A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências
“Sabe ler”: os rumos e percursos de ex-alunos
As informações analisadas apontam para os modos de participação que
sujeitos da escola engendravam na cidade, suas maneiras de se inserir em diferentes lugares, o trabalho que executavam, espaços sociais frequentados e atividades realizadas para se sustentar e se divertir. Mostram, assim, um panorama das experiências de uma vida dinâmica, cujo cotidiano era permeado de estratégias de sobrevivência, tensões, contradições e festividades na Capital do Império, e da qual faziam parte o professor, seus alunos e seus responsáveis. A dinâmica também nos dá a ver os outros espaços de aprendizado no entorno da Escola Pública de Santa Rita.
“Sabe ler”: os rumos e percursos de ex-
alunos
A figura 23 mostra Jorge Augusto Corrêa, chefe do corpo de máquinas da
Marinha de Guerra (Revista da Semana, 19 maio 1907). Ele foi nomeado maquinista de 3ª Classe da Marinha em 10 de abril de 1869. Fez carreira dentro da Marinha, tornando-se tenente, capitão-tenente, capitão de fragata graduado e capitão de mar e guerra. Havia ganho uma medalha de ouro por ter mais de 20 anos de serviço militar e no ano de sua morte, 1907, contava com 42 anos de atuação. Jorge estudou na escola da freguesia de Santa Rita juntamente com seu irmão Augusto José Correa que também se tornou maquinista do Arsenal da Marinha, mas morreu aos 27 anos, em 1873. O endereço que constava no mapa de matrícula, Rua do Livramento n.º 104, pertencia, segundo o Almanak Laemmert, a José Antonio Pereira Leal, adido da Contadoria Geral do Ministério da Marinha (AL, 1855). José Antonio era padrinho de Emília Correa, irmã de Jorge e Augusto (Diário do Rio de Janeiro, 11 set. 1871), e pode ter agenciado a inserção de ambos os irmãos na Marinha.
Figura 23 – Jorge Augusto Corrêa, ex-aluno de Pardal
Fonte: Revista da Semana, 19 maio 1907, Biblioteca Nacional.
Jorge, assim como outros ex-alunos, seguiu carreira militar e esteve na
Guerra do Paraguai. O Exército e a Marinha emergiam como opções para as classes populares para aprendizagem de um ofício e obter benefícios, além da remuneração (Cunha, 2006). O ingresso nas companhias de Aprendizes Menores dos Arsenais de Guerra poderia ser encarado como uma oportunidade de mobilidade social, mesmo que restrita. Para Carvalho (2007), nas burocracias profissionalizadas, como a militar, que definiam com mais rigidez suas fronteiras, a subida até os cargos mais altos era sempre possível para quem conseguisse adentrar no setor.
Quadro 19 – Ex-alunos em ocupações militares
N. Nomes Atividades
Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
N. Nomes Atividades
1 Vicente Lauro Gomes Consta na lista de aspirantes do ano de 1858
da Costa no Quartel da Companhia de Aspirantes a
Guardas-Marinhas (AL, 1858, p. 228); listado
como soldado do corpo de artilharia de Mato-
Grosso (Ministério da Guerra, julho de 1860,
p.14); Florenciana Gomes da Costa pede
baixa de seu filho soldado do corpo de
artilharia de Mato-Grosso (Ministério da
Guerra, jul. 1860, p. 22).
2 Candido Coelho da Reformado em 1884 do cargo de soldado do
Costa batalhão de engenheiros por ter mais de 30
anos de serviço (Gazeta de Notícias, 18 nov.
1884).
3 Simeão Joaquim do Guardião extranumerário do corpo de oficiais
Nascimento marinheiros (A Nação, 13 mar. 1874).
4 Antonio Quintiliano de Aprovado simplesmente em aritmética na
Castro e Silva (Ceará) escola da marinha (Correio Mercantil, 17 fev.
1862); nomeado aspirante na escola da
marinha (Correio Mercantil, 01 mar. 1862);
promovido a guarda marinha (Correio
Mercantil, 02 dez. 1865); enquanto segundo
tenente foi nomeado pelos serviços
prestados na Guerra do Paraguai cavaleiro
da Ordem de Cristo (Correio Mercantil, 13 e
14 abr. 1865); enquanto 1° tenente da
armada nacional foi nomeado cavaleiro da
Ordem de São Bento de Aviz (Gazeta de
Notícias, 27 jun. 1878); nota de elogio a sua
coragem durante o naufrágio do navio que
pilotava (Gazeta da Tarde, 28 abr. 1883).
Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
N. Nomes Atividades
5 José Maria Feliciano Registro em oficio do presidente da província
do Rio Grande do Sul de que a mãe de José
Maria Feliciano, praça do 1.° regimento de
cavalaria ligeira, pede que ele seja
considerado voluntário (Boletim do
expediente do governo, Ministério da Guerra,
1860, p. 7).
6 Luis Adolpho da Silva Consta que sua mãe Rosa Isabel Monteiro
Monteiro recebeu pensão pelos falecidos filhos
voluntários da pátria Antonio Claudino da
Silva Monteiro e Luis Adolpho da Silva
Monteiro (Gazeta de Notícias, 13 mar. 1890).
7 Antonio Claudino da Consta na lista oficiais feridos do 24.° Corpo
Silva Monteiro de Voluntários da guerra do Paraguai
(Correio Mercantil, 27 mar. 1865); consta que
sua mãe Rosa Isabel Monteiro recebeu
pensão pelos falecidos filhos voluntários da
pátria Antonio Claudino da Silva Monteiro e
Luis Adolpho da Silva Monteiro (Gazeta de
Notícias, 13 mar. 1890).
8 Manoel Carneiro de Aparece na lista de alunos do depósito de
Mattos aprendizes artilheiros como anspeçada de 1ª
classe (Diário do Rio de Janeiro, 28 dez,
1873).
