continuava a preocupar-se com a disseminação da instrução por meio das escolas públicas da Corte geridas pelo Estado Imperial. Embora já ocupasse o cargo de diretor das escolas municipais, o ofício foi assinado de sua antiga posição:

 

Persuadido de que, na qualidade de Professor da 1ª Escola pública da Freguesia de Santa Rita cumpro um dever apresentando esse trabalho, tomo a liberdade de pedir a V. Ex.a a sua poderosa intervenção, certo de que V. Ex.a prestará um grande serviço a Instrução pública deste Município concorrendo para a realização dessa ideia (AGCRJ, códice 10.4.19, 22 nov. 1872, f. 121).

 

O fato de criticar os prédios das escolas municipais, muito elogiados pela

sua modernidade e grandeza, em um momento em que era diretor das mesmas, denota que Pardal, apesar de ligado politicamente à instância responsável por elas, mantinha sua autonomia intelectual nas questões educacionais. A mesma postura se dava a respeito das carteiras escolares que poderia ter relação com a emergência e constituição de uma indústria escolar. Vidal (2005) assinala que o paulatino processo de incorporação de vários objetos ao fazer escolar estimulou tanto a importação de objetos da Europa e dos Estados Unidos da América quanto a produção nacional. Nesse sentido, foi possível observar o próprio professor Pardal fazer uma espécie de “propaganda” indireta acerca das escrivaninhas e bancos de Roberts dos Estados Unidos que ele mesmo havia examinado na “casa de Generoso Estrella” onde estavam expostos (AGCRJ, códice 10.4.19, 1872, f. 57). A casa de Generoso Estrela, situada na Rua do Ourives, n.º 61, constava no Almanak Laemmert de 1872 na lista de Armazéns de gêneros norte-americanos e informava que o Sr. Generoso possuía longa prática no ramo, viajando com frequência para Europa e Estados Unidos, assim como no Brasil, para “garantir o bom sortimento” da casa.

Segundo Alcântara (2014) a escola obrigatória e de massa movimentou o

mercado e a economia, acionando mediadores e tradutores culturais e diferentes indústrias:

 

A quantidade expressiva de catálogos de mobiliário escolar e solicitação de patentes dá uma dimensão da relevância que as indústrias e fábricas de mobiliário escolar tiveram para o suprimento material da escola e, como corolário, para sua expansão. Também, elucida o quanto a escola foi um consumidor importante para a expansão desta atividade econômica (p. 163).

 

Em defesa da aquisição dos bancos de Roberts, Pardal critica até mesmo

os bancos adotados na Escola Municipal de São Sebastião, que eram para seis ou sete meninos e ainda com o tampo fixo, impedindo a passagem durante o processo de escrita. Pardal alegava que “muito ganharia a boa disciplina, higiene e mesmo o ensino com o isolamento dos meninos, ou quando muito, que não fossem tais escrivaninhas e bancos para mais de 2 meninos” (AGCRJ, códice 10.4.19, 1872, f. 57).

O professor anexou ao ofício um prospecto intitulado “Novas carteiras ou

escrivaninhas de Roberts para Colégios”, o qual fornecia sete razões para a superioridade das carteiras: eram muito elegantes na aparência; fortes e duradouras, trazendo grande economia de espaço; possibilidade de entrar e sair delas com a maior facilidade; promoviam a saúde e o conforto; davam espaço para ler de pé, recitar e fazer exercícios ginásticos; tornavam as salas de aula belos salões espaçosos e cômodos para preleções e uso de adultos.

A propaganda eloquente e atraente pode ter provocado o interesse de

Pardal em interceder pela aquisição de novas carteiras, em razão das condições da mobília da escola de Santa Rita que foram relatadas pela Comissão Visitadora das escolas e que constam no capítulo I. Os argumentos do prospecto eram bastante convidativos pela promessa de elegância, durabilidade, higiene e praticidade. Tal publicidade se articula com as reflexões de Alcântara, que assinala que o mercado cria objetos de desejos para a escola, tendo as Exposições Universais como importante espaço de exibição e o “Estado como comprador privilegiado” (2014, p. 81).

Durante a gestão de Pardal, a equipe da Escola São Sebastião, listada

pelo Almanak em 1873, manteve-se nas escolas municipais, com exceção de um professor, Manoel dos Santos Marques. Com a inauguração da Escola Municipal de São José, alguns professores foram transferidos, como o 2.º professor da de São Sebastião, Antônio Francisco de Castro Leal Júnior, que era “tenente honorário do exército”, que passou a ocupar o cargo de 1º professor na Escola de São José. Eram professores que já tinham experiência na Escola Municipal e poderiam ajudar ao diretor Pardal a manter o tipo de trabalho pedagógico defendido por ele. Cabe ressaltar que Pardal pretendia, segundo jornal A Instrucção Pública, introduzir um novo método de ensino na Escola de São José

 

[…] que consiste em dividir os alunos na ocasião dos trabalhos em três turmas, para o que se acham as linhas de bancos convenientemente colocadas: a turma do centro ocupar-se-á em trabalhos de caligrafia, enquanto que a da direita se ocupará em leitura, e a da esquerda em matérias de cálculo, para o que existe a necessária pedra (A instrução pública, 13 set. 1874).

