A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências
Vida comunitária
Conforme já mencionado, Pereira de Jesus (2013) apresenta uma
tipografia de associações que se divide em oito grupos. Como nem todas as atividades exercidas pelos docentes eram de caráter associativista, organizo a análise de forma a articular a classificação de Pereira de Jesus com as agências dos professores na cidade. Assim, para abordar a participação em tais instituições, divido a análise em seis agrupamentos em torno de: vida comunitária; política; associações beneficentes; de socorros mútuos, previdência e seguro; irmandades; e atividades recreativas. Tal organização engloba as associações e sociedades, mas também atividades sem vínculos institucionais.
Vida comunitária
Recebemos ontem em nosso escritório a distinta comissão nomeada pelos moradores dos subúrbios, reunidos em meeting solene no dia 17 corrente, e que fora encarregada de agradecer à imprensa que protestou mais energicamente contra a ideia aventuada pelo Sr. Affonso Celso, no senado, sobre a supressão dos trens de subúrbios.
Gazeta da tarde (20 set. 1882)
O professor Pardal era o relator da referida comissão que receava ver os
subúrbios despovoados e casas desabitadas que representavam “o capital acumulado à custa de imensos sacrifícios de operários e cidadãos”. Com “eloquentes palavras”, o professor, ex-proprietário de escravo, agradeceu ao redator do jornal, o abolicionista José do Patrocínio, pela atitude enérgica de se pronunciar contra a supressão dos trens. Patrocínio agradeceu e respondeu que a Gazeta da Tarde era a “folha do povo” e que não cumpria mais do que seu dever.
Iniciativas populares para reivindicar melhorias para as regiões em que
moravam ou em favor de determinados sujeitos pareciam ser bastante comuns e podiam ser frequentemente vistas na imprensa. Os professores, como parte da população, não ficavam alheios às mobilizações. Em alguns casos, o envolvimento da escola e do professor com as mobilizações parecia ser significativo e com bastante proximidade, lançando mão do uso do próprio espaço escolar. O caso da reunião para organização da Associação de Saneamento da Capital do Império ilustra bem a situação (O Globo, 20 out. 1876). O evento ocorreu em 15 de outubro de 1876, na Escola Municipal São José, e contou com a presença de inúmeras pessoas, dentre as quais alguns professores como Pardal (diretor da escola) e Carlos Augusto Soares Brazil.
A organização dessa associação emergia a partir de um ponto de vista
higienista que, diante das condições da cidade naquele momento, conclamava reação urgente da população, pois considerava “impossível permanecer por mais tempo indiferente ao espetáculo contristador que cada ano vai progressivamente apresentando a capital do Império debaixo do ponto de vista sanitário” (O Globo, 20 out. 1876). O discurso de abertura da sessão, proferido pelo médico Franklin do Amaral, remetia aos dados produzidos por um dispositivo que igualmente contou com a participação de professores: o recenseamento da população. Tal recenseamento não consistia em uma iniciativa da população, mas estava relacionado a ela. O procedimento também fez uso do espaço escolar, pelo menos no caso da comissão de arrolamento responsável pelo recenseamento do 2.° distrito da freguesia de Santana da qual Pardal foi presidente. Sua primeira reunião ocorreu no Largo da Imperatriz, n.º 125, endereço da escola da freguesia de Santa Rita (Diário do Rio de Janeiro, 10 abr. 1870).
Outros professores também estiveram envolvidos com as atividades de
recenseamento, como Amando de Araújo Cintra Vidal, membro da comissão de recenseamento da Corte da freguesia de Inhaúma (Diário de Notícias, 12 jun. 1872); Francisco Alves da Silva Castilho, na freguesia de Campo Grande (Diário de Notícias, 12 jun. 1872); João Correa dos Santos, na freguesia da Ilha do Governador (Diário de Notícias, 12 jun. 1872) e João Marciano de Carvalho, responsável pela freguesia de Santa Cruz (AGCRJ, códice 10.4.19, f. 82).
Não obstante Franklin Amaral apontar a existência de acusações de
inexatidão e falsidade acerca dos resultados do censo defende que o trabalho foi, em boa parte das freguesias, “tão completo” quanto deveria ser e ressalta que estavam em sua direção “pessoas bem intencionadas, que rodearam-se de bons auxiliares” (O Globo, 20 out. 1876).