9 Luiz Cavalcante de Aprovado no exame feito na Escola Central
Campos Mello (Correio Mercantil, 30 out. 1862); Secretário
do escritório do engenheiro chefe da estrada
de ferro D. Pedro II (O Globo, 13 set. 1876);
o engenheiro pediu exoneração do cargo de
ajudante do 1ª classe da estrada de ferro (O
Repórter, 12 jan. 1879)
Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
N. Nomes Atividades
10 Oscar Ferreira dos Praça reformado em 1869, era sargento
Santos Lima ajudante do 51.° Corpo de voluntários da
Pátria (Opinião liberal, 25 jun. 1869);
recebeu pensão enquanto sargento ajudante
do 51° Corpo de voluntários da Pátria por ter
ficado inutilizado por ferimentos (AL, 1870,
suplemento).
11 Jorge Augusto Correa Maquinista do Arsenal da Marinha (ver
introdução do item).
12 Augusto José Correa Augusto, 24 anos, maquinista do Arsenal da
Marinha, foi submetido a procedimento
médico para tratar de sequelas da sífilis
relatado no Anais Brasilienses de Medicina
de 1868 (p. 320-326); morreu aos 27 anos
de “accesso pernicioso” (A Nação, 09 jan.
1873).
13 Bernardo Francisco Cabo voluntário da pátria adido ao 14°
de Mendonça batalhão de infantaria (Diário do Rio de
Janeiro, 05 fev. 1867).
14 Antonio Galdino de Aluno Alferes de Infantaria da Escola Geral
Jesus Mafra de Tiro de Campo Grande (AL, 1876); Lista
de qualificação de votantes da freguesia de
Campo Grande, 29 anos, casado, sabe ler,
militar, escola de tiro, filho de Manuel Antonio
Mafra, elegível (Diário do Rio de Janeiro, 24
jul. 1876); aprovado plenamente no exame
de tiros da Escola de Tiro de Campo Grande
(O Globo, 14 nov. 1876).
Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
N. Nomes Atividades
15 Francisco Lopes Aluno do Depósito de Aprendizes artilheiros,
Barbosa anúncios de exames da escola realizados na
Fortaleza de São João listam o nome dele
como cabo (Diário do Rio de Janeiro, 20 nov.
1867, 02 dez. 1867; Correio Mercantil, 26
nov. 1867).
Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Deste grupo de alunos que exerceram atividades militares, alguns
estudaram no Depósito de Aprendizes Artilheiros, na Escola Central, na Escola Geral de Tiro de Campo Grande e na Escola da Marinha. Espaços que refletem a ênfase na educação e as iniciativas no campo tomadas pelos militares ao longo do Império, principalmente após 1850 (Alves, 2002 e Carvalho, 2007).
O Depósito de Aprendizes Artilheiros surgiu durante a Guerra do
Paraguai por decreto de 1866 e marcou o início da formação militar destinada aos menores de idade (Alves, 2002). Seu formato tinha a ver com o modo de recrutamento, por meio de captura. Segundo Alves, os jovens serviam por seis anos e geralmente eram encaminhados para corpos distantes de suas casas com intuito de evitar deserções:
Para o depósito eram levados os voluntários, mas também os recrutas menores de dezenove anos; os órfãos e abandonados, assim como os jovens apresentados pelos pais, com prioridade para os filhos de praças, e, ainda, os artesãos dos arsenais de guerra que não tivessem demonstrado aptidão necessária para as artes (Alves, 2002, p. 269, grifos da autora).
Embora a faixa etária para o depósito devesse ser entre 12 e 19 anos, a
pesquisa de Alves aponta que não era um esquema rígido, na medida em que era possível observar no ano de 1866 alunos com idades abaixo e acima dos limites estabelecidos, havendo alunos com 10 e 24 anos de idade.
Segundo relatório trazido por Alves, o objetivo da instituição era formar
artilheiros com a necessária instrução e moralidade e oferecer abrigo aos meninos de famílias pobres, por meio de conteúdos escolares e instrução militar. Aqueles que se destacassem em seu desempenho teriam oportunidade de ascensão. Para o Depósito foram pelo menos dois ex-alunos de Pardal: Manoel Carneiro de Mattos e Francisco Lopes Barbosa. Manoel tinha como responsável Francisca Carneiro de Mattos e Francisco, o padre de mesmo nome que faleceu em 1856.
A Escola Central fazia parte da formação militar para habilitação de
oficiais em engenharia e artilharia, bem como de geógrafos e topógrafos, que exigia um compromisso com os conhecimentos científicos (Alves, 2002). Na Escola estudou Luiz Cavalcante de Campos Mello, cujo responsável era o conselheiro Campos Mello, que se tornou engenheiro e, em 1876, constava como secretário do escritório do engenheiro chefe da Estrada de Ferro D. Pedro II (O Globo, 13 set. 1876).
A Escola Geral de Tiro de Campo Grande foi criada em 1859 para
aprimorar a organização da Escola de Instrução de Tiro, fundada em 1858, com objetivo de formar instrutores para os corpos de infantaria e artilharia do exército que faziam uso de armamentos pesados e de portáteis. Durante a Guerra ela foi fechada, sendo reaberta após o fim do conflito. Ao ganhar novo regulamento em 1873, foi revalorizada e passou a ser campo de realização de experimentos. Possuía acomodações para 84 alunos. Aqueles que faziam o curso anual recebiam aulas de ciências físicas e matemáticas, confecção de pólvora e munições, apreciação e manejo de armas. Ao final do ano letivo, os alunos faziam exames para instrutor de tiro, em presença de uma comissão julgadora.
