A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências

Entre negócios, artes e agências

Luiz Rodrigues de Faria, pai de Carlos Rodrigues de Faria, de seis anos

de idade em 1855, era amanuense da Mesa do Consulado da Corte, cujo primeiro registro localizado data de 1845 no Almanak Laemmert. Em 1857, passou a constar como escrivão do almoxarifado da Marinha. Nomeado capitão da segunda companhia da Guarda Nacional em 1841, foi dispensado do cargo em 1848. Fez parte do conselho de jurados da Corte em vários julgamentos. Em 1844, estava na lista de eleitores da freguesia de Santana. Em 1854, constava como secretário adjunto da Sociedade de Baile Sylphide e, em 1857, numa lista de irmãos e devotos que contribuíram com donativos para o traslado da imagem do Senhor do Bonfim para Irmandade Nosso Senhor do Bonfim (Correio Mercantil, 11 dez. 1857). Mudou de endereço muitas vezes, conforme mostram os registros do Almanak, e morreu em 1899 (Jornal do Brasil, 24 nov. 1899).

O percurso da vida do empregado público Luiz forneceu elementos para

organizar a análise das atividades das famílias dos alunos. Luiz passou pelo funcionalismo público de baixo escalão, Guarda Nacional, júri da Corte, atuou no processo eleitoral e em sociedades. Com exceção da profissão, que não era compartilhada por todos, a vida desse pai ou encarregado consegue resumir os processos pelos quais estiveram envolvidos, em maior ou menor grau, vários dos sujeitos identificados em diferentes momentos de suas trajetórias de sobrevivência, ao mesmo tempo em que se cruzam com a trajetória do professor da escola de seus filhos e tutelados. Nesse sentido, apresento a seguir uma reflexão que começa por abordar diferentes ocupações dos pais e que depois que se agrupa em torno dos processos eleitorais, do aparato de repressão (Guarda Nacional, instituições militares, sistema policial, júri) e do envolvimento em sociedades, irmandades e demais instituições de sociabilidade.

 

Entre negócios, artes e agências

 

Em fragrante – Às 11 horas da noite de anteontem o preto Francisco, escravo de

F. Batista, foi preso na ocasião em que galgava o telhado da casa n.181 da Rua da Gamboa, onde reside Theodoro Jansen Muller.

Diário do Rio de Janeiro (8/12/1875)

 

Theodoro Muller era pai de um aluno de mesmo nome. Não foi localizado

nenhum registro de que tivesse escravos, mas, por viver em uma sociedade escravista, Theodoro, mesmo que fosse abolicionista, não poderia evitar passar por situações ligadas ao modo como funcionava a escravidão, da qual faziam parte a própria fuga e a prisão de escravizados que tiveram como cenário o telhado de sua residência.

Não foi possível, por meio das notas de jornais, identificar a cor das

personagens investigadas, embora seja conhecida a presença de libertos e até mesmo de cativos frequentando as escolas da Corte. Por outro lado, o comprometimento de pais e encarregados (e de ex-alunos) com o regime escravista é algo notável. Pelo menos onze tiveram escravos. O arremate de espólio foi um recurso que permitiu identificar vários casos.

Outras maneiras de identificação se deram por meio da venda de

escravos (Matheus de Oliveira Borges, Diário do Rio de Janeiro, 11 jan. 1853); de anúncios de escravos fugidos (João Luis Pereira de Souza, Correio Mercantil, 03 mar. 1856); noticiário sobre acidentes, como o escravo remador que quase morreu afogado em um acidente com bote (escravo do mestre de embarcação Pedro José d’Azevedo, Diário do Rio de Janeiro, 04 out. 1864) e outro atropelado por um Tilbury (escravo do comendador Bernardo Gomes Braga, Correio Mercantil, 08 abr. 1860); anúncio de libertação de escravos (Manoel Ferreira dos Santos Lima, Mercantil, 19 abr. 1884); convocação de indivíduos intimados a entregarem seus escravos para serem alforriados pelo fundo de emancipação (Adriano José da Silva Braga, Gazeta da tarde, 11 fev. 1885); bem como lista de passageiros de embarcações.

O caso do mestre de embarcação Pedro José d’Azevedo chama atenção

pelo fato dele ter sido responsável por uma viagem para Angola em 4/12/1839 (Diário do Rio de Janeiro, 05 dez. 1838). Pedro era encarregado do aluno Jacob José Lopes, filho de outro mestre de embarcação de mesmo nome. O pai Jacob consta, por exemplo, como mestre da embarcação vinda do Zaire em 05 de dezembro de 1839, um dia após a partida de Pedro para Angola (O Despertador, 06 dez. 1839). Tais informações sugerem que ambos poderiam estar envolvidos com o tráfico negreiro.

A centralização das análises no regime escravocrata, conforme apontam

alguns pesquisadores, obliterou por muito tempo a investigação em torno dos trabalhadores pobres e livres no Império e suas estratégias de se inserir no mundo do trabalho (Dias, 1998; Badaró Mattos, 2004 e 2007; Carvalho Costa, 2012). No entanto, conforme assinala Badaró Mattos, “trabalhadores escravizados e livres conviviam lado a lado, nas ruas, moradias e locais de trabalho das maiores cidades brasileiras” (2007, p. 4). E ao compartilhar uma série de espaços, em tais circunstâncias, Badaró Mattos defende que não poderia ser considerado estranho que esses trabalhadores, fossem eles escravizados ou livres, “também compartilhassem valores, hábitos, vocabulário, experiências enfim, inclusive de organização e de luta, ainda que as diferenças entre sua condição jurídica criassem distâncias significativas” (2007, p. 4).

