A urdidura do magistério primário na Corte Imperial: um professor na trama de relações e agências
Sobre a autora
Angélica Borges é professora adjunta da Faculdade de Educação
da Baixada Fluminense da UERJ (FEBF-UERJ) e do Programa de
Pós-graduação em Educação, Comunicação e Cultura em Periferias
Urbanas (PPGECC-UERJ) e atua na coordenação do grupo de
pesquisa Estudos de História da Educação Local (EHELO). Possui
graduação em Pedagogia pela UERJ, mestrado em Educação
(PROPEd– UERJ) e doutorado em Educação (FE-USP), com
período de estágio de doutorado-sanduíche na Université de Cergy-
Pontoise, na França, financiado pela CAPES. Tem experiência na
área de Educação, com ênfase em História da Educação, atuando
principalmente nos seguintes temas: profissão docente no século
XIX, instrução pública na Corte Imperial e na Província do Rio de
Janeiro, inspeção e trajetórias docentes no Oitocentos.
Notes
1. No original: “¿Dónde inicia y donde termina la escuela? ¿Cómo
permean el espacio escolar contenidos del entorno social y
cultural, y a la vez, cómo influye en esse entorno la experiência
escolar?”
↩
2. No original: “[…] comprender las redes que se formam para unir
de diversas maneras a estos actores, y las tramas complejas
que se tejen entre ellos, permite desenterrar nuevas historias”.
↩
3. Informação obtida por meio de um texto de Paulo José Pardal,
seu bisneto, na revista do IHGB (1990).
↩
4. Cf. “Arte popular à espera de um museu”, reportagem de O
Estado de São Paulo de 16 jun. 2009. Disponível em
http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,arte-popular-a-
espera-de-um-museu,387904. Acesso em 14/01/2012.
↩
5. Revista Ilustrada, 28/10/1876, p. 7.
↩
6. Agradeço a Elizabeth Monteiro da Silva, bibliotecária do Colégio
Pedro II, a gentileza de ter localizado e fotografado para mim a
documentação de Pardal nos arquivos do NUDOM na Unidade
Centro do Colégio.
↩
7. Extraído da transcrição feita pelo professor Alberto Cipiniuk, a
partir de um documento localizado no Arquivo Nacional do Rio
de Janeiro, Caixa 6283. Disponível em
http://www.dezenovevinte.net/documentos/estatutos_1820.htm.
Acesso em jul. 2014.
↩
8. Presente na grade curricular que se alterou diversas vezes ao
longo do Império, a cadeira de desenho foi assumida por Pardal
em 1839, inicialmente na condição de interino, conforme
registro do próprio colégio (Livro de Assentamentos), embora a
pesquisa de Andrade (1999) inclua a aula de desenho a partir
da reforma curricular de 1841. Nas várias reformas levantadas
por Andrade, ora a cadeira estava dentro da grade obrigatória,
ora como disciplina opcional – como, por exemplo, na reforma
de 1862 em que se tornou opcional, juntamente com música,
dança e ginástica. Em alguns anos, o tipo de ensino de
desenho foi especificado no Almanak Laemmert, como em
1844: “desenho caligráfico, linear e figurado”.
↩
9. Por um Aviso de 1844, a Câmara Municipal confiou a
fiscalização, igualmente sem sucesso, aos párocos e juízes de
paz, buscando “passar adiante” a função (Relatório do Ministro
do Império de 1850, p. 13).
↩
10. Correio Oficial, 25 ago. 1837, n. 46, Biblioteca Nacional. Este
recorte é formado de duas partes que foram unidas no processo
de edição da imagem, sendo a primeira frase da coluna direita
da folha e a segunda, sua continuação na coluna esquerda.
↩
11. Extraído da página da Câmara dos Deputados, disponível em
http://www2.camara.leg.br. Acesso em março de 2014.
↩
12. Reflexão sugerida por Anne-Marie Chartier em reunião de
pesquisa durante o doutorado-sanduíche.
↩
13. O Decreto n.º 1.681, de 28 de novembro de 1855, determinou a
presença de um adjunto para cada escola com frequência
“efetiva e real por mais de um ano” de mais de 50 alunos; dois
as que contarem mais de cem; três as que tiverem mais de 150;
“havendo mais três além dos que forem necessários nesta
proporção”.
↩
14. Documento “Decisões sobre assuntos relativos à Instrução”
anexo ao Relatório do Ministro do Império do ano de 1876.
↩
15. Gallego (2008) fez um aprofundado estudo sobre essa questão
no caso paulista, também no século XIX, e Faria Filho (2000)
sobre o caso mineiro.