Alves (2002) ressalta que não era fácil obter aprovação em razão de uma
formação impregnada de forte exigência intelectual, mas não isso foi problema no caso de Antonio Galdino de Jesus Mafra que foi aprovado “plenamente”. Antonio Galdino aparece no Almanak Laemmert de 1876 como alferes de infantaria que comandava o serviço da Escola, feito por um destacamento de praças de diversos corpos da Corte.
Alguns dos alunos listados participaram da Guerra do Paraguai por serem
militares, outros como parte do “Corpo de Voluntários da Pátria”, criado em 1865 e que assegurava soldo aos cidadãos entre 18 e 50 anos que se alistassem. Nesse grupo, havia muitos libertos e escravizados motivados pela promessa de alforria. O maquinista Jorge Augusto Correa também fez “campanha do Paraguai” pela qual ganhou outra medalha, a de Aviz. Parece ter sido muito prestigiado como sugere a nota de jornal de 1907 que afirma que superiores e subordinados sentiram muito a morte de Jorge.
Mas nem todos voltaram da Guerra. A nota sobre a pensão recebida pela
mãe Rosa Isabel Monteiro confirma a morte de Antonio Claudino da Silva Monteiro (Gazeta de Notícias, 13 mar. 1890), que constava na lista de oficiais feridos do 24.° Corpo de Voluntários da Guerra do Paraguai (Correio Mercantil, 27 mar. 1865), e de seu irmão Luis Adolpho da Silva Monteiro.
O filho do professor Pardal, Candido Matheus de Faria Pardal Júnior,
também lutou na Guerra e esteve na lista dos feridos da Batalha de Curupaity (O Publicador, 31 dez. 1866). Mas ele sobreviveu e, na condição de sargento ajudante do Asilo dos Inválidos da Corte, foi reformado por achar-se impossibilitado de exercer suas funções por ferimento em combate (Correio Mercantil, 07 jan. 1867). No mesmo ano, o Imperador lhe concedeu a “honra” do posto de Alferes do 12.° Corpo de Voluntários da Pátria, pelos serviços prestados na Guerra (O Correio Mercantil, 22 fev, 1867). A imprensa também anunciou homenagens a Pardal Júnior, um dos “heróis em Curupaity”, ao enaltecer os bravos da Guerra do Paraguai (Correio Mercantil, 17 out. 1867) pelo ato de patriotismo (Opinião Liberal, 19 out. 1867). Em 1870, foi concedida a “honra de capitão” ao filho de Pardal, ainda pelos serviços prestados no conflito (Diário do Rio de Janeiro, 10 maio 1870), mesmo ano em que ele solicita ser agregado à 1ª Companhia de Infantaria do Corpo Policial (Diário do Rio de Janeiro, 08 jun. 1870).
A Guerra e seus posteriores desdobramentos também mobilizaram
sujeitos da escola por outras vias como a doação de parcela dos salários para o combate, como fizeram professores públicos primários da Corte. Em 1868, Pardal fez parte de uma comissão para organizar os festejos da “vitória” na Guerra, assim como Domingos Thimoteo de Carvalho e seu filho, ex-aluno de Pardal, Leopoldo Thimoteo de Carvalho. Anos depois, o ex-aluno Antonio Galdino de Jesus Mafra também assinou subscrição para monumento aos bravos falecidos na Batalha de Riachuelo (O Globo, 11 jun. 1875).
Entretanto, na luta cotidiana para se estabelecer, outra guerra era
travada. Seguindo a carreira do comércio, em permanente tensão com os códigos de posturas e normatizações da Câmara Municipal, exercendo ofícios variados, como de carpinteiro, ferreiro, pedreiro também regulados pelo governo, ou submetidos às pressões existentes na carreira do funcionalismo público de baixo escalão, sujeitos valiam-se de estratégias de sobrevivência, de inserção em um mundo de trabalho marcado pelo regime escravista ou de estabelecimento nos círculos sociais e políticos da cidade.
A experiência de escolarização igualmente faz parte desse processo de
inserção na cidade. A saída da escola, seja por conclusão dos estudos ou por iniciação em outras atividades, representa uma etapa em suas trajetórias de vida – etapa que recebeu registros nos mapas de matrícula da Escola Pública de Santa Rita. Ao anotar a saída do aluno, o professor fazia uma observação, explicando a razão ou informando “não participou o motivo”. Os casos em que foram informadas as razões encontram-se no quadro a seguir.
Quadro 20 – Motivos da evasão de alunos durante o ano de 1855
N. N. Nome Nome Idade na Idade na Motivo registrado no mapa Motivo registrado no mapa
saída saída
1 Manoel da Costa 12 Por ter chegado a 10ª classes
Bastos de leitura, escrita e
contabilidade.
2 Luiz de Souza Ribeiro 15
Guimarães
3 Jacintho de Souza 11 Os três irmãos saíram por
Ribeiro Guimarães terem que se mudar para fora
da cidade.
4 João de Souza 9
Ribeiro Guimarães
5 Amâncio Lourenço 14 Participou ir seguir estudos
Gomes da Costa superiores.
6 Candido Coelho da 14 Participou ir seguir um ofício.
Costa
7 Simeão Joaquim do 11 Participou ir seguir um ofício.
nascimento
8 José Manoel 10 Participou ir aprender um
Gonçalves Bastos oficio.
9 Joaquim José Alves 10 Participou ir seguir estudos
superiores.
10 Francisco Gomes 13 Participou ir seguir o
Rangel comércio.
11 Sisemando (ou 13 Participou ir aprender um
Dilermando) oficio. Felisberto da Silva
12 Sabino Gomes Braga 11 Participou ir seguir estudos
superiores.
Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nos mapas de matrícula de 1855 localizados no AGCRJ.