O pesquisador aponta, apoiado em dados de Eulália Lobo, que “em 1822

eram 30 os ramos artesanais e 233 os artesãos localizados na cidade, enquanto em 1852, contavam-se 46 ramos e 991 oficiais e artesãos” (p. 235). No final de 1850, houve uma diminuição dos artesãos decorrente do declínio da corporação, mas provavelmente em razão da absorção desses trabalhadores autônomos pelas fábricas, oficinas e pelo processo manufatureiro. Nas fábricas, era possível encontrar escravizados e livres, estrangeiros e nacionais, homens e mulheres, adultos e crianças, dividindo as tarefas de produção.

No caso dos pais e encarregados investigados, vários tiveram registros

no Almanak Laemmert constando em ocupações como sapateiro, cabeleireiro, costureira, relojoeiro, carpinteiro, ferreiro, boticário, caixeiro, mestres de embarcação, negociantes e donos de armarinhos de fazenda/roupa, de armazéns de secos e molhados, armazém de materiais para obra, proprietário de pedreira. Ocupações que mais tarde também foram assumidas por filhos ou tutelados.

Em outros casos, com a morte dos responsáveis e o arremate do espólio

para pagamento de dívidas ou com a falência dos negócios, os filhos tiveram que buscar alternativas para seu sustento. Também houve situações em que a busca por outra ocupação não teve relação com a falência do negócio. Foi o caso do arremate do espólio do português Antonio Ferraz de Macedo, dono de armarinho e de loja de fazenda e roupa, atividade geralmente associada aos imigrantes portugueses, da mesma forma que os armazéns de secos e molhados (Martinho, 1992). Antonio faleceu em 1871 e a massa falida foi arrematada no mesmo ano. No entanto, seu filho Francisco já estava cursando a Faculdade de Medicina, formando-se farmacêutico em 1867 e médico em 1873. Foi bem sucedido na carreira, tornando-se especialista em antropologia criminal (ver apêndice 7).

Nas famílias dos que se mantiveram na ocupação, podemos citar o pai de

Manoel Nunes Pinheiro, José Nunes Pinheiro, que era sapateiro listado no Almanak Laemmert. Exercia sua atividade no mesmo endereço fornecido nos mapas de matrícula da escola de Santa Rita e sua produção era voltada para o público masculino. Não foram localizadas muitas informações sobre José, assim como de outros pais artesãos, mas, por outro lado, seu filho que também seguirá a carreira de “artista” aparece em várias notas de jornais em razão de sua intensa atuação nas associações de cunho operário, como será abordado mais adiante. Parece que ambos tiveram experiências distintas com suas ocupações, talvez motivadas pelas mudanças na dinâmica econômica, social e política do país que se desenrolou nas décadas seguintes e que propiciaram ao ex-aluno ter um outro tipo de engajamento na sociedade.

A única mulher cujo ofício pôde ser identificado foi Fortunata Maria de

Mendonça. Ela aparece no Almanak Laemmert de 1856, na lista de modistas e costureiras. A identificação das mulheres nas notas de jornais é mais difícil em razão dos nomes que eram muito comuns, tornando complicado distinguir quem seria quem, mas isso não significa que as mulheres não exercessem atividades remuneradas, nem que as mulheres de famílias mais abastadas vivessem na passividade (Dias, 1995). Os nomes que compunham a lista de modistas e costureiras do Almanak Laemmert nos dão noção da quantidade expressiva de mulheres nessa ocupação somente na região central da cidade. A presença feminina também pode ser observada na administração de irmandades, da qual a costureira Fortunata também fez parte.

Dias (1995) chama a atenção para o conjunto de mulheres que assumiam

negócios e respondiam por dívidas dos maridos após ficarem viúvas, bem como faziam requerimentos nos processos de herança, alegando possuírem capacidade financeira e administrativa de gerir bens e cuidar de empréstimos. Situação similar pode ser vista na Província de Minas Gerais, bem como mulheres chefiando domicílios e responsáveis pelo sustento da família (Gouvea, 2003). Desse modo, Gouvea (2003, p. 4), alerta que

 

[…] ao se analisar a posição da mulher na sociedade mineira oitocentista cabe dar destaque às complexas relações entre os domínios público e privado, não entendendo a inserção feminina no espaço doméstico como expressão de uma vivência restrita aos cuidados com a casa e a educação dos filhos, mas a uma indiferenciação entre os serviços domésticos e as atividades remuneradas tidas como femininas, atividades que engendram uma relação com o domínio público da vida social.

 

No caso dos pais e encarregados homens que faleceram, foi possível

identificar algumas esposas cuidando dos seus inventários como Anna Rosa de Jesus Leal, viúva de José Joaquim Ferreira Leal, proprietário de uma pedreira (Diário do Rio de Janeiro, 04 abr. 1864, 11 jun. 1864), e Maria Rita dos Santos Ferraz de Macedo, viúva do já mencionado português Antonio Ferraz de Macedo, que, mesmo sem saber escrever, dirigiu uma petição ao juiz de direito requerendo declarar falência dos negócios do falecido e convocando os credores para nomeação. O documento foi redigido pelo filho, ex-aluno de Pardal, que assina “Por minha mãe, por não saber escrever” (Diário do Rio de Janeiro, 19 set. 1871). Se a viúva não estivesse à frente dos procedimentos necessários para cuidar da “massa falida” do falecido esposo, o filho não precisaria informar que escrevia por ela, pois ele mesmo poderia ter assumido a tarefa.