A nomeação de professores públicos entre os convocados para trabalhar
no censo se insere bem na perspectiva levantada por Mattos (2004), já assinalada, dos professores como peças estratégicas na administração pública e construção do Estado; e também em uma ideia inspirada na análise de Carvalho (2007) de que a circulação por diferentes postos da administração pública conferia experiência política aos sujeitos. Embora se trate de proporções distintas, a atuação de professores em atividades locais dava a eles uma experiência local e publicidade de sua imagem que poderiam ser usadas em situações políticas.
A condição dos professores que os permitia estar em maior “contato com
o povo”, como disse o professor Brazil, colocava a figura do professor como agente em potencial para realizar este tipo de tarefa, considerando que ele já conhecia uma parte da população via escola. Cabe destacar que Franklin do Amaral relatou que alguns habitantes se recusaram a fornecer a lista da família e que os “agentes do censo” recorreram aos vizinhos para obter as informações.
A população também foi mobilizada quando o professor Pardal foi
convocado para auxiliar em outra atividade, de caráter cívico e festivo: a organização dos festejos adotados pela Câmara Municipal para comemorar a “vitória decisiva dos exércitos aliados na República do Paraguai” (Câmara Municipal, 1868). A Câmara convocou os moradores a iluminarem a frente de suas casas por três dias e nomeou comissões para enviarem esforços para a montagem de arcos triunfais, artefatos e iluminação nos locais públicos durante os dias festivos.
A vizinhança também poderia se reunir para dar apoio ou reconhecimento
a alguém pela prestação de um serviço de interesse na localidade, como no caso de um empresário de barcas na freguesia de São Cristóvão (Correio Mercantil, 18 jul. 1852; Diário do Rio de Janeiro, 20 jul. 1852). Os moradores, entre eles os professores Joaquim Sabino Pinto Ribeiro e João Ferreira Moscoso, fizeram um abaixo-assinado dirigido ao governo imperial em que narram que um “empreendedor montou a expensas suas uma carreira regular de barcas”, havia mais de três anos, com saídas de São Cristóvão e da Prainha, no centro de cidade, com horas certas e preços módicos. Para “bem servir ao público”, construiu também com suas expensas uma ponte de embarque. No entanto, os moradores alegavam que os outros donos de barcos tomados pela inveja, em vez de se reunirem para também construírem suas pontes, resolveram disputar a do empresário:
[…] invocando o termo de concessão lavrado pela capitania do porto para a construção dessa ponte, entendendo-o no seu mais amplo sentido, determinaram essa autoridade a mandar que a todo mundo, ao gozo e ao estrago que todos
quisessem causar, fosse entregue a ponte pelo empresário construída (Correio Mercantil, 18 jul. 1852).
Devido à concorrência e às despesas com consertos e reparos na
manutenção, o empresário suspendeu o serviço e, dessa forma, segundo os signatários, a ponte ia se arruinando, perdendo a empresa e, não menos, os moradores. O documento relata que o empresário havia requerido ao governo a concessão de propriedade de ponte, comprometendo-se “a conservá-la em perfeito estado de asseio, e a manter pelo ínfimo preço de estilo a carreira regular estabelecida, concedendo todavia aos botes de ganhos o gozo de desembarque na lingueta de pedra em que começa a ponte.”
Diante disso, os moradores fizeram um abaixo-assinado de apoio ao
pedido do empresário para que lhe fosse concedida a propriedade. A lista de assinaturas é bastante extensa e mostra que houve uma grande mobilização dos moradores em favor do empresário. Não foi possível saber como se deu a iniciativa, mas ela demonstra a organização da população e a agência coletiva que contava com professores em suas fileiras, a elaboração de estratégia que requeria uma participação de maior número de pessoas possíveis – o abaixo-assinado –, e sua divulgação na imprensa.