Dessa listagem, observamos que quatro alunos alegavam ter saído para
aprender ou seguir um ofício, o mais novo com 10 anos, e um para seguir o comércio. Outros três saíram para seguir estudos superiores, entre eles, Amâncio Lourenço Gomes da Costa, o aluno mais antigo da escola, com matrícula de 1849. Seu irmão Vicente Lauro Gomes da Costa, que nesse período ainda estava matriculado, aparece na lista de aspirantes do ano de 1858 do Quartel da Companhia de Aspirantes a Guardas-Marinhas.
Sabino Gomes Braga que informou que iria seguir estudos superiores
tinha como responsável o Comendador Bernardo Gomes Braga, um fazendeiro de café. De acordo com as listas de qualificação de votantes de 1877, Sabino havia se tornado comerciante. Henrique Gomes Braga – que também tinha como responsável o comendador, mas cujas listas de votantes acusam ser filho de José Gonçalves Braga – estudou na Academia de Belas Artes, onde ganhou medalhas, e também em Paris. Tornou-se organista da Capela Imperial e pianista conhecido nos noticiários. Interessante destacar que, em 1853, ambos os meninos podem ser vistos na relação de alunos do Colégio de São Pedro de Alcântara (Correio Mercantil, 18 dez. 1853), localizado na Rua do Livramento, o que levanta a indagação do motivo que teria levado a trocarem o colégio pela escola pública.
Os irmãos Luiz de Souza Ribeiro Guimarães e Jacintho de Souza Ribeiro
Guimarães se tornaram guardas da Alfândega da Corte. Sobre o terceiro irmão, João, não foram localizadas informações. Pelo levantamento nos jornais, mais dez ex-alunos fizeram parte do funcionalismo público de baixo escalão: Alfredo Candido Pereira de Souza, guarda do corpo de cavalaria da Guarda Nacional (Correio Mercantil, 23 ago. 1865); Júlio Ribeiro de Oliveira Leão, segundo lista de qualificação de votantes, empregado público (Diário do Rio de Janeiro, 22 jul. 1876); Alexandre Luis da Costa Prates, empregado no Foro (Diário do Rio de Janeiro, 25 jul. 1876 e 06 fev. 1877); os irmãos Manoel Antonio de Oliveira Borges, contínuo da Fortaleza da Conceição (AL, 1878), Domingos de Oliveira Borges, empregado da Alfândega (Gazeta de Notícias, 26 jan. 1889); Matheus de Oliveira Borges foi professor adjunto, comerciante proprietário de um armazém de materiais de obras, praticante da Diretoria Geral da Tomada de Contas (AL, 1880) e, dois anos depois, foi nomeado escriturário da mesma repartição; João Baptista Pereira de Almeida, empregado (escriturário do pessoal de tráfego) da administração da Estrada de Ferro D. Pedro II (AL, 1867); Francisco Xavier da Silva Moura, empregado público (Diário do Rio de Janeiro, 20 jul. 1876); Francisco Pereira da Silva Vidal, escriturário do Tesouro Nacional (Gazeta da Tarde, 19 nov. 1883); e João Luis da Costa Oliveira Junior, guarda da Alfândega (AL, 1870) e depois praticante da Recebedoria do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 11 set. 1880), trajetória que não se encerrou com esta ocupação, como veremos adiante.
Um grupo – apesar dos pais ou encarregados terem sido empregados
públicos – seguiu carreira diversa, como Henrique de Oliveira Lemos, Eugênio José de Serpa e Carlos Rodrigues de Faria, que se tornaram negociantes, conforme consta nas listas de qualificação de votantes. As listas, contudo, não especificam o tipo de negócio, categoria bastante ampla que poderia abarcar diferentes atividades. Outros seguiram o ofício de negociante ou herdaram os negócios da família, como Ezequiel Borges Pereira, Clarindo Gomes Rangel, Manoel Machado Fagundes e o já mencionado Matheus de Oliveira Borges.
Ofícios como ferreiro, correeiro, maquinista, marmorista, tipógrafo, mestre
de embarcação, pedreiro e “artista”, termo genérico que engloba muitas atividades, também foram seguidos por vários ex-alunos, como Francisco Roberto Pimenta que parece ter conseguido se estabelecer como marmorista, podendo inclusive colocar anúncios nos jornais para divulgar seus serviços.
Figura 24 – Anúncio da oficina de Francisco Pimenta
Fonte: Gazeta de Notícias, 08 set. 1881, Biblioteca Nacional.
Francisco era votante, sua renda segundo a lista de qualificação em 1877
era de 1$200. No entanto, quando a Lei Saraiva foi instituída em 1881, precisou entrar com recurso eleitoral, por ter sido excluído da lista de votantes, mas a mesa de qualificação o indeferiu por falta de prova legal de renda. Talvez os artesãos tivessem dificuldade de comprovar renda que, juntamente com a exigência de alfabetização, podem ter complicado a manutenção do direito de votar conquistado anteriormente. A próxima nota encontrada sobre o assunto foi na República, quando foi mesário das eleições no Caju (Jornal do Brasil, 30 dez. 1896).
Sua participação na localidade ia de subscrição de lista para testemunhar
a realização dos serviços de limpeza da Praia de São Cristóvão prestados pela Empresa Gary (que deu origem ao nome dos atuais profissionais de limpeza de rua), subscrição de lista em prol das asiladas da misericórdia (Gazeta de Notícias, 09 mar. 1890), passando pela diretoria do Club de Regatas Cajuense, como segundo procurador, e da comissão de sindicância do Sport-Club que, segundo o jornal O Sportman, de 16 de julho de 1887, era uma sociedade com intuito de promover exposições e corridas de cavalos, com distribuição de prêmios. O noticiário do Gazeta de Notícias, de 29 de julho de 1888, informa que o Clube de Regatas do Caju estava se preparando para colaborar com a Câmara Municipal na organização dos festejos da chegada do Imperador, que incluía a participação de alunos das escolas públicas nas equipes que disputariam o páreo.