↩
16. Fonte: A Escola-Revista… 1877. Cf. Borges, 2005.
↩
17. No original: “De Gabriel ha destacado, además, que non son
solo los ensenãntes, los pedagogos o los políticos quienes
construyen y dictan normas; tambiém la sociedade y las
famílias de los niños escolarizados crean pautas y métodos que
se transmiten en el interior de los colectivos de sociabilidade no
formal y en na misma escuela. Esta cultura formativa popular se
materializa en practicas que se socializan a través de la
comunicación de la tradición y que no se extinguén bajo la
presión de la cultura oficial o académica dominantes”.
↩
18. Pontos do programa das Conferências de 1873: 1) Qual a
melhor distribuição das matérias relativas à instrução moral e
religiosa, leitura e escrita, noções de gramática portuguesa,
princípios elementares de aritmética e sistema métrico decimal
segundo as necessidades atuais da escola, de modo que saiba
o professor pelo programa dessa distribuição qual a tarefa de
cada dia útil de antemão preparada?; 2) Em quantos anos
poderá o curso das ditas matérias ser percorrido, de maneira
que o aluno seja dado por pronto na forma do regimento das
escolas?; 3) Se convém ou não a instituição das escolas mistas
de instrução primaria?; 4) Qual o método mais racional, simples
e eficaz dentre os atualmente conhecidos, para o ensino das
primeiras letras e da caligrafia nas escolas primárias? Dado o
caso de haver efetivamente um que tenha alguma
superioridade sobre os outros, convirá que seja adotado
exclusivamente nas aulas públicas?; 5) Qual o meio mais
simples para fazer compreender aos meninos o mecanismo do
sistema métrico, sem recorrer aos cálculos aritméticos?
↩
19. O professor Cony em artigo do jornal A Instrução Pública, de 15
de abril 1873, questiona a validade do documento, alegando
que Frazão, ao elaborar o texto, teria colocado questões com
as quais alguns professores e professoras não concordariam se
o tivessem lido.
↩
Capítulo II – Vizinhança escolarizada:
a geografia das relações entre
professor, famílias, habitantes e a
cidade
1. Frege-moscas: Bras. Pop. Restaurante popular de má
qualidade, ger. sujo; frege; tasca. Disponível em
http://www.aulete.com.br/Frege-moscas. Acesso em 14 jan.
2020.
↩
2. A citação entre aspas feita por Monteiro foi extraída de Cox,
Tomas e Macro, Cox. Relação do Reino de Portugal, 1701
(coord. de Maria Leonor Machado de Sousa). Lisboa: Biblioteca
Nacional, 2007, p. 280.
↩
3. No original: “era que las elecciones podían ser eventos
populares donde los líderes locales reafirmaban su
preeminência ante uma amplia audiência”.
↩
4. No original: “miembros notables del pueblo, cada patrón local
demostraba su importancia induciendo a los votantes, sus
clientes, a participar en tumultuosas manifestaciones”.
↩
5. Site da Câmara dos Deputados, Presidentes da Câmara dos
Deputados, disponível em http://www2.camara.leg.br/a-
camara/conheca/historia/presidentes/braz_gama1.html. Acesso
em 14 fev. 2020.
↩
Capítulo III – A cidade como espaço
de intercâmbio cultural, social e
político e de protagonismo docente
1. No original: “La configuración societaria de la profesionalidad de
los docentes, un aspecto esencial para analizar el desarollo del
ofício de enseñar”.
↩
2. No original: “era una personalidad de carne y hueso cuyos
poderes estaban definidos en igual medida por las presiones
individuales y comunitarias que por los estatutos y decretos”.
↩
3. No original: “como era una figura tan básica y un producto de su
ambiente, describir al juez de paz imperial es, en gran parte,
describir la vida política y social de la comunidad parroquial
brasileña”.
↩
4. No original: “siendo éste virtualmente su único papel directo en
todo el procedimiento”.
↩
5. Cf. Mongeral Aegon. Disponível em:
https://www.mongeralaegon.com.br/mongeral-egon/sala-de-
imprensa/releases/detalhe-de-releases-20.htm. Acesso em
maio de 2014.
↩
Capítulo IV – Experiências
conectadas: relações e mediações
docentes entre sociedades
1. No original: “L’idée d’un échange de documents, de publications
administratives ou scientifiques; de livres rares, ou d’objets de
reproductions d’objets d’art, etc., entre les gouvernements, les
sociétés savantes, les bibliothèques des divers pays, est déjà
ancienne”.
↩
2. No original: “La France entretient aujourd’hui des relations
d’échanges avec la Belgique, la Suisse, l’Autriche-Hongrie, la
Russie, le Portugal, les États-Unis, l’Italie, la Chine, le Japon,
les Pays-Bas, le Brésil, etc. Le mouvement des volumes
échangés en 1879 entre la France et ses correspondants a été
de 40.000”.