Outra ação de reconhecimento, mas de caráter individual, envolveu três
professores públicos primários, em épocas distintas, a respeito do tratamento oferecido pelo médico Ricardo Kirk. O reconhecimento funcionava como demonstração de agradecimento público, mas também como propaganda do médico e do produto na sociedade carioca. Francisco Joaquim Nogueira Neves foi o primeiro localizado em agradecimento ao médico que curou doença do seu filho que há nove anos sofria de grande inflamação nas duas pernas. O tratamento se deu por meio de chapas medicinais em espaço de um ano: “Com quanto o dito Sr. fosse satisfeito com o diminuto estipêndio que recebeu do seu trabalho; eu seria falto de reconhecimento, se não conhecesse o grande benefício de que lhe sou devedor” (Diário do Rio de Janeiro, 04 jul. 1843).
O mesmo reconhecimento da eficácia no tratamento com as “chapas
medicinais” de Ricardo Kirk pode ser visto nos casos de Joaquim Sabino Pinto Ribeiro, que atesta que sua esposa, depois de longo tratamento alopático sem resultados, achava-se plenamente restabelecida (Correio Mercantil, 04 nov. 1858); e de Joaquim José Cardoso de Siqueira Amazonas, que publicou nota em dois momentos distintos (Diário do Rio de Janeiro, 19 mar. 1857, e Correio Mercantil, 21 out. 1865). No primeiro anúncio, datado de 1857, o professor Joaquim, “abaixo-assinado, facultativo pela imperial Academia de medicina, médico-cirúrgica desta Corte”, alerta para o cuidado de não confundi-la com outras chapas preconizadas por ocasião da epidemia de cólera. Na segunda nota, o professor que, também era médico, apontava as vantagens obtidas no tratamento da própria saúde, mais especificamente nas “inflamações no estômago, fígado, baço, etc, ainda que sua eficácia se estenda às lesões de outros órgãos”. Apesar do reconhecimento, cabe destacar que o professor faleceu menos de um ano depois, em 26 de abril de 1866. Observa-se que o professor tinha agências de caráter profissional de dois tipos bastante diferentes, a docência e a médica.
Outra atividade que tinha relação com a localidade e da qual também
fizeram parte professores primários ocorreu em associações locais que, pelas fontes encontradas, também sugeriam ter um caráter político, como a Associação Parochiana da freguesia de Santana, da qual Pardal foi conselheiro em 1857 (O Correio da Tarde, 31 mar. 1857). A reunião prevista para sua inauguração se daria em 14 de abril de 1857, nos salões do Museu Nacional (Diário do Rio de Janeiro, 14 abr. 1857). O lugar da reunião evidencia que a associação parecia ser de grande porte e reuniria muitas pessoas.
O professor Francisco Alves da Silva Castilho também era membro de
uma associação que chama bastante atenção pelo nome: “Sociedade Beneficente e Propagadora dos direitos dos cidadãos da freguesia de Campo Grande”. A nota de jornal, ao tratar de suas primeiras realizações, já aponta as intrigas entre tais tipos de associações e a política local. Parecia ter a intenção de provar a veracidade dos objetivos da sociedade e da atuação do grupo, “tapar a boca da maledicência ou fazer emudecer aos incrédulos”, frente à descrença em torno de tais instituições que estariam ligadas às desgraças dos “desfavorecidos da fortuna”, ocasionadas pelo “inocente exercício do mais importante dos seus direitos constitucionais, isto é, o de votar nas eleições primárias” (Correio da Tarde, 28 jan. 1860). O texto atrela os direitos dos cidadãos ao direito de votar nas eleições, aspecto destacado por Mattos quando discute que a Constituição de 1824, ao reconhecer os direitos civis dos cidadãos brasileiros, diferenciou-os em função de suas posses por meio do voto censitário em três gradações: “o cidadão passivo (sem renda suficiente para ter direito a voto), o cidadão ativo votante (com renda suficiente para escolher, através do voto, o colégio de eleitores), e o cidadão ativo eleitor e elegível” (2000, p. 20-21). A palavra “propagadora” trazida no nome da sociedade poderia sugerir a ideia de ajudar aos “cidadãos passivos” a se tornarem ativos por meio dos auxílios fornecidos pela instituição. As críticas dirigidas a esse tipo de associação poderia sugerir igualmente que tal auxílio seria movido por interesses eleitoreiros.