A imersão de Francisco em associações desportivas se destaca em razão
de ser algo pouco comum entre os investigados. Mas, vários alunos atuaram na direção de sociedades e associações de diversas finalidades, sendo possível observá-los em quase todas as modalidades do esquema construído por Pereira de Jesus (2013) em que a tipologia de associações no século XIX se organizam em oito grupos: sociedades beneficentes; irmandades; sociedades religiosas; sociedades literárias e de instrução; sociedades científicas; sociedades dramáticas, recreativas e desportivas; caixas previdenciárias e montepios; e seguradoras e cooperativas.
Um deles se destaca por ter uma atuação associativista mais intensa.
Manoel Nunes Pinheiro, matriculado em janeiro de 1855, aos nove anos de idade: “inteligência regular”, “aplicação regular”, “moralidade boa”. O grau de instrução na entrada: 7ª classe de leitura, 8ª de escrita e 6ª de contas. Em abril de 1855, estava na 7ª de leitura, 9ª de escrita e 8ª de contas. Em três meses, o aluno passou da 8ª classe de escrita para a 9ª, da 6ª classe de contas para a 8ª e permaneceu na mesma de leitura. Considerando que as classes do professor Pardal iam até a 10ª, o aluno parecia bastante adiantado comparativamente com os outros da idade.
Seu pai, já mencionado neste capítulo, exercia no mesmo endereço
fornecido como residência a atividade de sapateiro, que foi alterado, em 1857, para Rua da Saúde n.º 231, conforme a lista de “Fábrica de calçados e lojas de sapateiros” do Almanak Laemmert. O filho parece não ter adentrado no ramo dos sapatos, mas manteve-se no ofício de artista. Na lista de qualificação votantes de 1876, Manoel foi apresentado como carpinteiro, que sabe ler, com renda de 1$000, casado, elegível.
O carpinteiro, ex-aluno regular e “adiantado” da escola de Santa Rita,
onde se deu uma parte de sua escolarização, teve significativa participação durante o período considerado por alguns pesquisadores como de emergência da organização operária. Sua inserção nos quadros administrativos dos movimentos associativistas chama atenção e saber ler, escrever e contar pode ter contribuído para que Manoel exercesse tais cargos da diretoria que igualmente consistiam em privilegiado espaço para aprendizagem de outras formas da cultura letrada (Costa, 2012).
Quadro 21 – Manoel Nunes Pinheiro e as associações
N. Cargos/Instituição Fonte/Ordem cronológica
1 Tesoureiro interino da Gazeta de Notícias, 16 jun. 1878
Associação de
Socorros Mútuos Liga
Operária
2 Tesoureiro da Gazeta de Notícias, 14 jan. 1880
Associação de S.M.
Liga Operária
3 Conselheiro da Gazeta de Notícias, 17 jan. 1882
Sociedade
Beneficente dos
Marceneiros,
carpinteiros e artes
correlativas
4 2º Secretário da Gazeta de Notícias, 15 maio 1882
Associação de S.M.
Liga Operária (na
reunião foi conferido a
Manoel o diploma de
sócio benemérito)
5 Membro da comissão Gazeta de Notícias, 01 ago. 1882
de sindicância da
Sociedade de
Beneficência Perfeita
Amizade
6 Membro do conselho Gazeta de Notícias, 16 ago. 1882
da Associação de
Socorros Mútuos
Memória à
Restauração de
Portugal
Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e no Almanak Laemmert.
N. Cargos/Instituição Fonte/Ordem cronológica
7 Secretário da AL, 1883, p. 1172
Associação Real de
Socorros Mutuo D.
Luiz I
8 Conselheiro membro A folha nova, 15 jul. 1883
fundador da
Associação da
Providência
Doméstica
Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas informações levantadas nos jornais da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e no Almanak Laemmert.
Ao todo foram sete cargos ocupados em seis associações de caráter
beneficente ou de auxílio mútuo. Instituições que alcançaram, de acordo com Pereira de Jesus (2013), diversidade social e institucional expressivas na segunda metade do século XIX e que exerceram “um papel específico na segurança social, material e moral de artesãos, operários, ex-escravos, industriais, comerciantes, engenheiros, advogados e médicos, entre outros setores” (p. 1).
Entre as associações das quais participou Manoel encontra-se a
conhecida Associação de Socorros Mútuos Liga Operária, fundada em 1870 (Batalha, 2009). A Liga Operária reuniu sócios de diversas categorias de operários e artistas, nacionais e estrangeiros. Alguns dias após a primeira sessão contava com 856 inscritos (Batalha, 2009). Os objetivos definidos no estatuto eram de prestar aos associados necessitados auxilio moral; “melhorar a sorte das classes operárias, introduzindo melhoramentos em todos os ramos do trabalho artístico e industrial”; e propagar a instrução, como meio de elucidar o operário e o artista “tanto na invenção, como na prática do trabalho manual”. A diretoria era composta por uma quantidade de membros equivalente ao número de profissões representadas na Liga. Para Costa (2012, p. 130),
A experiência na direção de uma Sociedade poderia ter forte resultado educativo para um trabalhador, em função do próprio esforço para elaborar e comunicar o pensamento, os cálculos para tomada de decisões envolvendo variáveis complexas presentes nos assuntos de interesse coletivo, até a própria necessidade de lidar com as técnicas veiculadas pela escola, principalmente a leitura e escrita.