↩
3. Resposta datada de 26 de dezembro de 1872. O documento
encontra-se anexado ao Relatório da IGIPSC de 1872.
↩
4. Extraído da lista de ministros da instrução organizada pelo
antigo INRP (Institut National de Recherche Pédagogique),
atualmente disponível em http://rhe.ish-lyon.cnrs.fr/?
q=ministres-list. Acesso em: 14 fev. 2020.
↩
5. No original: “Conçu spécialement en vue des écoles les plus
nombreuses, c’est-à-dire de celles qui sont dirigées par un
maître seul, sans le secours d’un adjoint”.
↩
6. No original: “Ceux qui pourraient douter encore de la possibilité
de mettre ce système en pratique peuvent s’en rapporter à
l’expérience des milliers de bons maîtres qui le suivent déjà
avec tant de succès”.
↩
7. No original: “Toutes les branches d’instruction primaire
comprises dans le programme actuel de l’enseignement
obligatoire sont divisées, comme il vient d’être dit, en trois
années auxquelles on donne le nom de cours”.
↩
8. No original: “Les parents, à leur tour, qui n’ont aucune idée de la
succession des leçons dans une école où l’enseignement doit
être donné à toute une division à la fois, et qui s’imaginent
souvent que ce que l’enfant n’a pas appris un jour, une
semaine, où un mois, il pourra l’apprendre le jour, la semaine, le
mois suivant, les parents, […], voient eux-mêmes que cela n’est
pas possible dans un enseignement méthodique, qui s’adresse
à tout un groupe d’élèves; leur éducation, sous ce rapport, se
fait en même temps que celle de leurs enfants”.
↩
9. No original: “Un plan d’études est un guide qui nous montre
chaque jour la route à suivre, et qui, en marcant le point où nous
sommes arrivés, nous rapelle sans cesse l’espace à parcourir.
C’est une espèce de mentor qui prévient les écarts et les pertes
de temps […]”.
↩
10. No original: “Aux difficultés inhérentes à l’éducation, et qui sont,
dans tout état de choses, la conséquence des défauts naturels
de l’enfance, s’ajoutent en effet toutes celles qui tiennent aux
circonstances particulières dans lesquelles se trouvent placés
les maîtres chargés de la direction des écoles. Défaut de
développement intellectuel de leurs élèves qui sont restés
presque sans culture jusqu’au moment où ils leur arrivent, parce
qu’ils ne trouvent pas de ressources dans la famille; irregularité
de la fréquentation, fin prématurée des études, et surtout
désertion de l’école pendant une partie de l’année, ce qui fait
perdre, en grande partie, le fruit des leçons précédents;
condition souvent déplorable des écoles, où l’on est privé de la
plupart des moyens nécessaires au succès de l’enseignement;
enfin position excessivement pénible du maître, lorqu’ils est seul
pour donner l’instruction aux élèves de toutes les divisions, et
pour suffire en même temps aux exigences multipliées de la
direction d’une école: voilà des difficultés sérieuse et dont la
valeur n’est pas toujours suffisamment comprise par les
personnes étrangères à l’instruction primaire”.
↩
11. No original: “Il faut en un mot avoir un plan d’études et un
programme detaillé d’enseignement”.
↩
12. No original: “L’enseignement secondaire date de plusiers
siècles, et il s’y est formé des tradictions qui n’existent pas dans
l’instruction primaire; familles, élèves, maîtres, tout le monde y
est accoutumé depuis longtemps”.
↩
13. No original: “Dans l’enseignement secondaire, en outre, il y a
une durée determinée des études, il n’y en a pas dans
l’enseignement primaire. Voulez-vous faire faire à votre fils des
études classiques: en le plaçant au collége, vous savez
combien il doit y rester et ce qu’il y apprendra. Mettez-vous au
contraire votre enfant dans une école: vous ne savez rien. Vous
pouvez vous dire que vous l’y laisserez tant d’années ou jusqu’à
tel âge; mais vous ne savez pas exactement ni ce qu’il y
apprendra, ni combien d’annés vous devrez l’y laisser pour qu’il
apprenne telle ou telle chose.”.
↩
14. No original: “On vous dira peut-être que cet élève est dans la
deuxième ou la troisième division, mais cela ne vous apprend
rien. Le nombre des divisions est loin d’être le même dans
toutes les écoles: la plupart, il est vrai, en ont trois, mais
beaucoup en ont quatre ou cinq; il y a même des écoles où l’on
compte six, sept, huit divisions, et même plus […]”.
↩
15. No original: “Jusqu’à ce jour, dans les écoles primaires, les
enfants entrent à toute époque de l’année, et par ces arrivées
successives ils désorganisent l’école; il faut créer pour eux des
divisions particulières, d’où résulte un trouble dan toutes les
leçons”.