 

No entanto, no relatório do ano de 1874, o Ministro do Império João

Alfredo Correa de Oliveira assinala que o regime seguido na Escola de São José era o mesmo da de São Sebastião, onde o ensino era simultâneo. O artigo assinala também que em 1874 estavam matriculados na Escola de São Sebastião, nas aulas diurnas, 340 meninos e 212 meninas, mas efetivamente haviam frequentado cerca de 200 e 130, respectivamente. Nas aulas noturnas, a matrícula era de 141 alunos com frequência entre 40 e 45. No caso da Escola de São José foram matriculados 308 meninos e 246 meninas. Quem eram os alunos da escola? “Todas aquelas crianças que representam verdadeiramente o elemento das classes mais necessitadas e que ainda não há muito tempo se viam privadas de receber o pão do espírito por falta de meios” (Diário do Rio de Janeiro, 10 dez. 1873).

Os resultados dos trabalhos realizados eram cuidadosamente exibidos

em sessões públicas de exames, sendo vários registrados pelos jornais da época como o Diário do Rio de Janeiro (10 dez. 1873), que relata:

 

Parece-nos poder assegurar que poucas ocasiões se terão apresentado em que o ensino primário tenha entre nós exibido provas de uma tão variada distribuição de conhecimentos, ao mesmo tempo úteis e recreativos, como os que observamos nos discípulos da escola municipal de S. Sebastião.

Além da leitura, escrita e contabilidade, incluindo o sistema métrico, em que tanto os meninos com as meninas se mostraram sobremodo instruídos, notamos a sua aplicação no desenho linear, na etimologia e sintaxe gramatical, declaração e princípios de música e canto.

 

Segundo Antonio Ferreira Vianna, o trabalho realizado era de uma

autoridade profissional “consolidada por mais de 40 anos de magistério, laureados por galardões e recompensas do governo imperial”. O trabalho configurava uma espécie de “escola-exposição”, como uma vitrine pedagógica, em razão das visitas que a escola recebia e do destaque na Exposição Universal de 1876:

Os louvores que as escolas municipais de S. Sebastião e de S. José hão merecido no país, dos inspetores da instrução pública da corte, de visitantes os mais ilustres, assim nacionais como estrangeiros, e o glorioso prêmio que alcançaram na Exposição Universal de Filadélfia, são devidos só a dedicação e perícia de seu diretor (O Cruzeiro, 15 nov. 1878).

 

As escolas municipais também ganharam uma menção honrosa na

Exposição Nacional de 1875, segundo Almanak Laemmert de 1876. O bom funcionamento da escola rendeu aos seus empregados uma bonificação pelos serviços prestados, como fica evidenciado no ofício do jardineiro que, excluído do grupo recompensado, também alegava merecer o prêmio:

 

Illmo exmo sr presidente e mais membros da I. C.M. da Corte

Diz Antônio João Christovão, jardineiro das duas escolas municipais, que tendo sido contemplados todos os empregados das referidas escolas municipais com uma

remuneração pelos serviços prestados as mesmas escolas; acontece que, o sup.e, foi

excluído dessa prova significativa de bons serviços e como o sup.e tem consciência de que os seus, embora de natureza diversa, tem todavia merecimento pela perseverança com que trata e conserva em perfeito estado essa parte tão importante dos dois estabelecimentos, que tanto concorre para o seu aformoseamento; e tornando-se além disso odioso aos olhos de todos esta exclusão; vim, portanto, respeitosamente reclamar com a maior consideração de V. Exs. mais esta prova de justiça que a I.C.M. costuma distribuir a todos os seus empregados honestos que cumprem seus deveres; e por isso

P.e espera que a I.C.M., tomando na devida consideração este seu apelo, se dignara

mandar que ao sup.e seja concedida uma gratificação igual aos demais empregados (AGCRJ, 15.4.35, f. 524/1/1877).

 

O pedido do jardineiro foi indeferido, desconsiderando seu apelo de

“empregado honesto” que cumpria seus deveres e que contribuía para o “perfeito estado” e aformoseamento dos estabelecimentos. Algo parecido se deu com a exoneração de Pardal, destituído do cargo apesar de ser considerado um professor ilustre que também cumpria seus deveres.

As observações proferidas por Ferreira Vianna, publicadas em O

Cruzeiro, ocorreram diante da exoneração de Pardal do cargo de diretor, o que provocou grande indignação ao inspetor e certa agitação na imprensa. O periódico A Reforma – Órgão Democrático (16 nov. 1878) publicou uma crônica sobre o modo como os conservadores “governam a sua família política” e afirmou que a exoneração se deu porque os vereadores da Câmara Municipal queriam “sangue novo”. Acusavam de demitir o diretor das escolas “por ser velho e ter-se recolhido à reserva, embora continue como conservador e leve à urna o voto no dia da eleição”. O jornal assevera que os vereadores conservadores estavam “aplicando um sistema de demissões dos próprios amigos que não deixa de ter interesse de ser conhecido.” E que o fato “é útil para a história apreciar-se nos atos a índole e as tendências desse partido”. Para o lugar de Pardal foi nomeado um jovem pertencente à milícia ativa que trabalhava na porta da igreja e nas juntas municipais, tendo sido também subdelegado. Assim “despediram o correligionário velho, e entregaram ao moço com a direção da escola os 2$000 de ordenado”.