Tal experiência foi vivida por Manoel na Liga Operária, na condição de
tesoureiro interino, tesoureiro e secretário, tendo repetido esses cargos mais de uma vez. Segundo o estatuto, os secretários tinham como deveres presidir as sessões na falta do presidente e do vice-presidente, organizar as atas das sessões e os livros das matrículas dos sócios, “dar desenvolvimento” ao expediente da secretaria e servir de bibliotecário. O tesoureiro deveria arrecadar o dinheiro da associação, cumprir as ordens da Diretoria Central referentes aos socorros pecuniários, organizar o balanço geral da associação, ter a seu cargo “os livros de receita e despesa e os auxiliares que julgar convenientes” e “cadernos de talões com recibos impressos”.
Pelo estatuto, nota-se que a função de tesoureiro exigia operar com
diversos tipos de documentos, bem como o exercício da contabilidade. Atividade possível para Manoel por ter um domínio da leitura e escrita, cujos documentos produzidos também poderiam permitir aos outros sujeitos o acesso à cultura letrada. Leis, atas, livros de receita e despesa e de matrícula, talões e relatórios, ao fazerem parte da vida associativa, demonstram a “estreita ligação dos sujeitos aqui caracterizados com o mundo da escrita e da leitura. Mesmo os que possivelmente não soubessem ler e escrever presenciavam e escutavam a leitura de relatórios e balanços de gestão em assembleia” (Costa, p.127).
Manoel enquanto 2.º secretário também exerceu outra atividade, a de
bibliotecário, que demonstra a preocupação da associação em favorecer o acesso de seus sócios ao mundo letrado. Preocupação assinalada no estatuto em “melhorar a sorte das classes operárias, introduzindo melhoramentos em todos os ramos do trabalho artístico e industrial” e que se traduziu, por exemplo, por meio de conferências e de cursos realizados em 1877 sobre temas diversos voltados para educação do operariado (Batalha, 2009).
Outro aspecto que pode ser observado é a rede de solidariedade
estabelecida entre tais associações, que se dava, por exemplo, por meio da cessão do uso de espaço, como no caso da reunião de instalação da Associação de Socorros Mútuos Memória à Restauração de Portugal, da qual participou Manoel, que ocorreu na sala da Sociedade Auxiliadora dos Artistas Alfaiates. Tal aspecto pode favorecer a circulação dos sujeitos por diferentes associações, como o próprio caso de Manoel que esteve engajado em várias, ou mesmo favorecer a emergência de uma noção de coletividade mais ampla, ainda que envolvendo pessoas de diferentes instituições.
Outros ex-alunos também estiveram envolvidos com sociedades e
associações de categorias profissionais, como o tipógrafo Luiz Antunes de Ferreira, membro da comissão artística e secretário da Imperial Associação Tipográfica Fluminense e presidente da Sociedade Beneficente dos Empregados da Gazeta de Notícias (Gazeta de Notícias, 20 jul. 1884); Theodoro Jansen Muller membro da Imperial Sociedade de Beneficência Protetora dos Guardas Nacionais da Corte e da Província do Rio de Janeiro (Correio Mercantil, 11 jul. 1868); e o professor Manoel Ribeiro de Oliveira Leão inscrito no Instituto Pedagógico (A Instrucção Pública, 01 set. 1873).
Alguns tiveram inserção na direção de outros tipos de sociedades, como
Theodoro Jansen Muller que foi membro da Sociedade Sete de Setembro, secretário do Congresso Juvenil (criado para promover o desenvolvimento das artes), vice-presidente do Congresso Juvenil Artístico e secretário da Sociedade Festival de São Pedro do Saco do Alferes; o artista Alexandre Aristides Pinheiro, conselheiro da Sociedade União Funerária Primeiro de Julho; o músico Henrique Gomes Braga que fazia apresentações musicais no Club Mozart; José Antonio Ferreira Leal, sócio efetivo da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional; o guarda da Alfândega João Luis da Costa Oliveira Junior, secretário da Sociedade Teatral Obreiros do Porvir; o negociante Henrique de Oliveira Lemos, mesário da Irmandade do Santíssimo Sacramento; e o médico e farmacêutico Francisco Ferraz de Macedo, sócio fundador do Liceu Literário Português e diretor geral do Montepio Agrícola. A diversidade mostra que tais sujeitos tiveram inserção em diferentes campos, envolvendo instituições beneficentes nas quais se buscava alguma segurança e auxílio, mas também aquelas de caráter recreativo, voltadas para o lazer e ligadas à arte, como a música, a literatura e o teatro.
A variedade de instituições associativas também remete à variedade de
ocupações seguidas pelos ex-alunos, sendo que alguns casos chamam atenção por destoarem do restante do conjunto identificado na pesquisa, como o do noviço, do artista de teatro, do farmacêutico/ médico que se tornou antropologista criminal e o do músico já mencionado.
Francisco José Ferreira Villaça, cujo pai caixeiro despachante de mesmo
nome faleceu em 1855, entrou como noviço na ordem beneditina e viajou para Roma com o frei João de Santa Gertrudes, custeados pelo mosteiro. No entanto, havia uma complicação de ordem legal. O Ministro do Império declarou que, por causa da circular de 19 de maio de 1855, que cassou as licenças para admissão de noviços nas ordens religiosas do Brasil, aqueles que haviam viajado com o frei de Santa Gertrudes não poderiam voltar ao Brasil como parte da ordem beneditina (O Apóstolo, 06 nov. 1870). Ou seja, se Francisco quisesse ser monge não poderia voltar ao Brasil. O comunicado causou polêmica na Igreja e o jornal católico O Apóstolo, em 12 de fevereiro de 1871, transcreveu artigo publicado no jornal Catholico de Pernambuco, criticando o que chamou de “violação da liberdade católica” e acusando o governo de querer extinguir as ordens brasileiras “como meio iniquo de chegar à posse dos bens dessas mesmas ordens, como afinal chegou-se de um modo indireto”. Coincidentemente, após essa data não foi possível encontrar mais nenhuma nota de Francisco José Ferreira Villaça nos jornais.