↩
16. No original: “Dans la plupart de nos écoles, l’instituteur est seul
pour instruire des élèves de tout âge et à tout degré
d’instruction, depuis l’enfant qui ne sait rien, qui n’a jamais vu un
livre, qui ne connaît pas même une lettre, à qui il faut tout
enseigner, et quelquefois même apprendre à parler, jusqu’à
l’élève qui achève ses études et qui est sur le point d’embrasser
une carrière, jusqu’à l’adulte même qui a déjà un état, et qui
vient chercher auprès de lui les moyens de mieux réussir dans
sa profession. Et ce n’est point une seule chose, comme dans
les colléges, qu’ils doit enseigner à ces élèves d’âges si divers,
c’est dans toutes les branches de l’instruction primaire qu’il a
mission de les instruire. Il est seul pour tout leur enseigner, la
lecture et l’écriture, le catéchisme, l’histoire sainte, la grammaire
et l’arithmétique et l’histoire et la géographie, le dessin linéaire
et le chant, les sciences et l’agriculture. Comprend-on bien les
difficultés d’une pareille tâche?”
↩
17. No original: “[…] parce qu’elle n’a pas voulu soumettre les
instituteurs à une trop grande gêne, en leur imposant un plan
uniforme, qui ne correspondrait pas avec les aptitudes
différentes des uns ou des autres, chacun peut le faire dès
aujourd’hui pour soi-même.”
↩
18. No original: “Organiser un bon cours de l’enseignement
primaire, établir une classification judicieuse des élèves, répartir
tout l’enseignement entre les différents divisions, selon le temps
que les enfants passent en général dans l’école, et de manière
à les tenir tous e toujours utilement occupés […]”.
↩
19. No original: “Établir trois divisions dans sa classe est tout ce qui
est rigoureusement possible à un maître seul; pour bien faire,
on peut en établir ni plus ni moins.”
↩
20. Anne-Marie Chartier alerta que o curso poderia corresponder a
mais de um ano de estudo, mas que tal prática não era
explicitada oficialmente. Informação obtida em reunião de
pesquisa em 9 de dezembro de 2013.
↩
21. No original: “[…] n’est point un moniteur comme ceux auxquels
on donnait ce nom dans les écoles où l’enseignement mutuel
était en usage. Les anciens moniteurs des écoles mutuelles
n’étaient que de simples élèves choisis parmi les enfants eux-
mêmes, et ayant à peine un peu plus d’instruction que ceux
qu’ils devaient instruire. C’était sur eux que reposait le soin de
l’enseignement donné à toutes les divisions, le directeur de
l’école ne s’occupait lui-même de cet enseignement que pour
faire une leçon à ses moniteurs le matin ou le soir, avant ou
après la classe. On est revenu de l’erreur qui avait fait supposer
pendant un certain temp que les enfants pouvaient, autrement
que par exception, être capables d’instruire d’autres enfants du
même âge. […]”.
↩
22. No original: “[…] quelque chose enfin d’analogue aux apprentis-
maîtres (pupils-teachers) dont l’addoption a apporté une si
heureuse amélioration à l’enseignement dans les écoles de nos
voisins”.
↩
23. No original: “Pendant longtemps, on a cru que les enfants ne
pouvaient commencer à écrire que lorsqu’ils savaient lire: c’est
même, avons-nous dit, sur cette supposition qu’était fondé
l’ancien usage de faire payer un prix différent pour les élèves
qui lisent seulement et pour ceux qui commencent à écrire. Mais
cet usage a heureusement commencénè disparaître devant une
connaissance plus exacte des principes de l’enseignement.”
↩
24. No original: “[…] dans beaucoup d’écoles, lorsque l’instituteurs
est marié, ce qui est presque toujours le cas, sa femme remplit
auprès de lui les fonctions d’aide, au grand avantage de la
discipline et de l’enseignement. Cet usage, excellent sous tant
de rapport dans les écoles qui réunissent les deux sexes, peut
être très-utilement introduit dans celle où il n’y a que des
garçons. Les femmes ont, pour diriger les jeunes enfants, une
douceur et une patience qui les font souvent mieux réussir que
les hommes dans l’instruction de ces petits êtres si sensibles et
si impressionnables.”
↩
25. Cabe destacar o envolvimento da Fábrica de Ferro Ypanema
com a escolarização. Segundo Alcântara (2014), a Fábrica
passou a produzir carteiras escolares para fornecer às escolas
paulistas na década de 1870.
↩
26. Reflexões sugeridas em reunião de pesquisa pela professora
Anne-Marie Chartier em 9 de dezembro de 2013.
↩
27. Curso proferido no Collège de France entre outubro e dezembro
de 2013.
↩
28. Título registrado na BN: Correio Mercantil, Instrutivo, Político,
Universal
↩