O ex-aluno Peregrino Lemos de Menezes tornou-se tanto artista tipógrafo
quanto artista de teatro. Possui um verbete no livro “Carteira do artista”, publicado 1898 por Souza Bastos, o qual afirma que Peregrino “filho de pais pobres apenas recebeu rudimentos de instrução primária”. Na data de matrícula seu grau de entrada, foi classificado 5ª classe de leitura, 6ª de escrita e 4ª de contas. Na avaliação inicial, foi considerado pelo professor com “muita inteligência”, “regular aplicação” e “boa moralidade”. No mapa de 1856, constava que ele estava na 10ª classe de leitura, 8ª de escrita e de contas. Mas foi avaliado como tendo “pouca inteligência”, “regular aplicação e moralidade”. O verbete diz que, impossibilitado de seguir a carreira da Marinha, foi aprender a arte tipográfica. Depois foi empregado na capatazia da Alfândega e em seguida tornou-se empregado da Tipografia Nacional.
A inserção na carreira de ator se deu na companhia de teatro de Manuel
Di-Giovani. Em 1874, Peregrino casou-se com a viúva do diretor, Jesuína Montani Di-Giovani. Existem algumas divergências a respeito de datas e informações sobre a vida do artista que aparecem em alguns jornais, mas ele ainda é citado no jornal A Manhã de 12 de agosto de 1945, numa reportagem intitulada “O ator Peregrino – considerado antigamente – Pau para toda obra” que elogiava a habilidade, em falta naquele momento, do ator em interpretar diferentes papéis, o que lhe rendeu um repertório eclético de atuações.
Peregrino morreu moço, como declararam os jornais, aos 42 anos. A
Gazeta da Tarde ao tratar da morte do ator encerra a notícia com tom dramático característico do ramo: “Como quase todos os atores depois de ter acordado sua alma ao estrepitar das palmas, o distinto brasileiro, ferido da morte, tropeçou no túmulo, deixando apenas à família que a tinha e numerosa, como triste legado a perspectiva da pobreza” (21 jan. 1885). A perspectiva parecia ser um problema comum no ofício. Os atores tinham suas redes de solidariedade, que também foram acionadas no caso da morte de Peregrino. No Teatro São Luiz ocorreu uma apresentação da peça “A cabana do Pai Thomaz” em benefício da viúva e dos filhos do ator (Brazil, 08 fev. 1885).
O caso do português Francisco Ferraz de Macedo, nascido no Porto,
conforme registra o mapa de matrícula também se sobressai. Francisco foi aprovado nos exames para matrícula nos cursos superiores em 1864 (Correio Mercantil, 08 jan. 1864). Consta que ele cursou filosofia racional e moral no Colégio do Mosteiro de São Bento (Correio Mercantil, 14 jan. 1865). Fez o curso de farmácia (concluído em 1867) e de medicina (em 1873) na Faculdade de Medicina da Corte e, em 1879, já estava atestando a eficiência de xarope em propaganda de jornal (Gazeta de Notícias, 04 fev. 1879). Indício de que a técnica publicitária de usar o nome de profissionais e de pessoas de reconhecimento para dar credibilidade a um produto constitui prática antiga.
Francisco foi sócio-fundador do Liceu Literário Português, uma
demonstração de sua forte relação com seu país de origem e que ajuda a entender a sua mudança, na década de 1890, para Portugal, onde investiu na carreira de antropologia criminal e arqueologia. No entanto, continuou mantendo contato com seus colegas brasileiros, como se pode observar pela nota em que oferece livros à Sociedade de Jurisprudência Médica e Antropologia (O Paiz, 02 fev. 1898). Jornais do Brasil noticiam sua atuação no exterior, como a de que o “um dos mais distintos antropologistas europeus” iria representar Portugal no Congresso de Antropologia Criminal em Genebra (Jornal do Brasil, 25 jun. 1896). Outro jornal ao dar a mesma notícia faz um pequeno resumo da vida de Francisco destacando que era membro da Sociedade de Antropologia de Paris e da equivalente em Florença (Gazeta da Tarde, 29 jun. 1896).
Também havia entre os alunos de 1855 aqueles que iriam seguir a
carreira do professor Pardal. A docência se apresentava como um dos ofícios possíveis pela proximidade e pelo cargo do professor adjunto. Matheus de Oliveira Borges, embora o pai fosse negociante, proprietário de bens e de escravos, tornou-se adjunto na própria freguesia de Santa Rita e exerceu a função de 1859 até 1862, quando foi exonerado. Apesar da iniciativa, a imersão na carreira docente parece não ter sido promissora, pois anos depois vemos o nome de Matheus nas folhas do Almanak Laemmert na sessão de negociantes de materiais para obra, mesmo negócio do seu falecido pai, com endereços na Rua da Saúde e no Largo da Imperatriz, logradouros próximos à escola.
Manoel Ribeiro de Oliveira Leão, quinze anos, matrícula de junho de
1854, “inteligência pouca”, “aplicação pouca”, “moralidade boa”. Grau de instrução na entrada: 8ª classe de leitura, 10ª de escrita e 10ª de contas. Grau de instrução em abril de 1855: 9ª de leitura e de escrita e 10ª de contas. Em 1862, aos 22 anos de idade, fez exame de habilitação e “aprovado pela inspetoria geral da instrução publica” passou a oferecer seu préstimo, dando início a sua inserção no “comércio da instrução” (Limeira, 2010). Uma propaganda no jornal Correio Mercantil de 08 de junho de 1862 anunciava seu endereço e horário para os interessados. A informação do horário se destaca: a partir das seis horas da tarde.
Figura 25 – Propaganda de aula particular de Manoel Leão em 1862
Fonte: Correio Mercantil, 08 jun. 1862, Biblioteca Nacional.
Como talvez a procura pelo serviço não tivesse sido satisfatória para
Manoel, no anúncio do ano seguinte, o professor apresentou uma “promoção”: o valor da aula, 3$ mensais, para quem matricular-se “desde já”. O valor muito baixo da mensalidade pode ajudar a pensar a razão das aulas ocorrerem a partir das seis horas da tarde. Talvez fosse um complemento de renda, tendo o professor outro emprego durante o dia. Mas a docência noturna na Corte dará lugar ao magistério público em outras cidades. Em 1870, Manoel foi nomeado professor no município de Campos e, a partir de então, começou um ciclo de remoções, cuja última notícia é de 1886. Primeiramente, no interior do próprio município de Campos (1870-1875), depois para Nova Friburgo (1875), Vila da Estrela (1877), Petrópolis (1879) e Guapimirim (1886). Nesse tempo o professor foi convocado duas vezes para fazer exame de sanidade, em 1877 e em 1885.
Figura 26 – Propaganda de aula particular de Manoel Leão em 1863
Fonte: Correio Mercantil, 25/05/1863, Biblioteca Nacional.
Membro do Instituto Pedagógico e com certo envolvimento cultural – sua
casa constava nos jornais como ponto de venda do livro Voz da Amizade –, o aluno “pouco inteligente e aplicado”, com suspeita de insanidade recebeu um agradecimento público pelos donativos às vítimas da seca do Norte, em 1878 (O Cruzeiro, 24 fev. 1878). Pelo noticiário não foi possível saber a razão do exame de sanidade, mas sua submissão ao procedimento, embora o médico o tivesse considerado apto a exercer o ofício, não deve ser ignorada, podendo indicar a existência de tensões com determinados sujeitos ou a realização de práticas consideradas, naquele momento, inadequadas para um professor.
João Luis da Costa Oliveira Junior, já mencionado como guarda da
Alfândega e praticante da Recebedoria do Rio de Janeiro, também se inseriu na docência muitos anos depois. Recebeu diploma de professor de aritmética pelo Liceu de Artes e Ofícios, em 1889, numa lista que inclui várias pessoas de idade mais avançada, e tornou-se professor do próprio Liceu (Diário do Comércio, 21 dez. 1889).
João Miguel Salgueiro foi o único da lista de 1855 identificado como aluno
do Externato do Colégio Pedro II, em 1861, aprovado plenamente em geografia, doutrina cristã e aritmética e simplesmente nas demais (Correio Mercantil, 16 nov. 1861). Salgueiro seguiu o ofício docente. Em 1871, constava numa lista de professores de português do Relatório da Inspetoria (11 abr. 1872) e foi um pouco mais longe, no sentido geográfico, que o professor Manoel Ribeiro de Oliveira Leão. Em vez de circular apenas pela província, João Miguel lecionou em Petrópolis, Juiz de Fora e São Paulo. Em 1887 aparece na lista de professores da Escola Normal da Corte que estava funcionando no Externato Andrade, localizado na Rua do Sacramento (Gazeta de Notícias, 18 maio 1887).
Os ex-alunos Manoel, João Luís e João Miguel tiveram experiências
bastante diferenciadas na docência: professor de primeiras letras, de aritmética e da escola normal que envolveu a circulação geográfica e profissional, ao contrário de Pardal que sempre atuou como professor e que, durante quase toda sua vida profissional, lecionou na freguesia de Santa Rita, mesmo trabalhando em mais de uma instituição.
Por outro lado, a fixação geográfica de Pardal permitiu que ele pudesse
construir relações mais duradouras, o que não significa que fossem necessariamente amistosas. Os caminhos de ex-alunos, pais, encarregados e o professor se cruzaram várias vezes após a saída dos meninos da escola (prematura ou mediante conclusão dos estudos), pois, como personagens dinâmicas, frequentavam e atuavam em outros espaços. Esses espaços, embora não fossem mais a escola, também eram lugares de aprendizagem, como assinala Costa (2012) que, operando com uma concepção mais ampla de educação, faz uma análise sobre “educar-se como a experiência vivida, o ensinar e o aprender entre os próprios sujeitos populares, mesmo fora da escola, fosse em associações de trabalhadores, ou de forma mais difusa no seu cotidiano” (p. 20).
O encontro com pais e encarregados em momento em que seus filhos
não mais frequentavam a escola de Santa Rita foi assinalado no item anterior. Quanto aos ex-alunos, podemos citar espaços como o Colégio Pedro II, a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, o Club Mozart e também as eleições e o júri da Corte. Isso para mencionar os espaços que puderam ser identificados pelos jornais, mas que, muito provavelmente, poderiam englobar uma série de outras instituições, diante do movimento da vida que tais sujeitos levavam.
Saber ler, escrever e contar certamente fez diferença nas maneiras como
os indivíduos se posicionavam perante os outros e as instituições com as quais deveriam lidar no cotidiano, bem como no exercício de suas atividades profissionais, políticas, religiosas, sociais e culturais. Embora nem todos tivessem iniciado a escolarização na Escola Pública de Santa Rita, a aprendizagem das primeiras letras nessa escola fez parte da trajetória de artesãos, artistas, negociantes, empregados públicos, militares, professores, entre outros.
Nesse sentido, o exercício da leitura e da escrita em suas vidas
cotidianas passa pela experiência de aprender com o professor Pardal e suas agências, com o qual os alunos também podem ter aprendido mais do que os conteúdos escolares. Ao vivenciarem um espaço em que seus pais, encarregados e o professor, no exercício de outras atividades, travavam relações fora do ambiente escolar, mas estavam, ao mesmo tempo, em conexão com ele. Poderiam aprender jogos políticos, estratégias de resistências, de reinvindicação, formas de inserção na cidade, modos de ser e estar na Capital do Império, muitos dos quais registrados nas várias notas de jornais do século XIX.